terça-feira, 1 de setembro de 2026

ACRONICTO

ACRONICTO

A paz das extensões silenciosas,
Enquanto cai a noite sobre as serras,
Veste em melancolia àquelas terras
E ao céu mistura azuis, lilases, rosas…  

A d’Alva e a lua cheia, luminosas,
Surgem pelo horizonte aos finisterras.
Longe, mugem as vacas e as bezerras 
E grilos cricrilando nas mimosas.

As sombras s’espalhavam longamente
À medida que p’ros lados do poente
A claridade aos poucos indo embora…

Os cuidados se vão co’o dia findo
Certo que ao anoitecer tudo é tão lindo,
Que o olhar sobre as paragens se demora.

Serra Azul - 22 07 2026

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

UM ALGUÉM

UM ALGUÉM


Aquele duplamente indefinido,

Que homem e/ou mulher podia ser

Costuma feito névoa aparecer

E passa como nunca acontecido.


Quem entre o “se” e o “não” adormecido 

Desperta ainda incerto do que quer

Para, no fim de tudo, s'esquecer, 

Varando a madrugada entorpecido. 


Ei-lo, tanto aparência quanto essência,

Ambíguo a questionar sua existência,

E se mostrar tão-só se lhe convém.


Actor, qual é a máscara de hoje?

Sim, a rir e a chorar o tempo foge…

Quem ora todo mundo; ora ninguém!


Betim - 31 08 2026

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

MEGALATIFUNDIÁRIO

MEGALATIFUNDIÁRIO “Do nada, nada vem” — Já se dizia D’aquele que contando umas lorotas, Deixava-nos com cara de idiotas Com sua gutural verborragia. Uma muito contumaz patifaria Era ir, co'a complacência dos janotas, Aonde perdeu Judas suas botas, Medir terras griladas na ousadia. Mas, pela minha mal traçada conta, São as terras do fulano de tal monta, Que somam duas vezes o país todo! Sem menoscabo pelos seus azares Ou pela imensidão d’estes lugares, Tal fortuna não passa d’um engodo. Betim - 28 08 2026

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

AYAHUASCA

AYAHUASCA


Tinha gosto de casca de cipó

Aquela comunhão de mirações,

Incorporando antigas devoções

Reunidas nos confins do cafundó.


Eu, com o povo em roda, um homem só

A ver e ouvir estranhas orações

E as cores explodindo em clarões

D’auras alucinando-me sem dó…


Tempo ausente o presente, me abandono.

Enquanto algum profeta no seu trono

Diz sobrenatural a Natureza.


Tinha gosto de mato e de queimadas

Aquela comunhão de camaradas

Feita de borracheira profundeza.


Betim - 05 06 2024

 

EXPLORAÇÕES

EXPLORAÇÕES 


Finda a estrada, que comece a aventura!

Na quebrada da encosta, em precipício,

Para as grimpas a trilha tenha início,

Serpenteando em curvas na angustura.


Do mar de morros via-se a verdura,

Enquanto o vento uivava vão bulício.

Onde quão mais bonito, mais difícil,

Seguir em desafio pela altura.


Na travessia, a cada descoberta,

O peito acelerado e o olhar alerta

Se me tornam mais ávido de vida.


D’ali eu me aproximo da distância,

E trago à solidão ainda a errância

D’outra alvorada plena e comovida.


Brumadinho - 15 08 2026

OFICINA

OFICINA


E tudo o que queria era escrever…

Isto, fazer poesia, é pôr o mundo

Por dentro da cabeça bem mais fundo 

Do que, objectivamente, o perceber.


Poetar! Como se um jeito de entender

A realidade em letras no eu profundo.

Ou sondar d'onde o sonho era oriundo

Para, com rimas vãs, enternecer.


Fábrica de poesia, o coração 

Bate mais forte quando uma intenção 

Revela insuspeitada maravilha.


Assim, vão caminhando lado a lado

Sonoridade mais significado

Onde cada palavra por fim brilha.


