segunda-feira, 21 de setembro de 2026

À PARTE

À PARTE 

  

Se partes me suporto entorpecido

E trôpego das pedras do caminho...

Se ponho a recompor-me o desalinho

Suponho-me pior que um desvalido.

 

Se me porto por fim surpreendido,

Procuro palmilhar por teu carinho;

Se por ti eu só — somente e sozinho —

Agora o coração tenha partido.

 

Se, a par das promessas de prazer,

Apartado da luz de teu sorriso,

Eu me sinto sem ti a anoitecer.

 

À parte tudo, volta! Vem, preciso...

Que eu torne a ser inteiro em te querer

Ou perca o que me resta de juízo.

 

Belo Horizonte - 10 09 1992


EPÍLOGO

EPÍLOGO

 

Musas, silenciai. Vem a noite... Está tarde.  

Há pouco o sol se pôs; eis o ocaso, afinal... 

E desde o início quer a história algum final,  

Que, pela escuridão, o seu silêncio atarde.  

  

Quietas ― lira e flauta ― em triste cair de tarde.  

Se o moderno s’escusa em lembrar do imortal,  

Os deuses morrem sim, de morte natural...  

Enquanto um velho livro por fogueiras arde.  

  

Vós, musas, repousais há muito adormecidas!  

O artista ousa criar, mas já não lhe compete,

Pois, mesmo que acordais, nunca sereis ouvidas.  

  

Há ruído demais! Hoje o óbvio se repete!... 

Foram as artes todas por fim esquecidas:  

A Humanidade bebe as águas vãs do Lete.  

  

Betim - 03 09 1995

VERSOS ALEXANDRINOS

VERSOS ALEXANDRINOS

 

Conta, musas, ainda El Libro d'Alexinde, 

Sobre Alexandro Magno, El-Rey de Macedônia, 

A História fabulosa, muito embora idônea, 

Co'os feitos d'armas seus, que o tornaram o Grande. 

 

O império, d'Europa à Índia, célere s’expande: 

Ocidente e Oriente une ao tomar Babilônia. 

Dest'arte, a flauta frígia em duo co'a lira jônia 

Tocam enquanto, no ar, forte o seu gládio brande! 

 

El Libro d'Alexinde, em átrios paladinos, 

Lembrava a erudição da vasta Alexandria, 

Dois milênios após! Em meio a desatinos... 

 

Helenisticamente, entretém-me a harmonia 

De lira e flauta, a ver — versos alexandrinos — 

Doze sílabas dão belo metro à poesia. 

                                                          

               *               *               * 

A MÚSICA DE MÁRSIAS

A MÚSICA DE MÁRSIAS

  

—“Música, arte das musas! Eis, Euterpe, a flauta.  

Se desafio Apolo a tocar algo belo,  

Me arrisco ao perder a perder o meu pelo...  

Lanço-me, temerário, n’uma aposta incauta."  

  

"Saio da sombra e espalho sons, pauta após pauta.  

Eu encanto, entretanto, tocando com zelo  

A minha melodia como um suave apelo

Às musas que m’escutam cantos de argonauta"  

  

"Volta a música, enfim, ao que fora vivida,  

Certo ser a Natura imensa sinfonia,  

Em cujas belas leis compõe-se toda a vida."  

  

Ao murmuro do vento, além da serrania,

Se fez arte, afinal, para ser ouvida:  

N’um pipitar d’ave, eu sopro a melodia."  

                                                                 

               *               *               * 

domingo, 20 de setembro de 2026

AO QUE PARECE

AO QUE PARECE


Nem tudo que se ajunta à mão é feixe…

Nem tudo que estrepa no pé é trave…

Fosse moléstia, seria a mais grave…

Fosse crime, tarde demais se queixe…


Nem tudo que nada no mar é peixe…

Nem tudo que voa no céu é ave…

Fosse porta, ninguém teria a chave…

Fosse morada, nada ali se deixe…


O amor, aquela história mal contada,

Que toda a gente busca, inebriada,

Para no fim dizer ter se iludido.


O amor, um salto sobre o vazio,

Que a vida traz em tom de desafio

Qual se quisesse dar algum sentido.


Betim - 10 10 2025

WORST-SELLERS

WORST-SELLERS

Quem poeta não espere ser vendido
“Nas bancas das melhores livrarias…”
Antes, de indiferença e bizarrias
Viva a sua carreira sem sentido.

Escreve, todavia, o verso havido
E não o encomendado a editorias.
Por ter, sem agradar às burguesias
A liberdade d'um desconhecido.

Se jamais s‘especula das tendências 
Tampouco se iludia com audiências,
Como estivesse a falar em línguas mortas.

Deixará manuscritos na gaveta,
Enquanto o depreciam como esteta:
“Mais um escrevedor de rimas tortas…”

Belo Horizonte - 02 09 2026

O CANTAR DE APOLO

O CANTAR DE APOLO 

 

— "Canto d’Amor, Erato, a sua desventura. 

Eu que lhe ria do uso dado a suas setas,

Fui ferido d'amor, tal-qual vossos poetas. 

Encantado por Dafne, ninfa bela e pura..." 

 

"Vendo-a, logo me atrai tamanha formosura. 

Eu me apresento à lira... Canto obras diletas. 

Mas, Amor quis vingança e desgraça completas: 

Pondo-a avessa a mim, foge na mata escura..." 

 

"... E não alcanço a ninfa a correr trilha afora: 

Em pânico, mudou-se em árvore de louro 

Junto ao rio Pereu, conjurado àquela hora" 

 

"De louros coroado, olho o dia vindouro:

Desde o primeiro Sol, tento tocar a Aurora, 

Sem lhe alcançar, porém, o belo coche d’ouro..." 

 

  

               *               *               *