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quinta-feira, 18 de agosto de 2022

SUBLIMAÇÃO

SUBLIMAÇÃO

Havia uma garota conversando
Com as flores e as pedras do caminho.
Admirada de tudo, ainda a adivinho
A arder cidade afora em fogo brando.

Vejo ampla a paisagem enquanto ando,
Quando, súbito, eu d'ela me avizinho.
Sorri comigo mesmo, pois sozinho
Àquela estranha cena ia observando.

E ela sorriu de volta, indecifrável,
Pronta a me devorar com seu enigma,
Pois feito ora de luz; ora de estigma.

E manteve o olhar fixo, mas afável.
Até que, partindo, o encanto me deixou
Junto às flores e às pedras que ela achou.

Ouro Preto - 02 02 2012 

sábado, 16 de julho de 2022

AÉREO

AÉREO

As nuvens a ocultar o sol lá fora
Alertam de que tudo é fugidio...
Tarde de céu de chumbo, vento frio,
Que me fez recordar outras d'outrora.

E o tempo vai passando sem demora
No vento a me zunir seu assovio.
Já me sentia há tanto tão vazio,
Como se eu com o vento fosse embora.

Eu, de ponta-cabeça sob o céu,
Me imaginava a andar nas nuvens tensas
Enquanto rascunhava algum papel.

E ainda que confusas ou pretensas
As evasões que tenho andando ao léu,
Sou como um catador de ideias densas.

Betim - 21 05 2012 

terça-feira, 4 de setembro de 2018

CRÔNICAS D'EL REY - coroa de sonetos

CRÔNICAS D'EL REY - coroa de sonetos 

CRÔNICAS D'EL REY - soneto geratriz 

Escuto o velho rei em seu lamento
D'experiência inútil, pois tardia:
Glosa o mote da vã sabedoria,
Pois sem valia ao sábio em sofrimento.

Outro beija-mãos... Sua Majestade
Reina absoluto pela Boa-Vista!
Alta noite, porém, passa em revista
Todo o Paço vagueando em soledade.

Ao fim, como um rosário de remorsos
Recorda a si seus ávidos esforços
Como se algum espírito noturno. 

Parvo! Não obtêm glórias a obsessão...
Esplendores tampouco... Vãos ou não,
Chamam-lhe Dom Fuão, o taciturno.


* * *

CRÔNICAS D'EL REY - soneto primeiro

Escuto o velho rei em seu lamento
De figura admirável na ampla sala
-- Mais bruxuleiam círios sua opala,
Pondo as sombras do Paço em movimento.

Hesita El-Rey em cada mal momento 
Até quase inaudível sua fala...
Por tão terrível crime, ele se cala:
E às paredes segreda o seu tormento. 

Percebe-se o remorso ali tão denso
Que poderia El-Rey tocá-lo -- eu penso --
Enquanto a narrativa reinicia.

Sequer justificava mais seu trono,
Tal a sinceridade no abandono
D'experiência inútil, pois tardia...


* * *

CRÔNICAS D'EL REY - soneto segundo 

D'experiência inútil, pois tardia:
Renuncia à realeza e à realidade...
Habitante das nuvens, em verdade,
Entre sombras e luz se refugia.

--"Trovador" -- diz El-Rey -- "Quem o diria?..."
“Canta meu Reinado que se evade
Fazendo-me memória da vontade
Que desde cedo o espírito me ardia”

“A noite nos acolhe em seu regaço
Tão-só constelo estrelas pelo espaço
Enquanto te relato outra ousadia

Jamais favorecida pela sorte...” --
Ora El-Rey, quer alerte; quer conforte,
Glosa o mote da vã sabedoria:


* * *

CRÔNICAS D'EL REY - soneto terceiro

-- "Glosa o mote da vã sabedoria
Quem pelas convicções mais verdadeiras
Por extremos de tão móveis fronteiras,
Derrota após derrota conhecia...”

