sexta-feira, 18 de setembro de 2026

A MULHER DE MILO

A MULHER DE MILO

 

Esculpo no teu corpo o meu desejo 

E, em mármore, o deixei à eternidade! 

Como se te fixasse a mocidade 

Na nudez gloriosa que cotejo.” 

 

Promessas de prazeres antevejo, 

Onde Beleza torna-se Verdade. 

E os deuses, face à tua majestade, 

De Citereia ouviram: — “Eu a invejo!...” 

 

Erguendo a tua face desde o Olimpo, 

Impõe-te das alturas admirada 

Como a mais alva estrela no céu limpo. 

 

Tu sorris, sereníssima, à homenagem 

Da multidão a ver embasbacada 

Aquela que de Vênus fez-se imagem. 

 

Betim – 23 05 1995

MÁRSIAS TRÁGICO

MÁRSIAS TRÁGICO  

  

Vão Mársias, Melpomene: Uma Tragédia a vida  

Tão-só vivida a obter da música prazer...  

Um que, tão talentoso, intentara vencer  

O próprio deus Apolo em musical partida.

  

Vós, Melpomene, sendo em juízo escolhida,  

Junto a vossas irmãs, lograstes conceder  

Vitória ao que melhor músico parecer,  

Com submissão de quem cuja obra ver vencida.

  

Mársias vence co'a flauta o seu primeiro embate.  

Apolo após, porém, cantando é persuasivo...  

Sua voz acompanha a lira e obtém o empate!

  

Vence, por fim, Apolo: A Mársias faz captivo.  

Indignando o divino um mortal que o combate,  

Febo, impiedosamente, o esfola ainda vivo. 

 

*          *          *    

DESAFIO MUSICAL

DESAFIO MUSICAL

  

Canto-vos, oh Polímnia, à Eloquência regente!  

Canto um canto que é muito mais que uma canção.  

Canto um artista audaz contra o deus da criação.  

Canto em meu canto, oh musa, a verdade somente.  

  

Elevai-me, entretanto, a voz mais eloquente.  

Com palavras, falai à mente e ao coração,  

Para que, mais que sons, tragam-nos emoção,  

E enfim, quem as ouvir, não fique indiferente.  

  

À lira, sete cordas... Perfeito tocava  

Apolo — deus heleno: O que a todos inspira,  

E, ao dedilhar a lira, a pedras encantava!  

  

À flauta, sete tubos... Místicos sons tira  

Mársias — mito sileno: O que águas transbordava...  

Eis, por tamanho feito, a flauta contra a lira!  

 

                     *          *          *  

ORIGENS DA FLAUTA

ORIGENS DA FLAUTA 

                             

Souberam-me, contudo, alta Clio, outro conto   

De quão irrefreável e violento Amor!   

Quis ―  do grande deus Pã ― ousar-se vencedor:  

Fê-lo inventor da flauta e a impôs ao contraponto.   


Embora de Hermes filho, era Pã velho e tonto...   

Encantado, se vê de Siringe amador.   

Ao declarar, porém, à bela ninfa amor,   

Ela, por não o amar, negara-o de pronto.   


Siringe, a caçadora, avança agora caça.   

Para à margem do rio e roga às ninfas manas   

Fugir ao feio Pã, que apressado ali passa.   


Pã tenta lhe abraçar, mas só abraça canas...   

D'elas ouve um queixume, achando alguma graça.   

E sopra a flauta Pã, para as paixões humanas...  

 

                       *          *          * 


quinta-feira, 17 de setembro de 2026

ORIGENS DA LIRA

ORIGENS DA LIRA

 

Contam da História, Clio, aquela antiga lenda  

― Que pela vossa graça evade ao esquecimento... ―  

De Hermes, o astuto deus, em cujo nascimento,  

Soube inventar a lira, hoje admirada prenda. 

  

Hermes mal nascia e já ― d’uma caverna à senda ―   

Topa co’a tartaruga, a qual dá corpo ao invento:   

Das tripas cordas faz para um novo instrumento,   

E logo após as tange ao som que se desprenda.  

  

Voou d'asas nos pés; de Apolo após fez furtos:

Mais de cinquenta bois levando o deus ladrão,

Até Febo o prender a voos bem mais curtos.

  

Soube Hermes, todavia, aclarar a questão:  

Da lira tira os sons, que em sete notas surtos,  

Para a glória de Apolo, eles soam desde então.  

 

                     *          *          * 

EVOCAÇÃO ÀS MUSAS

EVOCAÇÃO ÀS MUSAS

  

―”Saúdo-vos, oh musas! Pela vossa glória,

Que o talento encontre em mim humilde herdade.

Evoco-vos n'um canto a excelsa majestade,   

Oh filhas imortais da grã Mneme, a Memória.”


“Clio, em sabedoria, haja-me toda a História.   

Polímnia, Eloquência à minha vã verdade.   

Melpomene, à Tragédia, a dramaticidade.   

Tália, pela Comédia, a alegria ilusória.”   


“Urânia, iluminai-me, audaz, a Astronomia.   

Calíope, escrevei o Épico por meus hinos.   

Terpsícore, inspirai o Lírico à poesia.”   


“Erato — à lira, ter os Amores divinos;  

Euterpe — à flauta, dar a Música harmonia.   

Vossa graça perpasse os meus alexandrinos!”   

 

*          *          * 

PRÓLOGO


I

PRÓLOGO

Caminhava; e a ideia me veio andando:    

Era alguma harmonia vinda ao longe, vaga,   

Ou senão fantasia em que verdades traga    

D'um mito que ninguém saberá onde ou quando. 


Ouço ― dentro de mim ― lira e flauta soando.    

Eu vejo um deus dourado, enquanto a lira afaga,  

E um artista que beija a flauta s'embriaga...    

Vejo-os, pelo caminho, à medida que eu ando.  


Apolo e Mársias vêm... Disputam bem à frente!   

Pois, se imagino o real, talvez consiga vê-lo,    

E, ainda ao imaginar, criar poeticamente. 


Nos desvãos da memória, os recordo em duelo: 

A lira e a flauta soam: Ocidente e Oriente 

Opostos n'um Ideal, a excelência do Belo! 


*          *          *