segunda-feira, 28 de setembro de 2026

LIBERTA QUÆ SERA TAMEN

LIBERTA QUÆ SERA TAMEN

                                                           para Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes

Liberdade. Quem louco ousará definir?

Seja luz à vereda da verdade

E ideal que, além, confronta a realidade,

Pois reluz sobre as trevas do existir.


Liberdade... Algo por ver no porvir

Do longo caminhar da Humanidade.

Sabe mover montanhas pl'a vontade,

E aluviões de ouro escuro faz extrair.


Liberdade, pois, luz que me iluminas

Os campos dos Gerais de mim de ideais:

Liberta ‘inda que tarde serás, Minas!


Porque os tiranos não findam jamais

A derrama de sangue p’las colinas...

Liberdade cativa és, oh Gerais!


Ouro Preto – 20 02 1995

PRETIOSUM AURUM NIGRUM

PRETIOSUM AURUM NIGRUM

                                                                               para Galanga do Congo, o Chico Rei

A verdade liberta? Oxalá sim!

Às vezes ser vil n’um mundo de vis

É tudo o que se pode quando ardis

Hão-de nos libertar antes do fim.


A verdade liberta... Livre, enfim!

Se crê que seu poder vem de raiz

E, na glória, desfila quanto quis

A conduzir a Santa em baldaquim.


A verdade liberta. Os homens não...

A chuva cai lavando quanto existe:

Precioso ouro preto ao boqueirão!


Tudo é passado, mas a lenda insiste.

Sob o jugo mais duro, à hora mais triste.

Eis Liberdade: Pedra em negra mão!


* * *

SOL ORIENS IN OCCIDUO

SOL ORIENS IN OCCIDUO

                                       para José Bonifácio de Andrada e Silva, o Américo Elísio 

A Nação que obro está além dos factos.

Talvez, por isso soe como mentira

Ou devaneio que não se permitira

Por advir de utopistas inexactos.


A Nação que obro está além dos actos

E antes do que, sonhada, me existira:

Terra das mil palmeiras! Da santa ira!!!

Dos ideais que levei comigo intactos...


A Nação que obro, ou melhor, o ardil:

Visão que supra-real iluminará...

Sol nascente a ocidente eis: o Brasil!


História do Futuro que será,

Quer profecia ideal; quer ilusão vil;

A Nação que obro, poeta, já não há…



* * *


OMNIA VINCIT AMOR

OMNIA VINCIT AMOR

                                                      para Alvarenga Peixoto, o Alceu da Heliodora

Dons da ventura são dados ao acaso

E havidos para após serem perdidos.

A dor vai suceder gozos vividos,

Enquanto alguma estrela nos der azo.


Dons da ventura são vistos ao ocaso

Da vida como sonhos esquecidos.

Felizes são apenas os iludidos...

Juízes sem julgar o próprio caso!


Dons da ventura: A tudo o amor é maior,

Mas acaba, ou melhor, acaba em danos...

Amor vence tudo e tudo vence amor.


Não olvido, malgrado já tenha anos.

Restam-me só lembranças onde há dor.

A vida passa... Não os desenganos!...


* * *

CARPE DIEM

CARPE DIEM

                                                    para Domingos Caldas Barbosa, o Lereno Selinuntino

Curtos os dias vãos que a Hora destrói:

Grão a grão de areia verte na ampulheta...

Há que se buscar fogo santo em meta,

Libertando do Cáucaso outro herói.


Curtos os dias sós... Pois, desconstrói

Verso a verso a poesia na gaveta...

Há que se verter fogo santo ao poeta,

Inflamando a palavra que o corrói.


Curtos os dias, mas d’isso eu me furto

Ao ouvir o que me vem da própria boca:

— “Curte o dia que é, poeta: O dia é curto!”


A vida vale àquele que os céus toca

E nem a Hora lhe alcança o verso surto

Nos corações de quem o amor evoca.


* * *

MÁSCARAS

MÁSCARAS


E tu, com estudada displicência,

Soubeste d'algum modo me atingir:

Sinto-me triste apenas em sentir

A maldade por trás de tua urgência.


As máscaras que exibes com frequência

— Nem sei se por mentir ou se omitir —

Pretendem subtilmente malferir,

Sorrindo-me com vã ambivalência.


Fingires sensações sem desejá-las

Tornam fantasiosas estas falas,

Que repetes qual texto decorado...


Em todo o caso, admiro a boa actriz

Ao pareceres sempre tão feliz,

Embora o coração esfarrapado.


Belo Horizonte - 19 06 1996

DE BRINCADEIRA

DE BRINCADEIRA 


Dois a brincar d’amor e de desejo:

Brinco com minha língua no teu brinco. 

Eu me busquei em ti com tanto afinco,

Que brinquei com o qu’eu desejo e vejo.

 

De brincadeira, a gente deu–se um beijo... 

No teu brinco, com minha língua brinco.

Fui brincar de esconder tanto o que sinto,

Que brinquei com o qu’eu vejo e desejo. 

 

A brincadeira, entanto, ficou real... 

Brincando com teu fogo eu me queimei;

Ardi em teus ardis para o teu mal. 

 

Meu mal... Tarde demais por mim me dei!

Meu bem serias tu sem outro igual

Depois que d’amor contigo eu brinquei. 

 

Belo Horizonte – 10 10 1991