quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

À BOCA MIÚDA

À BOCA MIÚDA


Correm por aí boatos de que andei

Buscando solidões silenciosas

Em distâncias de serras neblinosas,

Onde viva sem fé nem rei nem lei.


Têm contado, outrossim, que desgostei

Das gentes e das terras rumorosas

A ponto d’eu dizê-las desditosas

Às raras companhias que encontrei.


Falem o que quiserem: Sigo andando

A surpreender auroras, vez em quando,

Sem ver que vão pensar a meu respeito.


Convém-me confirmar os maus cochichos:

Tornado besta-fera em meio aos bichos,

Seja eu livre do juízo mais perfeito!


Catas Altas - 02 11 2025


FAZ DE CONTA

FAZ DE CONTA


Sabes?! Quando crescer, vou ser menino:

Ocupar-me só com desimportâncias;

Deixar aos mais adultos suas ânsias

E zanzar pelas ruas sem destino.


Quanto mais velho sou, mais me amenino,

Entre imaginações e outras errâncias,

Ao gozo só de olhar para as distâncias 

No mais maravilhado desatino.


Eu quero descrescer; ser bem pequeno.

Ter para com o mundo o olhar ameno

D'alguém que já não finge o compreender


Então, talvez eu tenha uma verdade

Tão minha ou tão além da minha idade,

Até ser o melhor que eu possa ser.


Betim - 01 05 2025



quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

ESPELHAMENTO

ESPELHAMENTO 


Ela ama ver-se amada no olhar d'ele

Em lágrimas a espelhar-lhe a formosura.

Permite, enfim, que a toque com ternura

Até se lh’enrubescer a clara pele.


Ela ama o quanto ele a ama; quanto o impele.

E isto lhe parece intenso enquanto dura.

Não sabe que o amor é uma procura,

À espera que o horizonte se revele.


Diz, com todas as letras: — ”Infeliz!”

E olha nos olhos d’ele, rasos d’água,

A perfeita expressão da própria mágoa.


Conquista a solidão como se um país

Onde, sem mais espelhos, possa ver

Somente a realidade que quiser.


Betim - 04 04 2025


segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

NÃO HÁ-DE QUÊ

NÃO HÁ-DE QUÊ

Nem tanto o dia; nem tanto a hora, eu penso…
Os anos se passaram sem que a cura
À nossa insofismável amargura
Conciliasse contrários n’algo imenso.

Ainda aos pés da deusa ardia incenso,
Onde ex-votos d'amor fazem figura.
Convém fazer da perda outra procura,
Enquanto das memórias me convenço.

A dúvida permanece, todavia.
Vênus rirá, mais dia menos dia,
Em nossos corações quase outonais.

Até lá, haja luar na madrugada
A clarear o trilho incerto d'esta estrada,
Que segue em frente p'ra longe demais.

Belo Horizonte - 21 11 2025




sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

MELANCOLIA

MELANCOLIA

Pelo sim; pelo não, contemporizo
Quanto penso saber sobre esta vida.
Amar… Uma loucura desmedida!
Até que tudo acabe sem aviso.

Esqueci n’algum canto o meu sorriso
Como levasse ainda, mal contida,
A vã desilusão da despedida
A todos os lugares onde piso.

Têm sido dias muito escuros estes,
Ao longo da alameda de ciprestes,
Que conduz à mansão do esquecimento.

Sem embargo, convém seguir em frente,
N’uma vigília longa e persistente,
Malgrado caminhasse contra o vento.

Moeda - 04 10 2025



terça-feira, 6 de janeiro de 2026

LUMINOSA

LUMINOSA


Quando por lá passares, não te apresses.

Contempla, como um quadro em movimento,

A imensidão aberta ao firmamento, 

Que se ilumina enfim às tuas preces.


No pó, deixa os cuidados e os estresses,

Enquanto mira os longes contra o vento.

E encontra, para além do entendimento,

Este momento livre de interesses.


Deixa que a caminhada t'esvazie

E o sol, amanhecendo, principie

A pôr cores por toda a redondeza.


Mas, ao te despedires, não lamentes.

Antes leva contigo aos teus, ausentes,

Uma terna experiência da beleza


Campos do Jordão - 02 09 2025


sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

MORDAÇA

MORDAÇA


A medo d'eu falar, têm me calado

Aqueles que desgostam do que penso:

Logo vêm me acusar de contrassenso,

Para no fim passar por transtornado…


Acostumei-me a estar do lado errado,

E agora vivo dias em suspenso.

Mordaça que, afinal, me pesa imenso,

Visto que em tudo sou invalidado.


Querem, a todo custo, que me cale

Ou que já não s’escute quanto eu fale,

Vencendo-me por força, não razão.


Debalde… Não se cala uma verdade!

Mesmo eu silenciado, a realidade

Irá sempre se impor, queiram ou não.


Betim - 24 10 2025