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quarta-feira, 22 de julho de 2026

PSIQUIÁLISE

PSIQUIÁLISE


Ter a mentalidade bitolada

Com verdades bem particulares

Ou mesmo com doutrinas basilares

Parece o mal d’esta época agitada.


Impõem, sem importar se certa ou errada,

Sua visão de mundo aos sós pensares,

Como ocupassem todos os lugares,

Pontificando tudo sobre nada…


Cansa ouvir discursar estes convictos,

Na ânsia de publicar seus veredictos,

Acerca das misérias mais humanas.


De resto, esse oceano de certezas

Distancie as extremas naturezas

Entre desesperanças quase insanas.


Belo Horizonte - 12 07 2026


quarta-feira, 15 de julho de 2026

SOLAR

SOLAR


Não há como falar do teu sorriso,

Senão como d'um sol quente a brilhar.

Não há como sequer eu cogitar

Não seres o que quero e o que preciso.


Não há como te ver e não te olhar

Como um céu que se abre sem aviso…

E ter, contigo, um dia a mais no paraíso,

Apenas com teu brilho a iluminar.


Um quadro em cores vivas, a cidade

Parece mais alegre. Na verdade,

S’espelha na lagoa em tons dourados.


Tudo isto enquanto passas pela rua…

O sol se mira em ti! E continua 

A reluzir-te os dons iluminados.


Belo Horizonte - 05 07 2026 

quinta-feira, 9 de julho de 2026

CORRERIA

CORRERIA


Ir — de cá para lá; lá para cá —

Sem perceber passar cada momento,

Faz-me pensar se a vida é movimento,

À medida que esqueço de quanto há.


Correndo, não importa aonde vá,

Vejo o mundo passar n’um sentimento

Enmimesmado e alheio a todo intento,

Para estar simplesmente agora-já.


Aos poucos ver mudar os horizontes

Da selva de edifícios contra os montes,

Enquanto avanço pelas avenidas.


Para no fim do dia, ao sol poente,

Ainda e mais além, seguir em frente,

Em busca de distâncias desmedidas.


Belo Horizonte – 07 07 2026

sexta-feira, 3 de julho de 2026

DESMEMÓRIA

DESMEMÓRIA


Hoje em dia, ando sem querer lembrar.

Quando tudo é saudade e lamento, 

Há-que se desejar o esquecimento,

N’um estupor sem hora nem lugar.


Por ventura não tem merecimento

O que se aquieta para não pecar?

De modo semelhante, se olvidar

Parece mais virtuoso no momento…


Escolho desdenhar todo o passado

Ao esquecer quanto houvesse a ser lembrado,

Certo de que não vale muito a pena.


Seja mais leve a mente, pois, vazia

E indiferente a toda nostalgia,

Enquanto a vida, em sombras, se apequena.


Betim - 01 02 2026

quarta-feira, 24 de junho de 2026

INEQUÍVOCO

INEQUÍVOCO


Há quem se perca em doutas conjecturas

Acerca do que seja errado ou certo,

Dizendo-se do bem sempre mais perto,

Ao contrário dos vãos e suas agruras.


Quer, da graça presente e das futuras,

Merecimento pleno, pois, desperto

Das confusões que pôs a descoberto,

Pela enumeração de incomposturas.


Assim, lista pecados, pecadores…

E pinta o alheio inferno co’os horrores

D’uma imaginação desenfreada.


Pobre d’este que s’enche de razão,

Pois dono da verdade na ilusão

De tê-la em suas mãos melhor moldada.


Betim - 23 06 2026

terça-feira, 16 de junho de 2026

LOGOMAQUIA

LOGOMAQUIA


Se digo, não desdigas; não respondas.

Senão, do bate papo ao bate boca,

A ideia toda logo se desfoca,

Qual pedra sobre o lago a lançar ondas…


Se mostro, não demonstres; não m’escondas.

Se nem tem argumento uma mente oca,

Tampouco alguma angústia te provoca

A graça de teus ais quando me rondas.


Não buscas a verdade, antes vencer.

Mal m’escutas no afã de desdizer

E calar não por fé, mas por cansaço.


É guerra de saberes; de discursos.

Deixar desencontrados os percursos

Fazendo do diálogo embaraço.


Belo Horizonte - 09 06 2026



sexta-feira, 12 de junho de 2026

HUMANO CORPO

HUMANO CORPO


É preciso entender do que sou feito.

Carne, decerto… Se há dor ou prazer,

É porque a pele sente e, sem querer,

Ao se deixar tocar, dispara o peito.


Mas lembro-me de azares contrafeito,

Em meio a mil paixões de se perder.

Cicatrizes deixaram esse saber

De o desencanto vir de qualquer jeito.


Do clímax ao anticlímax, já vivi

Entregue a sensações e sentimentos,

E mais males que bens eu conheci.


Hoje regro melhor os meus intentos,

Confiante de encontrar, aqui e ali,

Beleza até nos dias mais cinzentos.


Betim - 01 06 2026

PASTO SUJO

PASTO SUJO


Ao longo de vertentes desmatadas,

S’elevaram mil lápides d'argila.

São cupinzeiros secos quase em fila

Por sobre troncos d'árvores cortadas.


Algures, braquiárias inclinadas,

Enquanto um vento gélido sibila…

Já ronda seriema, alta e intranquila,

Sem vacas a mugir nas invernadas.


