SENHORA
Belo Horizonte - 04 04 1998
Espaço para exibição e armazenamento de poemas à medida que os vou escrevendo. Espero contar com o comentário de leitores atentos e gente com sensibilidade poética por acreditar que o poema acabado não precisa ser o fim de uma experiência, sim o início de um diálogo.
SENHORA
Belo Horizonte - 04 04 1998
ADVERTÊNCIA
Cuidado: Pouco custa eu me apegar!
Mas se me sorris tão terna, menina,
Como posso cuidar da minha sina
Por amiúde e tanto eu te mirar?
Não... Talvez seja ousado o meu olhar
E me sorris assim por feminina.
Acontece, porém, que desatina
O pensamento logo ao t’encontrar.
Mas, se as coisas chegaram a esse nível,
Não faças tu igual outras mulheres,
Que aos poucos têm me feito um insensível.
Advertida és, por fim, de meus quereres
E d'esse coração tão suscetível:
— "Não me tentes se tu não me quiseres..."
Betim - 02 07 1996
ADÁGIO
Palavra dada, não se me abra a boca.
Ainda que na boca a frase dita
Não cale a dor do peito, apenas grita.
Seja sua desdita muita ou pouca...
Palavra dita ao léu, um tanto louca,
Soa à poesia sobre a linha escrita:
Revisitada a ponto de infinita,
Me aflige na garganta quase rouca.
Algo será poesia ao dizer tudo,
Se, e somente se, for dito sincero,
E, por sincero, digam já absurdo.
Garimpo ouro na lama em que chafurdo:
Seja poesia o adágio, embora mero,
Grito dado no ouvido do pior surdo!
Gov. Valadares — 19 09 1995
DÁ-SE UM JEITO
Se não há mais saída senão ser…
Sê! Vem a ser aquele que tu és.
Outro caminho estende-se a teus pés
Tão-logo te dispões a percorrer.
Vai ao encontro do teu próprio querer
De modo que, topando algum revés,
T’engrandeça o esforço, lés-a-lés,
À conquista d’um amplo belveder’!
Apenas não t’enterres ‘inda em vida,
No destempero que a única saída
Fosse afundar o poço em que caíste...
Ao invés, volve a ver a luz do dia,
Na fé de que esta mínima alegria
Pode fazer melhor uma hora triste.
Congonhas - 12 09 2026JEITO
HEMEROTECA
Erros gritantes, óbvios ululantes…
Estampavam em letras garrafais
Manchetes d’antiquíssimos jornais
Encadernados sobre altas estantes.
Os nomes, hoje tão desimportantes,
Jazem como se lajes sepulcrais
Com vidas idas para nunca mais
Ao longo de mil páginas errantes.
Fotos obscuras, vãs caricaturas…
Ilustravam os factos nas brochuras
Impressas para a luz dos mais letrados.
Mas, por fim, historiar mentalidades:
Em face das passadas realidades,
Escrever os presentes repensados.
Betim - 11 09 2026
MEIA IDADE
A pele que me veste as carnes vãs
Teve dias melhores já, eu penso:
Pareço atordoado-embora-tenso,
Em face da mesmice das manhãs…
No tráfego, atravesso horas malsãs,
Enquanto dos deveres me convenço.
Reconheço, contudo, algo pretenso
Em ver obrigações como vilãs.
Paro sem convicção para o trabalho
Como fosse uma espécie de espantalho,
A esperar no canteiro da avenida.
Ou se, a um momento meu de solidão,
Por fim me visse em meio à multidão
E passasse por mim toda uma vida.
Belo Horizonte - 02 09 2026
INIMICÍCIA
Aos que me querem mal, eu desaponto
Mantendo a fé na vida, dia após dia.
Tento encarar as coisas com alegria,
Salvo à vicissitude algum desconto.
O mal premeditado, todavia,
Pretende suscitar senão confronto.
E murmura a cada ai um contraponto,
Logo indo do debate à bizarria.
Pagam os justos pelos pecadores.
Ess’outros, não raro, homens de bem
Que dos demais se arvoram julgadores.
Nefastos, seu ardil e seu desdém,
Percebo no rancor somente intriga…
Não vale seu grilhão o que me obriga.
Betim - 01 09 2026