terça-feira, 1 de setembro de 2026

ACRONICTO

ACRONICTO

A paz das extensões silenciosas,
Enquanto cai a noite sobre as serras,
Veste em melancolia àquelas terras
E ao céu mistura azuis, lilases, rosas…  

A d’Alva e a lua cheia, luminosas,
Surgem pelo horizonte aos finisterras.
Longe, mugem as vacas e as bezerras 
E grilos cricrilando nas mimosas.

As sombras s’espalhavam longamente
À medida que p’ros lados do poente
A claridade aos poucos indo embora…

Os cuidados se vão co’o dia findo
Certo que ao anoitecer tudo é tão lindo,
Que o olhar sobre as paragens se demora.

Serra Azul - 22 07 2026

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

UM ALGUÉM

UM ALGUÉM


Aquele duplamente indefinido,

Que homem e/ou mulher podia ser

Costuma feito névoa aparecer

E passa como nunca acontecido.


Quem entre o “se” e o “não” adormecido 

Desperta ainda incerto do que quer

Para, no fim de tudo, s'esquecer, 

Varando a madrugada entorpecido. 


Ei-lo, tanto aparência quanto essência,

Ambíguo a questionar sua existência,

E se mostrar tão-só se lhe convém.


Actor, qual é a máscara de hoje?

Sim, a rir e a chorar o tempo foge…

Quem ora todo mundo; ora ninguém!


Betim - 31 08 2026

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

MEGALATIFUNDIÁRIO

MEGALATIFUNDIÁRIO “Do nada, nada vem” — Já se dizia D’aquele que contando umas lorotas, Deixava-nos com cara de idiotas Com sua gutural verborragia. Uma muito contumaz patifaria Era ir, co'a complacência dos janotas, Aonde perdeu Judas suas botas, Medir terras griladas na ousadia. Mas, pela minha mal traçada conta, São as terras do fulano de tal monta, Que somam duas vezes o país todo! Sem menoscabo pelos seus azares Ou pela imensidão d’estes lugares, Tal fortuna não passa d’um engodo. Betim - 28 08 2026

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

AYAHUASCA

AYAHUASCA


Tinha gosto de casca de cipó

Aquela comunhão de mirações,

Incorporando antigas devoções

Reunidas nos confins do cafundó.


Eu, com o povo em roda, um homem só

A ver e ouvir estranhas orações

E as cores explodindo em clarões

D’auras alucinando-me sem dó…


Tempo ausente o presente, me abandono.

Enquanto algum profeta no seu trono

Diz sobrenatural a Natureza.


Tinha gosto de mato e de queimadas

Aquela comunhão de camaradas

Feita de borracheira profundeza.


Betim - 05 06 2024

 

EXPLORAÇÕES

EXPLORAÇÕES 


Finda a estrada, que comece a aventura!

Na quebrada da encosta, em precipício,

Para as grimpas a trilha tenha início,

Serpenteando em curvas na angustura.


Do mar de morros via-se a verdura,

Enquanto o vento uivava vão bulício.

Onde quão mais bonito, mais difícil,

Seguir em desafio pela altura.


Na travessia, a cada descoberta,

O peito acelerado e o olhar alerta

Se me tornam mais ávido de vida.


D’ali eu me aproximo da distância,

E trago à solidão ainda a errância

D’outra alvorada plena e comovida.


Brumadinho - 15 08 2026

OFICINA

OFICINA


E tudo o que queria era escrever…

Isto, fazer poesia, é pôr o mundo

Por dentro da cabeça bem mais fundo 

Do que, objectivamente, o perceber.


Poetar! Como se um jeito de entender

A realidade em letras no eu profundo.

Ou sondar d'onde o sonho era oriundo

Para, com rimas vãs, enternecer.


Fábrica de poesia, o coração 

Bate mais forte quando uma intenção 

Revela insuspeitada maravilha.


Assim, vão caminhando lado a lado

Sonoridade mais significado

Onde cada palavra por fim brilha.


08 06 2026

terça-feira, 25 de agosto de 2026

POR AGORA

POR AGORA


Se o presente é ausência, em alheamento

Atravesso horas cinzas tão-somente

A topar com a angústia recorrente

Que vem me anuviar o pensamento.


Mas é o que se tem para o momento,

Esse desassossego displicente

Com que encaro o caminho à minha frente,

Distante de qualquer contentamento.


Ainda entre o que foi e o que será,

Espero uma certeza que não há

De superar o tempo em que estou.


O instante, todavia, se prolonga,

Em vista d'esta fase, curta ou longa,

Que logra rir de tudo quanto sou.


Belo Horizonte - 08 06 2025