sexta-feira, 30 de setembro de 2016

DE NOITINHA

ANOITECER

Quando as cigarras cantam à tardinha
E o arrebol sangra os longes do horizonte
Que a lua, alfange em prata, além desponte,
Se d'ela a estrela d'alva se avizinha!

Deveras, n'aquela hora tão sozinha,
Haja um concerto cá do alto do monte,
No qual a passarada outra vez conte
A bela melopeia que me convinha.

Avesso ao burburinho das cidades,
Encontre eu pelas brenhas alterosas
Lindas soledades,  poentes rosas...

De modo que com amplas liberdades,
Minh'alma evada além na serrania
Para eu me despedir de mais um dia.

Betim - 27 09 2013

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

ODE MELANCÓLICA

ODE MELANCÓLICA

I
Não fosse o teu olhar
Me abrir d’alma as janelas,
Apenas bastaria eu me calar
E nada saberiam das procelas
Que têm há muito tempo me aturdido.
Sem qu’eu possa, porém,
Buscar mais nada além
                        [ do próprio olvido.

II
Assim, a merencória
Feição dos olhos meus
Expõe demais a minha dor inglória
À penetrante luz dos olhos teus.
Pois entre olhos se vê, mal comparando,
Estrelas a orbitar,
Podendo se alinhar
[ de quando em quando.

III
Falaz luz dos felizes
Ou estranho afã d’um triste?...
Enquanto se cutuca as cicatrizes,
Não fecha suas feridas quem insiste!
Quando eu me for, não chores.
Não. Nem sempre essa vida
Nos vale ser vivida
[ em meio a dores.

IV
Por isso, ergue-te a taça
E bebe do teu vinho!
Embriaguemo-nos, pois, a vida passa
E mais suave a tua pele ao meu carinho...
Alegra-te apesar d’essa tristeza
Que turva meu semblante.
E traz-me ao peito amante
[ outra beleza.

V
Mas curta a vida curta
Quem d’ela tem à farta!
Se hoje cheira bem rama de murta.
Amanhã, igual palha se reparta...
A mão que ora te toca tão quente
Não mais será um dia...
Pousada ao peito, fria
[ e inutilmente.

VI
Entende que essa idade
Na qual tenros os frutos
Passa e leva consigo, na verdade,
Uma época de riso e olhos enxutos,
Que contrasta com outra mais futura.
Uma época onde então
Partido o coração,
[ se desfigura...

VII
Escuta, minha linda
Os versos do infeliz.
Percebe quanto ardor contêm ainda
E não só como insólitos ardis
A bem te seduzir com más urgências.
Talvez seja um mistério
Quedar já sob o império
[ de aparências.

VIII
O triste é um realista,
Que sonha realidades.
E não importa o quanto ele resista,
Tão-só lhe restarão suas saudades...
Alguns chamarão isso pessimismo
Mas outros, lucidez.
Vivendo sem talvez,
[ e sem cinismo.

IX
Tampouco evita a treva
Aquele que a conhece.
Já sabe a escuridão aonde leva
E nada teme quando se entristece.
Ao contrário, compreende até melhor
Os factos e as razões
De tantos corações
[ tontos d’amor.

X
Sorri, tu que tão bela
M’escutas estes ais.
Sorri, porque a tristeza te revela
A verdadeira dor de amar demais.
E, sorrindo, percebes meu pranto
Enfim, revelação.
Que só na escuridão,
[ alumbra tanto.

XI
Decerto alguma dor
Também o teu sorriso
Se oculta entre o prazer e o dissabor.
De tentar viver como é preciso
Ou ouviste que mais bela nos seduz
A moça que sorri,
Senhora já de si,
[ de encontro à luz.

XII
Embora fale pouco,
Sorrio ainda menos.
Não cuido se casmurro, arisco ou louco
Por ter tantos em conta de somenos...
Sem embargo, apesar de tão sisudo,
Às vezes eu me alegro
De pôr meu olhar negro
[ além de tudo.