08 06 2026

terça-feira, 25 de agosto de 2026

POR AGORA

POR AGORA


Se o presente é ausência, em alheamento

Atravesso horas cinzas tão-somente

A topar com a angústia recorrente

Que vem me anuviar o pensamento.


Mas é o que se tem para o momento,

Esse desassossego displicente

Com que encaro o caminho à minha frente,

Distante de qualquer contentamento.


Ainda entre o que foi e o que será,

Espero uma certeza que não há

De superar o tempo em que estou.


O instante, todavia, se prolonga,

Em vista d'esta fase, curta ou longa,

Que logra rir de tudo quanto sou.


Belo Horizonte - 08 06 2025

BARATINADO

BARATINADO

Anda feito barata tonta… Qual!
Diz que manda prender, manda soltar
Ou que manda bater, manda matar;
"Mor-de que pobre é tudo marginal."

Doutor d'anel rubi etcet'ra e tal,
O engravatado vive a se exaltar,
Dando d'ombros a todos do lugar 
Como um excelentíssimo boçal!

Mas, fosse como fosse, na maciota
Corre a desenrolar, nota após nota,
A propina que azeita essa engrenagem.

Não passa d'um maldito parasita, 
Que mais que tudo e todos se acredita,
Vivendo a vida toda em fuleiragem.

Belo Horizonte - 17 08 2026

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

SOMBRA E ÁGUA FRESCA

 SOMBRA E ÁGUA FRESCA


Na curva do caminho, longe ainda,

Apenas fecho os olhos... Logo o vento

Parece m'envolver por um momento,

Em sua aragem morna-mas-bem-vinda.


A encosta tortuosa, embora linda,

Mostra-se enfim abrigo ao desalento:

Encontra a queda d'água o olhar sedento,

Enquanto n'um bosquejo a trilha finda.


Eu paro, agradecido, e me abandono

Por horas até cair quase no sono;

Só deitado na laje da cascata.


Foi como se, inundado de alegria,

A vida me abraçasse n’esse dia,

Em qu'eu me demorei em meio à mata.


Brumadinho - 15 08 2026

domingo, 23 de agosto de 2026

À REVOLUÇÃO

À REVOLUÇÃO - TRÍPTICO

LIBERDADE

Face de mulher negra americana,
Onde há marcas da vil escravidão,
Seja égide a s'erguer contra a opressão
Em vista d’uma terra soberana. 

Com ramos de café, feixes de cana,
Se ilustre a tropical conspiração.
Que do súbdito se faça o cidadão
Inundado de luz republicana.

Mas não celebrem tal independência,
Por não haver progresso nem ciência,
Enquanto entre riquezas tanta fome.

E mais do que fazer o que quiser,
Ser livre seja elevar todo o poder
Em liberdade digna d'este nome.

…………………………………………

IGUALDADE 

Não por ser homem, sim por ser humano,
Que anseio ser igual, nunca melhor.
Em regra, do menor para o maior,
Buscam nos ordenar n'um amplo plano. 

Desde que o mundo é mundo, salvo engano,
Dão a este – e não àquele – mais valor.
Por fim, quem se acredita superior
Não raro tem causado maior dano…

O macho adulto branco no comando
Espera distinguir-se, quando em quando,
Tendo-se ora mais forte; ora mais rico.

E eu, que não me sei branco ou mesmo macho,
Na velha ordem do mundo não m’encaixo,
Tão simples quanto os versos que fabrico.

.............................................................

FRATERNIDADE

Àqueles que s’entendem como “nós”,
Compartilhando origens ou memórias,
Conclamo a relustrar antigas glórias,
Fazendo-as ressoar n’uma só voz:

Cantemos na esperança mais feroz
Causas identitárias meritórias,
Em lugar de grandezas ilusórias,
Que tornem a Nação infame algoz.

Em marcha contra insana tirania,
Irmanemo-nos em torno da utopia
De ser um lar comum o nosso chão.

