sexta-feira, 22 de junho de 2018

O ESQUELETO DE PINGUIM - O Homem do Saco e Outros Contos

O ESQUELETO DE PINGUIM

-- "Hoje eu vi um esqueleto de pinguim." -- disse-lhe a menina, do nada. Ele coçou a cabeça e olhou para a distância como se tentasse visualizar a incomum imagem do pássaro que não voa sem a roupagem negra que o caracteriza. Não conseguiu. Sem saber bem o que dizer, saiu-se com um vago: -- "Que bom, filhinha." -- e escondeu a total ignorância sobre pinguins esqueléticos no jornal que lia. A menina, frustrada, com a reacção do pai, voltou para o parquinho e foi brincar no escorrega.
Ele, contudo, não conseguia mais fixar na leitura das notícias. A ideia do esqueleto de pinguim lhe parecia quase surreal. Não que imaginasse tais aves fossem invertebradas ou que dissolvessem nas nevascas após a morte, mas era incapaz de dar imagem àquele pensamento. Isso o frustrava profundamente enquanto olhava para sua filha brincando, já esquecido de todo do jornal. Sim, n'aquela tarde tranquila, enquanto a filha brincava, quedou enfeitiçado pelo demônio da monomania...
Nada a fazer, nada fez. Não havia ali livros para consultar. O telefone móvel, inútil, estava sem bateria. Ele era, aliás, um d'aqueles raros seres do milênio passado que odiava atender ligações na rua e que frequentemente se esquecia de pôr para carregar o celular antes de sair. Considerava uma impertinência sem tamanho as pessoas pensarem que todos estão o tempo todo disponíveis para todos. Ele, não! Ele queria estar ali, agora, relacionando-se com o presente imediato ao invés de se perder em nuvens de informações com fotos ruins ou vídeos ainda piores. Saíra de casa para levar a filha ao parquinho e levara o jornal mais para se proteger do sol do que para se informar. E eis que, provocado pela imagem absurda, deseja subitamente ter um celular à mão para fazer uma busca. Tateou os bolsos, mas, como de hábito, o aparelho estava apagado... Maldisse, como tantas vezes já o fizera, àquela mania de se sabotar deixando o telefones sem carga. Olhou para os lados e viu alguns pais e mães que, como ele, estavam esperando a brincadeira dos filhos terminar para irem para outro lugar. Como se tornou comum hoje em dia, quase todos estavam olhando para as telas azuis dos seus aparelhos, totalmente desligados do que faziam os filhos no parquinho. Pensou em pedir um celular emprestado, mas repeliu quase de imediato a ideia. Afinal, que haveria-de dizer: -- "Por favor, empreste-me o celular para saber como é um esqueleto de pinguim..."! -- Não, não... Nada a ver!... Poderia mentir, dizendo estar n'uma emergência, mas aquilo lhe pareceu ainda pior: Era péssimo mentiroso! Quando ousava soltar uma mentirinha, por mais inofensiva que fosse, seu corpo parecia se pôr em revolta contra sua mente e a denunciava por todos os meios possíveis: Gaguejava, furtava-se a olhar o outro nos olhos, corava sem mais nem quê e ria sem que houvesse do que rir.... Era um embusteiro patético que não enganava nem uma criança de colo. Tinha de haver outra solução!
Não, aquilo era absurdo! Não tinha-de saber como era o esqueleto d'um pinguim! Valha-me Deus! Por que a menina teve-de lhe falar d'aquilo? Mas era horrível a sensação de não saber... Por mais que se esforçasse, a ideia do pinguim sem carne não correspondia a qualquer imagem possível em sua mente. E a angústia o tomava d'uma maneira absurda de modo que repetidas vezes se imaginou abordando um dos presentes para pedir o celular e sanar sua curiosidade. Não o fez, contudo, contendo-se heroicamente do ridículo de ser denunciado em sua curiosidade mal-sã tão logo devolvesse o aparelho e o outro lhe visse a busca absurda no histórico. Não. Absolutamente, não! Não se exporia a um vexame d'esses com desconhecidos.
Tinha-de haver outra forma... Ir para casa, então! Mas havia prometido aquele passeio à menina durante a semana toda!... Não podia simplesmente arrancá-la d'ali e ir para casa: Ela não entenderia. E com razão! Foi com muita insistência que a menina o fizera vir ao parquinho. Semanas de insistência! Pensou n'algum artifício, mas nada lhe vinha além das mentiras mais toscas e das desculpas mais vazias. Não havia meio: Tinha-de esperar a filha querer ir para casa. Ela era demasiado esperta para cair n'uma esparrela qualquer. Ademais, haviam acabado de chegar.
Ele se sentou no banco do parquinho e pôs o jornal de lado. Por mais que se esforçasse, via apenas o pinguim, negro e simpático, bem encarnado e penado. Confundia-se: Pinguim tem bico ou não? Dá para ver seus olhos? Evocando lembranças de documentários assistidos em tardes de tédio mal conseguia fixar alguma imagem para além dos desenho caricatos que as animações consagraram. Os pinguins em sua mente não se pareciam sequer com a ideia de pinguim que guardava... Vivendo nos trópicos e longe dos grandes centros, obviamente jamais vira um pinguim de perto. Não sabia quase nada sobre o bicho e admiti-lo era doloroso n'aquele momento. Como podia ser? Como o esqueleto de pinguim?!
Exausto após quase uma hora de devaneio, chamou a filha e lhe perguntou: -- "Querida, onde mesmo viste o tal esqueleto de pinguim? Foi no caminho para cá? Vamos voltar lá para o papai ver também! Exclamou vitorioso com a solução enfim encontrada.
-- "Que pinguim? Não, não era um pinguim... -- respondeu ela sem entender -- Era uma avestruz!" -- e, de novo, ele olhou para o vazio, preso àquel'outra imagem ainda mais inimaginável...

