quinta-feira, 24 de setembro de 2026

INUTILIA TRUNCAT

 III – inutilia truncat

                                           para Cláudio Manuel da Costa, o Glauceste Satúrnio


Quem, hermeticamente, faz poesia?

Cultos imitadores já sem vida...

Busque-se o novo como uma saída

E cortar os excessos que cabia.


Quem, hermeticamente, se angustia?

Por conceitos confunde-se a caída:

Se a pérola barroca é extraída,

A concha rococó resta vazia.


Quem, hermeticamente, era poético?

Por maior, ou melhor, constante: — “Poetas,

Às inutilidades truncai do ético!”...


Sim, por uma poesia sem muletas!

Concorde ao paradoxo pós-estético:

Em claro-escuro ter aos olhos metas.


* * *


LOCUS HORRENDUS

 II – locus horrendus

                                                para Manoel Maria Barbosa du Bocage, o Elmano Sadino


Queria não ser tão mórbido poeta.

Tradutor da dor... Traidor da vida...

A ver as coisas já de despedida

E d’isso extrair uma frase abjeta.


Queria não ser outro vil sem meta,

Cuja história, já há tempos esquecida,

Houve, há e haverá como se nunca havida,

Feito obra que ficou incompleta.


Queria... Mas sou. Não, não sou nada

À espera do terrífico... Ou melhor,

Local horrendo à escura encruzilhada.


A morte faz-se bela em vago horror.

Abdico a mim à luz da hora passada

Para ao morrer deixar de tanta dor…



* * *

LOCUS AMOENUS

ARCÁDIA ULTRAMARINA

I – locus amoenus
para Tomás Antônio Gonzaga, o Dirceu de Marília

Chego a ver-te a Marília, bom Dirceu,
Folgar, esperançosa, n'estes campos
Gerais de mim... D'além sertões escampos,
Pois seu amor também já fora o meu.

Chego a ver ninfas cá onde estou eu
A brincar nuas com vãos pirilampos:
Seus seios alvos como figos lampos!
Algo que ao tempo-espaço se perdeu...

Chego a ver... Todavia, nada vejo,
Ou melhor, finjo ver ao ter a vista
Local ameno ao qual luz um lampejo.

O visto é fingimento teu de artista.
Vejo não o que vejo, mas desejo...
Finjo, para sem ver, ver-te a benquista.

* * *

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

CERTOS ERROS

CERTOS ERROS

Dos donos da verdade mais me alerto,

Ainda que do bem m’entenda membro.

De tanto errar em mim já não me lembro,

Vagando feito um monge no deserto.

Embora da verdade esteja incerto,

Eu, em face do mal, o bem relembro:

Um pobre sob as chuvas de dezembro,

Sempre a tomar o errado como certo…

Desisti de tentar eu defini-los,

Ao ver errado certo e certo errado,

Ao longo de meus dias intranquilos.

Já quase se confundem, lado a lado.

Sem qualquer verdade a dividi-los,

Nos reste a consciência do passado.

Belo Horizonte - 24 12 1991

O MILENARISTA

O MILENARISTA


Andando ensimesmado pela rua,

Passou despercebido dos demais.   

Talvez as vozes nem fossem reais

Tampouco fosse sangue sobre a lua...


Contudo, delirante continua

Sonhando céus e terras tais-e-quais

Aqueles que encontrara nos anais

Dos concílios dos santos que cultua.


Crê, d’estarte, que tudo está escrito,

Olhando sempre para o Infinito

Na ânsia de melhor ver onde o sagrado.


E, na esperança vívida do Reino,

Enxerga sua vida como um treino

P’ra ser, depois da morte, levantado...


Belo Horizonte – 20 10 1996

terça-feira, 22 de setembro de 2026

AVIS RARA

AVIS RARA


Ao poente, voa a ave de Minerva

E perscruta nas sombras a Razão.

Axiomas e dogmas sonda em vão

Ou a sofismar conceitos se reserva.


Sábia, sempre pousa sobre a erva

Tida por panaceia em meu sertão.

Com que se cura o mal do coração,

Mas sobretudo acalma quem s’enerva.


Se vida após a morte veem por cá, 

Não cogitava além nenhum futuro,

Céptica do que sabe ou que haverá…


Amiga da Verdade, t’esconjuro!

Ave que voa e vê em noite má,

Sê um augúrio claro em pleno escuro.


Belo Horizonte – 15 06 1995

TANTO

TANTO

  

Correr atrás de já passado enleio,

Costuma a não valer tanta peleja.

Contudo, meu olhar mais a deseja...

Tanto, que já nem sei se amor ou anseio.


A escrita me permita algum floreio

Ao poetar sobre quem quer qu’ela seja.

De novo, meu olhar tão-só almeja;

Tanto, que já nem sei mais de receio.


Aquela que busquei e ainda busco,

Enquanto meu olhar a faz querer...

Já nem sei se de dor ou de prazer.


A ponto de a encontrar de modo brusco 

Em meio aos vultos vãos do lusco-fusco;

Tanto, que já nem sei mais de viver.


Belo Horizonte – 10 12 2005