Espaço para exibição e armazenamento de poemas à medida que os vou escrevendo. Espero contar com o comentário de leitores atentos e gente com sensibilidade poética por acreditar que o poema acabado não precisa ser o fim de uma experiência, sim o início de um diálogo.
terça-feira, 1 de setembro de 2026
ACRONICTO
segunda-feira, 31 de agosto de 2026
UM ALGUÉM
UM ALGUÉM
Aquele duplamente indefinido,
Que homem e/ou mulher podia ser
Costuma feito névoa aparecer
E passa como nunca acontecido.
Quem entre o “se” e o “não” adormecido
Desperta ainda incerto do que quer
Para, no fim de tudo, s'esquecer,
Varando a madrugada entorpecido.
Ei-lo, tanto aparência quanto essência,
Ambíguo a questionar sua existência,
E se mostrar tão-só se lhe convém.
Actor, qual é a máscara de hoje?
Sim, a rir e a chorar o tempo foge…
Quem ora todo mundo; ora ninguém!
Betim - 31 08 2026
sexta-feira, 28 de agosto de 2026
MEGALATIFUNDIÁRIO
MEGALATIFUNDIÁRIO “Do nada, nada vem” — Já se dizia D’aquele que contando umas lorotas, Deixava-nos com cara de idiotas Com sua gutural verborragia. Uma muito contumaz patifaria Era ir, co'a complacência dos janotas, Aonde perdeu Judas suas botas, Medir terras griladas na ousadia. Mas, pela minha mal traçada conta, São as terras do fulano de tal monta, Que somam duas vezes o país todo! Sem menoscabo pelos seus azares Ou pela imensidão d’estes lugares, Tal fortuna não passa d’um engodo. Betim - 28 08 2026
quarta-feira, 26 de agosto de 2026
AYAHUASCA
AYAHUASCA
Tinha gosto de casca de cipó
Aquela comunhão de mirações,
Incorporando antigas devoções
Reunidas nos confins do cafundó.
Eu, com o povo em roda, um homem só
A ver e ouvir estranhas orações
E as cores explodindo em clarões
D’auras alucinando-me sem dó…
Tempo ausente o presente, me abandono.
Enquanto algum profeta no seu trono
Diz sobrenatural a Natureza.
Tinha gosto de mato e de queimadas
Aquela comunhão de camaradas
Feita de borracheira profundeza.
Betim - 05 06 2024
EXPLORAÇÕES
EXPLORAÇÕES
Finda a estrada, que comece a aventura!
Na quebrada da encosta, em precipício,
Para as grimpas a trilha tenha início,
Serpenteando em curvas na angustura.
Do mar de morros via-se a verdura,
Enquanto o vento uivava vão bulício.
Onde quão mais bonito, mais difícil,
Seguir em desafio pela altura.
Na travessia, a cada descoberta,
O peito acelerado e o olhar alerta
Se me tornam mais ávido de vida.
D’ali eu me aproximo da distância,
E trago à solidão ainda a errância
D’outra alvorada plena e comovida.
Brumadinho - 15 08 2026
OFICINA
OFICINA
E tudo o que queria era escrever…
Isto, fazer poesia, é pôr o mundo
Por dentro da cabeça bem mais fundo
Do que, objectivamente, o perceber.
Poetar! Como se um jeito de entender
A realidade em letras no eu profundo.
Ou sondar d'onde o sonho era oriundo
Para, com rimas vãs, enternecer.
Fábrica de poesia, o coração
Bate mais forte quando uma intenção
Revela insuspeitada maravilha.
Assim, vão caminhando lado a lado
Sonoridade mais significado
Onde cada palavra por fim brilha.
08 06 2026
terça-feira, 25 de agosto de 2026
POR AGORA
POR AGORA
Se o presente é ausência, em alheamento
Atravesso horas cinzas tão-somente
A topar com a angústia recorrente
Que vem me anuviar o pensamento.
Mas é o que se tem para o momento,
Esse desassossego displicente
Com que encaro o caminho à minha frente,
Distante de qualquer contentamento.
Ainda entre o que foi e o que será,
Espero uma certeza que não há
De superar o tempo em que estou.