“O Reino em expansão nos florescia,
Quando ascendi ao trono por maneiras
Tão vis qu'eu nem sequer às derradeiras
Palavras de meu pai obedecia.”

“Eu fora convencido por bandidos
A governar nomeando-os meus validos,
Movido pela urgência do momento.”

“Feito por fazedores de maus reis, 
Governava ao arrepio já das leis,
Pois sem valia ao sábio em sofrimento”.


* * *

CRÔNICAS D'EL REY - soneto quarto

Pois, sem valia ao sábio em sofrimento,
Mal diferia já o certo e o errado.
El-Rey -- pela lembrança atormentado --
Cala-se com um esgar mais violento...

Ele me olha em profundo desalento
Sem saber que dizer de seu passado.
Por crimes bem sabia ser lembrado,
Esperando da História o julgamento.

Anseia ser esquecido ao fim, talvez...
Porém, quer confessar tudo o que fez
Em rimas a guardar-lhe o pensamento.

Pressentindo-se a queda da Coroa,
Manda-me vir poetar para Lisboa...
(Outro ” beija-mãos” Sua Majestade?).


* * *

CRÔNICAS D'EL REY - soneto quinto

Outro beija-mãos, Sua Majestade:
-- “Vossa Alteza Real, grão senhor nosso!
Se for de seu agrado, ainda posso
Dar das Reais razões a realidade.”

“Oxalá seja eu fiel só à verdade
E logre ater-me aos factos com o endosso
Já d’El-Rey dado a mim, servo revosso,
Fazendo jus a tal grandiosidade.”

Ao que interrompe El-Rey subitamente:
--” Um grande? Não! Far-me-ás de novo gente,
Mediante rimas límpidas de artista.”

Dito isso, ambos quedamos expectantes
Enquanto o silêncio, tal como antes, 
Reina absoluto pela Boa-Vista...


* * *

CRÔNICAS D'EL REY - soneto sexto

-- ”Reina absoluto pela Boa-Vista
Um rei velho, cansado e lamentoso.
Vislumbra pelas sombras o andrajoso
Poeta cuja desgraça conhecia.”

“Coube a este pôr em letras quanto ouvia,
Memorando um Reinado desgostoso...”
-- E calo... Eu me interrompo pesaroso
Que tal sinceridade me traía. -- 

--”Prossegue, trovador, já não te cales.
O retrato que narras tem os males
Do retratado, não do retratista."

Ao que respondo: --“Sim, assim farei.”
Toda a historia a narrar, o velho rei
Alta noite, porém, passa em revista:


* * *

CRÔNICAS D'EL REY - soneto sétimo

--"Alta noite, porém, passa em revista
O Infante aos conjurados pelo trono.
Cercam-no outros larápios, cujo sono
Se perde na ambição de má conquista:"

"-- "Por morto o irmão e louca a mãe, invista
Em tirar a Coroa do abandono!..." –
Logo após, negociavam-se outro abono,
Tão-só suas fortunas tendo em vista."

"Assim fora Regente e, após, El-Rey...
E, por confuso, o Corso eu enganei
Quando o Antigo Regime ruía lento."

Saboreia a ironia vã da História
Ainda a recordar sua mor glória, 
Todo o Paço vagueando em soledade.


* * *

CRÔNICAS D'EL REY - soneto oitavo

-- “Todo o Paço vagueando em soledade,
Napoleão a enganar fora enganado...
Na partida ao Brasil, trouxe ao meu lado
Um misto de esperança e desalento.”

“Sem embargo, encontrei mais sofrimento...
Não vi senão conflitos no Reinado!
Mesmo ao fugir de guerras, derrotado
Fora ao longo d’um século violento.”

“Vencido o Corso, a Corte me apregoa!
Sequer posso voltar para Lisboa,
Sem contar com britânicos reforços.”

