terça-feira, 15 de setembro de 2026

ADÁGIO

ADÁGIO


Palavra dada, não se me abra a boca.

Ainda que na boca a frase dita

Não cale a dor do peito, apenas grita.

Seja sua desdita muita ou pouca...


Palavra dita ao léu, um tanto louca,

Soa à poesia sobre a linha escrita:

Revisitada a ponto de infinita,

Me aflige na garganta quase rouca.


Algo será poesia ao dizer tudo,

Se, e somente se, for dito sincero,

E, por sincero, digam já absurdo.


Garimpo ouro na lama em que chafurdo:

Seja poesia o adágio, embora mero,

Grito dado no ouvido do pior surdo!


Gov. Valadares — 19 09 1995

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

DÁ-SE UM JEITO

DÁ-SE UM JEITO 


Se não há mais saída senão ser…

Sê! Vem a ser aquele que tu és.

Outro caminho estende-se a teus pés

Tão-logo te dispões a percorrer.


Vai ao encontro do teu próprio querer

De modo que, topando algum revés,

T’engrandeça o esforço, lés-a-lés, 

À conquista d’um amplo belveder’!


Apenas não t’enterres ‘inda em vida,

No destempero que a única saída 

Fosse afundar o poço em que caíste...


Ao invés, volve a ver a luz do dia,

Na fé de que esta mínima alegria

Pode fazer melhor uma hora triste.


Congonhas - 12 09 2026JEITO

domingo, 13 de setembro de 2026

HEMEROTECA

HEMEROTECA


Erros gritantes, óbvios ululantes…

Estampavam em letras garrafais 

Manchetes d’antiquíssimos jornais

Encadernados sobre altas estantes.


Os nomes, hoje tão desimportantes,

Jazem como se lajes sepulcrais

Com vidas idas para nunca mais

Ao longo de mil páginas errantes.


Fotos obscuras, vãs caricaturas…

Ilustravam os factos nas brochuras

Impressas para a luz dos mais letrados.


Mas, por fim, historiar mentalidades:

Em face das passadas realidades,

Escrever os presentes repensados.


Betim - 11 09 2026

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

MEIA IDADE

MEIA IDADE


A pele que me veste as carnes vãs

Teve dias melhores já, eu penso:

Pareço atordoado-embora-tenso,

Em face da mesmice das manhãs…


No tráfego, atravesso horas malsãs,

Enquanto dos deveres me convenço.

Reconheço, contudo, algo pretenso

Em ver obrigações como vilãs. 


Paro sem convicção para o trabalho 

Como fosse uma espécie de espantalho, 

A esperar no canteiro da avenida. 


Ou se, a um momento meu de solidão,

Por fim me visse em meio à multidão 

E passasse por mim toda uma vida.


Belo Horizonte - 02 09 2026

terça-feira, 8 de setembro de 2026

INIMICÍCIA

INIMICÍCIA


Aos que me querem mal, eu desaponto

Mantendo a fé na vida, dia após dia.

Tento encarar as coisas com alegria,

Salvo à vicissitude algum desconto.


O mal premeditado, todavia,

Pretende suscitar senão confronto.

E murmura a cada ai um contraponto,

Logo indo do debate à bizarria.


Pagam os justos pelos pecadores.

Ess’outros, não raro, homens de bem

Que dos demais se arvoram julgadores.


Nefastos, seu ardil e seu desdém,

Percebo no rancor somente intriga…

Não vale seu grilhão o que me obriga.


Betim - 01 09 2026

terça-feira, 1 de setembro de 2026

PUERIL

PUERIL

Pareço hoje menos sério
Do que eu era na quinta série.
Trocadilho um vitupério,
Qual vilão de telessérie…

De mim não faço mistério:
Eis minha mente paupérie!
Talvez me falte critério,
Feito pobre na intempérie.

Já nem tão fora-do-sério;
Já nem tão fora-de-série,
Trocadilho em cemitério,
Qual vilão de minissérie. 

Betim - 01 09 2026

ACRONICTO

ACRONICTO

A paz das extensões silenciosas,
Enquanto cai a noite sobre as serras,
Veste em melancolia àquelas terras
E ao céu mistura azuis, lilases, rosas…  

A d’Alva e a lua cheia, luminosas,
Surgem pelo horizonte aos finisterras.
Longe, mugem as vacas e as bezerras 
E grilos cricrilando nas mimosas.

As sombras s’espalhavam longamente
À medida que p’ros lados do poente
A claridade aos poucos indo embora…

Os cuidados se vão co’o dia findo
Certo que ao anoitecer tudo é tão lindo,
Que o olhar sobre as paragens se demora.

Serra Azul - 22 07 2026