Mostrando postagens com marcador SONETOS 2025. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador SONETOS 2025. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 29 de abril de 2026

INTERFLÚVIO

INTERFLÚVIO


A estrada na cumeeira d'essa serra

Descortina, mirante após mirante,

Dois vales que s'estendem do Levante

Onde o olhar nas distâncias se desterra.


Percorro enternecido toda a terra,

Incerto de destinos, feito errante,

A ver a maravilha em cada instante:

Mais um que, inopinado, vereda erra…


Alturas conquistadas com fadigas

São tão mais belas quanto desejadas,

Ao longo de jornadas demoradas.


Lustrem novas memórias às antigas!

Ao buscar na beleza d’outro cume

Uma vida mais vivida por seu lume.


Brumadinho - 01 10 2025


segunda-feira, 13 de abril de 2026

MAL’AMAR

MAL’AMAR


O peito ardente, a mente em sofrimento,

O olhar fixo ou perdido no vazio;

Ter a vida em constante desvario

Vivida sem qualquer contentamento.


Vagar pelos caminhos sem intento,

A alta noite do dia mais sombrio,

Enquanto o nada clama em desafio

D'algo que dê sentido ao movimento.


Assim anda quem sente e se ressente...

Certo de pelejar feito um demente

Co'os próprios pensamentos intrusivos.


E, em sua passional celeridade,

Alterna entre murmúrios e saudade

Os mesmos rituais repetitivos.


Betim - 12 12 2025


sábado, 28 de março de 2026

VAREJEIRA

VAREJEIRA

Como quem s’entretém a espantar mosca

De sonhos na vitrina d’uma venda,

E vive em estranhíssima contenda,

Ciumento dos confeitos sobre a rosca…


Assim, eu só — nos fundos da birosca! —

Salivava às quitandas da merenda,

Sonhando para mim alguma senda

Para além d'esta vida um tanto tosca.


Era mais uma tarde. Mais um dia.

A mosca que ia e vinha, todavia,

Despertava-me do baldo devaneio.


E eu, que não sei vender nem guloseimas,

Passava horas às voltas com toleimas,

Vendo a mosca nos sonhos sem receio. 


Betim - 04 12 2025


segunda-feira, 16 de março de 2026

A MEU VER

A MEU VER


Já desconheço haver outras razões 

Além das segregadas em meu peito

Para dizer, embora contrafeito,

De tantas e totais contradições.


A despeito das doutas opiniões, 

Sobretudo d’aqueles que respeito,

Externo desventuras em proveito

Do improvável leitor d’estes senões:


Há erros que se tornam toda a vida

E bem ou mal nos moldam, à medida

Que deixamos pegadas sobre a terra.


Andemos, sem temer a tempestade!

Desertas são as ruas da cidade,

Quando da face o riso se desterra…


Betim - 11 11 2025


quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

À BOCA MIÚDA

À BOCA MIÚDA


Correm por aí boatos de que andei

Buscando solidões silenciosas

Em distâncias de serras neblinosas,

Onde viva sem fé nem rei nem lei.


Têm contado, outrossim, que desgostei

Das gentes e das terras rumorosas

A ponto d’eu dizê-las desditosas

Às raras companhias que encontrei.


Falem o que quiserem: Sigo andando

A surpreender auroras, vez em quando,

Sem ver que vão pensar a meu respeito.


Convém-me confirmar os maus cochichos:

Tornado besta-fera em meio aos bichos,

Seja eu livre do juízo mais perfeito!


Catas Altas - 02 11 2025


FAZ DE CONTA

FAZ DE CONTA


Sabes?! Quando crescer, vou ser menino:

Ocupar-me só com desimportâncias;

Deixar aos mais adultos suas ânsias

E zanzar pelas ruas sem destino.


Quanto mais velho sou, mais me amenino,

Entre imaginações e outras errâncias,

Ao gozo só de olhar para as distâncias 

No mais maravilhado desatino.


Eu quero descrescer; ser bem pequeno.

Ter para com o mundo o olhar ameno

D'alguém que já não finge o compreender


Então, talvez eu tenha uma verdade

Tão minha ou tão além da minha idade,

Até ser o melhor que eu possa ser.


Betim - 01 05 2025



quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

ESPELHAMENTO

ESPELHAMENTO 


Ela ama ver-se amada no olhar d'ele

Em lágrimas a espelhar-lhe a formosura.

Permite, enfim, que a toque com ternura

Até se lh’enrubescer a clara pele.


Ela ama o quanto ele a ama; quanto o impele.

E isto lhe parece intenso enquanto dura.

Não sabe que o amor é uma procura,

À espera que o horizonte se revele.


Diz, com todas as letras: — ”Infeliz!”

E olha nos olhos d’ele, rasos d’água,

A perfeita expressão da própria mágoa.


