terça-feira, 20 de outubro de 2026

QUERER BEM

 QUERER BEM


Quem me dera querer-me o bem-querer!

Quisera esta quimera bem real…

Pois quero o seu querer sem outro igual 

A qualquer outro bem que possa haver.


Quer tenha a ganhar; quer tenha a perder,

Pudera como outr’era, tal-e-qual,

De novo ter seu bem que me faz mal,

Porque querendo quase sem querer.


Quem me dera que a mim quisesse bem

A que n’uma hora vai e n’outra vem

Sorrindo com seus olhos furta-cor.


Queira Deus que por fim ela me queira

Até que, por carinho ou por canseira,

De tanto querer bem me tenha amor.


Belo Horizonte - 23 08 1991

LIMÍTROFE

 LIMÍTROFE 

A coisa só piora, ou melhor, melhora.
À medida que a vida degringola,
A gente olha p’ra si meio pistola
Sem saber quando ri ou quando chora.

Qualquer dia, o mal d’alma ao corpo aflora…
Em vista do pescoço na degola,
O mundo, após arder-nos a caixola,
Qual fósforo queimado joga fora.

Olham e dizem: “Outro que surtou!”
A rima, tão monótona, imitou
Seu próprio dia a dia tão insosso.

E dão de ombros: “Mais um que se perdeu…”
Quem se souber limítrofe como eu
Acabará no fim tendo algum troço!

Belo Horizonte - 26 04 2021

segunda-feira, 19 de outubro de 2026

CORAÇÃO DOS OUTROS

 


CORAÇÃO DOS OUTROS


Querem n'uma modinha a solitude
De quem tivesse alguém no coração!
Se é tudo n'essa vida uma ilusão,
Sobretudo para aquele que se ilude...


Alguns chamam d’amor a inquietude
Que me atravessa as letras da canção.
Presumir sentimento fosse opção,
Ninguém hesitaria ante o desnude!


No coração dos outros, a saudade

Traz com triste canção alegre palma

Para em canções sofrer com falsidade


Certos que a dor alheia a própria acalma,
Não julguem se mentira ou se verdade
Tudo o que tem passado por minh’alma.


Betim - 03 03 1992  


domingo, 18 de outubro de 2026

CHEIAS DO DOCE

CHEIAS DO DOCE


Se o rio faz sumir as suas ilhas,

Após dias de chuva intermitente,

Avista-se no vale tão-somente

A vasta inundação, milhas e milhas.

E todas as estradas, ruas, trilhas…

Se perdem sob as águas d'outra enchente,

Deixando isolada aquela gente

E à mercê de milagres; maravilhas.


Porém, nada faz o homem tão pequeno

Quanto uma imensidão desoladora,

Em meio ao desespero de quem chora.


É Deus e o mundo vendo esse sereno…

Enquanto o rio sobe pela rua,

A chuva simplesmente continua.


Governador Valadares - 30 12 1996

sexta-feira, 16 de outubro de 2026

TEMPESTUOSO

TEMPESTUOSO

De novo o céu desaba sobre mim:
Abri janelas para o vento entrar.
Logo em seguida via panejar,
Às lufadas, cortinas de cetim.

Só, observo a tormenta vir enfim.
Apagaram-se as luzes do solar
No meio de estrondoso trovejar,
Como pressagiasse algo de ruim. 

Enquanto isso, o coração entristecido
Se mostrava entre chamas consumido,
Ardendo face à chuva desmedida.

Olhos em febre, olhava para o nada,
Indiferente à noite transtornada,
Em tempestade como a própria vida.

Betim – 02 02 1992

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

FLERTES

FLERTES

Meu olhar pelo teu tem procurado,
Com uma urgência tímida, concedo…
Como se te querer fosse segredo,
E olhasse só de longe, enamorado.

Deveras, eu pareço enfeitiçado
Pela ânsia de rever-te, tarde ou cedo,
Para tu me sorrires o olhar ledo,
Enquanto olho de volta encabulado.

Contudo, se me visses qual te vejo
Saberias do ardor de meu desejo
Tal o brilho que espelham os olhos teus!

Pois vejo nos teus olhos mais beleza
Do que decerto pôde a Natureza,
Deslumbrados que estão os olhos meus…

Belo Horizonte - 12 12 1991  


REFLEXIVA

REFLEXIVA


Vê-se no espelho toda, em soledade.
Todavia, sorri de orelha a orelha
Àquela que consigo se assemelha
Ou revela de si outra verdade.

Traz no rosto uma olheira à claridade,
Que então, por bem ou mal, a faz mais velha...
O espelho — incerto já do que lh'espelha —
S'envergonha da própria honestidade:

— "É. Contudo, não é; parece ser
Outra que me pudesse constranger,
Feito alguém maltratado pela vida." —

E diz-se: — "Além de mim, quem poderia
Vestir a minha própria fantasia? —
Quase da personagem convencida...

Santa Bárbara - 08 18 1996