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quarta-feira, 27 de setembro de 2023

DESCONTROLE

DESCONTROLE


O inútil ao desagradável

Quem s’enfurece fácil une…

É sofrer d’um mal evitável,

Que no fim a si mesmo pune.


Inútil, pois, parece imune

A cobra a seu veneno odiável…

Quem s’enfurece fácil une

O inútil ao desagradável!


Desagradável, pois, notável

E agudamente, ao ouvido zune

Outro remorso inenarrável…

Quem s’enfurece fácil une

O inútil ao desagradável!


Betim - 25 09 2023


domingo, 30 de julho de 2023

ANFIGURI

ANFIGURI


Eu me fiz de desentendido

Para não perder o sossego.

Fingi que sequer tinha ouvido

Aquele papo de pelego.


Vociferando um descarrego,

Falou um monte… Sem sentido!

Para não perder o sossego,

Eu me fiz de desentendido.


Repetia o já desmentido:

Que nem cego guiando cego,

Cita o homiziado… O fugido!

Para não perder o sossego,

Eu me fiz de desentendido.


Belo Horizonte - 20 02 2023


SABÁTICO

SABÁTICO


Deixou o burro na sombra…

Deitou o lombo na rede…

A todos súbito assombra

Seu guarda-pó na parede.


Senhor de seu tempo, adrede,

Uma vida ávida escombra:

Deitou o lombo na rede…

Deixou o burro na sombra…


Senhor de seu tempo, à alfombra,

Um vinho a matar-lhe a sede;

Um pão a fartar-lhe a lombra.

Deitou o lombo na rede…

Deixou o burro na sombra…


Betim - 29 07 2023


sexta-feira, 28 de julho de 2023

LAMENTAÇÕES

LAMENTAÇÕES


Farto de dias, como Jó,

Viveu e morreu nosso irmão…

Quem veio do pó volta ao pó,

Coberto torrão por torrão.


Outra vida vivida só,

Rogai!… Pelo sim; pelo não.

Farto de dias, como Jó,

Viveu e morreu nosso irmão…


Outra vida passada em vão

Rogai!... Sem receio nem dó.

Pela ampulheta, o último grão!

Farto de dias, como Jó,

Viveu e morreu nosso irmão…


Betim - 28 07 2023


AMIGADA

AMIGADA


Amancebou-se mais eu

Na última casa da rua:

Sem cortinado ou dossel

Meu catre era a alcova sua.


Sem dote, grinalda e véu,

Faz seus votos toda nua.

Amancebou-se mais eu

Na última casa da rua…


Na carestia mais crua,

Sem certidão nem anel,

Pede amor, recebe a lua! 

Amancebou-se mais eu

Na última casa da rua…


Betim - 20 09 2022


terça-feira, 21 de dezembro de 2021

A MEU RESPEITO

 A MEU RESPEITO


Tudo o que penso sobre mim

Tem a ver co’o que está no peito.

Respeito é bom e exijo sim

De quem deseja o direito.


Respeito é bom desde o conceito 

De que somos iguais no fim.

Tem a ver co’o que está no peito

Tudo o que penso sobre mim.


Respeito é bom e devo enfim

A quem seguir mesmo preceito,

Dando e recebendo outrossim.

Tem a ver co’o que está no peito 

Tudo o que penso sobre mim.


Belo Horizonte - 21 12 2021

domingo, 12 de dezembro de 2021

ONÍRICO

ONÍRICO (rondel)


Tanto melhor a realidade

Quando fora antes sonhada.

Tão mais bela do que a jornada

É a lembrança; é a saudade…


Toda realidade, em verdade,

É melhor quando imaginada.

Quando fora antes sonhada

Tanto melhor a realidade!


Quando se fizer realizada,

A imaginação que m’evade

Então há-de ser recordada!

Quando fora antes sonhada

Tanto melhor a realidade!


Belo Horizonte - 11 12 2021

segunda-feira, 5 de abril de 2021

COM CERTEZA

COM CERTEZA 


Está certa de que está certa

A que fala de tudo e todos.

Mas, dos males do mundo alerta,

Ignora-se os próprios engodos!


Tem boas falas e maus modos:

Escancarando a boca aberta,

A que fala de tudo e todos

Está certa de que está certa.


Tem sua farsa descoberta

Enquanto rasteja nos lodos

E a dúvida d'outros desperta...

A que fala de tudo e todos

Está certa de que está certa.


Betim - 04 04 2021

terça-feira, 10 de novembro de 2020

CAÍ NO POÇO...

CAÍ NO POÇO… (rondel)

Pudesse eu escolher, menina, 
Era tua a boca que beijo!
Ess’outra, d’olhos de rapina, 
Pouco sabe de meu desejo…

— “Teu bem é esse?” — Já não vejo
Porque me deixaras tal sina…
Era tua a boca que beijo,
Pudesse eu escolher, menina!

