quarta-feira, 23 de setembro de 2026

CERTOS ERROS

CERTOS ERROS

Dos donos da verdade mais me alerto,

Ainda que do bem m’entenda membro.

De tanto errar em mim já não me lembro,

Vagando feito um monge no deserto.

Embora da verdade esteja incerto,

Eu, em face do mal, o bem relembro:

Um pobre sob as chuvas de dezembro,

Sempre a tomar o errado como certo…

Desisti de tentar eu defini-los,

Ao ver errado certo e certo errado,

Ao longo de meus dias intranquilos.

Já quase se confundem, lado a lado.

Sem qualquer verdade a dividi-los,

Nos reste a consciência do passado.

Belo Horizonte - 24 12 1991

O MILENARISTA

O MILENARISTA


Andando ensimesmado pela rua,

Passou despercebido dos demais.   

Talvez as vozes nem fossem reais

Tampouco fosse sangue sobre a lua...


Contudo, delirante continua

Sonhando céus e terras tais-e-quais

Aqueles que encontrara nos anais

Dos concílios dos santos que cultua.


Crê, d’estarte, que tudo está escrito,

Olhando sempre para o Infinito

Na ânsia de melhor ver onde o sagrado.


E, na esperança vívida do Reino,

Enxerga sua vida como um treino

P’ra ser, depois da morte, levantado...


Belo Horizonte – 20 10 1996

terça-feira, 22 de setembro de 2026

AVIS RARA

AVIS RARA


Ao poente, voa a ave de Minerva

E perscruta nas sombras a Razão.

Axiomas e dogmas sonda em vão

Ou a sofismar conceitos se reserva.


Sábia, sempre pousa sobre a erva

Tida por panaceia em meu sertão.

Com que se cura o mal do coração,

Mas sobretudo acalma quem s’enerva.


Se vida após a morte veem por cá, 

Não cogitava além nenhum futuro,

Céptica do que sabe ou que haverá…


Amiga da Verdade, t’esconjuro!

Ave que voa e vê em noite má,

Sê um augúrio claro em pleno escuro.


Belo Horizonte – 15 06 1995

TANTO

TANTO

  

Correr atrás de já passado enleio,

Costuma a não valer tanta peleja.

Contudo, meu olhar mais a deseja...

Tanto, que já nem sei se amor ou anseio.


A escrita me permita algum floreio

Ao poetar sobre quem quer qu’ela seja.

De novo, meu olhar tão-só almeja;

Tanto, que já nem sei mais de receio.


Aquela que busquei e ainda busco,

Enquanto meu olhar a faz querer...

Já nem sei se de dor ou de prazer.


A ponto de a encontrar de modo brusco 

Em meio aos vultos vãos do lusco-fusco;

Tanto, que já nem sei mais de viver.


Belo Horizonte – 10 12 2005

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

À PARTE

À PARTE 

  

Se partes me suporto entorpecido

E trôpego das pedras do caminho...

Se ponho a recompor-me o desalinho

Suponho-me pior que um desvalido.

 

Se me porto por fim surpreendido,

Procuro palmilhar por teu carinho;

Se por ti eu só — somente e sozinho —

Agora o coração tenha partido.

 

Se, a par das promessas de prazer,

Apartado da luz de teu sorriso,

Eu me sinto sem ti a anoitecer.

 

À parte tudo, volta! Vem, preciso...

Que eu torne a ser inteiro em te querer

Ou perca o que me resta de juízo.

 

Belo Horizonte - 10 09 1992


EPÍLOGO

EPÍLOGO

 

Musas, silenciai. Vem a noite... Está tarde.  

Há pouco o sol se pôs; eis o ocaso, afinal... 

E desde o início quer a história algum final,  

Que, pela escuridão, o seu silêncio atarde.  

  

Quietas ― lira e flauta ― em triste cair de tarde.  

Se o moderno s’escusa em lembrar do imortal,  

Os deuses morrem sim, de morte natural...  

Enquanto um velho livro por fogueiras arde.  

  

Vós, musas, repousais há muito adormecidas!  

O artista ousa criar, mas já não lhe compete,

Pois, mesmo que acordais, nunca sereis ouvidas.  

  

Há ruído demais! Hoje o óbvio se repete!... 

Foram as artes todas por fim esquecidas:  

A Humanidade bebe as águas vãs do Lete.  

  

Betim - 03 09 1995

VERSOS ALEXANDRINOS

VERSOS ALEXANDRINOS

 

Conta, musas, ainda El Libro d'Alexinde, 

Sobre Alexandro Magno, El-Rey de Macedônia, 

A História fabulosa, muito embora idônea, 

Co'os feitos d'armas seus, que o tornaram o Grande. 

 

O império, d'Europa à Índia, célere s’expande: 

Ocidente e Oriente une ao tomar Babilônia. 

Dest'arte, a flauta frígia em duo co'a lira jônia 

Tocam enquanto, no ar, forte o seu gládio brande! 

 

El Libro d'Alexinde, em átrios paladinos, 

Lembrava a erudição da vasta Alexandria, 

Dois milênios após! Em meio a desatinos... 

 

Helenisticamente, entretém-me a harmonia 

De lira e flauta, a ver — versos alexandrinos — 

Doze sílabas dão belo metro à poesia. 

                                                          

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