O instante, todavia, se prolonga,
Em vista d'esta fase, curta ou longa,
Que logra rir de tudo quanto sou.
Belo Horizonte - 08 06 2025
BARATINADO
segunda-feira, 24 de agosto de 2026
SOMBRA E ÁGUA FRESCA
SOMBRA E ÁGUA FRESCA
Na curva do caminho, longe ainda,
Apenas fecho os olhos... Logo o vento
Parece m'envolver por um momento,
Em sua aragem morna-mas-bem-vinda.
A encosta tortuosa, embora linda,
Mostra-se enfim abrigo ao desalento:
Encontra a queda d'água o olhar sedento,
Enquanto n'um bosquejo a trilha finda.
Eu paro, agradecido, e me abandono
Por horas até cair quase no sono;
Só deitado na laje da cascata.
Foi como se, inundado de alegria,
A vida me abraçasse n’esse dia,
Em qu'eu me demorei em meio à mata.
Brumadinho - 15 08 2026
domingo, 23 de agosto de 2026
À REVOLUÇÃO
À REVOLUÇÃO - TRÍPTICO
LIBERDADE
Face de mulher negra americana,
Onde há marcas da vil escravidão,
Seja égide a s'erguer contra a opressão
Em vista d’uma terra soberana.
Com ramos de café, feixes de cana,
Se ilustre a tropical conspiração.
Que do súbdito se faça o cidadão
Inundado de luz republicana.
Mas não celebrem tal independência,
Por não haver progresso nem ciência,
Enquanto entre riquezas tanta fome.
E mais do que fazer o que quiser,
Ser livre seja elevar todo o poder
Em liberdade digna d'este nome.
…………………………………………
IGUALDADE
Não por ser homem, sim por ser humano,
Que anseio ser igual, nunca melhor.
Em regra, do menor para o maior,
Buscam nos ordenar n'um amplo plano.
Desde que o mundo é mundo, salvo engano,
Dão a este – e não àquele – mais valor.
Por fim, quem se acredita superior
Não raro tem causado maior dano…
O macho adulto branco no comando
Espera distinguir-se, quando em quando,
Tendo-se ora mais forte; ora mais rico.
E eu, que não me sei branco ou mesmo macho,
Na velha ordem do mundo não m’encaixo,
Tão simples quanto os versos que fabrico.
.............................................................
FRATERNIDADE
Àqueles que s’entendem como “nós”,
Compartilhando origens ou memórias,
Conclamo a relustrar antigas glórias,
Fazendo-as ressoar n’uma só voz:
Cantemos na esperança mais feroz
Causas identitárias meritórias,
Em lugar de grandezas ilusórias,
Que tornem a Nação infame algoz.
Em marcha contra insana tirania,
Irmanemo-nos em torno da utopia
De ser um lar comum o nosso chão.
E que o estandarte erguido a nos guiar
Aos filhos d'esta terra possa honrar,
Por símbolo de paz e de união.
Belo Horizonte - 20 08 2026
sexta-feira, 21 de agosto de 2026
PSIU!
PSIU!
Andavas vaporosa pela rua,
Sem me veres te ver a elegância.
Com efeito, mantinha-me à distância,
Aparvalhado co’a beleza tua:
A vasta cabeleira, a espádua nua,
A face um tanto lívida, a vaga ânsia…
Já passando por mim, uma fragrância
Do mais lascivo almíscar se insinua.
Não me fiz de rogado, eu te chamei
Dos nomes mais bonitos que encontrei,
Mas soubeste me ignorar tanta ousadia.
Por fim, para chamar tua atenção
Soltei n'um assobio a interjeição
E olhei teus olhos claros como o dia.
Betim - 20 08 2026
quinta-feira, 20 de agosto de 2026
PROLIXO
terça-feira, 18 de agosto de 2026
O FORAGIDO
O FORAGIDO
Passados tantos anos, ninguém; nada.
O sangue derramado que o condena
Faz pensar que talvez não haja pena,
Somente uma justiça desvairada.
Mas aquele que caiu teve a jornada
Interrompida sob a noite plena...
