segunda-feira, 29 de maio de 2023

ESPELHO D'ÁGUA

ESPELHO D'ÁGUA


“É belo!...” — Penso ao ver como s’espelha

O narciso que n’água se debruça

Ao vento, em divertida escaramuça,

Qual figurasse alguma lenda velha.


Alvo leque à corola bem vermelha,

Cujo contraste forte mais aguça

O olhar contemplativo que esmiúça

Tanto o reflexo à flor se lhe assemelha.


Indiferente a quanto não possuo,

Percebo-me riquíssimo, pois vejo

A imagem da beleza e do desejo.


Seja a revelação de que usufruo 

Por um momento tudo o que preciso,

No garrido admirar-se do narciso...


Betim - 19 02 2015


sexta-feira, 26 de maio de 2023

QUAL É?!

 QUAL É?!


A gente se fala amanhã…

A gente se vê qualquer hora…

Digo e nem escuto — que afã! —

Falo da boca para fora!...


Digo e nem escuto se agora 

Te parece soar coisa sã

A gente se vê a qualquer hora…

A gente se fala amanhã.


Digo e nem escuto — quão vã... —

E a conversa mais se demora

Ao longo de toda a manhã.

A gente se vê a qualquer hora…

A gente se fala amanhã…


Belo Horizonte - 25 05 2023


MEXERICAL

MEXERICAL


Paraopeba acima, diz que tem

Um lugar onde colhem mexericas.

Extensas plantações por terras ricas

Com galhas carregadas a quem vem.


É tanta fruta boa que ninguém

Se importa das rapinas impudicas,

Que os raros visitantes d’estas bicas

Em face do pomar mal se contêm!


Por estradas de chão empoeiradas,

Atravessam, afoitos, mil jornadas

Na fé de que os espera tal fartura.


Chegando lá, o esforço faz mais lindo

O pomar ao viajante ao ver, bem-vindo,

Prêmio quase tão bom quanto a aventura.


Brumadinho - 22 04 2023


segunda-feira, 22 de maio de 2023

POEIRA CÓSMICA

 POEIRA CÓSMICA


Após voltar ao pó, volta p'ro mundo

Todo aquele que um dia n'ele andou.

Volta para tornar-se algo fecundo 

Ao longo do caminho em que passou.


As cinzas espalhadas n'um segundo

Contavam d'outra história que acabou,

Mas os mortos se calam do profundo

Desidério que Deus lhes segredou.


O vento que levanta longe o pó

Silva a sua monótona elegia

E deixa a solidão 'inda mais só…


Existência que no ar se dissolvia 

Onde a luz zodiacal mostra tão-só

Uma nuvem de poeira ao fim do dia.


Belo Horizonte - 19 05 2023


sexta-feira, 12 de maio de 2023

FLEUGMA

FLEUGMA


Em resposta aos reveses d’estes dias,

Reservo-me um silêncio indevassável.

Se passo por fleugmático ou notável,

São antes distrações que fidalguias.


Mesmo poetas têm lá suas manias…

Não me afecto, a pretexto de sociável,

Tampouco ouço algo além do tolerável

Sem revirar nos olhos arrelias.


Nada obstante, mantenho quase alheia

A face ao vai-e-vem das emoções;

Todo um desdém vazio de expressões:


É que agora no olhar se me clareia,

Senão alguma argúcia edificante,

O verso que me absorve n’este instante.


Betim - 10 05 2023


terça-feira, 9 de maio de 2023

COM ÍMPETO

COM ÍMPETO 


Haverá a hora em qu’eu não haverei.

Até lá, sigo entregue a estas paixões

Que, escritas, pretendem-se ficções 

Vividas do que sou e do que sei.


Revejo toda a estrada onde passei,

Ao longo de alterosas vastidões,

Pois me busco ao galgar as solidões,

Todo em cada pegada que deixei.


Ainda me murmura o vento frio

Uma ária de aventura e desafio,

Enquanto m’equilibro junto ao espaço:


— "O horizonte é o prêmio do esforçado".

De vera, o mais bonito é conquistado

Às custas de suor e de cansaço!


Brumadinho - 22 04 2023


terça-feira, 2 de maio de 2023

ENTRE ASPAS

ENTRE ASPAS


Por ironia, falo o que não disse;

Ou melhor, do que não ouso dizer…

Como com subterfúgios pretender

Sugerir algo mais pela espertice.


Tanto o que disse quanto o que desdisse

Se completam n’aquilo que eu quiser.

E quem me ler, entenda o que puder

Ou esqueça como alguma esquisitice.


Metaforicamente ou algo assim

Faço parecer bom o que era ruim

E o que já era ruim parecer pior.


Mas tudo faz sentido no final.

Acrescento à palavra esse sinal

E ela haverá-de ser tudo o que for.


Betim - 02 05 2023


segunda-feira, 1 de maio de 2023

ESTE AMOR

ESTE AMOR


Penso que te amo como não amasse

Ou como não sentisse isto que sinto.

E finjo não amar, ou melhor, minto

No engano de que tudo logo passe.


Mas mesmo que no peito m'o calasse,

Ver-se-ia por meus olhos, indistinto!

Ao invés d'isto, vagueio em labirinto,

Topando a todo instante novo impasse.


Porque te amo a despeito de que me ames…

E ignorando dos sábios os ditames,

Eu em lamentações tenho vivido.


Contudo, eu amo. Eu te amo sem razão,

Sem esperança e até sem ilusão

De que um dia este amor faça sentido.


Betim - 24 03 2015