sexta-feira, 16 de outubro de 2026

TEMPESTUOSO

TEMPESTUOSO

De novo o céu desaba sobre mim:
Abri janelas para o vento entrar.
Logo em seguida via panejar,
Às lufadas, cortinas de cetim.

Só, observo a tormenta vir enfim.
Apagaram-se as luzes do solar
No meio de estrondoso trovejar,
Como pressagiasse algo de ruim. 

Enquanto isso, o coração entristecido
Se mostrava entre chamas consumido,
Ardendo face à chuva desmedida.

Olhos em febre, olhava para o nada,
Indiferente à noite transtornada,
Em tempestade como a própria vida.

Betim – 02 02 1992

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

FLERTES

FLERTES

Meu olhar pelo teu tem procurado,
Com uma urgência tímida, concedo…
Como se te querer fosse segredo,
E olhasse só de longe, enamorado.

Deveras, eu pareço enfeitiçado
Pela ânsia de rever-te, tarde ou cedo,
Para tu me sorrires o olhar ledo,
Enquanto olho de volta encabulado.

Contudo, se me visses qual te vejo
Saberias do ardor de meu desejo
Tal o brilho que espelham os olhos teus!

Pois vejo nos teus olhos mais beleza
Do que decerto pôde a Natureza,
Deslumbrados que estão os olhos meus…

Belo Horizonte - 12 12 1991  


REFLEXIVA

REFLEXIVA


Vê-se no espelho toda, em soledade.
Todavia, sorri de orelha a orelha
Àquela que consigo se assemelha
Ou revela de si outra verdade.

Traz no rosto uma olheira à claridade,
Que então, por bem ou mal, a faz mais velha...
O espelho — incerto já do que lh'espelha —
S'envergonha da própria honestidade:

— "É. Contudo, não é; parece ser
Outra que me pudesse constranger,
Feito alguém maltratado pela vida." —

E diz-se: — "Além de mim, quem poderia
Vestir a minha própria fantasia? —
Quase da personagem convencida...

Santa Bárbara - 08 18 1996 

PÚSTULA

PÚSTULA 

Púbis abaixo, jaz, intumescida...
Parecia olhar feito um olho mal
E a pele, mais sensível que o normal,
Doía só d'eu pensar vê-la espremida!

Embora oculta, afecta toda a vida,
Esfacelando o trato genital.
Aquilo constrangia, tal-e-qual
A chaga do pecado malferida!

Um corpo estranho quase a supurar
Minha virilha já infeccionada
Rumo à podre erupção de linfa e pus.

Só os termos mais vis para explicar:
Na masculinidade devastada,
Um abcesso sob meus escrotos nus…

Belo Horizonte - 10 10 1993

quarta-feira, 14 de outubro de 2026

PUTZGRILA!

 PUTZGRILA! 

Mas fala, cara, à minha língua amara
Essa palavra tão rara que linda,
E que ainda há pouco era; e que ainda
A gente urgente diz e nem repara.

Urrando errante, mas de forma clara,
Pontue-se-me a frase que, enfim, finda.
A interjeição então se faz bem-vinda
Ao andarilho no trilho que tomara.

Diante d’uma explosão vã de estupor,
Eu vou de estúpido a estupefacto
Sob o impacto dos sons e seu sabor.

Açula parolar o que, de facto,
Significado dá a quanto for...
Mas fala, cara, o teu sentido exacto.

Belo Horizonte - 20 05 1996

POR LINHAS TORTAS

POR LINHAS TORTAS

A vida tinha a minha desolada...
Na estrada onde a mirada se perdia,
Em rectidão monótona eu me via,
Ainda que, em si, não houvesse nada.

Um certo dia a vida vi errada:
O errado era eu ou nada errado havia!
Por linhas tortas, uma incerta via
Surgia para a nova caminhada.

A vida tinha a minha em linha reta.
Certo que bem mais longe iria andar,
Mas, sozinho, a caminho ia sem meta.

Vazio o caminhar por caminhar.
Mais certa a caminhada mais inquieta,
Ou, decerto, o caminho entortar.

Belo Horizonte - 19 11 1991

ADÂMICO

ADÂMICO

Sete léguas depois do fim do mundo,
Onde contam ter Deus moldado o barro
– Uns dizem da saliva; outros, do escarro… –
Até que surge Adão, nobre e fecundo.

Lá, onde os cinco rios do submundo
Correm sem ver do sol seu áureo carro,
Deus faz do inferno um lar – facto bizarro:
E o chão se abriu por sob o mar profundo!

De hábil a sábio, o humano evoluirá,
Senhor da natureza e de quanto há.
Qualquer que seja a vã cosmogonia.

Já Deus se retirou da sua história
Deixando-lhe, em sua obra, sua glória
E a fé de vir a vê-Lo um outro dia.

Vitória - 10 10 2026