terça-feira, 16 de junho de 2026

LOGOMAQUIA

LOGOMAQUIA


Se digo, não desdigas; não respondas.

Senão, do bate papo ao bate boca,

A ideia toda logo se desfoca,

Qual pedra sobre o lago a lançar ondas…


Se mostro, não demonstres; não m’escondas.

Se nem tem argumento uma mente oca,

Tampouco alguma angústia te provoca

A graça de teus ais quando me rondas.


Não buscas a verdade, antes vencer.

Mal m’escutas no afã de desdizer

E calar não por fé, mas por cansaço.


É guerra de saberes; de discursos.

Deixar desencontrados os percursos

Fazendo do diálogo embaraço.


Belo Horizonte - 09 06 2026



sexta-feira, 12 de junho de 2026

HUMANO CORPO

HUMANO CORPO


É preciso entender do que sou feito.

Carne, decerto… Se há dor ou prazer,

É porque a pele sente e, sem querer,

Ao se deixar tocar, dispara o peito.


Mas lembro-me de azares contrafeito,

Em meio a mil paixões de se perder.

Cicatrizes deixaram esse saber

De o desencanto vir de qualquer jeito.


Do clímax ao anticlímax, já vivi

Entregue a sensações e sentimentos,

E mais males que bens eu conheci.


Hoje regro melhor os meus intentos,

Confiante de encontrar, aqui e ali,

Beleza até nos dias mais cinzentos.


Betim - 01 06 2026

PASTO SUJO

PASTO SUJO


Ao longo de vertentes desmatadas,

S’elevaram mil lápides d'argila.

São cupinzeiros secos quase em fila

Por sobre troncos d'árvores cortadas.


Algures, braquiárias inclinadas,

Enquanto um vento gélido sibila…

Já ronda seriema, alta e intranquila,

Sem vacas a mugir nas invernadas.


Ora terra maninha; outrora mata,

A propriedade tem a face ingrata:

Campos desarvorados, afinal.


Por fim, andar por entre termiteiras

Faça pensar nas eras derradeiras,

Diante d’um cemitério florestal.


Brumadinho - 06 06 2026

quinta-feira, 11 de junho de 2026

MOEDA VELHA

MOEDA VELHA


Em pó, o ouro descia a serra a pé

Ou no lombo de tropas destemidas.

Típico descaminho às escondidas,

Onde cunhavam moedas de má-fé.


Hoje casa sem telhas nem sapé,

À guisa de fortim, contava as idas

E vindas pelas grimpas desvalidas.

Silente testemunha, memória é…


Lá, dobrões e dobrões encheram arcas,

Negando a quinta parte dos monarcas,

Embora a Cruz e as Quinas nas moedas.


Após ganhava as ruas e os mercados

No dinheiro corrente d'estes lados:

Dos confins do Gerais às sós veredas…


Moeda - 13 02 2026

quarta-feira, 3 de junho de 2026

LABIRINTO

LABIRINTO


Um beco desemboca n'outro beco

Até topar parede: Sem saída!

Assim parece ser a própria vida,

Quando face ao abismo responde o eco...


Sem embargo, perscruto d'olhar seco

Cada desilusão aborrecida

Ao contemplar ao fim de tanta lida

Toda a sorte de caco, entulho e treco.


Se eu, por tentativa e erro, sigo em frente

É que estou d'algum modo indiferente,

À dureza das pedras da muralha.


Prossigo porque sei o que m'espera.

Sem mais sabedoria nem quimera,

Eu vou tal como vai qualquer canalha.


Betim - 03 06 2026

terça-feira, 2 de junho de 2026

VAM'BORA

VAM'BORA


Até o fim do mundo, por que não?

Pôr-nos em movimento a contemplar…

Viver não se limite a ser e estar,

Antes um ir e vir na imensidão!


Haja sempre um convite em teu olhar

E algum lugar a ver com gratidão.

Faça luz onde houver escuridão

E possam nossos olhos s’encontrar.


Talvez, ao longo d’essa longa estrada

A gente, surpreendendo a madrugada,

Viva o melhor momento de nós dois.


Ao menos saberemos algo mais…

Deixar pó e passado para trás

Sem ânsia ao que virá logo depois.


Nova Lima - 01 06 2026

sábado, 30 de maio de 2026

EM BOA HORA

EM BOA HORA


Quando vieres, se vieres, será bom.

Serás bem-vinda, linda; estarás bem…

Virás porque me queres ver também 

E partilhar teu riso como um dom.


Se me ouves de teu nome o doce som,

É porque te chamei, constante e além,

Ao encontro de alegrias sem porém,

Dando mais cor à vida, tom por tom.


À hora que vieres, seja qual for,

Terei em minhas mãos alguma flor

E um pão para partir na travessia.


Assim, contigo ao lado, mão à mão,

Toda a hora será boa. Por que não?

Em boa hora se em boa companhia!


Nova Lima - 30 05 2026