Obscura, a vida humana se apequena:
Não mais que uma outra sombra pela estrada!
Vivia ele a fugir do vitimado.
Prescritos tanto o crime que o castigo,
A seus olhos se vê ‘inda culpado.
Já não distingue o amigo do inimigo,
De tudo e todos tão desconfiado,
Quem de si mesmo nunca encontra abrigo.
Belo Horizonte - 12 08 2026
quinta-feira, 13 de agosto de 2026
COAUTORIAS
COAUTORIAS
Escrevo? Não só eu. Quem lê, também.
O intérprete reescreve, trai, traduz…
Entre o escrito e o entendido há anos-luz,
E periga inventar se não contém.
Mais atento o leitor, mais me retém
Ou menos a si mesmo me reduz.
Quando o texto não diz, ele deduz
Por linhas tortas quanto lhe convém.
Escrevo? Também eu. E quem me ler.
Logo o autoral se torna obra colectiva,
Como se letra morta em língua viva:
Em breve correr d'olhos passe a ter
Algum sentido próprio insuspeitado,
Que já ninguém dirá se certo ou errado.
Belo Horizonte - 13 08 2026
sexta-feira, 7 de agosto de 2026
HIPOCONDRÍACO
HIPOCONDRÍACO
Talvez ardesse o peito; talvez não.
O vago sentimento d'estar vivo
Revela-se um anseio sem motivo,
Como algo me rondando a solidão.
Às vezes penso andar em negação,
Vendo-me empreendedor ou progressivo,
Quando surpreendo à morte o olhar furtivo,
Lasciva a me sorrir na escuridão.
Admito, todavia, não ter nada
Além d'uma cabeça atormentada
Com doenças reais e imaginadas.
Pelo sim, pelo não, eu remedio
Os males que me invento ao vento frio,
Saudando as alterosas neblinadas.
Brumadinho - 18 07 2026
terça-feira, 4 de agosto de 2026
DESANSIEDADE
DESANSIEDADE
Não te parece muito apenas ser?
Penso que estou onde preciso estar,
E a fazer o qu’eu preciso fazer.
O mais são ruas para caminhar…
Tenho andado sem pressa para ver
O mundo ao meu redor, certo de olhar
E incerto do que traz tanto querer,
Como fosse o porvir algum lugar.
Talvez eu seja quem posso existir.
Ao encontro do que possa ainda vir,
Aceitando-me, seja como for.
Não te parece muito apenas ir?
Penso que vou aonde conseguir.
O mais são serras para o sol se pôr.
Belo Horizonte - 30 07 2026
segunda-feira, 3 de agosto de 2026
ÁRDUO VOO
ÁRDUO VOO
Um chão alcatifado à flor de ipê
E horas de tarde morna e modorrenta…
A língua outra palavra experimenta,
Buscando nobre rima por mercê.
Soubesse de beleza sem porquê,
Nas trilhas da chapada poeirenta,
Andaria onde o sol desorienta,
Tamanha imensidão ali se vê.
Arribação de avoantes a poesia.
Meu verso em linhas tortas principia
Até saber dizer do que senti.
Carece, pois, de alturas miradouras,
Que me revelem luzes duradouras
Nas coisas distraídas que escrevi.
Belo Horizonte - 31 06 2026
quarta-feira, 22 de julho de 2026
PSIQUIÁLISE
PSIQUIÁLISE
Ter a mentalidade bitolada
Com verdades bem particulares
Ou mesmo com doutrinas basilares
Parece o mal d’esta época agitada.
Impõem, sem importar se certa ou errada,
Sua visão de mundo aos sós pensares,
Como ocupassem todos os lugares,
Pontificando tudo sobre nada…
Cansa ouvir discursar estes convictos,
Na ânsia de publicar seus veredictos,
Acerca das misérias mais humanas.
De resto, esse oceano de certezas
Distancie as extremas naturezas
Entre desesperanças quase insanas.
Belo Horizonte - 12 07 2026
quarta-feira, 15 de julho de 2026
SOLAR
SOLAR
Não há como falar do teu sorriso,
Senão como d'um sol quente a brilhar.