E que o estandarte erguido a nos guiar
Aos filhos d'esta terra possa honrar,
Por símbolo de paz e de união.

Belo Horizonte - 20 08 2026




sexta-feira, 21 de agosto de 2026

PSIU!

 PSIU!


Andavas vaporosa pela rua,

Sem me veres te ver a elegância.

Com efeito, mantinha-me à distância,

Aparvalhado co’a beleza tua:


A vasta cabeleira, a espádua nua,

A face um tanto lívida, a vaga ânsia…

Já passando por mim, uma fragrância 

Do mais lascivo almíscar se insinua.


Não me fiz de rogado, eu te chamei

Dos nomes mais bonitos que encontrei,

Mas soubeste me ignorar tanta ousadia.


Por fim, para chamar tua atenção 

Soltei n'um assobio a interjeição 

E olhei teus olhos claros como o dia.


Betim - 20 08 2026

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

PROLIXO

PROLIXO

Palavras vindo feito uma enxurrada
Em parágrafos muito, muito extensos…
Deixavam no papel os traços tensos
D'alguém atravessando a madrugada. 

Conforme a sua escrita angustiada
Trazia à lume pesares tão intensos,
A alma se consumia em contrassensos,
Face à imaginação desenfreada:

Supunha mil tragédias improváveis
Co’a certeza d'oráculos antigos,
Que punem tanto amigos que inimigos. 

E em folhas e mais folhas insondáveis
Esgota-se pela ânsia desmedida 
De sonhar a viver a própria vida.

Betim - 19 08 2026

terça-feira, 18 de agosto de 2026

O FORAGIDO

O FORAGIDO


Passados tantos anos, ninguém; nada.

O sangue derramado que o condena

Faz pensar que talvez não haja pena, 

Somente uma justiça desvairada.


Mas aquele que caiu teve a jornada

Interrompida sob a noite plena...

Obscura, a vida humana se apequena:

Não mais que uma outra sombra pela estrada!


Vivia ele a fugir do vitimado.

Prescritos tanto o crime que o castigo,

A seus olhos se vê ‘inda culpado.


Já não distingue o amigo do inimigo, 

De tudo e todos tão desconfiado,

Quem de si mesmo nunca encontra abrigo.


Belo Horizonte - 12 08 2026




quinta-feira, 13 de agosto de 2026

COAUTORIAS

COAUTORIAS


Escrevo? Não só eu. Quem lê, também. 

O intérprete reescreve, trai, traduz…

Entre o escrito e o entendido há anos-luz,

E periga inventar se não contém.


Mais atento o leitor, mais me retém

Ou menos a si mesmo me reduz.

Quando o texto não diz, ele deduz

Por linhas tortas quanto lhe convém.


Escrevo? Também eu. E quem me ler.

Logo o autoral se torna obra colectiva, 

Como se letra morta em língua viva:


Em breve correr d'olhos passe a ter

Algum sentido próprio insuspeitado,

Que já ninguém dirá se certo ou errado. 


Belo Horizonte - 13 08 2026 

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

HIPOCONDRÍACO

HIPOCONDRÍACO 


Talvez ardesse o peito; talvez não.

O vago sentimento d'estar vivo

Revela-se um anseio sem motivo,

Como algo me rondando a solidão.


Às vezes penso andar em negação,

Vendo-me empreendedor ou progressivo,

Quando surpreendo à morte o olhar furtivo,

Lasciva a me sorrir na escuridão. 


Admito, todavia, não ter nada

Além d'uma cabeça atormentada

Com doenças reais e imaginadas. 


Pelo sim, pelo não, eu remedio

Os males que me invento ao vento frio,

Saudando as alterosas neblinadas.


Brumadinho - 18 07 2026


terça-feira, 4 de agosto de 2026

DESANSIEDADE

DESANSIEDADE


Não te parece muito apenas ser?

Penso que estou onde preciso estar,

E a fazer o qu’eu preciso fazer.

