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sexta-feira, 3 de julho de 2020

A PIOR PESSOA DO MUNDO

A PIOR PESSOA DO MUNDO (vilanela)

Talvez eu seja o que o outro diz de mim...
Ao lhe ferir d'um modo indescritível; 
Quem mais o aproximou da morte, enfim.

Considera-me um lixo humano ao fim
Ou senão estrupício desprezível,
Talvez eu seja o que o outro diz de mim...

Decerto algum demônio carmesim
Fez-me exterminador irreprimível...
Quem mais o aproximou da morte, enfim.

Tu me tomas por verme ou coisa assim
E me queres um mal irreversível!
Talvez eu seja o que o outro diz de mim...

Teu ódio de meu ódio quis-se afim
Em mútua destruição; indistinguível! 
Quem mais o aproximou da morte, enfim.

Considera-me alguém de baixo nível
Quem mais o aproximou da morte, enfim.
Sou-te o pior de mim; o mais horrível:
Talvez eu seja o que o outro diz de mim...

Betim - 03 07 2020 

sábado, 23 de maio de 2020

SOB OS LENÇÓIS

SOB OS LENÇÓIS (vilanela) 

Pelas brancas manhãs, as nossas peles 
Teimam em se roçar sob os lençóis, 
Visto se ocultar amores n'eles... 
 
Desejosa antes d'estes que d'aqueles, 
Navegavam teus dedos entre atóis... 
Pelas brancas manhãs, as nossas peles. 
 
A mim, já não importa o quanto veles, 
Sabendo nos teus olhos dois faróis, 
Visto se ocultar amores n'eles. 
 
Porém, maravilhosa te reveles 
Negando a despertar co'os rouxinóis, 
Pelas brancas manhãs, as nossas peles. 

Lasso, baixo meus lábios imbeles... 
Borrachos de xerezes espanhóis, 
Visto se ocultar amores n'eles. 

Assim como s'espraia o mar em fróis, 
Visto se ocultar amores n'eles,
Resplandeçam co'a luz de dois mil sois,
Pelas brancas manhãs, as nossas peles. 

Betim - 20 05 2020 

sábado, 1 de fevereiro de 2020

DIVERTIMENTO

DIVERTIMENTO (vilanela)

Oh coração vadio, que tormento!
Mesmo se eu me perder, barco à deriva,
Deixa-me ser feliz por um momento.

Sei teu apuro meu atrevimento,
Sempre a sangrar-me o peito em carne viva...
Oh coração vadio, que tormento!

Por uma vez ao menos a contento,
Eu liberte minh'alma em ti captiva!
Deixa-me ser feliz por um momento.

Vagabundando aonde for o vento
Aos excessos da noite eu sobreviva!
Oh coração vadio, que tormento!

Seja eu entre os mortais o mais sedento
E no altar luxurioso outro conviva:
Deixa-me ser feliz por um momento!

Encontre em m'emborcar divertimento!
N'uma autodestruição contemplativa,
Deixa-me ser feliz por um momento...
Oh coração vadio, que tormento...

Betim - 01 02 2020

quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

PORNSTARS

PORNSTARS (vilanela)

Por fazerem as horas mais felizes,
Parecem nos fisgar, apelativas,
Quer sejam meretrizes; quer actrizes...

Modelos de beleza; chamarizes,
Que tornam nossas vidas tão mais vivas,
Por fazerem as horas mais felizes!

N'um sorriso ocultando as cicatrizes,
Oferecem as faces sempre altivas,
Quer sejam meretrizes; quer actrizes...

Flecham aonde apontam os narizes
Em flertes de miradas tão furtivas,
Por fazerem as horas mais felizes!

Tolerando dos dedos os deslizes, 
Se ouriça o pelo à pele... Pois lascivas,
Quer sejam meretrizes; quer actrizes...

Em sermos os seus servos, não juízes,
As saudamos entre urras e entre vivas,
Quer sejam meretrizes; quer actrizes,
Por fazerem as horas mais felizes!

Belo Horizonte - 24 12 2019

terça-feira, 5 de novembro de 2019

FALASTRÃO

FALASTRÃO (vilanela)

Convém falar quando há algo a dizer,
Senão, melhor calar o que não sabe
Ao escutar quanto possa se aprender.