Conquista a solidão como se um país

Onde, sem mais espelhos, possa ver

Somente a realidade que quiser.


Betim - 04 04 2025


segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

NÃO HÁ-DE QUÊ

NÃO HÁ-DE QUÊ

Nem tanto o dia; nem tanto a hora, eu penso…
Os anos se passaram sem que a cura
À nossa insofismável amargura
Conciliasse contrários n’algo imenso.

Ainda aos pés da deusa ardia incenso,
Onde ex-votos d'amor fazem figura.
Convém fazer da perda outra procura,
Enquanto das memórias me convenço.

A dúvida permanece, todavia.
Vênus rirá, mais dia menos dia,
Em nossos corações quase outonais.

Até lá, haja luar na madrugada
A clarear o trilho incerto d'esta estrada,
Que segue em frente p'ra longe demais.

Belo Horizonte - 21 11 2025




sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

MELANCOLIA

MELANCOLIA

Pelo sim; pelo não, contemporizo
Quanto penso saber sobre esta vida.
Amar… Uma loucura desmedida!
Até que tudo acabe sem aviso.

Esqueci n’algum canto o meu sorriso
Como levasse ainda, mal contida,
A vã desilusão da despedida
A todos os lugares onde piso.

Têm sido dias muito escuros estes,
Ao longo da alameda de ciprestes,
Que conduz à mansão do esquecimento.

Sem embargo, convém seguir em frente,
N’uma vigília longa e persistente,
Malgrado caminhasse contra o vento.

Moeda - 04 10 2025



terça-feira, 6 de janeiro de 2026

LUMINOSA

LUMINOSA


Quando por lá passares, não te apresses.

Contempla, como um quadro em movimento,

A imensidão aberta ao firmamento, 

Que se ilumina enfim às tuas preces.


No pó, deixa os cuidados e os estresses,

Enquanto mira os longes contra o vento.

E encontra, para além do entendimento,

Este momento livre de interesses.


Deixa que a caminhada t'esvazie

E o sol, amanhecendo, principie

A pôr cores por toda a redondeza.


Mas, ao te despedires, não lamentes.

Antes leva contigo aos teus, ausentes,

Uma terna experiência da beleza


Campos do Jordão - 02 09 2025


sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

MORDAÇA

MORDAÇA


A medo d'eu falar, têm me calado

Aqueles que desgostam do que penso:

Logo vêm me acusar de contrassenso,

Para no fim passar por transtornado…


Acostumei-me a estar do lado errado,

E agora vivo dias em suspenso.

Mordaça que, afinal, me pesa imenso,

Visto que em tudo sou invalidado.


Querem, a todo custo, que me cale

Ou que já não s’escute quanto eu fale,

Vencendo-me por força, não razão.


Debalde… Não se cala uma verdade!

Mesmo eu silenciado, a realidade

Irá sempre se impor, queiram ou não.


Betim - 24 10 2025

terça-feira, 21 de outubro de 2025

ILETRADO

ILETRADO


Minha pouca leitura e entendimento

Têm feito de mim um poeta menor.

Ignoro se o que escrevo tem valor,

Deixando-me levar pelo momento.


Não cuido se coerente o pensamento

Ou mesmo se a meus versos dou sabor.

Se haveis prazer ao lê-los, meu leitor,

É antes vosso belo e bom intento.


Não sou de disputar co’os mais doutos,

Sim de me isolar em valhacoutos,

Como quem foge aos erros que engendrou.


Portanto, não me leais por cultura —

Vós que me pretendeis Literatura:

Têm as letras os males do que sou.


Sabará - 18 10 2025


terça-feira, 14 de outubro de 2025

IN THE PINES

IN THE PINES


Se, n'uma manhã, por neblina espessa,

Me aparecesse o rosto iluminado

D'aquela que viveu em meu passado

E se foi para os longes, quase à pressa…


Ela — sem tronco ou membros, só cabeça —

A vagar no vazio ensimesmado

Para estar, mesmo ausente, do meu lado

E manter, em maldição, sua promessa:


Sob os pinheiros, onde nunca o sol

Aquece o vão sombrio da montanha

E a névoa estende nívea o seu lençol,


Ali, com obsessão, o olhar s'embranha

E se confessa culpa estremecida,

Uma outra vez, na lágrima incontida.


Moeda Velha - 04 10 2025

terça-feira, 7 de outubro de 2025

OROGRAFIAS AFECTIVAS

OROGRAFIAS AFECTIVAS


Aquelas três corcovas alinhadas,

A maneira de irmãos para uma foto,

Cerram a cordilheira no remoto

Sítio onde o Paraopeba abre moradas.


