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segunda-feira, 28 de outubro de 2019

ADMIRÁVEL

ADMIRÁVEL

Doutas e distintas, caminham pelo campus d'uma grande universidade duas senhoras. A mais jovem, estrangeira, era reconhecida em toda parte como escritora e conferencista de enorme influência. Não obstante, fulgura-lhe uma beleza rara, tranquila, que só não intimida quem d'ela se aproxima em vista de suas maneiras sempre muito afáveis e receptivas. Era mulher que fizera do conhecimento seu único interesse. Viajava ultimamente por vários países à pedido de seus editores na divulgação de suas mais recentes publicações. Sua companhia, uma senhora de carreira acadêmica, se impressionara vividamente com sua obra e a acompanhara em concorridos eventos de leitura de excertos e apresentações da jovem, onde, por via de regra, seu pensamento causava grande interesse. Intelectual muito respeitada, sua obra a precedia e lhe abria muitas portas. 

Após alguns minutos de silenciosa caminhada, disse a dona à moça:
-- "Eu chego a ter certa pena de ti... És d'uma estirpe de mulheres admiráveis, tanto por esta deslumbrante mirada ultramarina, quanto pelo brilho inteligente que tais olhos contêm. Por ti, homens de valor se matam e mulheres de classe se arruínam. Tens o amor, a paixão e o desejo sublimados em teus lábios carmim. Sim, quando se movem uma voz maviosa destila saberes cheios de argúcia intelectual honestamente curiosa. És avassaladora! Tu cativas a emoção alheia com uma facilidade que te há-de custar muito caro: Impossível espalhar tanta feminilidade sem causar grandes amores e tragédias." -- A moça respondeu à dona:

-- "Descreves precisamente minha condição. Sim, mais de uma vez desfiz amizades que se revelaram amorosas. Eu juro que não faço por mal, ou melhor,  por bem... Sei lá! Mal ou bem querida, o facto é que não posso me dar ao luxo de simplesmente conviver. Não, todos querem algo mais! Sem querer soar pedante, penso que seria mais corretamente compreendida se não despertasse tanta admiração... 

A elegante senhora olhou demoradamente para a rapariga que tinha diante de si... Era impossível lhe ignorar a presença. Seu garbo distingue imediatamente. Vestia-se com apuro e cuidado. Mas, quem lhe fugisse do brilho dos olhos e lhe evitasse o adorável sorriso, decerto capitularia com sua insuperável conversação. Já a haviam visto sustentar diálogos com filósofos áridos e artistas pedantes com igual desenvoltura. Tinha um genuíno interesse pelo ser humano e seus arrazoados... Qualquer um se sentiria importante com sua atenção franca e paciente. A dona lhe falou:

-- "Como te lamento, coitadinha! És demasiado doce para um mundo de ávidos. Despertas senão cupidez e inveja aonde quer que vás...Todos te hão-de querer um pedaço e, quando tiverem o mínimo que seja, não suportarão viver sem teu mel! Que infelicidade seres tão admirável!"

Ruidosos, os homens se reuniam ao redor do café. Fumavam e tagarelavam animadamente acerca das misérias dos políticos mundo afora. Ideavam sistemas, ordenavam finanças e empreendiam impérios... Mas bastou a senhora e a bela jovem passarem diante de seus olhos, eles se calaram. E elas sabiam por quê! A jovem parou e lhes perguntou interessada sobre as novidades do dia. O mais velho se saiu com galanteio:

-- "E haverá novidade capaz de eclipsar vossas conquistas, senhorita? O que são as quedas de gabinetes ministeriais ou ânsias das bolsas valores diante de vossos famosos debates? Ouve-se por toda parte que os escritos que publicais arrebatam seguidores fiéis" -- e arrematou -- "Só não sois mais bela do que sábia!"

A moça agradeceu, sorrindo:

-- "Quão lisonjeiras palavras, meu senhor. Se vos apraz, a vós e a vós-outros, gostaria de participar de vossa conversa, trazendo o tema d'um ensaio em que estou trabalhando." -- ao que este se interessou: -- "E sobre o que seria o ensaio, senhorita?" -- E ela respondeu:

-- "Sobre o Poder!" -- os presentes s'entreolharam. Ela continuou: -- "Sim dos peculiares esforços que fazem com alguém mande e outros obedeçam" -- Um terceiro se adiantou:

-- "Oras, quem senão os deuses que governam o Fado poderá saber porque um é elevado aos palácios ao passo que os demais se curvam diante?" -- O mais velho riu e atalhou:

