segunda-feira, 6 de julho de 2026

EM MAUS LENÇÓIS

EM MAUS LENÇÓIS 


É a cama onde se deita 

Ou a bela dama que se ama?

Outra vez, o mesmo drama:

Sua beleza perfeita

A idas e vindas me chama!


Drama, pois, em movimento

Põe a vida com os seus erros

Apesar dos sós desterros

Lembrados a todo momento

Nas travessias dos cerros.


Outra vez, da ânsia de ter

Ir ao tédio de possuir…

Enternecido despir

A promessa de prazer

E, após, saciado partir.


Outra vez, por bem ou mal,

Buscar em alheia alcova

Alguma esperança nova

Sempre frustrada ao final

Quando o término se prova.


Fazer amor… Dentro de mim, 

Seja engano ou desengano.

Ao malograr qualquer plano.

Reste à mente, tanto e enfim,

Somente um encontro humano.


Betim - 06 01 2026

sexta-feira, 3 de julho de 2026

DESMEMÓRIA

DESMEMÓRIA


Hoje em dia, ando sem querer lembrar.

Quando tudo é saudade e lamento, 

Há-que se desejar o esquecimento,

N’um estupor sem hora nem lugar.


Por ventura não tem merecimento

O que se aquieta para não pecar?

De modo semelhante, se olvidar

Parece mais virtuoso no momento…


Escolho desdenhar todo o passado

Ao esquecer quanto houvesse a ser lembrado,

Certo de que não vale muito a pena.


Seja mais leve a mente, pois, vazia

E indiferente a toda nostalgia,

Enquanto a vida, em sombras, se apequena.


Betim - 01 02 2026

quarta-feira, 24 de junho de 2026

INEQUÍVOCO

INEQUÍVOCO


Há quem se perca em doutas conjecturas

Acerca do que seja errado ou certo,

Dizendo-se do bem sempre mais perto,

Ao contrário dos vãos e suas agruras.


Quer, da graça presente e das futuras,

Merecimento pleno, pois, desperto

Das confusões que pôs a descoberto,

Pela enumeração de incomposturas.


Assim, lista pecados, pecadores…

E pinta o alheio inferno co’os horrores

D’uma imaginação desenfreada.


Pobre d’este que s’enche de razão,

Pois dono da verdade na ilusão

De tê-la em suas mãos melhor moldada.


Betim - 23 06 2026

terça-feira, 16 de junho de 2026

LOGOMAQUIA

LOGOMAQUIA


Se digo, não desdigas; não respondas.

Senão, do bate papo ao bate boca,

A ideia toda logo se desfoca,

Qual pedra sobre o lago a lançar ondas…


Se mostro, não demonstres; não m’escondas.

Se nem tem argumento uma mente oca,

Tampouco alguma angústia te provoca

A graça de teus ais quando me rondas.


Não buscas a verdade, antes vencer.

Mal m’escutas no afã de desdizer

E calar não por fé, mas por cansaço.


É guerra de saberes; de discursos.

Deixar desencontrados os percursos

Fazendo do diálogo embaraço.


Belo Horizonte - 09 06 2026



sexta-feira, 12 de junho de 2026

HUMANO CORPO

HUMANO CORPO


É preciso entender do que sou feito.

Carne, decerto… Se há dor ou prazer,

É porque a pele sente e, sem querer,

Ao se deixar tocar, dispara o peito.


Mas lembro-me de azares contrafeito,

Em meio a mil paixões de se perder.

Cicatrizes deixaram esse saber

De o desencanto vir de qualquer jeito.


Do clímax ao anticlímax, já vivi

Entregue a sensações e sentimentos,

E mais males que bens eu conheci.


Hoje regro melhor os meus intentos,

Confiante de encontrar, aqui e ali,

Beleza até nos dias mais cinzentos.


Betim - 01 06 2026

PASTO SUJO

PASTO SUJO


Ao longo de vertentes desmatadas,

S’elevaram mil lápides d'argila.

São cupinzeiros secos quase em fila

Por sobre troncos d'árvores cortadas.


Algures, braquiárias inclinadas,

Enquanto um vento gélido sibila…

Já ronda seriema, alta e intranquila,

Sem vacas a mugir nas invernadas.


Ora terra maninha; outrora mata,

A propriedade tem a face ingrata:

Campos desarvorados, afinal.


Por fim, andar por entre termiteiras

Faça pensar nas eras derradeiras,

Diante d’um cemitério florestal.


Brumadinho - 06 06 2026

quinta-feira, 11 de junho de 2026

MOEDA VELHA

MOEDA VELHA


Em pó, o ouro descia a serra a pé

Ou no lombo de tropas destemidas.

Típico descaminho às escondidas,

Onde cunhavam moedas de má-fé.


Hoje casa sem telhas nem sapé,

À guisa de fortim, contava as idas

E vindas pelas grimpas desvalidas.

Silente testemunha, memória é…


Lá, dobrões e dobrões encheram arcas,

Negando a quinta parte dos monarcas,

Embora a Cruz e as Quinas nas moedas.


Após ganhava as ruas e os mercados

No dinheiro corrente d'estes lados:

Dos confins do Gerais às sós veredas…


Moeda - 13 02 2026