O mais são ruas para caminhar…


Tenho andado sem pressa para ver

O mundo ao meu redor, certo de olhar

E incerto do que traz tanto querer,

Como fosse o porvir algum lugar.


Talvez eu seja quem posso existir.

Ao encontro do que possa ainda vir,

Aceitando-me, seja como for.


Não te parece muito apenas ir?

Penso que vou aonde conseguir.

O mais são serras para o sol se pôr.


Belo Horizonte - 30 07 2026

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

ÁRDUO VOO

 ÁRDUO VOO


Um chão alcatifado à flor de ipê

E horas de tarde morna e modorrenta…

A língua outra palavra experimenta,

Buscando nobre rima por mercê.


Soubesse de beleza sem porquê,

Nas trilhas da chapada poeirenta,

Andaria onde o sol desorienta,

Tamanha imensidão ali se vê.


Arribação de avoantes a poesia.

Meu verso em linhas tortas principia

Até saber dizer do que senti.


Carece, pois, de alturas miradouras,

Que me revelem luzes duradouras

Nas coisas distraídas que escrevi.


Belo Horizonte - 31 06 2026

quarta-feira, 22 de julho de 2026

PSIQUIÁLISE

PSIQUIÁLISE


Ter a mentalidade bitolada

Com verdades bem particulares

Ou mesmo com doutrinas basilares

Parece o mal d’esta época agitada.


Impõem, sem importar se certa ou errada,

Sua visão de mundo aos sós pensares,

Como ocupassem todos os lugares,

Pontificando tudo sobre nada…


Cansa ouvir discursar estes convictos,

Na ânsia de publicar seus veredictos,

Acerca das misérias mais humanas.


De resto, esse oceano de certezas

Distancie as extremas naturezas

Entre desesperanças quase insanas.


Belo Horizonte - 12 07 2026


quarta-feira, 15 de julho de 2026

SOLAR

SOLAR


Não há como falar do teu sorriso,

Senão como d'um sol quente a brilhar.

Não há como sequer eu cogitar

Não seres o que quero e o que preciso.


Não há como te ver e não te olhar

Como um céu que se abre sem aviso…

E ter, contigo, um dia a mais no paraíso,

Apenas com teu brilho a iluminar.


Um quadro em cores vivas, a cidade

Parece mais alegre. Na verdade,

S’espelha na lagoa em tons dourados.


Tudo isto enquanto passas pela rua…

O sol se mira em ti! E continua 

A reluzir-te os dons iluminados.


Belo Horizonte - 05 07 2026 

quinta-feira, 9 de julho de 2026

CORRERIA

CORRERIA


Ir — de cá para lá; lá para cá —

Sem perceber passar cada momento,

Faz-me pensar se a vida é movimento,

À medida que esqueço de quanto há.


Correndo, não importa aonde vá,

Vejo o mundo passar n’um sentimento

Enmimesmado e alheio a todo intento,

Para estar simplesmente agora-já.


Aos poucos ver mudar os horizontes

Da selva de edifícios contra os montes,

Enquanto avanço pelas avenidas.


Para no fim do dia, ao sol poente,

Ainda e mais além, seguir em frente,

Em busca de distâncias desmedidas.


Belo Horizonte – 07 07 2026

segunda-feira, 6 de julho de 2026

EM MAUS LENÇÓIS

EM MAUS LENÇÓIS 


É a cama onde se deita 

Ou a bela dama que se ama?

Outra vez, o mesmo drama:

Sua beleza perfeita

A idas e vindas me chama!


Drama, pois, em movimento

Põe a vida com os seus erros

Apesar dos sós desterros

Lembrados a todo momento

Nas travessias dos cerros.


Outra vez, da ânsia de ter

Ir ao tédio de possuir…

Enternecido despir

A promessa de prazer

E, após, saciado partir.


Outra vez, por bem ou mal,

Buscar em alheia alcova

Alguma esperança nova

Sempre frustrada ao final

Quando o término se prova.


