quarta-feira, 28 de outubro de 2026

EM PERSPECTIVA

EM PERSPECTIVA

 

Pelos olhos em fuga, o pensamento 

Também me parecera fugidio…

Era um olhar perdido, algo arredio,

Visto, senão de angústia, de lamento.


Pondo em ponto de fuga o firmamento,

As linhas convergiam no vazio

Enquanto o entardecer veste sombrio

Um contorno de serras poeirento.


Porém, na cidade em perspectiva,

Tinhas do mundo o livro não escrito

À espera d’outra aurora rediviva.


Por fim, não era feio nem bonito

Quanto vias sem ver, meio à deriva,

Co'os olhos a fugir para o infinito.


Belo Horizonte - 05 05 1992

DESIDEALIZAÇÃO

DESIDEALIZAÇÃO


Vã-filosofo acerca do teu riso,

E te aceito os caprichos contrafeito.

Inútil censurar-te algum defeito,

Pois seja como for, contemporizo.


No entanto, quando os pés pisam o piso,

Pouco importa o sonho mais perfeito:

Logo o real se impõe de qualquer jeito…

E urge fazer aquilo que é preciso.


Eu devo ir ao encontro de mim mesmo,

Depois de procurar tua luz a esmo,

Até me ver em plena escuridão.


Eu ando sem saber onde caminho,

Tenho comigo apenas que, sozinho,

Contradiga as razões do coração. 

 

Betim - 04 04 1992

NOVO DIA

NOVO DIA


Acompanhava a noite da janela

Com a lua se pondo no horizonte

E o Oriente clareando atrás do monte

A um olhar marejado que desvela.


Vi muitas madrugadas como aquela:

Insone e só até que o sol desponte…

Tendo a cidade inteira ora defronte,

Enquanto com meu sono ‘inda duela.


Hoje, porém, eu fiz calmo algo insano.

Ao pacificar n’alma essa agonia,

Que tem me acompanhado em desengano.


Começo agora em paz o novo dia:

Afora, o despertar quotidiano;

Em mim, de novo o sol amanhecia.


Betim - 12 12 1991

terça-feira, 27 de outubro de 2026

NAUFRÁGIO

NAUFRÁGIO

Mar. Ou amar amargas mágoas; águas
Turvas, em turbilhão: Fim de jornada!
Ao desvario da hora amargurada,
Um revirar de mágoas e remágoas…

Amar. Ou mar de amargas águas; mágoas
Que me trazem à margem desolada.
E ainda o coração, do nada ao nada,
Na forja de paixões me ardendo fráguas.

Mar de amares — com dores se conquista
Mais ardores na hora desvalida,
Até que pouco reste além da vida. 

Amar de mares — além, desastre à vista
Sobre as sobras de quanto se perdeu,
Agora tão paupérrimas quanto eu.

Belo Horizonte - 28 02 1992


segunda-feira, 26 de outubro de 2026

AZULEJOS

AZULEJOS

Figuras azuis contra o branco neve.

Na fachada, a parede revestida

Mostra uma narrativa conhecida,

Onde o Santo com aves s'entreteve.

Na igreja modernista, a linha leve,

Com as curvas das serras parecida,

Moldura em movimento àquela lida

Entre os homens e Deus: A vida breve.

Mas olhando de perto os azulejos,

De estranhas silhuetas vi lampejos,

Como se outra camada sobre a história.

Estou, de certo modo, junto ao Santo,

A ouvi-lo com as aves, sem espanto,

Sendo ao menos reflexo em sua glória. 

Belo Horizonte - 02 02 1992


DESALENTO

DESALENTO

Quando falei de amor, me vi sozinho.
Porque teu coração nada entendia:
Éramos bons amigos — se dizia —
Desde que atravessei o teu caminho.

Mesmo assim, mil paixões em torvelinho
No brilho do olhar mal t’escondia.
Por mal dos meus pecados, todavia,
Fui tímido demais em meu carinho…

Revelado o segredo, a solidão
Parece s'espraiar qual rio manso
Pela vasta planície da ilusão.

Ainda varo noites sem descanso,
A procurar teus olhos na amplidão,
Qual lua que desejo e nunca alcanço.

Belo Horizonte - 01 11 1991


EPIFANIA

 EPIFANIA


Quando olhei para o céu, estava ali.
Na penumbra do poente, aquela estrela,
Luzindo para mim pela janela
E um pouco menos só eu me senti.

Perto da lua nova foi que a vi
Surgir-me rutilante, clara e bela
Enquanto o anoitecer feito aquarela
Descoloria em lilases junto a si.

Uma primeira estrela então se via
E eu, admirado a vê-la, recordava
Com saudades da tua companhia.

Dei-me conta de quanto acontecia:
Eu então percebi como te amava,
Vendo a primeira estrela ao fim do dia.

Betim - 10 10 1991