Betim - 22 06 2018

À LUZ DE LAMPIÕES (rondó)

À LUZ DE LAMPIÕES (rondó)

E se, por uma rua escura,
Luzindo em minha desventura,
Os lampiões junto ao sobrado.
Talvez ali, iluminado,
Eu m'embriagasse de ternura...

Se nem a lua àquela altura
Me iluminava a conjectura
Por onde havia madrugado...
-- E se, por uma rua escura...

Se nem a lua mais figura
Na ouropretana arquitetura,
Talvez lampiões do passado
Em meio ao largo serenado,
Trouxessem enfim calentura!...
-- E se, por uma rua escura...

Ouro Preto - 10 02 2012

quarta-feira, 20 de junho de 2018

CICATRIZES

CICATRIZES

Não se vive essa vida impunemente...
Todo mundo, mais dia menos dia,
Faz o que não queria ou não devia
Face à necessidade mais urgente.

No fim ninguém -- nem um! -- é inocente.
Viver é ver perdida uma utopia,
Até se perceber sem fantasia
A éticas e morais indiferente.

À medida que vão passando os anos,
Ver-se às voltas com mais e mais enganos...
Tantas vezes partido o coração!

De resto, dos momentos infelizes,
Na pele contemplar as cicatrizes
Que n'alma são tão-só desilusão.

Betim - 20 06 2018

terça-feira, 19 de junho de 2018

ETERNAL (rondó)

ETERNAL (rondó)

Não o poeta, sim a poesia
Em cada verso haveria-
De permanecer por inteiro.
E, tal como era de primeiro,
Ser alimento à fantasia!

E, sem saber porque escrevia,
Fazer caber tudo o que havia
Dentro do metro mais certeiro
-- Não o poeta, sim a poesia.

E, sem saber o que queria,
Buscar-se mais, dia após dia,
Não por fama ou por dinheiro
Até o instante derradeiro...
No afã de que eternal fazia
-- Não o poeta, sim a poesia.

Betim - 18 06 2018

segunda-feira, 18 de junho de 2018

ROSICLER

ROSICLER

Da rosa cor de rosa e de açucena,
O rosa d'açucena cor de rosa.
É cor da flor de cor impetuosa,
É flor da cor da flor rosa e serena.

Se n'açucena cor a flor acena,
Também na rosa flor a cor formosa:
Rosa açucena, não açucena rosa!...
A flor na qual a cor se faz mais plena.

Mas entre uma e outra flor, uma só cor:
Da açucena e da rosa, o rosicler;
Ao que adornasse a face da mulher.

Como se indistintas cor e flor,
Tanto rosa e açucena têm por tino
Em rosicler um tom mais feminino.

Betim - 15 06 2018

quarta-feira, 13 de junho de 2018

CORDEL DA LUA DE SANGUE E DO SOL ENCARNADO

CORDEL DA LUA DE SANGUE E DO SOL ENCARNADO

Primeira Parte:
AO POENTE 

Desde o tempo dos antigos
Estes dois arqui-inimigos
Veem-se às vezes face a face.
Tinham os olhos sangrando
Ao longo de longo impasse,
Soltando, sem que findasse,
Faíscas de quando em quando...