Silêncio! Para para compreender.
Mesmo que de sandice outrem se gabe,
Convém falar quando há algo a dizer.

Evita dos enganos desprazer
E deixa de arguir o que não cabe
Ao escutar quanto possa se aprender.

Cala para não ter de desdizer...
Se quem insiste mais se menoscabe,
Convém falar quando há algo a dizer.

Respeita quem demonstra mais saber,
Antes que uma verdade em ti desabe,
Ao escutar quanto possa se aprender.

No mais, melhor calar que responder.
Sob pena de que um erro nunca acabe...
Ao escutar quanto possa se aprender,
Convém falar quando há algo a dizer!

Betim - 05 11 2019

sábado, 19 de outubro de 2019

KAMIKAZE

KAMIKAZE (vilanela)

Fizeram-me pensar que pelo ideal
Se deve dar a vida e mesmo a morte
N'uma luta onde o bem vencesse o mal.

Moldado como máquina mortal,
Ser escolhido herói foi muita sorte!
 - Fizeram-me pensar que pelo ideal…

Na guerra, como orgulho nacional,
Decerto o próprio Deus me fez mais forte
N'uma luta onde o bem vencesse o mal.

Para acabar com todos afinal
E morrer sem que nada mais importe,
Fizeram-me pensar que pelo ideal.

Jamais ver o inimigo como igual
E somente a vitória ter por norte,
N'uma luta onde o bem vencesse o mal.

Um mártir pela pátria, arma letal,
Eu os mate e me mate n'um só corte…
 - Fizeram-me pensar que pelo ideal?

Betim - 07 09 2019

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

FILIGRANAS

FILIGRANAS (vilanela)

Escritas em letras d’ouro
Duas longas iniciais:
O entrelaçado tesouro
D'aqueles que amam demais.

Quando o amor, imorredouro,
Recorda histórias banais
Escritas em letras d'ouro.

Quando o amor, já sem desdouro,
Faz rebrilhar mais a mais
O entrelaçado tesouro.

Ora o moreno; ora o louro,
Face a damas imortais
Escritas em letras d’ouro!...

Ora o cristão; ora o mouro:
A não perecer jamais
O entrelaçado tesouro.

Ora o toureiro; ora o touro,
Onde lutas desiguais
Escritas em letras d’ouro!

Para afastar mau agouro;
Para desvendar sinais...
O entrelaçado tesouro.

Para o século vindouro;
Para futuros casais,
Escritas em letras d’ouro.

Betim - 08 09 2019

domingo, 15 de abril de 2018

PERTENCES

PERTENCES

Algo que permaneça d'aura extensa
Como essência invisível dos objetos,
Em meio à ausência faça-se presença.

Pelo uso nos indique 'inda pertença,
Em memória de dias irrequietos,
Algo que permaneça d'aura extensa.

Desgastadas relíquias d'uma crença,
Onde os dedos premiram, inquietos...
Em meio à ausência faça-se presença.

Alguma fé absurda-mas-imensa,
A fazer-nos abstratos mais concretos...
Algo que permaneça d'aura extensa.

Atravesse do Olvido a noite densa
A fim-de que a saudade dos diletos
Em meio à ausência faça-se presença.

Em tudo que estivemos nós, pretensa
Luz que ressignifique ora amuletos,
Em meio à ausência faça-se presença
Algo que permaneça d'aura extensa...

Betim - 15 04 2018  

quarta-feira, 11 de abril de 2018

CARÍCIAS

CARÍCIAS Amemo-nos sem pressa, suavemente, Ainda que a cidade a todo instante Se faça com mil sons sempre presente. Olhemo-nos nos olhos, frente a frente: Tudo há-de acontecer ao teu talante... Amemo-nos sem pressa, suavemente. Busquemos o sorriso mais contente, À espera que o prazer no peito arfante Se faça com mil sons sempre presente. Porque doce é o amor quando se sente O rosto aberto em gozo d'uma amante: Amemo-nos sem pressa, suavemente... E, alheados do que tínhamos em mente, Teu corpo no meu corpo d'oravante Se faça com mil sons sempre presente. Assim talvez o amor -- tão inconstante... -- Se faça com mil sons sempre presente Até que em nós o gozo se agigante!... Amemo-nos sem pressa, suavemente... Belo Horizonte - 10 04 2018