Não há como sequer eu cogitar
Não seres o que quero e o que preciso.
Não há como te ver e não te olhar
Como um céu que se abre sem aviso…
E ter, contigo, um dia a mais no paraíso,
Apenas com teu brilho a iluminar.
Um quadro em cores vivas, a cidade
Parece mais alegre. Na verdade,
S’espelha na lagoa em tons dourados.
Tudo isto enquanto passas pela rua…
O sol se mira em ti! E continua
A reluzir-te os dons iluminados.
Belo Horizonte - 05 07 2026
quinta-feira, 9 de julho de 2026
CORRERIA
CORRERIA
Ir — de cá para lá; lá para cá —
Sem perceber passar cada momento,
Faz-me pensar se a vida é movimento,
À medida que esqueço de quanto há.
Correndo, não importa aonde vá,
Vejo o mundo passar n’um sentimento
Enmimesmado e alheio a todo intento,
Para estar simplesmente agora-já.
Aos poucos ver mudar os horizontes
Da selva de edifícios contra os montes,
Enquanto avanço pelas avenidas.
Para no fim do dia, ao sol poente,
Ainda e mais além, seguir em frente,
Em busca de distâncias desmedidas.
Belo Horizonte – 07 07 2026
segunda-feira, 6 de julho de 2026
EM MAUS LENÇÓIS
EM MAUS LENÇÓIS
É a cama onde se deita
Ou a bela dama que se ama?
Outra vez, o mesmo drama:
Sua beleza perfeita
A idas e vindas me chama!
Drama, pois, em movimento
Põe a vida com os seus erros
Apesar dos sós desterros
Lembrados a todo momento
Nas travessias dos cerros.
Outra vez, da ânsia de ter
Ir ao tédio de possuir…
Enternecido despir
A promessa de prazer
E, após, saciado partir.
Outra vez, por bem ou mal,
Buscar em alheia alcova
Alguma esperança nova
Sempre frustrada ao final
Quando o término se prova.
Fazer amor… Dentro de mim,
Seja engano ou desengano.
Ao malograr qualquer plano.
Reste à mente, tanto e enfim,
Somente um encontro humano.
Betim - 06 01 2026
sexta-feira, 3 de julho de 2026
DESMEMÓRIA
DESMEMÓRIA
Hoje em dia, ando sem querer lembrar.
Quando tudo é saudade e lamento,
Há-que se desejar o esquecimento,
N’um estupor sem hora nem lugar.
Por ventura não tem merecimento
O que se aquieta para não pecar?
De modo semelhante, se olvidar
Parece mais virtuoso no momento…
Escolho desdenhar todo o passado
Ao esquecer quanto houvesse a ser lembrado,
Certo de que não vale muito a pena.
Seja mais leve a mente, pois, vazia
E indiferente a toda nostalgia,
Enquanto a vida, em sombras, se apequena.
Betim - 01 02 2026
quarta-feira, 24 de junho de 2026
INEQUÍVOCO
INEQUÍVOCO
Há quem se perca em doutas conjecturas
Acerca do que seja errado ou certo,
Dizendo-se do bem sempre mais perto,
Ao contrário dos vãos e suas agruras.
Quer, da graça presente e das futuras,
Merecimento pleno, pois, desperto
Das confusões que pôs a descoberto,
Pela enumeração de incomposturas.
Assim, lista pecados, pecadores…
E pinta o alheio inferno co’os horrores
D’uma imaginação desenfreada.
Pobre d’este que s’enche de razão,
Pois dono da verdade na ilusão
De tê-la em suas mãos melhor moldada.
Betim - 23 06 2026
terça-feira, 16 de junho de 2026
LOGOMAQUIA
LOGOMAQUIA
Se digo, não desdigas; não respondas.
Senão, do bate papo ao bate boca,
A ideia toda logo se desfoca,
Qual pedra sobre o lago a lançar ondas…
Se mostro, não demonstres; não m’escondas.
Se nem tem argumento uma mente oca,
Tampouco alguma angústia te provoca
A graça de teus ais quando me rondas.
Não buscas a verdade, antes vencer.
Mal m’escutas no afã de desdizer
E calar não por fé, mas por cansaço.