Era o sol em agonia.
Era a lua em pleno dia.
Era ele o sol encarnado.
Era ela a lua de sangue!...
Eram os dois lado a lado:
Ele, rubro e envergonhado;
Ela, 'inda pálida e exangue.

O sol, ferido ao declínio,
Um firmamento sanguíneo
Deixa após si n'Ocidente.
Já a lua, vespertina,
Surgia em quarto crescente,
A luzir quase ao poente
Face ao sol e sua sina.

Como acontece há milênios
Pelos celestes proscênios,
Sucedia a lua ao sol.
D'esta feita, todavia,
Depois do rubro arrebol
Passando à cheia (um farol!)
Diversa se prometia...

Segundo efemeridades,
Estas astrais potestades
Transitam bem regulares
Quando vistas cá da Terra:
Têm das luzes estelares
Certas datas e lugares,
Que de cada eclipse encerra.

N'aquela noite, portanto,
Para universal espanto
Mais um eclipse lunar
Estava escrito no quadro:
Havia-de se ocultar
A lua, até s'escutar
Mais alto de cães o ladro.

Com efeito, a lua cheia
Às imensidões clareia
Enluarando a cordilheira!
Pois, finda a fase crescente,
A lua se mostra inteira
E domina, companheira,
A noite resplandecente.

Pouco a pouco, todavia,
A sombra da Terra havia-
De lhe ocultar toda a face.
E o luar obscurecido
Avermelha-se fugace,
Tornando-se ao desenlace
Rubra qual sangue vertido!...

        *    *    *
Segunda Parte:
PROSÉLITOS

Contudo, por toda parte
E com toda a espécie d'arte
S'elevaram muitas vozes
De líderes religiosos,
Que com libelos ferozes
Arvoraram-se os algozes
Dos erros pecaminosos.

Como se o braço de Deus,
Espevitavam os seus
Com ardor contra os demais,
Porquanto o mal manifesto...
Corrompida a Humanidade,
Eram eles, na verdade,
Dos homens santos um resto.

Arrastavam multidões
Com extensas pregações
A relembrar profecias
D'esses eventos finais.
Afirmando em bizarrias
Ser aquele o fim dos dias
Face aos bíblicos sinais.

Havia, de facto, a imagem
— Livro de Joel, passagem
Dos oráculos do Senhor —
Contando antiga visão:
— “Eis que um sol já sem ardor
Cede no céu seu fulgor
À mais plena escuridão

No lugar, tão-só a lua
Sem estrelas continua
Reluziria, contudo,
Plena e sanguínea no céu.
Indicando o fim de tudo,
Onde crentes sobretudo
Veem a desdita do infiel!...”

Creem que Joel descreveu,
Que a lua em seu apogeu
Será sanguínea também
E aos céus não mais deixaria!
Somente um resto, porém,
Reunido em Jerusalém
Com fé sobreviveria.

Os mais, perdidos nas trevas,
Co'as suas paixões malevas
Vendo os crentes verdadeiros
Livres de tão triste sorte.
Onde desastres inteiros
E, ao fim, quatro cavaleiros:
Peste, guerra, fome e morte.

Após a última trombeta,
A cristandade completa
Veria o instante esperado.
Só então, o crente fiel
Com Jesus ressuscitado
É também arrebatado
Para ir ter com Deus no céu.

Aos que ficam — dizem eles —
Resta a mesma a vida reles:
O mundo em sua injustiça
Permanece sem final.
Pois, onde o pecado viça
Na luxúria e na cobiça
Continua tudo igual!

A leituras desonestas
E tão obtusas quanto estas
É difícil contrapor,
Enfim, o que quer que seja.
Se, para meu estupor,
Confundir mediante o horror
No fundo é o que deseja.

— "Tendo fé como argumento,
A verdade é treinamento!" —
Eis como por circunstância
Um intolerante ensina
A sua própria intolerância
Àqueles que com grande ânsia
Lhe observam a disciplina...

Qualquer frase repetida
— Quer banal ou esclarecida —
Dogma virava em seus lábios!...
Clamando em nome de Deus
Contra islamitas arábios,
Cientistas, artistas, sábios
E seculares ateus.

Tenho claro que tais falas
Ecoando por amplas salas
Tocam muitos corações.
Mas são mais sobre política
Do que sobre religiões:
A estes extensos sermões
Sempre falta autocrítica!

E tais mensagens pastoras,
— Autolegitimadoras!... —
Têm em comum entre si
O senso de que a Verdade
É a mesma aqui e ali,
Reluzindo igual rubi
Para toda a Humanidade.