Ora terra maninha; outrora mata,

A propriedade tem a face ingrata:

Campos desarvorados, afinal.


Por fim, andar por entre termiteiras

Faça pensar nas eras derradeiras,

Diante d’um cemitério florestal.


Brumadinho - 06 06 2026

quinta-feira, 11 de junho de 2026

MOEDA VELHA

MOEDA VELHA


Em pó, o ouro descia a serra a pé

Ou no lombo de tropas destemidas.

Típico descaminho às escondidas,

Onde cunhavam moedas de má-fé.


Hoje casa sem telhas nem sapé,

À guisa de fortim, contava as idas

E vindas pelas grimpas desvalidas.

Silente testemunha, memória é…


Lá, dobrões e dobrões encheram arcas,

Negando a quinta parte dos monarcas,

Embora a Cruz e as Quinas nas moedas.


Após ganhava as ruas e os mercados

No dinheiro corrente d'estes lados:

Dos confins do Gerais às sós veredas…


Moeda - 13 02 2026

quarta-feira, 3 de junho de 2026

LABIRINTO

LABIRINTO


Um beco desemboca n'outro beco

Até topar parede: Sem saída!

Assim parece ser a própria vida,

Quando face ao abismo responde o eco...


Sem embargo, perscruto d'olhar seco

Cada desilusão aborrecida

Ao contemplar ao fim de tanta lida

Toda a sorte de caco, entulho e treco.


Se eu, por tentativa e erro, sigo em frente

É que estou d'algum modo indiferente,

À dureza das pedras da muralha.


Prossigo porque sei o que m'espera.

Sem mais sabedoria nem quimera,

Eu vou tal como vai qualquer canalha.


Betim - 03 06 2026

terça-feira, 2 de junho de 2026

VAM'BORA

VAM'BORA


Até o fim do mundo, por que não?

Pôr-nos em movimento a contemplar…

Viver não se limite a ser e estar,

Antes um ir e vir na imensidão!


Haja sempre um convite em teu olhar

E algum lugar a ver com gratidão.

Faça luz onde houver escuridão

E possam nossos olhos s’encontrar.


Talvez, ao longo d’essa longa estrada

A gente, surpreendendo a madrugada,

Viva o melhor momento de nós dois.


Ao menos saberemos algo mais…

Deixar pó e passado para trás

Sem ânsia ao que virá logo depois.


Nova Lima - 01 06 2026

sábado, 30 de maio de 2026

EM BOA HORA

EM BOA HORA


Quando vieres, se vieres, será bom.

Serás bem-vinda, linda; estarás bem…

Virás porque me queres ver também 

E partilhar teu riso como um dom.


Se me ouves de teu nome o doce som,

É porque te chamei, constante e além,

Ao encontro de alegrias sem porém,

Dando mais cor à vida, tom por tom.


À hora que vieres, seja qual for,

Terei em minhas mãos alguma flor

E um pão para partir na travessia.


Assim, contigo ao lado, mão à mão,

Toda a hora será boa. Por que não?

Em boa hora se em boa companhia!


Nova Lima - 30 05 2026


sexta-feira, 22 de maio de 2026

INCONCLUSIVO

INCONCLUSIVO


Eu nunca saberei se sei ou não

Que mentiras eu conto para mim.

De facto, inconsciências são assim:

Tergiversar em círculos e em vão…


O que sei é ser tudo uma ilusão.

Ao menos considero — agora e enfim — 

Saltar para o vazio a trampolim,

Sem chegar a nenhuma conclusão.


O mundo há-de seguir indiferente

A toda e qualquer fúria complacente

Do que costumo ver como vitórias.


Ao fim, tão-só silêncio e desassombro.

Não restam senão pó, ruína e escombro

No terreno maninho das memórias.


Brumadinho - 16 05 2026

sexta-feira, 8 de maio de 2026

MERCADORIA

MERCADORIA 


Vende-se, por uns módicos trocados, 

Outro livro de sonetos pós-modernos.

Reunido a modestíssimos cadernos,

Contém antes equívocos que achados.


O poeta? Consta que anda sem cuidados,

A cogitar de céus como de infernos.

Às voltas co'os próprios desgovernos,

Palmeia a escuridão dos deserdados!


Mal vale quanto pesa esta leitura,

Que não julgo Arte nem Literatura:

Não tem fortuna crítica, prefácio…


Mas, se não for incômodo, comprai-o. 

Ao menos sobre a mesa, de soslaio,

O tomo pode ornar vosso palácio.


Betim - 01 05 2026

quinta-feira, 30 de abril de 2026

POR ASSIM DIZER

POR ASSIM DIZER 


Às vezes, eu m'expresso com escritas

Rebuscadas ou duras de se ler…

Nem sei se digo o qu'eu quero dizer

Face a sonoridades inauditas.


Talvez sejam tão-só frases mal ditas

Essas que então me apresso em escrever.

Talvez nem sejam versos – a saber,

Poetas têm liberdades esquisitas!


Torço e distorço as letras e as ideias,

Como buscasse sempre o inusitado,

Embora a indiferença das plateias.


De certo modo, poeto enmimesmado

A exigir do vernáculo um intento

Já muito além do mero entendimento. 


Nova Lima - 30 04 2026