quarta-feira, 28 de setembro de 2016

ODE MELANCÓLICA

ODE MELANCÓLICA

I
Não fosse o teu olhar
Me abrir d’alma as janelas,
Apenas bastaria eu me calar
E nada saberiam das procelas
Que têm há muito tempo me aturdido.
Sem qu’eu possa, porém,
Buscar mais nada além
                        [ do próprio olvido.

II
Assim, a merencória
Feição dos olhos meus
Expõe demais a minha dor inglória
À penetrante luz dos olhos teus.
Pois entre olhos se vê, mal comparando,
Estrelas a orbitar,
Podendo se alinhar
[ de quando em quando.

III
Falaz luz dos felizes
Ou estranho afã d’um triste?...
Enquanto se cutuca as cicatrizes,
Não fecha suas feridas quem insiste!
Quando eu me for, não chores.
Não. Nem sempre essa vida
Nos vale ser vivida
[ em meio a dores.

IV
Por isso, ergue-te a taça
E bebe do teu vinho!
Embriaguemo-nos, pois, a vida passa
E mais suave a tua pele ao meu carinho...
Alegra-te apesar d’essa tristeza
Que turva meu semblante.
E traz-me ao peito amante
[ outra beleza.

V
Mas curta a vida curta
Quem d’ela tem à farta!
Se hoje cheira bem rama de murta.
Amanhã, igual palha se reparta...
A mão que ora te toca tão quente
Não mais será um dia...
Pousada ao peito, fria
[ e inutilmente.

VI
Entende que essa idade
Na qual tenros os frutos
Passa e leva consigo, na verdade,
Uma época de riso e olhos enxutos,
Que contrasta com outra mais futura.
Uma época onde então
Partido o coração,
[ se desfigura...

VII
Escuta, minha linda
Os versos do infeliz.
Percebe quanto ardor contêm ainda
E não só como insólitos ardis
A bem te seduzir com más urgências.
Talvez seja um mistério
Quedar já sob o império
[ de aparências.

VIII
O triste é um realista,
Que sonha realidades.
E não importa o quanto ele resista,
Tão-só lhe restarão suas saudades...
Alguns chamarão isso pessimismo
Mas outros, lucidez.
Vivendo sem talvez,
[ e sem cinismo.

IX
Tampouco evita a treva
Aquele que a conhece.
Já sabe a escuridão aonde leva
E nada teme quando se entristece.
Ao contrário, compreende até melhor
Os factos e as razões
De tantos corações
[ tontos d’amor.

X
Sorri, tu que tão bela
M’escutas estes ais.
Sorri, porque a tristeza te revela
A verdadeira dor de amar demais.
E, sorrindo, percebes meu pranto
Enfim, revelação.
Que só na escuridão,
[ alumbra tanto.

XI
Decerto alguma dor
Também o teu sorriso
Se oculta entre o prazer e o dissabor.
De tentar viver como é preciso
Ou ouviste que mais bela nos seduz
A moça que sorri,
Senhora já de si,
[ de encontro à luz.

XII
Embora fale pouco,
Sorrio ainda menos.
Não cuido se casmurro, arisco ou louco
Por ter tantos em conta de somenos...
Sem embargo, apesar de tão sisudo,
Às vezes eu me alegro
De pôr meu olhar negro
[ além de tudo.

XIII
O facto é que sorrindo
Soubeste me entender:
Faz do mundo um lugar sempre mais lindo
Quem alegrias e dores envolver
N’um sorriso mais denso de poesia
Já não porque feliz
Mas sim, porque se quis
[ melancolia.

Betim – 27 09 2016