XIII
O facto é que sorrindo
Soubeste me entender:
Faz do mundo um lugar sempre mais lindo
Quem alegrias e dores envolver
N’um sorriso mais denso de poesia
Já não porque feliz
Mas sim, porque se quis
[ melancolia.

Betim – 27 09 2016

quinta-feira, 2 de abril de 2015

AMOR POR AMOR


AMOR POR AMOR
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AMOR POR AMOR


Eu te amo porque eu te amo, nada mais...
Não há porque te amar senão amar,
Se em teus olhos os meus têm seu lugar
Vislumbrando a áurea e os dons espirituais.
Somos o que sonhamos, ademais
Sonhaste o quanto ousara eu te sonhar.
E, ao longo já da vida, ao te encontrar,
Não fora te esquecer nunca jamais.
Porque amo, vivo só de sobreaviso,
Visto que no momento mais preciso
Irias, com certeza, aparecer.
Ou porventura não me fora a vida
A jornada confusa e inadvertida
Rumo ao meu eu profundo n'outro ser?
Betim - 31 03 2015 


sexta-feira, 27 de março de 2015

IRRITADIÇO



IRRITADIÇO
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IRRITADIÇO
Eu tenho estado a ponto de explodir,
Por há tempos andar exausto e insone.
Seguidamente, inquiro o telefone
Como buscando oráculo ao devir...
Paro e penso no quanto sei sentir:
Embora esse pesar não me abandone,
Percebo inútil que outro rei destrone
Tão-só para que o caos possa me vir.
Quando dei por mim, era madrugada.
Os meus olhos olhavam para o nada,
Enquanto a mente em vão não se refaz.
Pois sigo sem saber o que fazer,
Tudo desconhecendo ora, a não ser,
De que preciso d'um pouco de paz. 

Betim - 26 03 2015

quarta-feira, 25 de março de 2015

ESTE AMOR

ESTE AMOR
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ESTE AMOR


Por vezes amo qual eu não amasse;
Como se não sentisse isso que sinto.
E finjo não amar, ou melhor, minto
P'ra não verem amor em minha face.
Ainda que eu d'amor não me calasse,
Antes falasse, ao menos, mais sucinto!
Ao invés de feito cego em labirinto
Por qualquer vã saída eu palmilhasse...
Contudo, eu amo. Eu te amo sem razão,
Sem esperança e até sem ilusão
De que um dia esse amor faça sentido.
Sim, eu te amo... A despeito de que me ames.
E, ignorando dos sábios os ditames,
Mais saberes no amor tenho vivido.
Betim - 24 03 2015

sexta-feira, 20 de março de 2015

CIRCUNSTÂNCIAS

CIRCUNSTÂNCIAS

Há mais amor que dor por essa vida,
Basta à gente saber olhar para ela.
Até uma hora triste assim, mais bela
Se tornará se for bem dividida.

Melhor uma alegria imerecida,
Que outra tristeza tão só quanto aquela...
Eu prefiro a manhã que se revela
A qualquer ilusão obscurecida.

Tudo muda conforme a luz lançada.
Se olharmos bem profundo para o nada,
Talvez vejamos quanto há para ver.

Por isso tenho andado junto ao abismo;
Certo que, escuridão ou cataclismo,
Estarei pronto para quanto houver.

Betim - 19 03 2015

sexta-feira, 13 de março de 2015

TRANSTORNADO

TRANSTORNADO
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TRANSTORNADO

Eu te amo, muito embora não devesse
Amar alguém que há tanto já não me ama.
Dia após dia, víamos qual chama
O amor se apagar sem que eu o soubesse.

Viver sem ti, nem vida me parece.
É só contar as horas para a cama...
Aonde o sono não vem, pois, o drama
Se me repete à boca em triste prece.

Tenho te amado andando por tormentas
Que, pesadas e grossas sobre a pele,
Caem enquanto a amargura vã me impele.

Enfim, a dor e a fúria, ultraviolentas,
No sonho de te amar -- essa ilusão! --
Tornam-se tudo que há no coração.

Betim - 12 03 2015