segunda-feira, 26 de outubro de 2026

AZULEJOS

AZULEJOS

Figuras azuis contra o branco neve.

Na fachada, a parede revestida

Mostra uma narrativa conhecida,

Onde o Santo com aves s'entreteve.

Na igreja modernista, a linha leve,

Com as curvas das serras parecida,

Moldura em movimento àquela lida

Entre os homens e Deus: A vida breve.

Mas olhando de perto os azulejos,

De estranhas silhuetas vi lampejos,

Como se outra camada sobre a história.

Estou, de certo modo, junto ao Santo,

A ouvi-lo com as aves, sem espanto,

Sendo ao menos reflexo em sua glória. 

Belo Horizonte - 02 02 1992


DESALENTO

DESALENTO

Quando falei de amor, me vi sozinho.
Porque teu coração nada entendia:
Éramos bons amigos — se dizia —
Desde que atravessei o teu caminho.

Mesmo assim, mil paixões em torvelinho
No brilho do olhar mal t’escondia.
Por mal dos meus pecados, todavia,
Fui tímido demais em meu carinho…

Revelado o segredo, a solidão
Parece s'espraiar qual rio manso
Pela vasta planície da ilusão.

Ainda varo noites sem descanso,
A procurar teus olhos na amplidão,
Qual lua que desejo e nunca alcanço.

Belo Horizonte - 01 11 1991


EPIFANIA

 EPIFANIA


Quando olhei para o céu, estava ali.
Na penumbra do poente, aquela estrela,
Luzindo para mim pela janela
E um pouco menos só eu me senti.

Perto da lua nova foi que a vi
Surgir-me rutilante, clara e bela
Enquanto o anoitecer feito aquarela
Descoloria em lilases junto a si.

Uma primeira estrela então se via
E eu, admirado a vê-la, recordava
Com saudades da tua companhia.

Dei-me conta de quanto acontecia:
Eu então percebi como te amava,
Vendo a primeira estrela ao fim do dia.

Betim - 10 10 1991


sábado, 24 de outubro de 2026

ÀS LÁGRIMAS

ÀS LÁGRIMAS 


Estou triste em te ver assim tão triste 

Seja por perda ou por melancolia.

Eu sinto tanto quanto tu sentiste

Tuas lágrimas n'uma hora sombria.


Pouco disse, ou melhor, nada me ouviste:

Talvez a mão na tua ainda fria…

Quando a ferida d'alma mais persiste,

Nem sábios vêm trazer sabedoria!...


Desculpa se não soube dar consolo

Ou sequer esperança n’aquela hora

Hesitando ora apático; ora tolo,


Na ânsia de te apoiar a insone aurora.

No fim, queria apenas pôr no colo

A amiga desolada que ‘inda chora.


Belo Horizonte - 22 08 1991


sexta-feira, 23 de outubro de 2026

O PATRIARCA

O PATRIARCA 


Cadeira de balanço em vai e vem,

O velho olhava o gado engordando…

Mantinha o semblante venerando,

Embora com um certo ar de desdém.


Por grão senhor de terras, mal ou bem,

Se acostumara a ter, de quando em quando,

Com homens e animais voz de comando,

Tratando os outros como lhe convém.


Nem esposa nem filhos, salvo engano,

Jamais lhe ouviram tom mais abrandado

Diante d'um dissabor quotidiano 


Sendo mesmo dos seus distanciado 

Passou a vida como um soberano

Temido demais para ser amado.


Manhuaçu - 13 10 2026

quinta-feira, 22 de outubro de 2026

GATAIADA

GATAIADA


Ouvi dizer que, à noite, os gatos todos
Diante de nossos olhos ficam pardos.
Ao menos, que seriam todos tardos,
Na madrugada a miar parvos engodos.

A gente passa e vê seus tristes modos
Sobre muros, lixeiras, sacos, fardos...
Com típica estridência de bastardos
Ou senão de acrobáticos rapsodos.

Sem embargo, da noite faz seu dia
Aquela incontornável gataria,
Circulando; sem ter o que fazer.

Talvez invejem sua liberdade
Tantos que vêm e vão pela cidade
A ter na escuridão ócio e prazer.

Belo Horizonte - 20 10 2017






VEM VER

VEM VER

Vem ver! Vem ver, querida, o sol se pôr!
Vem ver, em nuvens d'ouro, o dia findo,
Enquanto o sol nas serras vai sumindo,
Levando o nosso olhar aonde for.

Vem comigo... A falar ou não de amor.
O mundo pode ser de novo lindo,
Apesar dos pesares nos ferindo
E tantas horas sós em meio à dor.

Se tudo está tão triste, como dizes,
Talvez vir contemplar imensidades
Nos faça um pouco menos infelizes.

Vem ver do pôr-do-sol as claridades:
Que as luzes do arrebol, com seus matizes,
Nos levem as tristezas e saudades!

Belo Horizonte – 09 08 1991