Seguindo, d’Oeste a Leste, amplas cumeadas

— D’onde rolara a moça em tempo ignoto…

Além, ao velho Curral, por fim anoto:

“Da metrópole mineira, altas miradas.”


Caminhos de minério, cavas, vidas…

As montanhas s'elevam enternecidas

De serem fundo ao nosso quotidiano.


Eu as saúdo aos brados, de regresso,

E à vastidão silente lhes confesso

Meus ais de caminhante suburbano.


Moeda Velha - 04 10 2025


segunda-feira, 6 de outubro de 2025

MORTIFICADO

MORTIFICADO


Há quem queira saber como me sinto,

Talvez para gozar de meus azares

E ver meu coração indo p’ros ares!

Ou mesmo minha mente em labirinto...


Eu tenho andado errático, não minto:

De partida p’ra todos os lugares.

Há só desilusão em meus olhares,

Embora alguns me tenham por distinto.


Não hei forças sequer para sorrir...

Por isto, franzo o cenho a discernir

Entre outra escuridão e um descaminho.


Sinto-me, pois, a arder em carne nua...

— Se a lua na sarjeta ainda é lua,

Em minhas mãos não sei se sangue ou vinho.


Belo Horizonte – 03 10 2025


quinta-feira, 25 de setembro de 2025

A CONSELHO MEU

A CONSELHO MEU


Conselho que te dou: Tem por mais certo

E sábio não querer quem não te quer!

Aquela que te vê como um qualquer

Nada terá senão o olhar deserto...


Procura o teu caminho, longe ou perto,

E encontra a solidão que te aprouver.

Errada te há-de ser toda a mulher,

Visto que o coração tens encoberto.


Dá tempo ao tempo. Não te desesperes.

Cuida apenas de ti e teus haveres,

Aceitando o Universo em movimento.


No mais, que seja bela a tua estrada!

Há mais paz n’uma longa caminhada

Do que nos amplos vãos do sentimento.


Belo Horizonte – 25 09 2025

terça-feira, 9 de setembro de 2025

DESAPEGO

DESAPEGO


Aquilo que foi meu não me possui;

Eu deixo para quem melhor servir.

Se não busco ao passado o meu porvir,

Tampouco resto à casa enquanto rui.


Eu não me sinto preso a quem já fui.

Mas, mesmo que difícil de admitir,

Percebo mais leveza em ir e vir

E o mundo é hoje o mestre que me instrui.


Levo comigo só o que consigo

Pois não pretendo lar o meu abrigo,

Visto que parto assim que amanhecer.


Pessoas? Resvalar de convivências...

Não acumulo mais que experiências

Certo de que não sou o que sei ter.


Bonfim - 07 09 2025

quinta-feira, 4 de setembro de 2025

COISAS D'AMOR

COISAS D'AMOR


Se eu escrevesse apenas sobre o amor,

Como tantos costumam escrever,

Mais gente a mim talvez quisesse ler

Sabendo-me alguém douto pela dor.


Alhures, o interesse é bem maior

Quando, escrito co'as cores do prazer,

O poema — ou o que melhor lhes parecer —

Traz aos outros um pouco de calor.


Eu, todavia, escrevo como vejo.

Se poetasse em função do meu desejo,

Tão-só repetiria obviedades.


Escrevo, muito embora desaponte

Àqueles que o amor têm por horizonte,

Imerso em ordinárias realidades.


Campos do Jordão - 02 09 2025

quinta-feira, 28 de agosto de 2025

MISERERE

MISERERE


Sou, por mal dos pecados, um descrente;

Todo entregue a mais vã concupiscência.

Se de muito me acusa a consciência,

De muito mais me julgo impenitente.


Da vida após a morte, eu tão-somente

Tenho uma indiferente complacência.

Não sei se por preguiça ou incompetência

Não alcanço dos fiéis o olhar silente.


Deus não me deu a graça de ter fé…

Por isso, o meu caminho eu sigo a pé,

Não pelas asas de anjos ou demônios.


Eu deixo a metafísica aos que a veem

Em tudo o que acontece e, logo, creem

Em verdades demais para os neurônios. 


Perdões - 27 08 2025


segunda-feira, 25 de agosto de 2025

A PLENOS PULMÕES

A PLENOS PULMÕES Puxava o ar co’a urgência de afogados, Como estivesse a vida por um fio, N’um respirar frenético e sombrio, Ainda d’olhos vãos e esbugalhados. Desabo sobre mim sem mais cuidados, Arfando pelo chão como um vadio. Talvez olhasse a morte em desafio, Reduzido a suspiros extenuados. Mas, além de tudo isto, o coração… Batendo acelerado em explosão, Quase que já me saindo pela boca. E esse sopro, momento após momento, Pareceu-me a própria alma em movimento, Quando o corpo a si mesmo se provoca. Betim - 24 08 2025