É guerra de saberes; de discursos.
Deixar desencontrados os percursos
Fazendo do diálogo embaraço.
Belo Horizonte - 09 06 2026
sexta-feira, 12 de junho de 2026
HUMANO CORPO
HUMANO CORPO
É preciso entender do que sou feito.
Carne, decerto… Se há dor ou prazer,
É porque a pele sente e, sem querer,
Ao se deixar tocar, dispara o peito.
Mas lembro-me de azares contrafeito,
Em meio a mil paixões de se perder.
Cicatrizes deixaram esse saber
De o desencanto vir de qualquer jeito.
Do clímax ao anticlímax, já vivi
Entregue a sensações e sentimentos,
E mais males que bens eu conheci.
Hoje regro melhor os meus intentos,
Confiante de encontrar, aqui e ali,
Beleza até nos dias mais cinzentos.
Betim - 01 06 2026
PASTO SUJO
PASTO SUJO
Ao longo de vertentes desmatadas,
S’elevaram mil lápides d'argila.
São cupinzeiros secos quase em fila
Por sobre troncos d'árvores cortadas.
Algures, braquiárias inclinadas,
Enquanto um vento gélido sibila…
Já ronda seriema, alta e intranquila,
Sem vacas a mugir nas invernadas.
Ora terra maninha; outrora mata,
A propriedade tem a face ingrata:
Campos desarvorados, afinal.
Por fim, andar por entre termiteiras
Faça pensar nas eras derradeiras,
Diante d’um cemitério florestal.
Brumadinho - 06 06 2026
quinta-feira, 11 de junho de 2026
MOEDA VELHA
MOEDA VELHA
Em pó, o ouro descia a serra a pé
Ou no lombo de tropas destemidas.
Típico descaminho às escondidas,
Onde cunhavam moedas de má-fé.
Hoje casa sem telhas nem sapé,
À guisa de fortim, contava as idas
E vindas pelas grimpas desvalidas.
Silente testemunha, memória é…
Lá, dobrões e dobrões encheram arcas,
Negando a quinta parte dos monarcas,
Embora a Cruz e as Quinas nas moedas.
Após ganhava as ruas e os mercados
No dinheiro corrente d'estes lados:
Dos confins do Gerais às sós veredas…
Moeda - 13 02 2026
quarta-feira, 3 de junho de 2026
LABIRINTO
LABIRINTO
Um beco desemboca n'outro beco
Até topar parede: Sem saída!
Assim parece ser a própria vida,
Quando face ao abismo responde o eco...
Sem embargo, perscruto d'olhar seco
Cada desilusão aborrecida
Ao contemplar ao fim de tanta lida
Toda a sorte de caco, entulho e treco.
Se eu, por tentativa e erro, sigo em frente
É que estou d'algum modo indiferente,
À dureza das pedras da muralha.
Prossigo porque sei o que m'espera.
Sem mais sabedoria nem quimera,
Eu vou tal como vai qualquer canalha.
Betim - 03 06 2026
terça-feira, 2 de junho de 2026
VAM'BORA
VAM'BORA
Até o fim do mundo, por que não?
Pôr-nos em movimento a contemplar…
Viver não se limite a ser e estar,
Antes um ir e vir na imensidão!
Haja sempre um convite em teu olhar
E algum lugar a ver com gratidão.
Faça luz onde houver escuridão
E possam nossos olhos s’encontrar.
Talvez, ao longo d’essa longa estrada
A gente, surpreendendo a madrugada,
Viva o melhor momento de nós dois.
Ao menos saberemos algo mais…
Deixar pó e passado para trás
Sem ânsia ao que virá logo depois.
Nova Lima - 01 06 2026
sábado, 30 de maio de 2026
EM BOA HORA
EM BOA HORA
Quando vieres, se vieres, será bom.
Serás bem-vinda, linda; estarás bem…
Virás porque me queres ver também
E partilhar teu riso como um dom.
Se me ouves de teu nome o doce som,
É porque te chamei, constante e além,
Ao encontro de alegrias sem porém,
Dando mais cor à vida, tom por tom.
