sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

MELANCOLIA

MELANCOLIA

Pelo sim; pelo não, contemporizo
Quanto penso saber sobre esta vida.
Amar… Uma loucura desmedida!
Até que tudo acabe sem aviso.

Esqueci n’algum canto o meu sorriso
Como levasse ainda, mal contida,
A vã desilusão da despedida
A todos os lugares onde piso.

Têm sido dias muito escuros estes,
Ao longo da alameda de ciprestes,
Que conduz à mansão do esquecimento.

Sem embargo, convém seguir em frente,
N’uma vigília longa e persistente,
Malgrado caminhasse contra o vento.

Moeda - 04 10 2025



terça-feira, 6 de janeiro de 2026

LUMINOSA

LUMINOSA


Quando por lá passares, não te apresses.

Contempla, como um quadro em movimento,

A imensidão aberta ao firmamento, 

Que se ilumina enfim às tuas preces.


No pó, deixa os cuidados e os estresses,

Enquanto mira os longes contra o vento.

E encontra, para além do entendimento,

Este momento livre de interesses.


Deixa que a caminhada t'esvazie

E o sol, amanhecendo, principie

A pôr cores por toda a redondeza.


Mas, ao te despedires, não lamentes.

Antes leva contigo aos teus, ausentes,

Uma terna experiência da beleza


Campos do Jordão - 02 09 2025


sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

MORDAÇA

MORDAÇA


A medo d'eu falar, têm me calado

Aqueles que desgostam do que penso:

Logo vêm me acusar de contrassenso,

Para no fim passar por transtornado…


Acostumei-me a estar do lado errado,

E agora vivo dias em suspenso.

Mordaça que, afinal, me pesa imenso,

Visto que em tudo sou invalidado.


Querem, a todo custo, que me cale

Ou que já não s’escute quanto eu fale,

Vencendo-me por força, não razão.


Debalde… Não se cala uma verdade!

Mesmo eu silenciado, a realidade

Irá sempre se impor, queiram ou não.


Betim - 24 10 2025

terça-feira, 2 de dezembro de 2025

ARAUTO

 ARAUTO


Nunca faltar com a franqueza,

Eis do desditoso a desdita…

Quem traz verdades, traz tristeza

E sempre mais só se acredita.


Quem traz verdades se aflita...

No fim, toda a gente o despreza.

Eis do desditoso a desdita:

Nunca faltar com a franqueza!


Quem traz verdades se aveza

A manter uma aura maldita

Em face d’alheia tibieza…

Eis do desditoso a desdita:

Nunca faltar com a franqueza!


Betim - 24 11 2025

quinta-feira, 27 de novembro de 2025

TERCEIRA PONTE

TERCEIRA PONTE

Era uma cidade que tinha mar.
Era uma saudade que tinha amor.
Era liberdade; era caminhar.
Era soledade: Um sol a se pôr.

Era somente ir para não chegar.
Era sozinho ir para onde mais for…
Era pôr fim para recomeçar:
Era secar as lágrimas... E o suor!

Era atravessar e s'enternecer.
Era o mais passado e era o porvir.
Era a própria vida no entardecer.

Era anonimamente inexistir...
Era se lembrar para s'esquecer
Era, por fim e apenas, ir e vir.

Vila Velha - 05 11 2009

sexta-feira, 7 de novembro de 2025

A CASA DO MEU AMOR

A CASA DO MEU AMOR


Bananeiras no quintal,

Jabuticabeira em flor…

No jardim, um roseiral:

A casa do meu amor.


Uma porta e uma janela

Sempre abertas, sem pudor.

Ecoa ais de minha bela

A casa de meu amor.


Duas águas e varanda,

D'onde mira o sol se pôr.

N'alta serra, feliz se anda

À casa do meu amor.


Uma vida retirada

Onde a tarde tem sabor

De quitandas com coalhada!…

Em casa do meu amor.


Na cozinha, seu café

Fumegante de vapor…

Se tudo ali mais doce é,

Na casa do meu amor.


Sua alcova, por dossel,

Cortinado furta-cor…

Uma estrada para o céu

A casa do meu amor.


A sonhar entre lençóis,

Se lembre do meu calor:

Um sorriso de mil sóis

Na casa do meu amor!


Passo em frente, para vê-la,

– Tantas vezes? Quantas for! –

Namoradeira… À janela

Da casa do meu amor.


Lá, não se nota estranheza...

Não se rima amor com dor.

Não se fala de tristeza,

Na casa do meu amor.


Mas, se eu lhe faltar em vir,

Venham a ela em meu favor

Tais versos, por lhe sorrir,

À casa do meu amor.


Betim - 20 10 2010


segunda-feira, 27 de outubro de 2025

CAIXA DE FÓSFOROS

CAIXA DE FÓSFOROS


Não raro, escrever poesia 

é como tentar manter acesso um fósforo 

na escuridão.


Betim - 27 10 2025