domingo, 20 de setembro de 2026

LESS-SELLERS

LESS-SELLERS

Quem poeta não espere ser vendido
“Nas bancas das melhores livrarias…”
Antes, de indiferença e bizarrias
Viva a sua carreira sem sentido.

Escreve, todavia, o verso havido
E não o encomendado a editorias.
Por ter, sem agradar às burguesias
A liberdade d'um desconhecido.

Se jamais s‘especula das tendências 
Tampouco se iludia com audiências,
Como estivesse a falar em línguas mortas.

Deixará manuscritos na gaveta,
Enquanto o depreciam como esteta:
“Mais um escrevedor de rimas tortas…”

Belo Horizonte - 02 09 2026

O CANTAR DE APOLO

O CANTAR DE APOLO 

 

— "Canto d’Amor, Erato, a sua desventura. 

Eu que lhe ria do uso dado a suas setas,

Fui ferido d'amor, tal-qual vossos poetas. 

Encantado por Dafne, ninfa bela e pura..." 

 

"Vendo-a, logo me atrai tamanha formosura. 

Eu me apresento à lira... Canto obras diletas. 

Mas, Amor quis vingança e desgraça completas: 

Pondo-a avessa a mim, foge na mata escura..." 

 

"... E não alcanço a ninfa a correr trilha afora: 

Em pânico, mudou-se em árvore de louro 

Junto ao rio Pereu, conjurado àquela hora" 

 

"De louros coroado, olho o dia vindouro:

Desde o primeiro Sol, tento tocar a Aurora, 

Sem lhe alcançar, porém, o belo coche d’ouro..." 

 

  

               *               *               * 

sábado, 19 de setembro de 2026

O SUPLÍCIO DE MÁRSIAS

O SUPLÍCIO DE MÁRSIAS

 

Eis, Terpsícore, todo o Lírico sentido, 

Que a vida humana tem quando de sua morte. 

Ter que sua arte é tudo e nada mais importe 

Senão morrer pel’Arte em que havia vivido. 

 

Mársias, sujeito a Apolo ao se ver vencido, 

Fora estirado a um pinho robusto, de porte. 

Lá, um escravo amola à falcata seu corte, 

A imolar Mársias ante Apolo ressentido. 

 

Sátiros, faunos, ninfas... Vendo tal crueza. 

Choraram tristes todo um rio derramado, 

Indo as canas da flauta em forte correnteza...

 

Da pele d’ele, fez-se um odre enfeitiçado 

Que, se tocam a flauta, agita com presteza; 

Mas, se tocam a lira, ouve petrificado. 

  

               *               *               * 


GUERRA DE MELODIAS

GUERRA DE MELODIAS 

  

Grã Calíope, recordo em músicas grande Épico 

Onde Mársias e Apolo apostam o mor efeito 

Quem obtém... Ou quem toca ainda mais perfeito 

E qual melhor compõe... Ou mesmo o senso estético 

  

Apolo faz ouvir d’uma ária o tom profético, 

Mas Mársias, com um trote alegre, pôs afeito 

Todo aquele conselho, em cujo alto conceito, 

Fora elevado enfim sob o seu ar magnético. 

  

Após, cantando, Apolo a todos arrebata. 

Visto que une a poesia à música no encanto, 

Somando voz e lira em plena serenata. 

  

Mársias contesta então: Não usara ele o canto! 

Apolo diz que igual com boca e dedos trata... 

Vencedor, suplicia o vil por ousar tanto. 

 

                      *          *          * 

FEBO-APOLO

 FEBO-APOLO

  

Pelo astro rei, Urânia, olhai a Astronomia: 

Estrela a luzir sobre a abóboda celeste... 

De todo o firmamento o senhor inconteste 

E à Natura regendo a infinita harmonia. 


O sol, que desde o início os dias definia, 

Navega pelos céus o seu curso leste-oeste.

Se antes provê saúde; após, envia peste... 

Senhor do porvir: O que tudo antes via.


Febo-Apolo, esplendente, atravessa dest'arte 

Os céus e empunha a lira entre notas difusas 

Seus concertos de luz áurea em toda a parte. 


Ei-lo, enfim, musageta: Ao cortejo das musas!

― "Sigo a vos conduzir por obras d'engenho e arte, 

 Reinando como o sol, sem pejos nem escusas."        

MÁRSIAS CÔMICO

 MÁRSIAS CÔMICO


Cesse a tristeza, Tália; à Comédia se cante!  

Que rir é para a dor excelente remédio.  

Que eu vos cantar tão-só há-de vencer o tédio.  

Que a vida, absurdamente, é muito interessante.  

  

Inspirai, Tália, em Baco, o vinho inebriante!  

Embriagai-me a voz muito acima do médio,

Eu ― por cômico e vão ― acorde todo o prédio

Ou ― por lírico e só  ― às tristezas espante...

  

Sátiros, a cantar este Mársias burlesco,  

Encenavam-no tonto, a vagar por bacanais. 

Feito opereta, pois, do trágico ao grotesco.  

  

Afogados em vinho os desejos carnais, 

Em festa vêm saudá-lo mito carnavalesco:  

Entrudo popular, de antigos carnavais...

  

                      *          *          * 

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

A MULHER DE MILO

A MULHER DE MILO

 

Esculpo no teu corpo o meu desejo 

E, em mármore, o deixei à eternidade! 

Como se te fixasse a mocidade 

Na nudez gloriosa que cotejo.” 

 

Promessas de prazeres antevejo, 

Onde Beleza torna-se Verdade. 

E os deuses, face à tua majestade, 

De Citereia ouviram: — “Eu a invejo!...” 

 

Erguendo a tua face desde o Olimpo, 

Impõe-te das alturas admirada 

Como a mais alva estrela no céu limpo. 

 

Tu sorris, sereníssima, à homenagem 

Da multidão a ver embasbacada 

Aquela que de Vênus fez-se imagem. 

 

Betim – 23 05 1995