quinta-feira, 8 de outubro de 2026

PAÇO DA GRÃ-VENTURA

PAÇO DA GRÃ-VENTURA


Muito distante já — no tempo e no espaço —

Vejo a felicidade que era minha:

Fugaz luzia em débil estrelinha

A indicar os pináculos do Paço!...


Ínvias trilhas seguia sem cansaço,

Certo que aquela estrela se avizinha.

Falaz luzia ou falso me sustinha

Ao longo do caminho, passo a passo.


Luz na primeira e vera primavera:

Quando a felicidade era a procura

E à procura da estrela eu feliz era.


Jaz anos-luz a estrela à Grã-Ventura!

Eu estou onde estava a estrela outr'era.

E ela ainda longe: Lá, na noite escura.


Betim - 02 05 1995

terça-feira, 6 de outubro de 2026

METICULOSO

METICULOSO

Buscava para tudo o que senti
Algo que m'explicasse outra ilusão.
— Tão ardente quisera o coração
Alguém que depois desconheci!

Todas as circunstâncias eu revi,
Ao pormenor de cada sim e não,
Até quedar de novo em solidão
E a gente se afastar, cada um por si.

Vivendo sob o império dos sentidos,
Lancei-me encantado à desventura
D'um amor e seus males consentidos.

Logo o que me restou foi amargura.
Sem respostas por meus sonhos perdidos,
Sigo às cegas alguma estrada escura...

Belo Horizonte - 04 04 1992

MIASMAS

MIASMAS

Os eflúvios nocturnos d'ares sujos,
Oriundos d'uma cloaca pantanosa,
S'espalham pela noite tormentosa
No visco de nojentos caramujos.

A tasca nauseabunda do marujos.
Empesteia a ribeira onde andrajosa
Alguma sifilítica 'inda goza
Outro cancroso amor co'os ditos cujos.

O zunido voraz dos pernilongos
Lhes ressoa à cabeça em hora vária
Ao banzo de lembrar distantes Congos...

Vem mosquitada vindo temerária
Por mundo afora; pelos cais oblongos,
Febre amarela, dengue e até malária.

Betim - 29 03 1994

MOÇAMBIQUES

MOÇAMBIQUES

A guarda se perfila p'ro folguedo
E a santa do Rosário os abençoa.
O encontro faz maior cada pessoa
Aquando do entrevero audaz e ledo.

Há gerações repetem esse enredo
Onde homens-instrumentos d'hora boa:
Em caixas, guizos, sinos mais ressoa
A música dançada desde cedo.

Ao bater uns contra outros os seus paus
Aqui vêm s'enfrentar, nem bons nem maus,
Os guerreiros com fitas mais espetos.

As lanças s'entrechocam tão ritmadas
Que a gente a batucar pelas calçadas
S'exalta face à Virgem Mãe dos Pretos!

Contagem - 14 10 1993 

MUTATIS MUTANDIS

MUTATIS MUTANDIS

O mundo tudo muda ao seu humor,
Como a bela entre a dança e contradança...
No mundo, o que não muda é a mudança,
Seja para melhor ou para pior...!

Mudando o que se deve, ao meu redor
O mundo todo muda na lembrança.
Ou melhor, eu que mudo de esperança.
Face a quem sem mais me nega amor.

Aquela que me amou não ama mais,
Pois, bela e desdenhosa de meus ais,
Dá voltas como o mundo em torno a si.

Ela mudou de ideia e de vontade.
E agora, oferecendo-me amizade,
Fez o mundo mudar qual nunca vi!

Belo Horizonte - 06 06 1995 

sábado, 3 de outubro de 2026

KANTIANO

 KANTIANO

Deus, por nos habitar a consciência,
É voz vinda de dentro sem se ouvir...
Existe porque tenho-de existir
Até eu ter, da vida, a quintessência.

As máscaras que enganam a aparência
Trago tanto a chorar quanto a sorrir.
Resta apenas berrar ao meu devir,
Na ânsia de iluminar a existência!

A lei moral que não soube escutar
Há anos ao marasmo me condena,
Visto alguma idiotia eu ter por pena.

Mesmo assim, Deus está n'esse lugar!
Assustado talvez da humanidade
Há tempos incapaz d'uma verdade...

Belo Horizonte - 06 05 1996 

JACROÁ

JACROÁ


Eu creio! São, meu Deus, lagos tão azuis
Que se vê desde os altos d'essa serra...
Vêm salpicar de céus a verde terra,
Que a manhã resplandece à plena luz.


De vera, esses baixios fazem jus
À epifania máxima do que erra
Tão longe… Em cujo encanto encerra
Beleza a revelar-se aos olhos nus.


Deus, esse desconhecido... Onde estará?
Onde senão no belo mais gratuito?
Quando senão agora e em tudo que há?


Pois. mesmo que imperfeito meu intuito
E vão meu pensamento: — "Jacroá!" —
Um pequeno saber, mas que diz muito...


Marliéria - 12 10 1993