“El-Rey de Portugal, Brasil e Algarve
Remoendo pelo Paço, insone e alarve,
Ao fim, como um rosário de remorsos...”


* * *

CRÔNICAS D'EL REY - soneto nono

-- “Ao fim, como um rosário de remorsos,
Muitos a recordar-me indecisões.
Em derredor, tão-só conspirações
Para após anistiar de maus desforços ”

“Os corruptos às voltas com extorsos
E os fidalgos com outros galardões.
São parasitas vistos aos milhões
Sobre sangue e suor de negros dorsos...”

“Acompanho este século perplexo.
Nem a Corte, ou outro arranjo desconexo,
Haverá-de livrar-nos d'outros Corsos...” --

Hesita novamente o soberano,
Pois, buscando ser fiel ao próprio plano,
Recorda a si seus ávidos esforços.


* * *

CRÔNICAS D'EL REY - soneto décimo

Recorda a si seus ávidos esforços:
--“Para manter unido o Reino inteiro,
Ordenei desde o Rio de Janeiro
Organizar a volta co’os reforços.

“Todavia, grassavam os extorsos,
Quer em solo europeu; quer brasileiro.
Contra os quais me isolei por altaneiro.
Embora claudicando entre estorços.”
 
"Ousara o que jamais um rei ousara.
Quando, ao sul do Equador, tive a luz clara,
De ver o Corso em França mais soturno."

"No Brasil, fiz o Reino ser reunido.
Por isso, o Paço tenho percorrido
Como se algum espírito noturno..." 


* * *

CRÔNICAS D'EL REY - soneto undécimo

--"... Como se algum espírito noturno,
Em insones andanças pelo Paço.
Concilio a minha angústia co'o cansaço
D'esse terrível ímpeto diuturno."

"Há anos n'essa sala cá me enfurno
Em longos beija-mãos que aqui refaço
E após vir, alta noite, passo a passo 
Carregando um semblante taciturno."

"Quem por acaso vê não me compreende
A dor que do Encoberto 'inda descende
Obrigada às razões do coração." --

E embora insone sonhe o Quinto Império,
Ele súbito explode ao extremo hespério:
-- "Parvo! Não obtêm glórias a obsessão!..."


* * *

CRÔNICAS D'EL REY - soneto duodécimo

"Parvo... Não obtêm glórias a obsessão..." --
Repete El-Rey a si já se acalmando.
Após tal paroxismo, ao seu comando,
Tornei a acompanhar sua narração:

-- "Dos remorsos que trago ao coração,
O pecado maior; o erro mais nefando,
Foi não manter o Reino unido quando
Caiu em definitivo Napoleão

"A partilha do Império já tramada
Pelas nações amigas... Cuja entrada
Em nossos portos dera eu permissão!..."

"Assim vimos partir mais rios d'ouro:
Exauridas as Minas, sem Tesouro...
Esplendores tampouco, vãos ou não..."


* * *

CRÔNICAS D'EL REY - soneto tredécimo

-- "Esplendores tampouco, vãos ou não?..." --
Contesto: -- " Vossa Alteza reina ao sul!"
-- "Deveras... Qual andasse por um paul
Ir governar dos trópicos Nação..."

"Britânicos com brigues vêm e vão;
Franceses, de Lisboa a Istambul...
Parecem almejar-se o céu azul
E o mundo reduzir a quase um grão".

"Terras e reinos reuni n'um mesmo cântico
D'uma margem até a outra do Atlântico
N'esse meu caminhar só e noturno." --

Todavia -- penso eu comigo mesmo --
Por caminhar insólito, à noite e a esmo,
Chamam-lhe Dom Fuão, o taciturno...


* * *

CRÔNICAS D'EL REY - soneto quadridécimo

-- "Chamam-lhe Dom Fuão, o taciturno,
Alteza Real, não grande ou clemente...
A sua caminhada, verazmente,
Mais faz especular o horror noturno."

