sexta-feira, 16 de abril de 2021

DESESTRESSE

DESESTRESSE


No claustro avarandado do mosteiro,

Onde um jardim fechado sob sol pleno,

Da imensidão do mundo me apequeno,

Havendo-me, em verdade, verdadeiro.


Verdes folhas reluzem no canteiro

Como se n'algum plano ultraterreno...

E os repuxos no tanque mais sereno

Me desnudam o olhar de forasteiro.


Deixei no porticado meus anseios

E sentei, pés descalços, junto à borda

Entregue à profusão de devaneios:


Livre do que s'esquece ou se recorda,

Sentindo os males meus como se alheios,

A brisa a sussurrar me desacorda.


Betim - 15 04 2021

segunda-feira, 5 de abril de 2021

PASSARINHO

 PASSARINHO


Se você ouvir meu coração

[ bater mais forte

E ver que o amor me é uma questão 

[ de vida ou morte...


Quando você lembrar de mim

[ no fim do dia

E sorrir do que foi enfim

[ melancolia...


Enquanto o sol se põe distante 

[ e envergonhado

E a vida, desinteressante,

[ vai sem cuidado...


Canta para mim, meu passarinho! Canta...

Abre os meus ouvidos de mansinho: Encanta...!


Que então meu coração sossega

[ enternecido

Enquanto minh'alma se entrega

[ aos vãos d'Olvido.


Até de mim sua lembrança

[ será bonita

Onde a canção uma esperança 

[ já se acredita.


E o sol poderá ir embora

[ sem mais tristeza

Pois seu canto me trouxe agora

[ a sua beleza.


Canta para mim, meu passarinho! Canta...

Abre os meus ouvidos de mansinho: Encanta...!


Betim - 01 04 2021

COM CERTEZA

COM CERTEZA 


Está certa de que está certa

A que fala de tudo e todos.

Mas, dos males do mundo alerta,

Ignora-se os próprios engodos!


Tem boas falas e maus modos:

Escancarando a boca aberta,

A que fala de tudo e todos

Está certa de que está certa.


Tem sua farsa descoberta

Enquanto rasteja nos lodos

E a dúvida d'outros desperta...

A que fala de tudo e todos

Está certa de que está certa.


Betim - 04 04 2021

segunda-feira, 29 de março de 2021

CONSTERNADO

CONSTERNADO

Se tenho caminhado sem mais meta
pela rua...

Se enquanto m'embriago, na sarjeta
boia a lua...

Se em meus sonhos dormes tão inquieta;
toda nua...

Se o luar lembra no mar minha silhueta
sobre a tua...

Se então vejo brilhar-te a aura repleta
de luz crua...

Se a poesia tão pouco serve ao poeta
na dor sua...

Se a vida, mesmo quando é incompleta,
continua...

Guriri - 31 12 2020

quinta-feira, 25 de março de 2021

OS PÉS PELAS MÃOS

OS PÉS PELAS MÃOS (rondel)

Falava do que nem pensava...
Dizia o que sequer sentia!
Por parecer ser, enganava.
Para parecer ter, fingia.

Com uns, era igual cotovia.
Com outros, que nem fera brava.
Dizia o que sequer sentia...
Falava do que nem pensava!

Para se afirmar, renegava:
Para tudo e todos mentia
O que de si mesmo ocultava.
Dizia o que sequer sentia...
Falava do que nem pensava!

Betim - 25 03 2021

terça-feira, 23 de março de 2021

TRAJECTÓRIA

TRAJECTÓRIA 


Há pessoas que encontram a poesia ao longo de suas vidas. Umas entendem que ela faz perceber através das palavras o inusitado nas pessoas e nas coisas. Outras, por outro lado, escrevem para si mesmas n'um movimento cada vez mais profundo dentro de si mesmos. Creio que me identifico com o segundo tipo... Escrevo desde a adolescência e sigo escrevendo, embora já um homem de meia idade. Nunca o fiz por desejar notoriedade ou deixar por meio das letras algum legado. Na verdade, não me importo muito com a indústria literária ou de entretenimento: Jamais pretendi viver da escrita, ao contrário,  sempre reservei o direito de, ao menos nos versos d'um poema, ser totalmente livre do mundo e suas responsabilidades. Escrevo poesia, talvez, porque quase ninguém paga para ler.  Quem leu, leu porque quis e gostou porque achou bom. Nunca me motivou o comercial nem o acadêmico da Literatura. Logos, não escrevo para vender livros ou ou gerar teses de mestrado.


Trajectória, dizem alguns, é o caminho descrito por algo em movimento. Sou um poeta em curso que bem recentemente começou a expor seus escritos para a incompreensão alheia. Sim, para não quer vender seus alfarrábios as páginas virtuais facilitaram muito as coisas. Comecei a publicar poemas na web apenas em 2015, embora já escrevesse há 24 anos...!  Ocupei alguns espaços; afastei-me d'outros, mas jamais me deixar pelo compadrismo literário de aplaudir para ser aplaudido. 


Em tempo: Divido com minha precária ocupação de poeta a pretensão de ser fotógrafo e a responsabilidade de ser arquiteto. Pago minhas contas com projetos enquanto devaneio com letras. Os instantâneos?  Penso ser outra crise de meia idade! Penso ser feliz com tudo o que faço, bem ou mal, mas devo confessar que preocupo os mais próximos com essa mania de escrever sempre que posso. Hipérgrafo, dizem de mim os entendidos... Mas, oportuna ou inoportunamente, viver entre as letras tem me ajudado a ser com mais profundidade tudo o que sou.


Escrevo, mais amiúde, versos de forma fixa, isto é, com estrutura estrófica, metro, ritmo e rima. Escrevo versos livres também, por via de regra, quando aflitos demais para caber em esquemas. Vez em quando, prosaico, arrisco um conto ou uma crônica. Escrevi um romance: PASSIONAL - Notas d'um bilhete suicida, mas não tive dinheiro para imprimir e publicar. Não muito raro, pago uns tostões para ser lido em antologias, mas com tanta discrição que eu mesmo me esqueço que contribuí para elas. Gosto quando alguém senta para conversar comigo sobre poesia, mas ainda é algo muito raro. Às vezes encontro uma turma legal para teclar e trocar impressões, ainda que a maioria dos literatos deseje sobretudo ser declarado gênio antes dos vinte anos...


Eu não. Até porque tenho mais de quarenta!


Betim - 11 03 2031

RAIO DE SOL

RAIO DE SOL


Raia o sol enquanto ela me sorri

E outro dia alvorece na janela.

Alegria e beleza os lábios d'ela

Entreabertos ao beijo... Bem ali...!


É assim desde qu'eu a conheci:

Um sol em seu sorriso se revela

Como se a própria luz surgisse n'ela

E todo um Universo houvesse em si. 


Acordar ao seu lado todo dia

É ter nos olhos cheios de ternura

Dois espelhos onde ela reluzia!


É uma mulher feita de luz pura,

A doce amada em minha companhia,

Que me acorda sorrindo com candura.


Betim - 21 03 2021