— “Teu bem é esse?” — Ela?! Imagina!
Ess’outra não é quem desejo;
Meu beijo a ela mal se destina.
Era tua a boca que beijo,
Pudesse eu escolher, menina…

Betim — 16 05 2016

domingo, 30 de agosto de 2020

EM FLOR

 EM FLOR

Se, por bela, digna de amor,
Quão amada não seria ela?
Tantos dons têm em seu favor
Que para amá-la basta vê-la...

Se tão amada quanto bela,
Ei-la aqui: Rapariga em flor!
Quão amada não seria ela
Se, por bela, digna de amor?

Se tão jovem em seu pudor,
Toda a beleza se revela
Luz em meus olhos de amador.!
Quão amada não seria ela
Se, por bela, digna de amor?

Betim - 29 08 2020

domingo, 12 de julho de 2020

SAUDADE VEM DE SOLEDADE

SAUDADE VEM DE SOLEDADE

Acho que sim, eu sinto falta:
Saudade vem de soledade.
Estar só -- oh ideia incauta! --
Mais faz querê-la, na verdade.

Acho que sim, sinto saudade
Quando a lágrima do olho salta.
Saudade vem de soledade!
Acho que sim, eu sinto falta...

Estar só --  a angústia me assalta!--
Sinto falta; sinto saudade.
Mais sua ausência se ressalta:
Saudade vem de soledade!
Acho que sim, eu sinto falta...

Betim - 12 07 2020

sábado, 30 de novembro de 2019

SONHOS DE PADARIA

SONHOS DE PADARIA

Acorda. Toma o teu café
O dia carece de ti!...
Sonhas acordado? Pois é:
Acordar é trabalho em si...

Sonha. Quem por último ri
Se alimenta da própria fé.
O dia carece de ti...
Acorda. Toma o teu café.

Sonha. Ainda que já de pé.
O alimento que te sorri
É sonho no caminho até:
O dia carece de ti...
Acorda. Toma o teu café.

Betim - 24 11 2019

sexta-feira, 4 de outubro de 2019

DE REPENTE

DE REPENTE

Muda da noite para o dia.
Muda do dia para a noite.
Encara a Hora com ousadia
Ainda que vida te afoite.

Ainda que da vida o açoite
Te fustigando a fantasia.
Muda do dia para a noite;
Muda da noite para o dia.

Ainda que da vida a via
Te levando tal como foi-te,
No fim tudo é sabedoria.
Muda do dia para a noite;
Muda da noite para o dia.

Betim - 02 10 2019

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

ENCIUMADO

ENCIUMADO

Certas coisas eu pego no ar;
Das erradas, eu desconfio...
Se querias me amofinar
Conseguiste pôr-me sombrio.

Deveras, me pego tardio,
Esperando te ver chegar!
Das erradas, eu desconfio:
Certas coisas eu pego no ar.

Deveras, não tem como errar:
Deixaste-me em casa arredio,
Saindo para tarde voltar!...
Das erradas, eu desconfio:
Certas coisas eu pego no ar.

Betim - 01 02 2019

terça-feira, 18 de dezembro de 2018

POST-MORTEM

POST-MORTEM

”Oh vida, me é vindo o teu fim…
Oh sim, o meu fim seja vindo!” 
Como eu despedindo de mim;
Como eu de ti despedindo…

Deixo do mundo quanto é lindo,
Porquanto vindo como eu vim
“Oh sim, o meu fim seja vindo!
Oh vida, me é vindo o teu fim…”

Como eu despedindo, por fim:
Já me basta a mim que existindo
Fosse a vida partindo assim...
“Oh sim, o meu fim seja vindo!
Oh vida, me é vindo o teu fim.”

Betim - 19 11 1991

segunda-feira, 23 de julho de 2018

ADENTRO

ADENTRO

Dentro, muito dentro de mim,
Vagueio entre sombras que fui.
Explicam porque sou assim;
Porque volta e meia tudo rui.

Explicam como a lua influi
Em minha escuridão sem fim.
Vagueio entre sombras que fui:
Dentro, muito dentro de mim.

Porque volta e meia não é sim...
Penso: Independe quem argúi,
Eu adentro desde onde vim!
Vagueio entre sombras que fui...
Dentro, muito dentro de mim.

Peruíbe - 23 07 2018

terça-feira, 19 de junho de 2018

ETERNAL

ETERNAL

Não o poeta, sim a poesia
Em cada verso haveria-
De permanecer por inteiro
Como alimento à fantasia!

E, sem saber porque escrevia,
Fazer caber tudo o que havia
Dentro do metro mais certeiro
Em cada verso haveria
-- Não o poeta, sim a poesia.

E, sem saber o que queria,

Fazer da rima o dia a dia,
Até o instante derradeiro...
Em cada verso haveria
-- Não o poeta, sim a poesia.

Betim - 18 06 2018