quinta-feira, 1 de fevereiro de 2024

BONANÇA

BONANÇA


Mil sóis brilham depois da tempestade

Em largas poças d’água a encher a rua.

Espelha-se dourada a aurora nua

N’um quadro de ideal tranquilidade.


Como se virginal, toda a cidade

Por entre brumas brancas se insinua.

Amanhece em silêncio e continua

Tudo imerso em intensa claridade.


O aguaceiro que caiu a noite toda

‘Inda escorre nas pedras do caminho

Onde chapinha alegre um passarinho.


Nada aqui me aborrece ou me incomoda.

Outra manhã lavada e reluzente 

Fazendo a terra nova novamente 


Belo Horizonte - 19 01 2024


DO QUE NÃO SEI

DO QUE NÃO SEI


Pior que não saber: Não querer saber…

Antes passar por néscio que ignorante,

Pois tudo o que conheço, n’um rompante

Vou, por estupidez, desaprender.


Penso que não pensar seja perder

De saída a noção do relevante.

Se ignoro, julgo menos importante

Exacto quanto sei desconhecer.


Soubesse as coisas todas d'esse mundo,

Eu nada pensaria mais profundo,

Com receio de errar algo sabido.


Só sei que o que, afinal, tenho ignorado

Me dá a conhecer, mesmo que errado,

A verdade por trás do irreflectido.


Betim - 31 01 2024


quinta-feira, 25 de janeiro de 2024

NÉ-NÃO!

NÉ-NÃO!


Negativa veemente e coloquial,

Dita p’ra desdizer algo mal dito,

Faz parecer o avesso do bonito

Mais absurdo que estúpido afinal.


Mas era o fel da língua, tal-e-qual,

A azeitar um aparte quase aflito

De quem levanta a voz alto e expedito

Para calar ofensas d'um boçal.


Dissesse que sou parvo ou meio triste,

Jamais eu lh'o diria: — “Tu mentiste!”

Qual disse após de mim, acusatório.


Mais disse ele: — “És cachorro que só late!”

Tendo ouvido tamanho disparate,

Calhou bem renegar seu tom inglório…


Betim - 16 01 2024



sábado, 6 de janeiro de 2024

FILME QUEIMADO

FILME QUEIMADO


A película em vão se me obscurece

Por excesso de luz na exposição.

As formas viram sombras e um borrão

No quadro revelado ora aparece.


Imagem de desastre se parece

Minha cara a s’encher de escuridão,

A despeito do estouro do clarão,

Que de súbito à pele empalidece.


Por muito menos, homens mais vividos

Deixaram seus temores insabidos

E, sós, se recolheram a um retiro.


Talvez tenha chegado meu momento

De aceitar-me, afinal, em desalento,

Tendo o filme queimado por mal tiro…


Betim - 07 12 2023


DRAMATIS PERSONÆ

DRAMATIS PERSONÆ


Era um enredo escrito a muitas mãos

Aquele que contavas para ti:

Um facto distorcido aqui ou ali

E todo um carnaval de sins e nãos.


Mil culpas carregadas; sonhos vãos…

Diálogos exaustivos vi e ouvi!

Ao coro dos vilões me percebi

Contar da ampulheta os finos grãos.


A ti, protagonista inopinada,

Coube nos conduzir do nada ao nada,

Apesar dos vacilos caricatos.


E a mim restou apenas entender

Qual papel me compete empreender

Em nossa ópera-bufa de insensatos.


Betim - 06 01 2024


sexta-feira, 5 de janeiro de 2024

LATIFÚNDIO

LATIFÚNDIO 

Por privada de gente, a propriedade 

Mais s'estende baldia e empobrecida

Do que possa caber a própria vida,

Restando em inventários como herdade.


Desmatada, a capoeira logo invade

Toda a gleba de terra desvalida

Face à especulação mais descabida:

— “E onde é mato será tudo cidade…


Deixam de ser as grotas e as veredas

D’onde as águas, claríssimas e ledas,

Escorriam preciosas para o açude.


A terra revestida de concreto

É quanto sonha o lucro mais abjeto

Que, todavia, a tantos tanto ilude.


Betim - 05 01 2024


quarta-feira, 3 de janeiro de 2024

SEMIDEUSES

SEMIDEUSES 


Aqueles que s'elevam dos demais

Por feitos cuja fama e admiração

Perpetuam-se aos olhos da Nação

Co’os nomes a luzir em memoriais.


Ao deixarem legados imortais,

Da própria morte fogem na intenção,

De superar-se a humana condição

Por meio dos esforços pessoais.


Eles sofrem e sangram, todavia,

Sabendo envelhecer, dia após dia,

Apesar de quem são ou do que têm.


Lembrados hão-se ser eternamente,

Antes como uma ideia do que gente,

Ao se buscarem algo mais além.


Betim - 03 01 2024