-- "Não nos envergonhe, meu caro, evidente que tão célebre pensadora está muitos passos à frente de velhacos como nós! Em todo caso, senhorita, afora os deuses e o acaso, que elementos ou entes sorriem ao poderoso para d'ele fazer um soberano?" -- Ao que ela disse:

-- "Decerto ser bem sucedido. Não há nada que as pessoas amem mais do que o sucesso. Aquele que provado sucessivamente pelas circunstâncias consegue prevalecer, alcança a atenção e admiração dos que o cercam. De maneira geral, aquele que se destaca entre os demais se caracteriza pelo bem, ou melhor dizendo, de ser bem-nascido, bem-educado e bem-sucedido. É pelo bem que se acumula bens! -- Um dos presentes, o mais impressionado, lhe objetou, porém:

-- Mas, quanto mais alto se elevam, de mais alto caem... Ela continuou:

-- Essa é com certeza outra singularidade do poderoso, a saber, o destemor face o fracasso. Somente acerta ou erra quem tenta; somente conquista quem arrisca." -- O rapaz insistiu:

-- "E somente desce quem sobe... Sem embargo, há aqueles que se firmam no topo por decênios e mesmo quando saem de cena -- alguns ostracizados até!  -- deixam, a despeito de quem o combata, um legado. Esses são chamados de estadistas, líderes, timoneiros... Alçados ao nível de lendas, mesmo seus erros são relativizados, ao passo que seus feitos continuamente celebrados. -- O rapaz se calou subitamente, como se uma ideia o houvesse perturbado e lhe parecera melhor não compartilhá-la.

-- "E isso vos parece obra do mérito ou do acaso?" -- espevitou a moça -- "Ambos, talvez... O poder é um misto de sorte e ousadia, eu penso. -- O mais velho riu: -- "Sorte? Quanto mais trabalho, mais sorte tenho!" -- e completou: -- "O sucesso do homem público que chega ao Poder e n'ele se mantém é fruto, sobretudo, de sua perseverança. Só se torna um prócer o animal político que concilia interesses e arbitra conflitos. Tem-de respirar política vinte e quatro horas por dia! Já vi muitos homens e mulheres excepcionais actuando tanto no Parlamento quanto no Governo. -- todos os olhos se voltaram para a bela autora e esperavam sua opinião. Ela sorriu e os fuzilou com sua famosa mirada azul:

-- "As circunstâncias testam continuamente a pessoa pública. Evidente que há uma ciência da boa administração a evoluir desde que o mundo é mundo. Não basta dizer o que os outros querem ouvir. Há-que se ter clareza de que transformações se pretende fazer na sociedade e na condução da coisa pública. Quando o plano do político e a percepção do povo se alinham, um ciclo de renovação contínua do pacto social estabiliza a nação para que haja um esforço coordenado para se avance nas questões consideradas essenciais para o bem comum. Em suma,  bons governantes são aqueles que são mais sensíveis às necessidades dos governados do que a seus projetos pessoais. Uma pessoa pública deveria ficar mais preocupada em promover acções que respondam às questões colocadas pela sociedade do que com o culto à sua personalidade. Mitos e ídolos têm em comum a sobrenaturalidade, isto é, não são d'este mundo. Desejar ser governado por santos ou heróis é ignorar a humanidade do poder". -- a senhora que a acompanhava desde o início não pode de furtar a um comentário:

-- "Isso é desalentador, minha querida! Se não forem pessoas superiores, com que temeridade deixamos na mãos cobiçosas d'estes próceres o destino de nossa sociedade? Reconheço em ti, por exemplo, a grandeza dos que merecem a confiança dos demais. Penso que se vivêssemos n'um mundo justo, tu serias alçada às mais altas posições do Estado! Descreveste homens cheios de bens como prováveis candidatos a tais postos... No entanto, tuas próprias obras e influência te fazem sobressair entre legiões de líderes incapazes de inspirar senão repulsa ou comiseração, És admirável! -- todos os presentes se adiantaram em concordar -- reúnes tantas qualidades em teu claro pensar que temos a ilusão de que teu claro pensar seja ditado diretamente d'um oráculo. -- o mais velho, cerimoniosamente, fez coro àquele panegírico:

-- "Deveras, quem discordará de vós, senhora, após presenciarmos todos a sede de saber de vossa pupila se transformando ao longo dos últimos anos em obras seminais e colaborações auspiciosas nos empreendimentos notórios? O debate incansável e honesto que protagonizais quotidianamente nos privilegia tão-só em d'ele participar. Aqui mesmo, sem que nos apercebêssemos, transformastes as pilheiras de nossa conversação ociosa em argumentos dignos de atenção. Só não me surpreendo mais por ter me acostumado a ver vos transformar tantas vezes o pó do senso comum no ouro da lógica fundamentada. Ninguém perde em escutar-vos e, sobretudo, em ler-vos!"

