sexta-feira, 22 de maio de 2026

INCONCLUSIVO

INCONCLUSIVO


Eu nunca saberei se sei ou não

Que mentiras eu conto para mim.

De facto, inconsciências são assim:

Tergiversar em círculos e em vão…


O que sei é ser tudo uma ilusão.

Ao menos considero — agora e enfim — 

Saltar para o vazio a trampolim,

Sem chegar a nenhuma conclusão.


O mundo há-de seguir indiferente

A toda e qualquer fúria complacente

Do que costumo ver como vitórias.


Ao fim, tão-só silêncio e desassombro.

Não restam senão pó, ruína e escombro

No terreno maninho das memórias.


Brumadinho - 16 05 2026

sexta-feira, 8 de maio de 2026

MERCADORIA

MERCADORIA 


Vende-se, por uns módicos trocados, 

Outro livro de sonetos pós-modernos.

Reunido a modestíssimos cadernos,

Contém antes equívocos que achados.


O poeta? Consta que anda sem cuidados,

A cogitar de céus como de infernos.

Às voltas co'os próprios desgovernos,

Palmeia a escuridão dos deserdados!


Mal vale quanto pesa esta leitura,

Que não julgo Arte nem Literatura:

Não tem fortuna crítica, prefácio…


Mas, se não for incômodo, comprai-o. 

Ao menos sobre a mesa, de soslaio,

O tomo pode ornar vosso palácio.


Betim - 01 05 2026

quinta-feira, 30 de abril de 2026

POR ASSIM DIZER

POR ASSIM DIZER 


Às vezes, eu m'expresso com escritas

Rebuscadas ou duras de se ler…

Nem sei se digo o qu'eu quero dizer

Face a sonoridades inauditas.


Talvez sejam tão-só frases mal ditas

Essas que então me apresso em escrever.

Talvez nem sejam versos – a saber,

Poetas têm liberdades esquisitas!


Torço e distorço as letras e as ideias,

Como buscasse sempre o inusitado,

Embora a indiferença das plateias.


De certo modo, poeto enmimesmado

A exigir do vernáculo um intento

Já muito além do mero entendimento. 


Nova Lima - 30 04 2026 

quarta-feira, 29 de abril de 2026

INTERFLÚVIO

INTERFLÚVIO


A estrada na cumeeira d'essa serra

Descortina, mirante após mirante,

Dois vales que s'estendem do Levante

Onde o olhar nas distâncias se desterra.


Percorro enternecido toda a terra,

Incerto de destinos, feito errante,

A ver a maravilha em cada instante:

Mais um que, inopinado, vereda erra…


Alturas conquistadas com fadigas

São tão mais belas quanto desejadas,

Ao longo de jornadas demoradas.


Lustrem novas memórias às antigas!

Ao buscar na beleza d’outro cume

Uma vida mais vivida por seu lume.


Brumadinho - 01 10 2025


segunda-feira, 13 de abril de 2026

MAL D’AMOR

MAL D’AMOR


O peito ardente, a mente em sofrimento,

O olhar fixo ou perdido no vazio;

Ter a vida em constante desvario

Vivida sem qualquer contentamento.


Vagar pelos caminhos sem intento,

A alta noite do dia mais sombrio,

Enquanto o nada clama em desafio

D'algo que dê sentido ao movimento.


Assim anda quem sente e se ressente...

Certo de pelejar feito um demente

Co'os próprios pensamentos intrusivos.


E, em sua passional celeridade,

Alterna entre murmúrios e saudade

Os mesmos rituais repetitivos.


Betim - 12 12 2025


sábado, 28 de março de 2026

VAREJEIRA

VAREJEIRA

Como quem s’entretém a espantar mosca

De sonhos na vitrina d’uma venda,

E vive em estranhíssima contenda,

Ciumento dos confeitos sobre a rosca…


Assim, eu só — nos fundos da birosca! —

Salivava às quitandas da merenda,

Sonhando para mim alguma senda

Para além d'esta vida um tanto tosca.


Era mais uma tarde. Mais um dia.

A mosca que ia e vinha, todavia,

Despertava-me do baldo devaneio.


E eu, que não sei vender nem guloseimas,

Passava horas às voltas com toleimas,

Vendo a mosca nos sonhos sem receio. 


Betim - 04 12 2025


segunda-feira, 16 de março de 2026

A MEU VER

A MEU VER


Já desconheço haver outras razões 

Além das segregadas em meu peito

Para dizer, embora contrafeito,

De tantas e totais contradições.


A despeito das doutas opiniões, 

Sobretudo d’aqueles que respeito,

Externo desventuras em proveito

Do improvável leitor d’estes senões:


Há erros que se tornam toda a vida

E bem ou mal nos moldam, à medida

Que deixamos pegadas sobre a terra.


Andemos, sem temer a tempestade!

Desertas são as ruas da cidade,

Quando da face o riso se desterra…


Betim - 11 11 2025