RicardoC
Espaço para exibição e armazenamento de poemas à medida que os vou escrevendo. Espero contar com o comentário de leitores atentos e gente com sensibilidade poética por acreditar que o poema acabado não precisa ser o fim de uma experiência, sim o início de um diálogo.
domingo, 20 de setembro de 2026
LESS-SELLERS
O CANTAR DE APOLO
O CANTAR DE APOLO
— "Canto d’Amor, Erato, a sua desventura.
Eu que lhe ria do uso dado a suas setas,
Fui ferido d'amor, tal-qual vossos poetas.
Encantado por Dafne, ninfa bela e pura..."
"Vendo-a, logo me atrai tamanha formosura.
Eu me apresento à lira... Canto obras diletas.
Mas, Amor quis vingança e desgraça completas:
Pondo-a avessa a mim, foge na mata escura..."
"... E não alcanço a ninfa a correr trilha afora:
Em pânico, mudou-se em árvore de louro
Junto ao rio Pereu, conjurado àquela hora"
"De louros coroado, olho o dia vindouro:
Desde o primeiro Sol, tento tocar a Aurora,
Sem lhe alcançar, porém, o belo coche d’ouro..."
* * *
sábado, 19 de setembro de 2026
O SUPLÍCIO DE MÁRSIAS
O SUPLÍCIO DE MÁRSIAS
Eis, Terpsícore, todo o Lírico sentido,
Que a vida humana tem quando de sua morte.
Ter que sua arte é tudo e nada mais importe
Senão morrer pel’Arte em que havia vivido.
Mársias, sujeito a Apolo ao se ver vencido,
Fora estirado a um pinho robusto, de porte.
Lá, um escravo amola à falcata seu corte,
A imolar Mársias ante Apolo ressentido.
Sátiros, faunos, ninfas... Vendo tal crueza.
Choraram tristes todo um rio derramado,
Indo as canas da flauta em forte correnteza...
Da pele d’ele, fez-se um odre enfeitiçado
Que, se tocam a flauta, agita com presteza;
Mas, se tocam a lira, ouve petrificado.
* * *
GUERRA DE MELODIAS
GUERRA DE MELODIAS
Grã Calíope, recordo em músicas grande Épico
Onde Mársias e Apolo apostam o mor efeito
Quem obtém... Ou quem toca ainda mais perfeito
E qual melhor compõe... Ou mesmo o senso estético
Apolo faz ouvir d’uma ária o tom profético,
Mas Mársias, com um trote alegre, pôs afeito
Todo aquele conselho, em cujo alto conceito,
Fora elevado enfim sob o seu ar magnético.
Após, cantando, Apolo a todos arrebata.
Visto que une a poesia à música no encanto,
Somando voz e lira em plena serenata.
Mársias contesta então: Não usara ele o canto!
Apolo diz que igual com boca e dedos trata...
Vencedor, suplicia o vil por ousar tanto.
* * *
FEBO-APOLO
FEBO-APOLO
Pelo astro rei, Urânia, olhai a Astronomia:
Estrela a luzir sobre a abóboda celeste...
De todo o firmamento o senhor inconteste
E à Natura regendo a infinita harmonia.
O sol, que desde o início os dias definia,
Navega pelos céus o seu curso leste-oeste.
Se antes provê saúde; após, envia peste...
Senhor do porvir: O que tudo antes via.
Febo-Apolo, esplendente, atravessa dest'arte
Os céus e empunha a lira entre notas difusas
Seus concertos de luz áurea em toda a parte.
Ei-lo, enfim, musageta: Ao cortejo das musas!
― "Sigo a vos conduzir por obras d'engenho e arte,
Reinando como o sol, sem pejos nem escusas."
MÁRSIAS CÔMICO
MÁRSIAS CÔMICO
Cesse a tristeza, Tália; à Comédia se cante!
Que rir é para a dor excelente remédio.
Que eu vos cantar tão-só há-de vencer o tédio.
Que a vida, absurdamente, é muito interessante.
Inspirai, Tália, em Baco, o vinho inebriante!
Embriagai-me a voz muito acima do médio,
Eu ― por cômico e vão ― acorde todo o prédio
Ou ― por lírico e só ― às tristezas espante...
Sátiros, a cantar este Mársias burlesco,
Encenavam-no tonto, a vagar por bacanais.
Feito opereta, pois, do trágico ao grotesco.
Afogados em vinho os desejos carnais,
Em festa vêm saudá-lo mito carnavalesco:
Entrudo popular, de antigos carnavais...
* * *
sexta-feira, 18 de setembro de 2026
A MULHER DE MILO
A MULHER DE MILO
Esculpo no teu corpo o meu desejo
E, em mármore, o deixei à eternidade!
Como se te fixasse a mocidade
Na nudez gloriosa que cotejo.”
Promessas de prazeres antevejo,
Onde Beleza torna-se Verdade.
E os deuses, face à tua majestade,
De Citereia ouviram: — “Eu a invejo!...”
Erguendo a tua face desde o Olimpo,
Impõe-te das alturas admirada
Como a mais alva estrela no céu limpo.
Tu sorris, sereníssima, à homenagem
Da multidão a ver embasbacada
Aquela que de Vênus fez-se imagem.
Betim – 23 05 1995