quarta-feira, 30 de setembro de 2026

GENIOSA

GENIOSA

Quando cravas em mim os olhos graves E o mel da língua turvas em veneno, Eu sinto o teu pesar fazer pequeno Um coração que tu tinhas as chaves. Como tirar dos teus olhos as traves E te fazer feliz n‘um dia ameno!? Se já perdes o espírito sereno, Mesmo co’as palavras mais suaves. Querida, como agora me magoas... Se ‘inda há pouco tivemos horas boas E de carinhos só carinhos vêm?! Decerto te aborrece o meu amor... Senão, por que me causas tanta dor? Por que tanto mal a quem te quer tão bem? Belo Horizonte - 13 07 1996


terça-feira, 29 de setembro de 2026

DESASSOSSEGO

DESASSOSSEGO

Atrás de lentes foscas, olhos vagos;
Um coração sangrando malferido...
Na névoa a envolver o acontecido,
Vou recolhendo os restos dos estragos.

Nada senão o vão de vãos oragos
A me profetizar qualquer sentido!
Vasculharia as sombras sós d'Olvido,
Não fossem os amores fundos lagos.

Por horas de total desassossego,
N'um niilismo banal me desapego,
Indiferente aos males habituais

Desnorteia, afinal, outro fracasso.
Fragmento o ser, pedaço por pedaço…
Eu sobrevivo a mim uma vez mais.

Belo Horizonte – 23 05 1996

DELÍRIOS

DELÍRIOS


Dizei-me, pois, vós-outros, vos conjuro!
Que notícias haveis d'aquela que amo.
Vede: O amor faz rodeios feito o ramo
De trepadeira em torno do inseguro.

Quanto desassossego e vão apuro?!...
Que ideias imperfeitas ora tramo?!...
Vós, por suposto, ouvi-me os ais que clamo:
— “Onde andará aquela qu'eu procuro?...”

Vede: As luzes que tive hoje são trevas!
Vivendo suspeitoso horas malevas
De ausências e silêncios conflitantes.

Porque amor — ou loucura — qual sabeis,
Às vezes vai de encontro às próprias leis...
Sede vós, de meus ais, os expectantes!

Betim - 12 12 1996

segunda-feira, 28 de setembro de 2026

DE DIA, À TARDE

 DE DIA, À TARDE


Quando se adia a vida p'ra mais tarde

— E mais tarde... E mais tarde...  E mais... E mais... —

Até que venha a ser tarde demais

E eu passe pela vida por covarde.


Mais este dia adie; esta hora atarde,

Em vão eu sigo andando entre os normais.

Embora os imitasse, tais-e-quais,

Demais o coração em vão em mim arde...


De dia, à tarde... Ainda que hoje não.

Que seja-esteja ardendo o coração

Da hora que, uma outra vez, adio e atardo.


Até que seja dia e esteja quente,

Eu passo pela vida de repente:

Demais meu coração em vão eu ardo...


Betim - 08 06 1996

MELODRAMÁTICOS

 MELODRAMÁTICOS 


O público se reúne na plateia 

Para nos assistir a insanidade. 

Devastados, cada um de si evade 

E atravessa cada um uma odisseia. 


Ignoro onde o real; onde a ideia, 

N'aquilo que sentimos de verdade. 

Já devassar a própria intimidade, 

Inflama a discussão desde a traqueia... 


Que espetáculo é este! Que pavores!

Digladiamos, sim, acusações 

Refeitas face a estranhos desamores. 


Blecaute! Cerra o pano sem ilusões: 

Vão nos vaiar ao fim como impostores 

Ou gargalhar de nossos corações?


Betim - 12 06 2011

LIBERTA QUÆ SERA TAMEN

LIBERTA QUÆ SERA TAMEN

                                                           para Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes

Liberdade. Quem louco ousará definir?

Seja luz à vereda da verdade

E ideal que, além, confronta a realidade,

Pois reluz sobre as trevas do existir.


Liberdade... Algo por ver no porvir

Do longo caminhar da Humanidade.

Sabe mover montanhas pl'a vontade,

E aluviões de ouro escuro faz extrair.


Liberdade, pois, luz que me iluminas

Os campos dos Gerais de mim de ideais:

Liberta ‘inda que tarde serás, Minas!


Porque os tiranos não findam jamais

A derrama de sangue p’las colinas...

Liberdade cativa és, oh Gerais!


Ouro Preto – 20 02 1995

PRETIOSUM AURUM NIGRUM

PRETIOSUM AURUM NIGRUM

                                                                               para Galanga do Congo, o Chico Rei

A verdade liberta? Oxalá sim!

Às vezes ser vil n’um mundo de vis

É tudo o que se pode quando ardis

Hão-de nos libertar antes do fim.


A verdade liberta... Livre, enfim!

Se crê que seu poder vem de raiz

E, na glória, desfila quanto quis

A conduzir a Santa em baldaquim.


A verdade liberta. Os homens não...

A chuva cai lavando quanto existe:

Precioso ouro preto ao boqueirão!


Tudo é passado, mas a lenda insiste.

Sob o jugo mais duro, à hora mais triste.

Eis Liberdade: Pedra em negra mão!


* * *