terça-feira, 22 de agosto de 2023

HORAS MORTAS

HORAS MORTAS


Horas há em que até a angústia passa.

Horas que ando pensando no passado...

Atravessava a noite n'este estado,

Olhando a escuridão pela vidraça.


A noite morre sem que o dia nasça,

Dentro d'um coração espedaçado...

Sem que dormisse tenho madrugado,

Enquanto o ser de tudo o mais s'espaça.


Há horas, uma absoluta nulidade...

Em meio a reflexões amarguradas,

O passado não passa... A mente evade.


Ruas vazias; luzes apagadas...

Outra noite d'extrema soledade

No rastro de ilusões cheias de nadas.


Sapucaia do Norte - 28 02 1993

sábado, 5 de agosto de 2023

ISTO É HISTÓRIA MAL CONTADA

ISTO É HISTÓRIA MAL CONTADA


Escrever, literariamente, é inventar. Sobretudo em poesia, onde a musicalidade do verso contrasta com a coloquialidade da fala e com a objetividade da prosa. Dentre os tipos de textos, as narrativas se impõem como os de maior interesse, haja vista que entretêm e informam ao mesmo tempo. Sem embargo, é no lirismo poético que o esforço de interpretação é levado ao limite, para além da hermenêutica jurídica e mesmo da teológica. Ler poesia, com sensibilidade e atenção, é sempre se surpreender com a capacidade de transmitir mensagens que o texto poético apresenta. Não raro, devo confessar, certos textos só adquiriram profundidade aos meus olhos depois de muitos anos de escritos. Acredito, de certo modo, que o poeta seja um achador de palavras cujo significado é elaborado — mais do que por suas próprias intenções de sentido — pelas extrapolações e projeções dos seus leitores. Com efeito, lemos hoje em Pessoa ou Drummond coisas que eles sequer cogitaram expressar exactamente porque nossa leitura, carregada de valores que lhes seriam estranhos, lança sobre suas letras nossas visões. Estamos fadados a ler mais no presente do que pretendera o passado. Voltando à tese d'este texto — a saber, de que haja uma história mal contada em toda poesia, mesmo quando esta não pareça tentar contar nenhuma história — entendo que o sucesso comercial dos romances e coletâneas de contos em contraste com a irrelevância do lançamento de publicações poéticas na indústria editorial se deve sobretudo ao facto de que a leitura de poemas jamais será conclusiva ou inconteste quanto a de boas narrativas em prosa. Entendo que seja frustrante para o leitor contemporâneo que, por não poder taxar os poetas e seus poemas de ininteligíveis, acabou por taxar assim toda a poesia. Quase ninguém nos dias que correm se dá ao trabalho de ler poesia e muito menos de pagar para lê-la. Logo, n'uma sociedade de consumo como a nossa, é como se a poesia não existisse enquanto produto da indústria cultural. As narrativas, por outro lado, vendem e são comentadas pela mídia de massa… Histórias extravagantes são adaptadas para o audiovisual em ritmo célere para o entretenimento ávido de maratonistas de filmes e séries… Roteiros e mais roteiros sendo produzidos para toda sorte de universo utópico ou distópico nos quais a imaginação dos autores é sempre desafiada a proporcionar efeitos quase de dependência química ou de manipulação neurológica entre seu público. De facto, diante das imagens espetaculares produzidas a partir das narrativas de mais sucesso do mercado editorial, por que alguém ainda se debruça sobre versos que n'uma primeira leitura soam antes como um enigma do que qualquer outra coisa? Estará a produção de poemas fadada a desaparecer, dada a dificuldade do público em ler quando pode simplesmente ver? Oras, a recente crise da indústria musical, incapaz de impedir que as pessoas tivessem acesso gratuitamente às produções dos artistas pop, talvez seja um indicativo de que mesmo os gigantes do capitalismo têm pés de barro. Depois do choro e ranger de dentes inicial, muito do que é produzido hoje em dia passou a transitar entre as redes sociais sem que o público pagasse uma fração do que pagava há dez ou vinte anos atrás por um produto fonográfico. Talvez a produção editorial, assim como a musical de massa, esteja em transformação, desenvolvendo formatos praticamente sem custo para o público, mas, mesmo assim, reconhecidamente importantes para o desenvolvimento da intelectualidade e da sensibilidade. Embora possa parecer uma história mal contada, a poesia ainda pode contribuir com nossa época com seu jogo raro de achar palavras capazes de dizer coisas sem se preocupar em facilitar a vida do leitor e muito menos ansiando um contrato milionário de uso de direitos autorais para adaptação da obra. Poesia é barata de produzir e difícil de entender, n'isso está sua resposta para a crise artística do nosso tempo. 


Belo Horizonte - 05 08 2023


AMAR ODIAR

 AMAR ODIAR (fado)


Muito mais que querer bem,

Há quem ame odiar:

Dos prós e contras d’alguém

Ou d’algum lugar

Não faz nunca nada além

De menosprezar.


Se desconfiar é seu mote

Ser só, sua sina…

Quem sempre à espera do bote,

Ardis imagina.

Em tudo espera o chicote

Da língua ferina.


Parece-lhe bom ser mau;

Cínico, talvez.

Vendo pior o mundo real

Por estupidez

E o amor etcetera e tal…

Como outro revés.


Diz-se, porém, precavido

D'alheios deslizes,

Pois tem o peito ferido

De más cicatrizes.

Mas só faz ecoar gemido

Dos mais infelizes…


Muito mais que querer bem,

Há quem ame odiar!...

Dos prós e contras d’alguém

Ou d’algum lugar

Não faz nunca nada além

De menosprezar.


Betim - 20 07 2023


terça-feira, 1 de agosto de 2023

ESPECIARIAS

ESPECIARIAS


Andaram meio mundo por pimenta,

Pondo cruzes de pedra no caminho.

Nem Neptuno e seu vórtice marinho

Lhe impediram a rota longa e lenta.


E logo qualquer erva fedorenta

Que deixasse nas carnes um gostinho

Valia mais do que o ouro do vizinho,

Com barcas e mais barcas na tormenta.


Noz-moscada, açafrão, cravo, canela…

Tanto sabor na língua se revela,

Que apenas degustar dava prazer.


De facto, melhorando quase tudo

Um tempero vai bem e, sobretudo,

Junta à fome a vontade de comer.


Belo Horizonte - 31 07 2023


AO CAIR DA NOITE

AO CAIR DA NOITE


Sobre as águas do rio, os ingazeiros

Avançam suas copas entre as margens 

No afã de espalharem n'outras vargens

Sombrias os seus galhos sobranceiros.


Nada obstante, os lumes derradeiros

Vão apagando o verde das almargens

Ao obscurecer na noite as contramargens,

Que então se ocultam d'olhos passageiros.


Húmida, a mata à borda do caminho

Bafeja o seu frescor bem de mansinho

Em minhas faces tépidas e exaustas.


Paro e reparo o dia indo-se embora,

Ao pé da serra imensa que descora,

A ouvir dos juritis canções infaustas.


Juatuba - 13 06 2023