Fazer amor… Dentro de mim, 

Seja engano ou desengano.

Ao malograr qualquer plano.

Reste à mente, tanto e enfim,

Somente um encontro humano.


Betim - 06 01 2026

sexta-feira, 3 de julho de 2026

DESMEMÓRIA

DESMEMÓRIA


Hoje em dia, ando sem querer lembrar.

Quando tudo é saudade e lamento, 

Há-que se desejar o esquecimento,

N’um estupor sem hora nem lugar.


Por ventura não tem merecimento

O que se aquieta para não pecar?

De modo semelhante, se olvidar

Parece mais virtuoso no momento…


Escolho desdenhar todo o passado

Ao esquecer quanto houvesse a ser lembrado,

Certo de que não vale muito a pena.


Seja mais leve a mente, pois, vazia

E indiferente a toda nostalgia,

Enquanto a vida, em sombras, se apequena.


Betim - 01 02 2026

quarta-feira, 24 de junho de 2026

INEQUÍVOCO

INEQUÍVOCO


Há quem se perca em doutas conjecturas

Acerca do que seja errado ou certo,

Dizendo-se do bem sempre mais perto,

Ao contrário dos vãos e suas agruras.


Quer, da graça presente e das futuras,

Merecimento pleno, pois, desperto

Das confusões que pôs a descoberto,

Pela enumeração de incomposturas.


Assim, lista pecados, pecadores…

E pinta o alheio inferno co’os horrores

D’uma imaginação desenfreada.


Pobre d’este que s’enche de razão,

Pois dono da verdade na ilusão

De tê-la em suas mãos melhor moldada.


Betim - 23 06 2026

terça-feira, 16 de junho de 2026

LOGOMAQUIA

LOGOMAQUIA


Se digo, não desdigas; não respondas.

Senão, do bate papo ao bate boca,

A ideia toda logo se desfoca,

Qual pedra sobre o lago a lançar ondas…


Se mostro, não demonstres; não m’escondas.

Se nem tem argumento uma mente oca,

Tampouco alguma angústia te provoca

A graça de teus ais quando me rondas.


Não buscas a verdade, antes vencer.

Mal m’escutas no afã de desdizer

E calar não por fé, mas por cansaço.


É guerra de saberes; de discursos.

Deixar desencontrados os percursos

Fazendo do diálogo embaraço.


Belo Horizonte - 09 06 2026



sexta-feira, 12 de junho de 2026

HUMANO CORPO

HUMANO CORPO


É preciso entender do que sou feito.

Carne, decerto… Se há dor ou prazer,

É porque a pele sente e, sem querer,

Ao se deixar tocar, dispara o peito.


Mas lembro-me de azares contrafeito,

Em meio a mil paixões de se perder.

Cicatrizes deixaram esse saber

De o desencanto vir de qualquer jeito.


Do clímax ao anticlímax, já vivi

Entregue a sensações e sentimentos,

E mais males que bens eu conheci.


Hoje regro melhor os meus intentos,

Confiante de encontrar, aqui e ali,

Beleza até nos dias mais cinzentos.


Betim - 01 06 2026

PASTO SUJO

PASTO SUJO


Ao longo de vertentes desmatadas,

S’elevaram mil lápides d'argila.

São cupinzeiros secos quase em fila

Por sobre troncos d'árvores cortadas.


Algures, braquiárias inclinadas,

Enquanto um vento gélido sibila…

Já ronda seriema, alta e intranquila,

Sem vacas a mugir nas invernadas.


Ora terra maninha; outrora mata,

A propriedade tem a face ingrata:

Campos desarvorados, afinal.


Por fim, andar por entre termiteiras

Faça pensar nas eras derradeiras,

Diante d’um cemitério florestal.


Brumadinho - 06 06 2026

quinta-feira, 11 de junho de 2026

MOEDA VELHA

MOEDA VELHA


Em pó, o ouro descia a serra a pé

Ou no lombo de tropas destemidas.

