quarta-feira, 27 de março de 2024

MACHO, ADULTO, BRANCO

MACHO, ADULTO, BRANCO


Era, como se diz, homenzarrão.

Andava por vastíssimas planícies,

Deixando após si suas imundícies,

N’uma ávida e intrincada exploração.


Ainda a majorar a destruição,

Pela antropização das superfícies,

Espalha toda a espécie de pernícies,

Até a terra nua em exaustão.


De facto, uma pegada gigantesca

Impõe sobre a paisagem, irrefreável,

Por resultado mácula grotesca.


Era, como se diz, insaciável.

Ao crer-se mais e maior não se completa:

Tão grande que não cabe no Planeta...


Betim - 26 03 2024


sexta-feira, 22 de março de 2024

UM POBRE MAIS POBRE QUE EU

UM POBRE MAIS POBRE QUE EU


Andava tão perdido em pensamentos,

A recolher-me os cacos pelo chão,

Que de minha miséria ostentação 

Eu fiz sem me poupar padecimentos.


Foi quando me surgiu nos desalentos

Topar d’entre os paupérrimos um grão:

Era um senhor de imensa solidão,

Diletante dos seus próprios lamentos.


Vinha d'olhar perdido e ensimesmado

De modo que ao passar bem ao meu lado

M’esbarrou sem pedir sequer licença. 


Seguiu pelo caminho indiferente,

Deixando o seu vazio de presente,

A ponto de negar minha presença. 


Belo Horizonte - 20 03 2024

quinta-feira, 21 de março de 2024

ANTE VÓS, SERVO REVOSSO

ANTE VÓS, SERVO REVOSSO


Ante vós, servo revosso,

Eu vos presto juramento 

De vassalagem no intento

De obrigar-me quanto posso

Em vosso contentamento.


Não há-de haver um momento

Que não deseje o olhar vosso.

Doando-me, vosso e revosso,

Ao amoroso sentimento

Por um bem que seja nosso.


Todo o querer vos endosso

Sempre aos prazeres atento.

Tamanho o estremecimento,

Tão-logo a pele vos roço,

De vossos beijos sedento.


Inobstante o encantamento,

Eu se vos pareço insosso

De desalentos me aposso:

Com o meu pranto e lamento

O rio do amor engrosso.


Ante vós, servo revosso,

Eu vos presto juramento 

De vassalagem no intento

De obrigar-me quanto posso

Em vosso contentamento.


Betim - 02 02 2024


terça-feira, 19 de março de 2024

UM DESSERVIÇO

UM DESSERVIÇO 


Será desfeito quanto tenho feito…

Se muito ajuda quem não atrapalha,

Que dizer quando a nada se trabalha

E anseios já não têm qualquer efeito?


Tudo aquilo por fim era imperfeito

E, inútil, resta a um canto feito tralha.

Alguém há-de pagar por minha falha

E após me olhar com ódio, contrafeito!


Fracasso… Quanto tempo foi perdido?!

Há anos que mais nada faz sentido,

Embora eu tenha dado o meu melhor.


Não importa: Interessa o resultado.

Deixo meu infortúnio no passado

E aceito que o que fiz não tem valor.


Betim - 19 03 2024


ANOITECER

ANOITECER


Surgia a estrela d'alva sobre os cerros…

E a lua, um alfange forjado em prata,

Mais urgia violões em serenata

À noite se achegando dos desterros.


Cá, no peito do poeta, posto a ferros,

Amor logo se agita e se desata:

Irrompe outra cantiga à sua ingrata,

Mas não por seus acertos, sim seus erros!


Também a sapaiada nos baixios,

Em melopeia de coaxos arredios,

Traz mais melancolia àqueles breus.


Restava ao bardo apenas soltar versos,

Que para a amada soam ais dispersos

Ao ver em lua e estrela os olhos seus…


Betim - 15 03 2024


sexta-feira, 8 de março de 2024

PERLINCAFUZES

PERLINCAFUZES


Falava arrevezado uns disparates,

Que tinha em alta conta de sapiência…

Grave, como se fosse uma excelência,

Sentencia as verdades dos orates!


Crê intelectualíssimos debates

Seus obtusos discursos sem audiência

E ignora que lhe ignorem a consciência,

Quando brilhante exibe os seus quilates.


Mas devo confessar mal compreender

Seu pretenso e enigmático dizer

Se se digna a alumiar as minhas trevas.


Eu o deixo a falar tão-só consigo

Incapaz que lhe sou como inimigo

De altercar mais falas vãs em levas!...


Betim - 01 02 2024


CASARIO

CASARIO


Mais que uma cidade, uma paisagem 

Ao míope mosaico de telhados,

Torres, adros, janelas, porticados,

Sacadas, chafarizes, céu, ramagem…


As retinas capturam sua imagem

E gravam na memória seus traçados.

Longe, lhe descortino os amplos prados

Que ao alto Itacolomy dão vassalagem.


Miro e remiro a terra ouropretana

A contemplar-lhe os séculos e as luzes;

Seu amplo panorama de obra humana:


Ao redor das igrejas e das cruzes,

O ajuntamento… A vida quotidiana

E as águas a descer nos alcatruzes…


Ouro Preto - 25 02 2024


MOTU PROPRIO

MOTU PROPRIO


Em sendo a vida toda uma ilusão,

Na qual o coração se nos engana,

De cada escolha feita ainda emana

A dúvida em seguir em frente ou não.


Andamos sem saber qual direcção

Em meio à multidão e à luz mundana,

A atravessar a faina quotidiana,

Na esperança do próximo verão…!


A ver… Ano após ano, a felicidade

Revela-se uma impossibilidade

A todo mundo pelo mundo todo.


De sorte que escolher é tão-somente

A arte de contentar-se co’o presente

E ser infeliz a seu próprio modo.


Betim - 08 03 2024


quinta-feira, 7 de março de 2024

FABULOSO

 FABULOSO 


Coisas há que nem imaginadas

Se veria sequer por sonhadores

Ou mesmo mentirosos escritores

Às voltas com histórias inventadas.


Acontecem encontros nas estradas,

Que fazem memoráveis os alvores.

Se, à luz de tais lugares, mais amores

Reviravoltam mentes fascinadas.


Outro olhar, rebrilhando, testemunha

A beleza e o prazer da descoberta,

Onde algo fabuloso enfim se impunha.


E, para muito além da vida incerta,

Restará a experiência do sublime,

Que de todos os erros me redime.


Belo Horizonte - 06 03 2024