quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

VERDES FOLHAS AO CHÃO

VERDES FOLHAS AO CHÃO

Não me sinto bem, pois, te sentes mal.
Mas mesmo estando triste em ver-te triste
Não devo me furtar de quanto existe
E crer que tu serás outra afinal.

Então, depois do choque natural
De te escutar -- embora dedo em riste --
Sei que este filme tantas vezes viste
Que já nem te incomoda o seu final.

No meu papel, porém, eu sangro e morro.
Visto que nunca vens em meu socorro,
Abandonado à margem da lembrança.

Eu caio como as folhas pelo chão,
Que, embora verdes, não dizem senão:
-- "Que coisa mais inútil a esperança!..."

Contagem - 20 02 2019

LIVRARIA DA TRAVESSA

LIVRARIA DA TRAVESSA

Através das estantes eu te busque
Entimesmada sobre as grossas pilhas,
A leres de O Milhão as maravilhas,
Sem que alguma mentira o todo ofusque.

Ou como de Londrina ir ter em Brusque
Sem passar pelas costas das Antilhas...
E ainda, sem cuidar das armadilhas,
Saber do triste fim do povo etrusque.

Compro por cinco paus a obra completa
De dois ultrarromânticos obscuros,
Enquanto tu suspiras indiscreta.

Como se mais passados que futuros,
Tu preferes os mortos a teu poeta,
Deixando ali meus livros imaturos...

Belo Horizonte - 08 05 1998

O FREIRÁTICO

O FREIRÁTICO

Corre à boca miúda que Dom João
Vive a cercar bernardas d'Odivelas...
Que poderá el-Rey querer com elas
Se esposas são de Cristo e d'ele não?

Talvez por ser modelo de cristão,
Menos devoto à Virgem do que às belas,
Seus olhares furtivos nas capelas
O façam ardoroso na oração.

Dos frutos d'esse amor logo se indaga.
Foram conter das vozes o bulício
Levando-o à Palhavã pela azinhaga...

Visto uma história santa desde o início,
Calhou ao irmão do Infante como paga
Ser Inquisidor-Mor do Santo Ofício...

Betim - 19 02 2019

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

O HIPÉRGRAFO

O HIPÉRGRAFO

Sim, prolixo talvez fosse impreciso.
Era antes como alguém cuja mania
Lhe impunha pôr em versos quanto via,
Pois no afã de poetar de sobreaviso.

De facto, era bem falho do juízo
Em arvorar-se um príncipe à poesia...
Ele mais escrevia que vivia
A remirar-se à folha vão Narciso.

Sem cuidar se era lido ou compreendido,
Enche as folhas de mal traçadas linhas
Apenas pelo gosto e para o Olvido.

Assim, passando as horas mais sozinhas,
Demonstrava em sua obra sem sentido
O quanto a arte e a loucura são vizinhas.

Betim - 07 02 2019

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

ENCIUMADO

ENCIUMADO

Certas coisas eu pego no ar;
Das erradas, eu desconfio...
Se querias me amofinar
Conseguiste pôr-me sombrio.

Deveras, me pego tardio,
Esperando te ver chegar!
Das erradas, eu desconfio:
Certas coisas eu pego no ar.

Deveras, não tem como errar:
Deixaste-me em casa arredio,
Saindo para tarde voltar!...
Das erradas, eu desconfio:
Certas coisas eu pego no ar.

Betim - 01 02 2019

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

RETALIAÇÕES

RETALIAÇÕES

Violência é uma língua universal:
Quem bate faz saber que agora manda;
Quem apanha compreende que desanda,
Se não souber bater mais forte ou igual.

Não se olha se este o bem e aquele o mal,
Tampouco errado ou certo quem comanda.
Mas sim se a autoridade veneranda
Faz valer seus desígnios no final.

Evidente que não termina nunca...
Hoje ao trono; amanhã n'uma espelunca:
Conforme o que a fortuna lhe conceda.

Todo grande tirano em ser temido
Porfia sem saber diante d'Olvido
O esplendor que antecede sua queda!

Betim - 04 02 2019

QUE SEJA!

QUE SEJA!

Já não lamentarei quem sou ou faço
Tão-só por permitir-te criticar-me.
Escrevo do que sinto, sem alarme,
A quem interessar possa meu traço.

Mesmo que meu talento seja escasso
Ou de rimas estúpidas eu me arme,
Tua avidez continua ainda a dar-me
Satisfação em ver-te frouxo o laço.

Se não t'estimo a ponto de sofrer,
Tampouco menor sei eu parecer
Ao lado de diatribes tão mesquinhas.

Ignoro -- é o que faço de melhor! --
E, se deixo ao Universo o meu lavor
Não temo a escuridão em que caminhas.

Betim - 02 02 2019