segunda-feira, 31 de agosto de 2026

UM ALGUÉM

UM ALGUÉM


Aquele duplamente indefinido,

Que homem e/ou mulher podia ser

Costuma feito névoa aparecer

E passa como nunca acontecido.


Quem entre o “se” e o “não” adormecido 

Desperta ainda incerto do que quer

Para, no fim de tudo, s'esquecer, 

Varando a madrugada entorpecido. 


Ei-lo, tanto aparência quanto essência,

Ambíguo a questionar sua existência,

E se mostrar tão-só se lhe convém.


Actor, qual é a máscara de hoje?

Sim, a rir e a chorar o tempo foge…

Quem ora todo mundo; ora ninguém!


Betim - 31 08 2026

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

MEGALATIFUNDIÁRIO

MEGALATIFUNDIÁRIO “Do nada, nada vem” — Já se dizia D’aquele que contando umas lorotas, Deixava-nos com cara de idiotas Com sua gutural verborragia. Uma muito contumaz patifaria Era ir, co'a complacência dos janotas, Aonde perdeu Judas suas botas, Medir terras griladas na ousadia. Mas, pela minha mal traçada conta, São as terras do fulano de tal monta, Que somam duas vezes o país todo! Sem menoscabo pelos seus azares Ou pela imensidão d’estes lugares, Tal fortuna não passa d’um engodo. Betim - 28 08 2026

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

AYAHUASCA

AYAHUASCA


Tinha gosto de casca de cipó

Aquela comunhão de mirações,

Incorporando antigas devoções

Reunidas nos confins do cafundó.


Eu, com o povo em roda, um homem só

A ver e ouvir estranhas orações

E as cores explodindo em clarões

D’auras alucinando-me sem dó…


Tempo ausente o presente, me abandono.

Enquanto algum profeta no seu trono

Diz sobrenatural a Natureza.


Tinha gosto de mato e de queimadas

Aquela comunhão de camaradas

Feita de borracheira profundeza.


Betim - 05 06 2024

 

EXPLORAÇÕES

EXPLORAÇÕES 


Finda a estrada, que comece a aventura!

Na quebrada da encosta, em precipício,

Para as grimpas a trilha tenha início,

Serpenteando em curvas na angustura.


Do mar de morros via-se a verdura,

Enquanto o vento uivava vão bulício.

Onde quão mais bonito, mais difícil,

Seguir em desafio pela altura.


Na travessia, a cada descoberta,

O peito acelerado e o olhar alerta

Se me tornam mais ávido de vida.


D’ali eu me aproximo da distância,

E trago à solidão ainda a errância

D’outra alvorada plena e comovida.


Brumadinho - 15 08 2026

OFICINA

OFICINA


E tudo o que queria era escrever…

Isto, fazer poesia, é pôr o mundo

Por dentro da cabeça bem mais fundo 

Do que, objectivamente, o perceber.


Poetar! Como se um jeito de entender

A realidade em letras no eu profundo.

Ou sondar d'onde o sonho era oriundo

Para, com rimas vãs, enternecer.


Fábrica de poesia, o coração 

Bate mais forte quando uma intenção 

Revela insuspeitada maravilha.


Assim, vão caminhando lado a lado

Sonoridade mais significado

Onde cada palavra por fim brilha.


08 06 2026

terça-feira, 25 de agosto de 2026

POR AGORA

POR AGORA


Se o presente é ausência, em alheamento

Atravesso horas cinzas tão-somente

A topar com a angústia recorrente

Que vem me anuviar o pensamento.


Mas é o que se tem para o momento,

Esse desassossego displicente

Com que encaro o caminho à minha frente,

Distante de qualquer contentamento.


Ainda entre o que foi e o que será,

Espero uma certeza que não há

De superar o tempo em que estou.


O instante, todavia, se prolonga,

Em vista d'esta fase, curta ou longa,

Que logra rir de tudo quanto sou.


Belo Horizonte - 08 06 2025

BARATINADO

BARATINADO

Anda feito barata tonta… Qual!
Diz que manda prender, manda soltar
Ou que manda bater, manda matar;
"Mor-de que pobre é tudo marginal."

