quinta-feira, 22 de outubro de 2026

GATAIADA

GATAIADA


Ouvi dizer que, à noite, os gatos todos
Diante de nossos olhos ficam pardos.
Ao menos, que seriam todos tardos,
Na madrugada a miar parvos engodos.

A gente passa e vê seus tristes modos
Sobre muros, lixeiras, sacos, fardos...
Com típica estridência de bastardos
Ou senão de acrobáticos rapsodos.

Sem embargo, da noite faz seu dia
Aquela incontornável gataria,
Circulando; sem ter o que fazer.

Talvez invejem sua liberdade
Tantos que vêm e vão pela cidade
A ter na escuridão ócio e prazer.

Belo Horizonte - 20 10 2017






VEM VER

VEM VER

Vem ver! Vem ver, querida, o sol se pôr!
Vem ver, em nuvens d'ouro, o dia findo,
Enquanto o sol nas serras vai sumindo,
Levando o nosso olhar aonde for.

Vem comigo... A falar ou não de amor.
O mundo pode ser de novo lindo,
Apesar dos pesares nos ferindo
E tantas horas sós em meio à dor.

Se tudo está tão triste, como dizes,
Talvez vir contemplar imensidades
Nos faça um pouco menos infelizes.

Vem ver do pôr-do-sol as claridades:
Que as luzes do arrebol, com seus matizes,
Nos levem as tristezas e saudades!

Belo Horizonte – 09 08 1991

quarta-feira, 21 de outubro de 2026

ENSEADA

ENSEADA

 

Valha a vela que leva pelo vale

À velha vila onde vi envilecida,

Nas valas e vielas, a sabida

História dos Irmãos de Carnevale!


Sobre a mais alta penha ainda fale 

A gente pressurosa e presumida

D'essa morte do monge em sua ermida

Pelas mãos d'um irmão com o seu xale…


Vale de perdição veleja o frade, 

Que evade da vila p’ra cidade

Na ânsia de ocultar sua fúria imunda


Mas ainda a cruzar pela enseada,

Com os olhos perdidos para o nada,

Sumiu-se na maré escura e funda.


Vitória - 05 05 1992

terça-feira, 20 de outubro de 2026

MINGUANTE

MINGUANTE 

 

Míngua a lua no céu. Míngua no chão

O luar que clareia a minha estrada.

Embora seja pouca; quase nada

A luz da meia lua em seu clarão.   


À míngua está também meu coração,

Tão mal amado e só na madrugada,

Face àquela minguante mais minguada,

No fim de sua cíclica feição.


Talvez porque imagem d’um amor

Que outro dia surgiu com novo ardor

No céu de minha vida até ser pleno.


Contudo, já sem brilho, se despede.

E esse fio de luz que me concede,

É que agora me guia no sereno.


Belo Horizonte - 31 08 1991

QUERER BEM

 QUERER BEM


Quem me dera querer-me o bem-querer!

Quisera esta quimera bem real…

Pois quero o seu querer sem outro igual 

A qualquer outro bem que possa haver.


Quer tenha a ganhar; quer tenha a perder,

Pudera como outr’era, tal-e-qual,

De novo ter seu bem que me faz mal,

Porque querendo quase sem querer.


Quem me dera que a mim quisesse bem

A que n’uma hora vai e n’outra vem

Sorrindo com seus olhos furta-cor.


Queira Deus que por fim ela me queira

Até que, por carinho ou por canseira,

De tanto querer bem me tenha amor.


Belo Horizonte - 23 08 1991

LIMÍTROFE

 LIMÍTROFE 

A coisa só piora, ou melhor, melhora.
À medida que a vida degringola,
A gente olha p’ra si meio pistola
Sem saber quando ri ou quando chora.

Qualquer dia, o mal d’alma ao corpo aflora…
Em vista do pescoço na degola,
O mundo, após arder-nos a caixola,
Qual fósforo queimado joga fora.

Olham e dizem: “Outro que surtou!”
A rima, tão monótona, imitou
Seu próprio dia a dia tão insosso.

E dão de ombros: “Mais um que se perdeu…”
Quem se souber limítrofe como eu
Acabará no fim tendo algum troço!

Belo Horizonte - 26 04 2021

segunda-feira, 19 de outubro de 2026

CORAÇÃO DOS OUTROS

 


CORAÇÃO DOS OUTROS


Querem n'uma modinha a solitude
De quem tivesse alguém no coração!
Se é tudo n'essa vida uma ilusão,
Sobretudo para aquele que se ilude...


Alguns chamam d’amor a inquietude
Que me atravessa as letras da canção.
Presumir sentimento fosse opção,
Ninguém hesitaria ante o desnude!


No coração dos outros, a saudade

Traz com triste canção alegre palma

Para em canções sofrer com falsidade


Certos que a dor alheia a própria acalma,
Não julguem se mentira ou se verdade
Tudo o que tem passado por minh’alma.


Betim - 03 03 1992