Típico descaminho às escondidas,

Onde cunhavam moedas de má-fé.


Hoje casa sem telhas nem sapé,

À guisa de fortim, contava as idas

E vindas pelas grimpas desvalidas.

Silente testemunha, memória é…


Lá, dobrões e dobrões encheram arcas,

Negando a quinta parte dos monarcas,

Embora a Cruz e as Quinas nas moedas.


Após ganhava as ruas e os mercados

No dinheiro corrente d'estes lados:

Dos confins do Gerais às sós veredas…


Moeda - 13 02 2026

quarta-feira, 3 de junho de 2026

LABIRINTO

LABIRINTO


Um beco desemboca n'outro beco

Até topar parede: Sem saída!

Assim parece ser a própria vida,

Quando face ao abismo responde o eco...


Sem embargo, perscruto d'olhar seco

Cada desilusão aborrecida

Ao contemplar ao fim de tanta lida

Toda a sorte de caco, entulho e treco.


Se eu, por tentativa e erro, sigo em frente

É que estou d'algum modo indiferente,

À dureza das pedras da muralha.


Prossigo porque sei o que m'espera.

Sem mais sabedoria nem quimera,

Eu vou tal como vai qualquer canalha.


Betim - 03 06 2026

terça-feira, 2 de junho de 2026

VAM'BORA

VAM'BORA


Até o fim do mundo, por que não?

Pôr-nos em movimento a contemplar…

Viver não se limite a ser e estar,

Antes um ir e vir na imensidão!


Haja sempre um convite em teu olhar

E algum lugar a ver com gratidão.

Faça luz onde houver escuridão

E possam nossos olhos s’encontrar.


Talvez, ao longo d’essa longa estrada

A gente, surpreendendo a madrugada,

Viva o melhor momento de nós dois.


Ao menos saberemos algo mais…

Deixar pó e passado para trás

Sem ânsia ao que virá logo depois.


Nova Lima - 01 06 2026

sábado, 30 de maio de 2026

EM BOA HORA

EM BOA HORA


Quando vieres, se vieres, será bom.

Serás bem-vinda, linda; estarás bem…

Virás porque me queres ver também 

E partilhar teu riso como um dom.


Se me ouves de teu nome o doce som,

É porque te chamei, constante e além,

Ao encontro de alegrias sem porém,

Dando mais cor à vida, tom por tom.


À hora que vieres, seja qual for,

Terei em minhas mãos alguma flor

E um pão para partir na travessia.


Assim, contigo ao lado, mão à mão,

Toda a hora será boa. Por que não?

Em boa hora se em boa companhia!


Nova Lima - 30 05 2026


sexta-feira, 22 de maio de 2026

INCONCLUSIVO

INCONCLUSIVO


Eu nunca saberei se sei ou não

Que mentiras eu conto para mim.

De facto, inconsciências são assim:

Tergiversar em círculos e em vão…


O que sei é ser tudo uma ilusão.

Ao menos considero — agora e enfim — 

Saltar para o vazio a trampolim,

Sem chegar a nenhuma conclusão.


O mundo há-de seguir indiferente

A toda e qualquer fúria complacente

Do que costumo ver como vitórias.


Ao fim, tão-só silêncio e desassombro.

Não restam senão pó, ruína e escombro

No terreno maninho das memórias.


Brumadinho - 16 05 2026

sexta-feira, 8 de maio de 2026

MERCADORIA

MERCADORIA 


Vende-se, por uns módicos trocados, 

Outro livro de sonetos pós-modernos.

Reunido a modestíssimos cadernos,

Contém antes equívocos que achados.


O poeta? Consta que anda sem cuidados,

A cogitar de céus como de infernos.

Às voltas co'os próprios desgovernos,

Palmeia a escuridão dos deserdados!


Mal vale quanto pesa esta leitura,

Que não julgo Arte nem Literatura:

Não tem fortuna crítica, prefácio…


Mas, se não for incômodo, comprai-o. 