Em discussões cheias de nada
Tão-somente confirmada
A doutrina em seus enigmas
Deve ser por seus doutores...
Se, entre dogmas e querigmas,
De Jesus vendo os estigmas
Vêm celebrar-lhe louvores.

Assim, condenam o mundo
E o descrevem moribundo
À espera de seu final.
Em tudo vendo prodígios,
Já creem do bem contra o mal
A lua em sangue um sinal
Após guerras e litígios.

        *    *    * 
Terceira Parte:
EM NARRATIVA

De que servem os artistas
Os poetas, os romancistas
E os contadores de histórias,
Senão com vilões e heróis
Ter inventadas memórias?...
E ir das contendas às glórias
Entre eclipses e arrebóis!...

Historiar é encontrar
Onde os actos têm lugar
E onde o herói se movimenta
Em plena metamorfose:
Muito sofre, pena, tenta,
Perde, ganha, luta e enfrenta
Até a sua apoteose!...

Há-que pôr em narrativa
Quanto bem ou mal se viva:
Ver o que, como, quando e onde...
Em tempo e espaço cobertos,
Às vastas questões responde
Ao dispor o que s'esconde
Como se livros abertos.

Carece que o bom enredo
Surpreenda — quer triste ou ledo —
Pois história bem contada
É a que do início ao fim
Lê-se a varar madrugada,
Mantendo a mente encantada
Como fosse mesmo assim.

E que cada personagem
Nos traga alguma mensagem
Do que seja estar e ser.
E de tanta humanidade
Se lhe possa perceber,
Em cada lance a vencer
Por fim, a sua verdade.

Lua e sol ponho em cordel
Para um eclipse no céu,
Além de nos encantar,
Iluminar nossas vidas.
E ‘inda desmistificar
Lendas que tomam lugar 
De verdades bem sabidas.

Mas compete ao narrador
Falsos profetas expor
Para no fim demonstrar
O quão vagos e inexactos,
Que vendo o agouro falhar
São capazes de afirmar
Errados serem os factos!

Se arautos do fim do mundo
Põem sementes no fecundo
Chão da esperança humana,
Venha a poesia e conteste
Quem à fé alheia engana
E às profecias profana,
Torcendo as luzes do Agreste. 

Quem quiser manipular
A fé do povo em lugar
De se procurar respostas,
Tenha ao menos a visão
De que verdades impostas
Por religiões, são apostas;
Apenas outra opinião.

Pois Deus mesmo ninguém viu
E da morte não se ouviu
Qualquer palavra de volta:
Tudo é especulação!...
Sem mais, fica só revolta
Ou lamento que nos solta
Por angústia o coração.

Já depois do fim do mundo
— Ou da morte — n’um segundo
Tudo deixará de ser.
Portanto, o que quer que seja
Não se finja mais saber
Que os demais pelo poder
De impor-lhes quanto deseja!

Quer d'aqui ou de nenhures
Aonde algures e alhures
Nos leva a imaginação,
A história nos transporte
Pelas voltas da ficção
Com razão mais emoção
Para além de vida e morte.

        *    *    * 
Quarta Parte:
O SOL ENCARNADO

Cor de carne em chaga viva,
O sol a morrer reaviva
A beleza aos olhos meus.
Eu, embora embevecido,
Reflito que existe Deus
Diante de prodígios Seus
Como o sol entardecido.

Sim, se há Deus é na beleza
Do esplendor da Natureza
E em nossos olhos a vê-la.
O mais, é vontade humana
De ver na encarnada estrela
Mais do que uma coisa bela
Outro deus no qual s’engana...

Ou pior, cego à maravilha
D’ela faz outra partilha
Que confirma as Escrituras...
E, arvorando-se profeta,
Com tenebrosas figuras
Exorta às demais criaturas
A vida que acha correta.

Entrementes, ele mesmo
Vocifera culpas a esmo
Sem mover seu próprio jugo!
Fala em nome do Senhor,
Mas não passa de refugo:
Se d’outros juiz e verdugo
De si grande absolvedor...

Se há Deus é porque no céu
O sol despede-se fiel
A cada dia que passa.
E vê-lo partir traz paz,
Maravilhamento e graça
Mesmo qu'ele nada faça
Além de pôr-se lilás.

E depois, lento desdouro
Como se perdesse o tesouro
Que espalhou no firmamento.
Mas, enquanto empalidece,
Um céu de melancolia:
Anoitecendo em poesia,
Outra hora azul oferece...