Doutor d'anel rubi etcet'ra e tal,
O engravatado vive a se exaltar,
Dando d'ombros a todos do lugar 
Como um excelentíssimo boçal!

Mas, fosse como fosse, na maciota
Corre a desenrolar, nota após nota,
A propina que azeita essa engrenagem.

Não passa d'um maldito parasita, 
Que mais que tudo e todos se acredita,
Vivendo a vida toda em fuleiragem.

Belo Horizonte - 17 08 2026

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

SOMBRA E ÁGUA FRESCA

 SOMBRA E ÁGUA FRESCA


Na curva do caminho, longe ainda,

Apenas fecho os olhos... Logo o vento

Parece m'envolver por um momento,

Em sua aragem morna-mas-bem-vinda.


A encosta tortuosa, embora linda,

Mostra-se enfim abrigo ao desalento:

Encontra a queda d'água o olhar sedento,

Enquanto n'um bosquejo a trilha finda.


Eu paro, agradecido, e me abandono

Por horas até cair quase no sono;

Só deitado na laje da cascata.


Foi como se, inundado de alegria,

A vida me abraçasse n’esse dia,

Em qu'eu me demorei em meio à mata.


Brumadinho - 15 08 2026

domingo, 23 de agosto de 2026

À REVOLUÇÃO

À REVOLUÇÃO - TRÍPTICO

LIBERDADE

Face de mulher negra americana,
Onde há marcas da vil escravidão,
Seja égide a s'erguer contra a opressão
Em vista d’uma terra soberana. 

Com ramos de café, feixes de cana,
Se ilustre a tropical conspiração.
Que do súbdito se faça o cidadão
Inundado de luz republicana.

Mas não celebrem tal independência,
Por não haver progresso nem ciência,
Enquanto entre riquezas tanta fome.

E mais do que fazer o que quiser,
Ser livre seja elevar todo o poder
Em liberdade digna d'este nome.

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IGUALDADE 

Não por ser homem, sim por ser humano,
Que anseio ser igual, nunca melhor.
Em regra, do menor para o maior,
Buscam nos ordenar n'um amplo plano. 

Desde que o mundo é mundo, salvo engano,
Dão a este – e não àquele – mais valor.
Por fim, quem se acredita superior
Não raro tem causado maior dano…

O macho adulto branco no comando
Espera distinguir-se, quando em quando,
Tendo-se ora mais forte; ora mais rico.

E eu, que não me sei branco ou mesmo macho,
Na velha ordem do mundo não m’encaixo,
Tão simples quanto os versos que fabrico.

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FRATERNIDADE

Àqueles que s’entendem como “nós”,
Compartilhando origens ou memórias,
Conclamo a relustrar antigas glórias,
Fazendo-as ressoar n’uma só voz:

Cantemos na esperança mais feroz
Causas identitárias meritórias,
Em lugar de grandezas ilusórias,
Que tornem a Nação infame algoz.

Em marcha contra insana tirania,
Irmanemo-nos em torno da utopia
De ser um lar comum o nosso chão.

E que o estandarte erguido a nos guiar
Aos filhos d'esta terra possa honrar,
Por símbolo de paz e de união.

Belo Horizonte - 20 08 2026




sexta-feira, 21 de agosto de 2026

PSIU!

 PSIU!


Andavas vaporosa pela rua,

Sem me veres te ver a elegância.

Com efeito, mantinha-me à distância,

Aparvalhado co’a beleza tua:


A vasta cabeleira, a espádua nua,

A face um tanto lívida, a vaga ânsia…

Já passando por mim, uma fragrância 

Do mais lascivo almíscar se insinua.


Não me fiz de rogado, eu te chamei

Dos nomes mais bonitos que encontrei,

Mas soubeste me ignorar tanta ousadia.


Por fim, para chamar tua atenção 

Soltei n'um assobio a interjeição 

E olhei teus olhos claros como o dia.