À hora que vieres, seja qual for,
Terei em minhas mãos alguma flor
E um pão para partir na travessia.
Assim, contigo ao lado, mão à mão,
Toda a hora será boa. Por que não?
Em boa hora se em boa companhia!
Nova Lima - 30 05 2026
sexta-feira, 22 de maio de 2026
INCONCLUSIVO
INCONCLUSIVO
Eu nunca saberei se sei ou não
Que mentiras eu conto para mim.
De facto, inconsciências são assim:
Tergiversar em círculos e em vão…
O que sei é ser tudo uma ilusão.
Ao menos considero — agora e enfim —
Saltar para o vazio a trampolim,
Sem chegar a nenhuma conclusão.
O mundo há-de seguir indiferente
A toda e qualquer fúria complacente
Do que costumo ver como vitórias.
Ao fim, tão-só silêncio e desassombro.
Não restam senão pó, ruína e escombro
No terreno maninho das memórias.
Brumadinho - 16 05 2026
sexta-feira, 8 de maio de 2026
MERCADORIA
MERCADORIA
Vende-se, por uns módicos trocados,
Outro livro de sonetos pós-modernos.
Reunido a modestíssimos cadernos,
Contém antes equívocos que achados.
O poeta? Consta que anda sem cuidados,
A cogitar de céus como de infernos.
Às voltas co'os próprios desgovernos,
Palmeia a escuridão dos deserdados!
Mal vale quanto pesa esta leitura,
Que não julgo Arte nem Literatura:
Não tem fortuna crítica, prefácio…
Mas, se não for incômodo, comprai-o.
Ao menos sobre a mesa, de soslaio,
O tomo pode ornar vosso palácio.
Betim - 01 05 2026
quinta-feira, 30 de abril de 2026
POR ASSIM DIZER
POR ASSIM DIZER
Às vezes, eu m'expresso com escritas
Rebuscadas ou duras de se ler…
Nem sei se digo o qu'eu quero dizer
Face a sonoridades inauditas.
Talvez sejam tão-só frases mal ditas
Essas que então me apresso em escrever.
Talvez nem sejam versos – a saber,
Poetas têm liberdades esquisitas!
Torço e distorço as letras e as ideias,
Como buscasse sempre o inusitado,
Embora a indiferença das plateias.
De certo modo, poeto enmimesmado
A exigir do vernáculo um intento
Já muito além do mero entendimento.
Nova Lima - 30 04 2026
quarta-feira, 29 de abril de 2026
INTERFLÚVIO
INTERFLÚVIO
A estrada na cumeeira d'essa serra
Descortina, mirante após mirante,
Dois vales que s'estendem do Levante
Onde o olhar nas distâncias se desterra.
Percorro enternecido toda a terra,
Incerto de destinos, feito errante,
A ver a maravilha em cada instante:
Mais um que, inopinado, vereda erra…
Alturas conquistadas com fadigas
São tão mais belas quanto desejadas,
Ao longo de jornadas demoradas.
Lustrem novas memórias às antigas!
Ao buscar na beleza d’outro cume
Uma vida mais vivida por seu lume.
Brumadinho - 01 10 2025
segunda-feira, 13 de abril de 2026
MAL’AMAR
MAL’AMAR
O peito ardente, a mente em sofrimento,
O olhar fixo ou perdido no vazio;
Ter a vida em constante desvario
Vivida sem qualquer contentamento.
Vagar pelos caminhos sem intento,
A alta noite do dia mais sombrio,
Enquanto o nada clama em desafio
D'algo que dê sentido ao movimento.
Assim anda quem sente e se ressente...
Certo de pelejar feito um demente
Co'os próprios pensamentos intrusivos.
E, em sua passional celeridade,
Alterna entre murmúrios e saudade
Os mesmos rituais repetitivos.
Betim - 12 12 2025
sábado, 28 de março de 2026
VAREJEIRA
VAREJEIRA
Como quem s’entretém a espantar mosca
De sonhos na vitrina d’uma venda,
E vive em estranhíssima contenda,
Ciumento dos confeitos sobre a rosca…
Assim, eu só — nos fundos da birosca! —
Salivava às quitandas da merenda,
Sonhando para mim alguma senda
Para além d'esta vida um tanto tosca.
