quarta-feira, 15 de julho de 2026

SOLAR

SOLAR


Não há como falar do teu sorriso,

Senão como d'um sol quente a brilhar.

Não há como sequer eu cogitar

Não seres o que quero e o que preciso.


Não há como te ver e não te olhar

Como um céu que se abre sem aviso…

E ter, contigo, um dia a mais no paraíso,

Apenas com teu brilho a iluminar.


Um quadro em cores vivas, a cidade

Parece mais alegre. Na verdade,

S’espelha na lagoa em tons dourados.


Tudo isto enquanto passas pela rua…

O sol se mira em ti! E continua 

A reluzir-te os dons iluminados.


Belo Horizonte - 05 07 2026 

quinta-feira, 9 de julho de 2026

CORRERIA

CORRERIA


Ir — de cá para lá; lá para cá —

Sem perceber passar cada momento,

Faz-me pensar se a vida é movimento,

À medida que esqueço de quanto há.


Correndo, não importa aonde vá,

Vejo o mundo passar n’um sentimento

Enmimesmado e alheio a todo intento,

Para estar simplesmente agora-já.


Aos poucos ver mudar os horizontes

Da selva de edifícios contra os montes,

Enquanto avanço pelas avenidas.


Para no fim do dia, ao sol poente,

Ainda e mais além, seguir em frente,

Em busca de distâncias desmedidas.


Belo Horizonte – 07 07 2026

segunda-feira, 6 de julho de 2026

EM MAUS LENÇÓIS

EM MAUS LENÇÓIS 


É a cama onde se deita 

Ou a bela dama que se ama?

Outra vez, o mesmo drama:

Sua beleza perfeita

A idas e vindas me chama!


Drama, pois, em movimento

Põe a vida com os seus erros

Apesar dos sós desterros

Lembrados a todo momento

Nas travessias dos cerros.


Outra vez, da ânsia de ter

Ir ao tédio de possuir…

Enternecido despir

A promessa de prazer

E, após, saciado partir.


Outra vez, por bem ou mal,

Buscar em alheia alcova

Alguma esperança nova

Sempre frustrada ao final

Quando o término se prova.


Fazer amor… Dentro de mim, 

Seja engano ou desengano.

Ao malograr qualquer plano.

Reste à mente, tanto e enfim,

Somente um encontro humano.


Betim - 06 01 2026

sexta-feira, 3 de julho de 2026

DESMEMÓRIA

DESMEMÓRIA


Hoje em dia, ando sem querer lembrar.

Quando tudo é saudade e lamento, 

Há-que se desejar o esquecimento,

N’um estupor sem hora nem lugar.


Por ventura não tem merecimento

O que se aquieta para não pecar?

De modo semelhante, se olvidar

Parece mais virtuoso no momento…


Escolho desdenhar todo o passado

Ao esquecer quanto houvesse a ser lembrado,

Certo de que não vale muito a pena.


Seja mais leve a mente, pois, vazia

E indiferente a toda nostalgia,

Enquanto a vida, em sombras, se apequena.


Betim - 01 02 2026

quarta-feira, 24 de junho de 2026

INEQUÍVOCO

INEQUÍVOCO


Há quem se perca em doutas conjecturas

Acerca do que seja errado ou certo,

Dizendo-se do bem sempre mais perto,

Ao contrário dos vãos e suas agruras.


Quer, da graça presente e das futuras,

Merecimento pleno, pois, desperto

Das confusões que pôs a descoberto,

Pela enumeração de incomposturas.


Assim, lista pecados, pecadores…

E pinta o alheio inferno co’os horrores

D’uma imaginação desenfreada.


Pobre d’este que s’enche de razão,

Pois dono da verdade na ilusão

De tê-la em suas mãos melhor moldada.


Betim - 23 06 2026

terça-feira, 16 de junho de 2026

LOGOMAQUIA

LOGOMAQUIA


Se digo, não desdigas; não respondas.

Senão, do bate papo ao bate boca,

A ideia toda logo se desfoca,

Qual pedra sobre o lago a lançar ondas…


Se mostro, não demonstres; não m’escondas.

Se nem tem argumento uma mente oca,

Tampouco alguma angústia te provoca

A graça de teus ais quando me rondas.


Não buscas a verdade, antes vencer.

Mal m’escutas no afã de desdizer

E calar não por fé, mas por cansaço.


É guerra de saberes; de discursos.

Deixar desencontrados os percursos

Fazendo do diálogo embaraço.


Belo Horizonte - 09 06 2026



sexta-feira, 12 de junho de 2026

HUMANO CORPO

HUMANO CORPO


É preciso entender do que sou feito.

Carne, decerto… Se há dor ou prazer,

É porque a pele sente e, sem querer,

Ao se deixar tocar, dispara o peito.


Mas lembro-me de azares contrafeito,

Em meio a mil paixões de se perder.

Cicatrizes deixaram esse saber

De o desencanto vir de qualquer jeito.


Do clímax ao anticlímax, já vivi

Entregue a sensações e sentimentos,

E mais males que bens eu conheci.


Hoje regro melhor os meus intentos,

Confiante de encontrar, aqui e ali,

Beleza até nos dias mais cinzentos.


Betim - 01 06 2026