Ao menos sobre a mesa, de soslaio,

O tomo pode ornar vosso palácio.


Betim - 01 05 2026

quinta-feira, 30 de abril de 2026

POR ASSIM DIZER

POR ASSIM DIZER 


Às vezes, eu m'expresso com escritas

Rebuscadas ou duras de se ler…

Nem sei se digo o qu'eu quero dizer

Face a sonoridades inauditas.


Talvez sejam tão-só frases mal ditas

Essas que então me apresso em escrever.

Talvez nem sejam versos – a saber,

Poetas têm liberdades esquisitas!


Torço e distorço as letras e as ideias,

Como buscasse sempre o inusitado,

Embora a indiferença das plateias.


De certo modo, poeto enmimesmado

A exigir do vernáculo um intento

Já muito além do mero entendimento. 


Nova Lima - 30 04 2026 

quarta-feira, 29 de abril de 2026

INTERFLÚVIO

INTERFLÚVIO


A estrada na cumeeira d'essa serra

Descortina, mirante após mirante,

Dois vales que s'estendem do Levante

Onde o olhar nas distâncias se desterra.


Percorro enternecido toda a terra,

Incerto de destinos, feito errante,

A ver a maravilha em cada instante:

Mais um que, inopinado, vereda erra…


Alturas conquistadas com fadigas

São tão mais belas quanto desejadas,

Ao longo de jornadas demoradas.


Lustrem novas memórias às antigas!

Ao buscar na beleza d’outro cume

Uma vida mais vivida por seu lume.


Brumadinho - 01 10 2025


segunda-feira, 13 de abril de 2026

MAL’AMAR

MAL’AMAR


O peito ardente, a mente em sofrimento,

O olhar fixo ou perdido no vazio;

Ter a vida em constante desvario

Vivida sem qualquer contentamento.


Vagar pelos caminhos sem intento,

A alta noite do dia mais sombrio,

Enquanto o nada clama em desafio

D'algo que dê sentido ao movimento.


Assim anda quem sente e se ressente...

Certo de pelejar feito um demente

Co'os próprios pensamentos intrusivos.


E, em sua passional celeridade,

Alterna entre murmúrios e saudade

Os mesmos rituais repetitivos.


Betim - 12 12 2025


sábado, 28 de março de 2026

VAREJEIRA

VAREJEIRA

Como quem s’entretém a espantar mosca

De sonhos na vitrina d’uma venda,

E vive em estranhíssima contenda,

Ciumento dos confeitos sobre a rosca…


Assim, eu só — nos fundos da birosca! —

Salivava às quitandas da merenda,

Sonhando para mim alguma senda

Para além d'esta vida um tanto tosca.


Era mais uma tarde. Mais um dia.

A mosca que ia e vinha, todavia,

Despertava-me do baldo devaneio.


E eu, que não sei vender nem guloseimas,

Passava horas às voltas com toleimas,

Vendo a mosca nos sonhos sem receio. 


Betim - 04 12 2025


segunda-feira, 16 de março de 2026

A MEU VER

A MEU VER


Já desconheço haver outras razões 

Além das segregadas em meu peito

Para dizer, embora contrafeito,

De tantas e totais contradições.


A despeito das doutas opiniões, 

Sobretudo d’aqueles que respeito,

Externo desventuras em proveito

Do improvável leitor d’estes senões:


Há erros que se tornam toda a vida

E bem ou mal nos moldam, à medida

Que deixamos pegadas sobre a terra.


Andemos, sem temer a tempestade!

Desertas são as ruas da cidade,

Quando da face o riso se desterra…


Betim - 11 11 2025


quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

À BOCA MIÚDA

À BOCA MIÚDA


Correm por aí boatos de que andei

Buscando solidões silenciosas

Em distâncias de serras neblinosas,

Onde viva sem fé nem rei nem lei.


