terça-feira, 4 de agosto de 2026

DESANSIEDADE

DESANSIEDADE


Não te parece muito apenas ser?

Penso que estou onde preciso estar,

E a fazer o qu’eu preciso fazer.

O mais são ruas para caminhar…


Tenho andado sem pressa para ver

O mundo ao meu redor, certo de olhar

E incerto do que traz tanto querer,

Como fosse o porvir algum lugar.


Talvez eu seja quem posso existir.

Ao encontro do que possa ainda vir,

Aceitando-me, seja como for.


Não te parece muito apenas ir?

Penso que vou aonde conseguir.

O mais são serras para o sol se pôr.


Belo Horizonte - 30 07 2026

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

ÁRDUO VOO

 ÁRDUO VOO


Um chão alcatifado à flor de ipê

E horas de tarde morna e modorrenta…

A língua outra palavra experimenta,

Buscando nobre rima por mercê.


Soubesse de beleza sem porquê,

Nas trilhas da chapada poeirenta,

Andaria onde o sol desorienta,

Tamanha imensidão ali se vê.


Arribação de avoantes a poesia.

Meu verso em linhas tortas principia

Até saber dizer do que senti.


Carece, pois, de alturas miradouras,

Que me revelem luzes duradouras

Nas coisas distraídas que escrevi.


Belo Horizonte - 31 06 2026

quarta-feira, 22 de julho de 2026

PSIQUIÁLISE

PSIQUIÁLISE


Ter a mentalidade bitolada

Com verdades bem particulares

Ou mesmo com doutrinas basilares

Parece o mal d’esta época agitada.


Impõem, sem importar se certa ou errada,

Sua visão de mundo aos sós pensares,

Como ocupassem todos os lugares,

Pontificando tudo sobre nada…


Cansa ouvir discursar estes convictos,

Na ânsia de publicar seus veredictos,

Acerca das misérias mais humanas.


De resto, esse oceano de certezas

Distancie as extremas naturezas

Entre desesperanças quase insanas.


Belo Horizonte - 12 07 2026


quarta-feira, 15 de julho de 2026

SOLAR

SOLAR


Não há como falar do teu sorriso,

Senão como d'um sol quente a brilhar.

Não há como sequer eu cogitar

Não seres o que quero e o que preciso.


Não há como te ver e não te olhar

Como um céu que se abre sem aviso…

E ter, contigo, um dia a mais no paraíso,

Apenas com teu brilho a iluminar.


Um quadro em cores vivas, a cidade

Parece mais alegre. Na verdade,

S’espelha na lagoa em tons dourados.


Tudo isto enquanto passas pela rua…

O sol se mira em ti! E continua 

A reluzir-te os dons iluminados.


Belo Horizonte - 05 07 2026 

quinta-feira, 9 de julho de 2026

CORRERIA

CORRERIA


Ir — de cá para lá; lá para cá —

Sem perceber passar cada momento,

Faz-me pensar se a vida é movimento,

À medida que esqueço de quanto há.


Correndo, não importa aonde vá,

Vejo o mundo passar n’um sentimento

Enmimesmado e alheio a todo intento,

Para estar simplesmente agora-já.


Aos poucos ver mudar os horizontes

Da selva de edifícios contra os montes,

Enquanto avanço pelas avenidas.


Para no fim do dia, ao sol poente,

Ainda e mais além, seguir em frente,

Em busca de distâncias desmedidas.


Belo Horizonte – 07 07 2026

segunda-feira, 6 de julho de 2026

EM MAUS LENÇÓIS

EM MAUS LENÇÓIS 


É a cama onde se deita 

Ou a bela dama que se ama?

Outra vez, o mesmo drama:

Sua beleza perfeita

A idas e vindas me chama!


Drama, pois, em movimento

Põe a vida com os seus erros

Apesar dos sós desterros

Lembrados a todo momento

Nas travessias dos cerros.


Outra vez, da ânsia de ter

Ir ao tédio de possuir…

Enternecido despir

A promessa de prazer

E, após, saciado partir.


Outra vez, por bem ou mal,

Buscar em alheia alcova

Alguma esperança nova

Sempre frustrada ao final

Quando o término se prova.


Fazer amor… Dentro de mim, 

Seja engano ou desengano.

Ao malograr qualquer plano.

Reste à mente, tanto e enfim,

Somente um encontro humano.


Betim - 06 01 2026

sexta-feira, 3 de julho de 2026

DESMEMÓRIA

DESMEMÓRIA


Hoje em dia, ando sem querer lembrar.

Quando tudo é saudade e lamento, 

Há-que se desejar o esquecimento,

N’um estupor sem hora nem lugar.


Por ventura não tem merecimento

O que se aquieta para não pecar?

De modo semelhante, se olvidar

Parece mais virtuoso no momento…


Escolho desdenhar todo o passado

Ao esquecer quanto houvesse a ser lembrado,

Certo de que não vale muito a pena.


Seja mais leve a mente, pois, vazia

E indiferente a toda nostalgia,

Enquanto a vida, em sombras, se apequena.


Betim - 01 02 2026