Era mais uma tarde. Mais um dia.
A mosca que ia e vinha, todavia,
Despertava-me do baldo devaneio.
E eu, que não sei vender nem guloseimas,
Passava horas às voltas com toleimas,
Vendo a mosca nos sonhos sem receio.
Betim - 04 12 2025
segunda-feira, 16 de março de 2026
A MEU VER
A MEU VER
Já desconheço haver outras razões
Além das segregadas em meu peito
Para dizer, embora contrafeito,
De tantas e totais contradições.
A despeito das doutas opiniões,
Sobretudo d’aqueles que respeito,
Externo desventuras em proveito
Do improvável leitor d’estes senões:
Há erros que se tornam toda a vida
E bem ou mal nos moldam, à medida
Que deixamos pegadas sobre a terra.
Andemos, sem temer a tempestade!
Desertas são as ruas da cidade,
Quando da face o riso se desterra…
Betim - 11 11 2025
quinta-feira, 22 de janeiro de 2026
À BOCA MIÚDA
À BOCA MIÚDA
Correm por aí boatos de que andei
Buscando solidões silenciosas
Em distâncias de serras neblinosas,
Onde viva sem fé nem rei nem lei.
Têm contado, outrossim, que desgostei
Das gentes e das terras rumorosas
A ponto d’eu dizê-las desditosas
Às raras companhias que encontrei.
Falem o que quiserem: Sigo andando
A surpreender auroras, vez em quando,
Sem ver que vão pensar a meu respeito.
Convém-me confirmar os maus cochichos:
Tornado besta-fera em meio aos bichos,
Seja eu livre do juízo mais perfeito!
Catas Altas - 02 11 2025
FAZ DE CONTA
FAZ DE CONTA
Sabes?! Quando crescer, vou ser menino:
Ocupar-me só com desimportâncias;
Deixar aos mais adultos suas ânsias
E zanzar pelas ruas sem destino.
Quanto mais velho sou, mais me amenino,
Entre imaginações e outras errâncias,
Ao gozo só de olhar para as distâncias
No mais maravilhado desatino.
Eu quero descrescer; ser bem pequeno.
Ter para com o mundo o olhar ameno
D'alguém que já não finge o compreender
Então, talvez eu tenha uma verdade
Tão minha ou tão além da minha idade,
Até ser o melhor que eu possa ser.
Betim - 01 05 2025
quarta-feira, 21 de janeiro de 2026
ESPELHAMENTO
ESPELHAMENTO
Ela ama ver-se amada no olhar d'ele
Em lágrimas a espelhar-lhe a formosura.
Permite, enfim, que a toque com ternura
Até se lh’enrubescer a clara pele.
Ela ama o quanto ele a ama; quanto o impele.
E isto lhe parece intenso enquanto dura.
Não sabe que o amor é uma procura,
À espera que o horizonte se revele.
Diz, com todas as letras: — ”Infeliz!”
E olha nos olhos d’ele, rasos d’água,
A perfeita expressão da própria mágoa.
Conquista a solidão como se um país
Onde, sem mais espelhos, possa ver
Somente a realidade que quiser.
Betim - 04 04 2025
segunda-feira, 19 de janeiro de 2026
NÃO HÁ-DE QUÊ
sexta-feira, 9 de janeiro de 2026
MELANCOLIA
terça-feira, 6 de janeiro de 2026
LUMINOSA
LUMINOSA
Quando por lá passares, não te apresses.
Contempla, como um quadro em movimento,
A imensidão aberta ao firmamento,
Que se ilumina enfim às tuas preces.
No pó, deixa os cuidados e os estresses,
Enquanto mira os longes contra o vento.
E encontra, para além do entendimento,
Este momento livre de interesses.
Deixa que a caminhada t'esvazie
E o sol, amanhecendo, principie
A pôr cores por toda a redondeza.
Mas, ao te despedires, não lamentes.
Antes leva contigo aos teus, ausentes,
Uma terna experiência da beleza
Campos do Jordão - 02 09 2025