Betim - 20 08 2026

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

PROLIXO

PROLIXO

Palavras vindo feito uma enxurrada
Em parágrafos muito, muito extensos…
Deixavam no papel os traços tensos
D'alguém atravessando a madrugada. 

Conforme a sua escrita angustiada
Trazia à lume pesares tão intensos,
A alma se consumia em contrassensos,
Face à imaginação desenfreada:

Supunha mil tragédias improváveis
Co’a certeza d'oráculos antigos,
Que punem tanto amigos que inimigos. 

E em folhas e mais folhas insondáveis
Esgota-se pela ânsia desmedida 
De sonhar a viver a própria vida.

Betim - 19 08 2026

terça-feira, 18 de agosto de 2026

O FORAGIDO

O FORAGIDO


Passados tantos anos, ninguém; nada.

O sangue derramado que o condena

Faz pensar que talvez não haja pena, 

Somente uma justiça desvairada.


Mas aquele que caiu teve a jornada

Interrompida sob a noite plena...

Obscura, a vida humana se apequena:

Não mais que uma outra sombra pela estrada!


Vivia ele a fugir do vitimado.

Prescritos tanto o crime que o castigo,

A seus olhos se vê ‘inda culpado.


Já não distingue o amigo do inimigo, 

De tudo e todos tão desconfiado,

Quem de si mesmo nunca encontra abrigo.


Belo Horizonte - 12 08 2026




quinta-feira, 13 de agosto de 2026

COAUTORIAS

COAUTORIAS


Escrevo? Não só eu. Quem lê, também. 

O intérprete reescreve, trai, traduz…

Entre o escrito e o entendido há anos-luz,

E periga inventar se não contém.


Mais atento o leitor, mais me retém

Ou menos a si mesmo me reduz.

Quando o texto não diz, ele deduz

Por linhas tortas quanto lhe convém.


Escrevo? Também eu. E quem me ler.

Logo o autoral se torna obra colectiva, 

Como se letra morta em língua viva:


Em breve correr d'olhos passe a ter

Algum sentido próprio insuspeitado,

Que já ninguém dirá se certo ou errado. 


Belo Horizonte - 13 08 2026 

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

HIPOCONDRÍACO

HIPOCONDRÍACO 


Talvez ardesse o peito; talvez não.

O vago sentimento d'estar vivo

Revela-se um anseio sem motivo,

Como algo me rondando a solidão.


Às vezes penso andar em negação,

Vendo-me empreendedor ou progressivo,

Quando surpreendo à morte o olhar furtivo,

Lasciva a me sorrir na escuridão. 


Admito, todavia, não ter nada

Além d'uma cabeça atormentada

Com doenças reais e imaginadas. 


Pelo sim, pelo não, eu remedio

Os males que me invento ao vento frio,

Saudando as alterosas neblinadas.


Brumadinho - 18 07 2026


terça-feira, 4 de agosto de 2026

DESANSIEDADE

DESANSIEDADE


Não te parece muito apenas ser?

Penso que estou onde preciso estar,

E a fazer o qu’eu preciso fazer.

O mais são ruas para caminhar…


Tenho andado sem pressa para ver

O mundo ao meu redor, certo de olhar

E incerto do que traz tanto querer,

Como fosse o porvir algum lugar.


Talvez eu seja quem posso existir.

Ao encontro do que possa ainda vir,

Aceitando-me, seja como for.


Não te parece muito apenas ir?

Penso que vou aonde conseguir.

O mais são serras para o sol se pôr.


Belo Horizonte - 30 07 2026

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

ÁRDUO VOO

 ÁRDUO VOO


Um chão alcatifado à flor de ipê

E horas de tarde morna e modorrenta…

A língua outra palavra experimenta,

Buscando nobre rima por mercê.


Soubesse de beleza sem porquê,

Nas trilhas da chapada poeirenta,

Andaria onde o sol desorienta,

Tamanha imensidão ali se vê.


Arribação de avoantes a poesia.

Meu verso em linhas tortas principia

Até saber dizer do que senti.


Carece, pois, de alturas miradouras,

Que me revelem luzes duradouras

Nas coisas distraídas que escrevi.


Belo Horizonte - 31 06 2026