Mas se há Deus é simplesmente
Por estar aqui presente
O mundo inteiro comigo.
Não entendo santidade
Obcecada co'o perigo
De cair frente ao inimigo,
Que também Humanidade.

Os conflitos são História,
Onde até grande vitória
Logo passa por derrota:
Quem é um vencedor hoje
Nem será digno de nota
Se então por terra remota
Amanhã ou depois foge...

Se há Deus é que estou vivo
E, nem humilde nem altivo,
Eu me ponho em frente ao sol.
E, até o vir encarnado
S'espalhar pelo arrebol,
Paro para o pôr-do-sol,
Sem já futuro ou passado.

        *    *    *
Quinta Parte:
A LUA DE SANGUE

Havendo Deus ou não, eu
Vi quando o sol s’escondeu
E a lua cresceu no céu.
Quando plena, todavia,
Sangrou por sobre o papel
Até se tornar cordel
E resplender em poesia:

A lua à sombra da Terra
Sumia como se a guerra
Que tem co’o sol a cortasse
E, ao fim, a ocultasse inteira.
De facto, quem ora olhasse
Mais e mais obscura a face
Veria d’esta maneira.

Mas quando escura de vez,
Ao invés de sumir, talvez
Quisesse o sol lhe sangrar
Tal como fora sangrado.
Assim, n’esta hora e lugar,
Soube à lua o sol mudar
Com seu rubor encarnado.

Plena noite, a lua plena
Deixa d’enluarar serena
Pelos céus da minha terra,
Para sangrar d’encarnado
Feito o sol que se desterra
Ao se pôr de trás da serra 
Depois do dia acabado.

Porém, além da beleza
— E, sobretudo, rareza —
Nada sobrenatural:
A lua volta da sombra...
Como antes, clareia igual!
Sem vir Juízo Final,
O eclipse já não assombra.

Não que não houvesse guerra
Ou peste e fome na Terra,
Além de grandes tragédias,
— Quer naturais ou nem tanto... —
Mas nada acima das médias
A grafar enciclopédias
Com mais verbetes de espanto.

Não houve o que estava escrito;
Nenhum poder infinito
Perseguiu os cristãos justos.
Tampouco arrebatamentos
Ou outros eventos robustos
A deflagrar entre sustos
Finais acontecimentos.

O que houve foi outro dia
Com a sua travessia
Para o crente e para o ateu.
Nada novo se contou...
Nada novo s'escreveu...
Pois tudo isto aconteceu
E o mundo não se acabou.

Betim - 02 06 2018

terça-feira, 12 de junho de 2018

CORDEL DA LUA DE SANGUE E DO SOL ENCARNADO - Quinta Parte: A LUA DE SANGUE

CORDEL DA LUA DE SANGUE E DO SOL ENCARNADO
Quinta Parte:
A LUA DE SANGUE

Havendo Deus ou não, eu
Vi quando o sol s’escondeu
E a lua cresceu no céu.
Quando plena, todavia,
Sangrou por sobre o papel
Até se tornar cordel
E resplender em poesia:
A lua à sombra da Terra
Sumia como se a guerra
Que tem co’o sol a cortasse
E, ao fim, a sangrar inteira.
De facto, quem ora a olhasse
Mais e mais obscura a face
Veria d’esta maneira.

Mas quando escura de vez,
Ao invés de sumir, talvez
Quisesse o sol lhe sangrar
Tal como fora sangrado.
Assim, n’esta hora e lugar,
O sol soube à lua outrar
Com seu rubor encarnado.

Plena noite, a lua plena
Deixa d’enluarar serena
Os céus da minha terra
Para sangrar d’encarnado
Feito o sol que se desterra
Ao se pôr de trás da serra
Depois do dia acabado.

Porém, além da beleza
-- E sobretudo rareza --
Nada sobrenatural...
A lua volta da sombra
A pratear sempre igual...
Sem vir juízo final
N’ela nada já assombra.

Não que não houvesse guerra
E peste e fome na Terra,
Além de grandes tragédias,
-- Quer naturais ou nem tanto...
Mas nada acima das médias
A grafar enciclopédias
Com mais verbetes de espanto.

Não houve o que estava escrito;
Nenhum poder infinito
Perseguiu os cristãos justos.
Tampouco arrebatamentos
Ou outros eventos robustos
A deflagrar entre sustos
Finais acontecimentos.

O que houve foi outro dia
Com a sua travessia
Para o crente e para o ateu.
Nada novo se contou...
Nada novo s'escreveu...
Pois tudo isto aconteceu
E o mundo não se acabou.

Betim - 02 06 2018