"Se fora Napoleão corso e soturno,
Também um vencedor, cuja alva gente,
Parece idolatrar como somente
Veneraram romanos a Saturno..."

"Enquanto o sirvo pela noite, Alteza,
Eu tento traduzir dor em beleza
E ainda acompanhar seu passo lento.

"Mas digo se perguntam o que faço
Alta noite vagueando pelo Paço:
--"Escuto o velho rei em seu lamento.""

Contagem - 30 09 2012

quinta-feira, 12 de abril de 2018

A BANHAR

A BANHAR

O bulício das águas contra as lajes
Ao descer os degraus da corredeira...
Aonde eu te levei por companheira
A nos havermos sem pejo nem trajes.

Não importa por onde ou com quem viajes,
Jamais encontrarás igual ribeira!
Tampouco te verás, aventureira,
Tão mais longe dos vis e seus ultrajes...

Onde toda a nudez jaz inocente
E mulher e homem são naturalmente
Dois bichos a banhar-se em pleno cio.

Guarda no coração aquela tarde,
Cujo recordo ainda em desejo arde
Meu corpo sob as águas d'esse rio.

Santana do Riacho - 12 10 2012

domingo, 4 de junho de 2017

NO JUQUINHA

NO JUQUINHA

Quem desapareceu virou estrela
E foi luzir bem alto lá no céu.
Mas ficou na memória sob o véu
Da serração mirando a aurora bela.

O seu sorriso aberto por nós vela,
N'esses sertões de andar de déu em déu,
Deixando-nos aqui e ali e ao léu
Os passos que veredas nos revela.

Quem desapareceu virou estátua
Depois de brilhar feito chama fátua
E trilhar os caminhos mais distantes.

Ele, que mereceu permanecer,
Nos mostra co'a imagem de seu ser
Quão bem-aventurados os errantes.

Morro do Pilar - 10 10 2012

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

XONGAS

XONGAS

Quando alguém se crê muito necessário,
Faz tudo para não faltar mais nada...
A renovação do ânimo é sagrada,
Senão cada jornada é um calvário.

O problema é servir o salafrário
Que, com uma visão equivocada,
Entende quem o serve como escada:
Toma a sua esperança e o seu salário.

Malgrado me explorassem à exaustão,
Eu não sabia xongas d’estes ardis
Como um misto de astúcia e enrolação.

Se ignorante em maldades eu me quis,
Exacto por seguir uma ilusão
Me enganaram bem diante do nariz...

Betim – 04 09 2012

sábado, 15 de outubro de 2016

AÉREO

AÉREO

As nuvens a ocultar o sol lá fora
Alertam de que tudo é fugidio...
Tarde de céu de chumbo e vento frio,
Que me fez recordar outras d’outrora.

E o tempo vai passando sem demora
No vento a me zunir seu assovio.
Já me sentia há tanto tão vazio,
Como se eu com o vento fosse embora.

Eu, de ponta-cabeça sob o céu,
Me imaginava a andar nas nuvens densas
Enquanto rascunhava algum papel.

E ainda que me julguem bem pretensas
As evasões de quem vivesse ao léu,
Me aceito catador de ideias suspensas.

Betim - 21 05 2012

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

DIR-TE-IA

DIR-TE-IA

Tendo tanto a dizer, eu nada falo
Só te olho sem saber o que fazer...
E, quando balbucio um som qualquer,
Sem que me faça ouvir, eu já me calo.

Às vezes, parecia que d’estalo
Sairia quanto tinha a te dizer,
Mas estacava apenas de te ver,
Como se iluminada por um halo...

Olhos ardósias qual lousa de giz,
Com tão mimosos lábios e o nariz
Compondo a tua face inconfundível.

Dir-te-ia que te quero mais do que antes.
Por desgraça, porém, n’estes instantes
Silencio co’a voz quase inaudível!...

Betim – 08 08 2012