Têm contado, outrossim, que desgostei

Das gentes e das terras rumorosas

A ponto d’eu dizê-las desditosas

Às raras companhias que encontrei.


Falem o que quiserem: Sigo andando

A surpreender auroras, vez em quando,

Sem ver que vão pensar a meu respeito.


Convém-me confirmar os maus cochichos:

Tornado besta-fera em meio aos bichos,

Seja eu livre do juízo mais perfeito!


Catas Altas - 02 11 2025


FAZ DE CONTA

FAZ DE CONTA


Sabes?! Quando crescer, vou ser menino:

Ocupar-me só com desimportâncias;

Deixar aos mais adultos suas ânsias

E zanzar pelas ruas sem destino.


Quanto mais velho sou, mais me amenino,

Entre imaginações e outras errâncias,

Ao gozo só de olhar para as distâncias 

No mais maravilhado desatino.


Eu quero descrescer; ser bem pequeno.

Ter para com o mundo o olhar ameno

D'alguém que já não finge o compreender


Então, talvez eu tenha uma verdade

Tão minha ou tão além da minha idade,

Até ser o melhor que eu possa ser.


Betim - 01 05 2025



quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

ESPELHAMENTO

ESPELHAMENTO 


Ela ama ver-se amada no olhar d'ele

Em lágrimas a espelhar-lhe a formosura.

Permite, enfim, que a toque com ternura

Até se lh’enrubescer a clara pele.


Ela ama o quanto ele a ama; quanto o impele.

E isto lhe parece intenso enquanto dura.

Não sabe que o amor é uma procura,

À espera que o horizonte se revele.


Diz, com todas as letras: — ”Infeliz!”

E olha nos olhos d’ele, rasos d’água,

A perfeita expressão da própria mágoa.


Conquista a solidão como se um país

Onde, sem mais espelhos, possa ver

Somente a realidade que quiser.


Betim - 04 04 2025


segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

NÃO HÁ-DE QUÊ

NÃO HÁ-DE QUÊ

Nem tanto o dia; nem tanto a hora, eu penso…
Os anos se passaram sem que a cura
À nossa insofismável amargura
Conciliasse contrários n’algo imenso.

Ainda aos pés da deusa ardia incenso,
Onde ex-votos d'amor fazem figura.
Convém fazer da perda outra procura,
Enquanto das memórias me convenço.

A dúvida permanece, todavia.
Vênus rirá, mais dia menos dia,
Em nossos corações quase outonais.

Até lá, haja luar na madrugada
A clarear o trilho incerto d'esta estrada,
Que segue em frente p'ra longe demais.

Belo Horizonte - 21 11 2025




sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

MELANCOLIA

MELANCOLIA

Pelo sim; pelo não, contemporizo
Quanto penso saber sobre esta vida.
Amar… Uma loucura desmedida!
Até que tudo acabe sem aviso.

Esqueci n’algum canto o meu sorriso
Como levasse ainda, mal contida,
A vã desilusão da despedida
A todos os lugares onde piso.

Têm sido dias muito escuros estes,
Ao longo da alameda de ciprestes,
Que conduz à mansão do esquecimento.

Sem embargo, convém seguir em frente,
N’uma vigília longa e persistente,
Malgrado caminhasse contra o vento.

Moeda - 04 10 2025



terça-feira, 6 de janeiro de 2026

LUMINOSA

LUMINOSA


Quando por lá passares, não te apresses.

Contempla, como um quadro em movimento,

A imensidão aberta ao firmamento, 

Que se ilumina enfim às tuas preces.


No pó, deixa os cuidados e os estresses,

Enquanto mira os longes contra o vento.

E encontra, para além do entendimento,

Este momento livre de interesses.


Deixa que a caminhada t'esvazie

E o sol, amanhecendo, principie

A pôr cores por toda a redondeza.


Mas, ao te despedires, não lamentes.

Antes leva contigo aos teus, ausentes,

Uma terna experiência da beleza


Campos do Jordão - 02 09 2025