sábado, 19 de setembro de 2026

AO PÉ DO OUVIDO

AO PÉ DO OUVIDO

Se eu derramar um verso em teus ouvidos
E, encantada, me olhares com ternura,
Talvez as rimas valham-me a procura,
Na lembrança dos sonhos esquecidos.

Rebuscaria à língua desmedidos
Louvores pela tua formosura…
Para as letras encher de calentura,
Na fé de me sorrires dos pedidos.

Então — somente então — tudo o que sinto
Arrancará da escrita uma grandeza
Capaz de enaltecer tua beleza.

Mesmo um poeta menor — não o desminto —
Ao menos te contar como te vejo
Faça corar teu rosto n’um gracejo.

Belo Horizonte - 12 08 1996  


GUERRA DE MELODIAS

GUERRA DE MELODIAS 

  

Grã Calíope, recordo em músicas grande Épico 

Onde Mársias e Apolo apostam o mor efeito 

Quem obtém... Ou quem toca ainda mais perfeito 

E qual melhor compõe... Ou mesmo o senso estético 

  

Apolo faz ouvir d’uma ária o tom profético, 

Mas Mársias, com um trote alegre, pôs afeito 

Todo aquele conselho, em cujo alto conceito, 

Fora elevado enfim sob o seu ar magnético. 

  

Após, cantando, Apolo a todos arrebata. 

Visto que une a poesia à música no encanto, 

Somando voz e lira em plena serenata. 

  

Mársias contesta então: Não usara ele o canto! 

Apolo diz que igual com boca e dedos trata... 

Vencedor, suplicia o vil por ousar tanto. 

 

                      *          *          * 

FEBO-APOLO

 FEBO-APOLO

  

Pelo astro rei, Urânia, olhai a Astronomia: 

Estrela a luzir sobre a abóboda celeste... 

De todo o firmamento o senhor inconteste 

E à Natura regendo a infinita harmonia. 


O sol, que desde o início os dias definia, 

Navega pelos céus o seu curso leste-oeste.

Se antes provê saúde; após, envia peste... 

Senhor do porvir: O que tudo antes via.


Febo-Apolo, esplendente, atravessa dest'arte 

Os céus e empunha a lira entre notas difusas 

Seus concertos de luz áurea em toda a parte. 


Ei-lo, enfim, musageta: Ao cortejo das musas!

― "Sigo a vos conduzir por obras d'engenho e arte, 

 Reinando como o sol, sem pejos nem escusas."        

MÁRSIAS CÔMICO

 MÁRSIAS CÔMICO


Cesse a tristeza, Tália; à Comédia se cante!  

Que rir é para a dor excelente remédio.  

Que eu vos cantar tão-só há-de vencer o tédio.  

Que a vida, absurdamente, é muito interessante.  

  

Inspirai, Tália, em Baco, o vinho inebriante!  

Embriagai-me a voz muito acima do médio,

Eu ― por cômico e vão ― acorde todo o prédio

Ou ― por lírico e só  ― às tristezas espante...

  

Sátiros, a cantar este Mársias burlesco,  

Encenavam-no tonto, a vagar por bacanais. 

Feito opereta, pois, do trágico ao grotesco.  

  

Afogados em vinho os desejos carnais, 

Em festa vêm saudá-lo mito carnavalesco:  

Entrudo popular, de antigos carnavais...

  

                      *          *          * 

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

A MULHER DE MILO

A MULHER DE MILO

 

Esculpo no teu corpo o meu desejo 

E, em mármore, o deixei à eternidade! 

Como se te fixasse a mocidade 

Na nudez gloriosa que cotejo.” 

 

Promessas de prazeres antevejo, 

Onde Beleza torna-se Verdade. 

E os deuses, face à tua majestade, 

De Citereia ouviram: — “Eu a invejo!...” 

 

Erguendo a tua face desde o Olimpo, 

Impõe-te das alturas admirada 

Como a mais alva estrela no céu limpo. 

 

Tu sorris, sereníssima, à homenagem 

Da multidão a ver embasbacada 

Aquela que de Vênus fez-se imagem. 

 

Betim – 23 05 1995

MÁRSIAS TRÁGICO

MÁRSIAS TRÁGICO  

  

Vão Mársias, Melpomene: Uma Tragédia a vida  

Tão-só vivida a obter da música prazer...  

Um que, tão talentoso, intentara vencer  

O próprio deus Apolo em musical partida.

  

Vós, Melpomene, sendo em juízo escolhida,  

Junto a vossas irmãs, lograstes conceder  

Vitória ao que melhor músico parecer,  

Com submissão de quem cuja obra ver vencida.

  

Mársias vence co'a flauta o seu primeiro embate.  

Apolo após, porém, cantando é persuasivo...  

Sua voz acompanha a lira e obtém o empate!

  

Vence, por fim, Apolo: A Mársias faz captivo.  

Indignando o divino um mortal que o combate,  

Febo, impiedosamente, o esfola ainda vivo. 

 

*          *          *    

DESAFIO MUSICAL

DESAFIO MUSICAL

  

Canto-vos, oh Polímnia, à Eloquência regente!  

Canto um canto que é muito mais que uma canção.  

Canto um artista audaz contra o deus da criação.  

Canto em meu canto, oh musa, a verdade somente.  

  

Elevai-me, entretanto, a voz mais eloquente.  

Com palavras, falai à mente e ao coração,  

Para que, mais que sons, tragam-nos emoção,  

E enfim, quem as ouvir, não fique indiferente.  

  

À lira, sete cordas... Perfeito tocava  

Apolo — deus heleno: O que a todos inspira,  

E, ao dedilhar a lira, a pedras encantava!  

  

À flauta, sete tubos... Místicos sons tira  

Mársias — mito sileno: O que águas transbordava...  

Eis, por tamanho feito, a flauta contra a lira!  

 

                     *          *          *