sexta-feira, 30 de outubro de 2026

ONIRONAUTA

ONIRONAUTA


Fecho meus olhos e vejo teu rosto

Posto a me sorrir; posto a me ferir;

A me insistir no engano de insistir,

Tanto faz com gosto ou com desgosto…


Teu rosto… Um outro sonho - aposto! -

Que sei navegar, lúcido, a dormir:

Ver, d’olhos fechados, esse porvir

Desejado com quem eu tanto gosto.


Um mundo bem melhor, contigo sonho

E quanto n’ele vejo eu te proponho

N'alguma bizarrice surreal.

 

Talvez nem de carne e osso possas ser

Ao menos nos meus sonhos, vem viver,

Senão como mulher, como ideal.

 

Betim - 12 07 1992

AZIMUTE

AZIMUTE

Eu pelo mar do amor ía por rumo
Co'a bússola apontando para ti.
Um Norte nos teus olhos presumi,
Ao navegar mais longe que costumo. 

Inopinadamente eu me perdi,
Buscando na distância incerto fumo,
Enquanto o coração em desarrumo
Cobrava todo o mar que percorri.

Agora, outro azimute necessito,
Sob pena que, à deriva, siga aflito,
Sem nada além da linha do horizonte.

Tu, sereia no atol do fim do mundo,
Deixa-me te abraçar no mar profundo 
Ou no Oriente o sol enfim desponte. 

Belo Horizonte - 07 07 1992


SÓ AO SOL

SÓ AO SOL

Alimento de ideias minha mente.
Vou aonde m’encontro; o meu lugar.
Eu – só ao sol – no icário divagar,
Voo d’asas de cera displicente.

Voo livre, preocupando-me somente
Com o calor do sol alto a queimar,
Embora o olhar perdido sobre o mar,
Vagueie na distância à minha frente.

Plantado, eu sintetizo a luz do sol
Sonho d'olhos abertos a Ideação
Realizada, enfim, d’algo irreal.

Não só a acompanhar qual girassol,
Tampouco tendo ao sol má devoção…
Eu faço é fotossíntese mental!

Vila Velha - 07 05 1992


quinta-feira, 29 de outubro de 2026

ATRAVÉS DA NOITE

 ATRAVÉS DA NOITE

As lâmpadas dos postes, acendidas,
Clamavam pela noite ao lusco-fusco.
O largo se ilumina um tanto brusco
E sombras avançando desmedidas.

Caminho sem saber pelo que busco,
Andando por extensas avenidas.
Na sarjeta de esquinas desvalidas
A lua em poças d'água enfim ofusco…

Sinos de vento soem a xilofone
Desde escuras varandas algo ledo,
Antes que até eu mesmo me abandone. 

Por não saber do amor o seu segredo,
Hei-de vagar por toda a noite insone
Até que nasça o sol logo bem cedo. 

Belo Horizonte - 01 09 1992

CORADA

CORADA

Eu sei de cor a cor d'aquela face,
Que de sangue e de sol via corada.
Sempre a fiz em meus versos celebrada,
Como se jamais pálida ficasse.

Quis o Fado que d’ela m'encantasse,
Por anos lhe seguindo a mesma estrada.
Até que a última lágrima rolada
Pusesse fim ao nosso breve enlace.

Porém, por caridade d’esta vida,
Lhe sinto uma saudade desmedida,
Que não raro me aquece o coração.

Um rubor que recordo tão bonito,
Que, mesmo se existir, não acredito
Haver como ela alguém cor de paixão.

Belo Horizonte - 07 07 1994


STELLIUM

STELLIUM


Já não exista em mim tão-só tristeza;

Algo de bom augúrio aconteceu:

Depois de anos, o meu olhar e o teu,

Alinhados n'uma eclíptica beleza.


Como ler os sinais da Natureza?

Dos mistérios do Fado, que sei eu?

De encontro em desencontro, sucedeu 

Teres comigo tal delicadeza.


De novo vejo a vida me sorrir 

E o céu, todo estrelado, enfim se abrir,

Tendo de Marte e Vênus a fortuna.


Embora tudo mude, que a mudança 

Renove em nossos olhos a esperança…

Que, felizes, o Fado não nos puna.

 

Belo Horizonte - 01 09 1992

RETRATO

RETRATO

Em vão tentei lembrar de cor teu rosto
N’uns esboços a lápis de carvão .
N’eles, porém, eu pus minha ilusão
Que em forte sombrear tinha composto.

Não fui muito realista, por suposto,
Tanto as mãos me tremiam de emoção.
Tampouco foi feliz tua expressão:
D’olhos baixos e baços de desgosto. 

Lembrava antes o drama que a beleza,
Das últimas miradas, na certeza
De que eu não te veria nunca mais.

Mas eu, tendo no olhar ainda a chama,
Te soube desenhar como quem ama
E te visse em lampejos irreais.

Belo Horizonte - 09 09 1992