sexta-feira, 6 de novembro de 2026

PEDRA DA ILHA

PEDRA DA ILHA

Lá do alto do penedo eu avistei
A barca pela entrada da enseada,
Enquanto surpreendia essa alvorada,
Trazer-me do alto mar o astro rei.

No abismo do mirante me postei,
Em plena face nua da prumada:
Parecia furtar minha mirada
Tão esplêndida a luz que lhe flagrei

A barca a passar sob o vão da ponte 
Avança com o sol pelo horizonte,
Dourando o céu e o mar atrás de si.

A cidade desperta, todavia.
Às voltas co’os cuidados d'outro dia,
Também eu lá do alto amanheci.

Vitória - 11 10 2026

QUINQUAGÉSIMO

QUINQUAGÉSIMO


Ano após ano em ordem perfilados,

Os conto hoje cinquenta em minha vida,

Ao longo d’esse tempo, entre guardados,

Das letras empreendi a nobre lida.


Sejam os meus escritos, pois, julgados

Como obras d'uma mente enternecida

Co'a música de rimas e de achados,

Que fazem a poesia mais sentida.


Ou senão, empoeirem nas gavetas,

Junto ao livros de tantos bons poetas

Bem mais doutos e líricos do que eu.


Pois seja como for, eu passarei.

Fiquem tão-só os anos que ganhei

Deixando em cada verso o tempo meu.


Betim - 01 05 2026


ARTISTA DE RUA

ARTISTA DE RUA


O seu palco, um tapete no cimento.

Ao projectar a voz aos transeuntes,

Parado, só o poeta toma apuntes,

Como se espectador do movimento.


Com cinco malabares contra o vento

Exibe-se no afã d’haver ajuntes.

– Já te respondo sem que tu perguntes:

Não tinha nada além d’esse portento…


Vestido como tal, o saltimbanco

Apregoa um patuá cheio de axé,

A todo e qualquer tranco ou solavanco.


Dizendo contra o mal feito com fé,

Curava do cegueta até o manco

E o povo em volta a ver jurando que é…


Belo Horizonte - 28 10 2026

quinta-feira, 5 de novembro de 2026

RUBRA FLOR

RUBRA FLOR

A flor do amor eu colho em teus carinhos.
Apesar das seguidas despedidas,
Mais ricas são as horas compartidas,
Após se nos cruzarem os caminhos.

Desde então, eu surpreendo passarinhos
Às alvoradas quase amanhecidas,
Como se lhes narrasse as nossas vidas,
Conforme os mais antigos pergaminhos.

A flor do amor eu colho em teus jardins.
E as pétalas espalho para vires
Gentil e perfumosa d’alecrins… 

Até saber do Fado os seus devires,
Procuraremos juntos, nos confins,
O pote d'ouro debaixo do arco-íris!...

Belo Horizonte - 10 06 1996

CHE PECCATO…

CHE PECCATO…


Que fizemos, amada, em nossas vidas,

Que, perdidas, se vão já sem sentido?

Que pode ter ao amor acontecido,

Que luzes quase em sombras convertidas?


Que mal se nos abriu tantas feridas,

Que nós há tanto temos padecido?

Que tornou o peito em dor tão consumido,

Que o sentimento expôs a mágoas idas?


Que ânsia nos perde o amor, se era-nos tudo?

Que nos encontra e após me deixa mudo?

Que nos separa mesmo enamorados?


Que que nos salvará o amor doente?

Que que permitirá mais claramente,

Que não me olhes nos olhos só pecados?


Betim – 12 12 1996


LÍRICA

LÍRICA

Quisera versos tão bons quanto a musa,

Que com doces carinhos m’os inspira.

Já não me há notas pela rude lira,

Senão loas a si, e ela as recusa...


Aura que a melodia faz difusa

E onde a poesia em música delira!

Versos e notas… Eis quanto pedira

Quem minha dura pena não escusa:


Embora grande amor, falta talento.

Pois, desde a rude lira à dura pena,

Toda canção lhe soa vão lamento.


Fizera versos tão sós quanto o poeta…

Se em suspiros a rima se apequena

Logo a musa, queixosa, se inquieta!


Belo Horizonte - 10 10 1996

TEMPO E DINHEIRO

TEMPO E DINHEIRO

A hora não passa mais rapidamente  Por marcar no relógio os seus ponteiros…  Acompanhar-lhe as voltas faz dinheiros, Não o instante vivido mais contente.

Devo lembrar que vivo no presente,

Ao invés de me apressar nos costumeiros

Dias para alcançar os prazenteiros,

Comprados sob o sol mais inclemente.

 

Eu penso que estou onde devo estar

E fazendo quanto há-que se fazer.

O mais são ânsias vãs já sem lugar.

Se corro é pelo vento: Ao bel-prazer

De ter-me em movimento e me achegar

Aonde quer que o encanto possa ser.

Brumadinho - 31 10 2026