-- "O senhor m'encabula com deferências que me ultrapassam." -- agradeceu a moça -- "Só espero que meu ensaio seja digno de tanta boa-vontade quanto esta que m'expressais." -- e voltando-se para sua amiga: -- "Tua amizade, minha querida, faz com que me vejas mais influente do que de facto sou... Esforço-me, deveras, em ocupar espaços de discussão, espalhando escritos às mais diferentes publicações, antes com a teimosia dos insistentes do que com a sobriedade dos pensadores argutos. Conheci muitos excepcionais, aliás, que me servem de balizadores imprescindíveis para que meus escritos ousem as contribuições que se arvoram.. No mais, entre amigos é sempre mais suave a interpelação para que se construir os argumentos d'um conjunto de ideias. Só me resta em meu esforço para compreender as questões d'este mundo lançar luzes cada vez mais bem orientadas sobre o estado de coisas que nos mantém ordenados n'uma coletividade. Pretendo escrever mais amiúde sobre esse misterioso liame que reúne os indivíduos em torno de regras e normas, constrangendo-os a abrir mão de liberdades de sua natureza egocentrada e se submeterem ao bem comum. Deixo os senhores com vossos assuntos agradecida pelas gentilezas!" -- e despediu-se d'aquele grupo.

A dona e a jovem continuaram sua caminhada pelo campus.

(continua ...)         

Betim - 26 10 2019

sábado, 8 de setembro de 2018

O EXTRAORDINÁRIO SR. GENTIL

O EXTRAORDINÁRIO SR. GENTIL

Certas coisas nos emocionam sem que a gente consiga explicar por quê. Toma-se conhecimento de figuras quase anônimas no tecido da sociedade com vidas que pouco ou nada têm a ver co'as nossas e, inexplicavelmente, a notícia de sua existência atrai de modo misterioso à nossa sensibilidade e atenção. Foi assim com o extraordinário Sr. Gentil. O homem viveu uma vida desinteressada e desinteressante até o dia em que decidiu que seria feliz. Sim, feliz, mas não uma felicidade vulgar como tantas que se vê por aí. Não. Não desejava o extraordinário Sr. Gentil a fumaça de uma carreira amplamente reconhecida ou a fantasia de um amor perfeito correspondido. Tampouco era a felicidade dos que se dizem autossuficientes e veem alegria e beleza em qualquer coisa que aparecesse diante de seus olhos, n'um engano de si mesmos que beira o patológico. Com efeito, a felicidade buscada por ele era muito peculiar, mas nada tinha da resignação afetada de tantos que, sendo infelizes, preferem sistematicamente ignorá-lo.

Se o Sr. Gentil não se contentava com pequenas coisas, tampouco se iludia com as grandes. Via o mundo como era, com uma lucidez que raras vezes a maioria de nós se permite. Ele tinha sua família e seu trabalho, como tantos, mas jamais os idealizava a ponto de afirmar que lhe bastavam. Sabia precisar de mais. Sabia haver em sua interioridade um universo inteiro a explorar e isso o divertia imensamente. Sem embargo, desconfiava sumamente dos sorrisos fáceis para embelezar rostos sob os holofotes, não confundindo nunca alegria com felicidade: ser admirado pelos outros lhe produzia uma indiferença absoluta e desejar tal disparate lhe parecia quase imbecilidade. Esperar pela aprovação de estranhos não contribuía em nada com seu desejo de ser feliz, ao contrário, parecia-lhe outra amarra na qual o espírito humano se prende para não lidar com o aleatório da vida. Ser livre, entendeu o extraordinário Sr. Gentil, era gostar do imprevisto e admirar a pessoa que nos tornamos à medida que as circunstâncias vão nos exigindo.

Mas tudo isto, embora filosófico,  não era nada demais. O que fizera o Sr. Gentil, portanto, para se tornar extraordinário?  Sim, vivera uma vida única, no limite entre a moralidade e o crime. Seu extraordinário feito fora d'uma ambiguidade absoluta, onde certo e errado não apenas se confundiam como se complementavam. Difícil dizer algo sobre a sua história senão que era extraordinária: Amor, dor, ódio, sexo, egoísmo, conveniência, ira, canalhice... Todas estas abstrações descrevem adequadamente sua vida sem esgotá-la. Eu mesmo, cada vez que recordo do Sr. Gentil, deparo-me com um viés novo cuja pertinência faz mudar radicalmente meu juízo sobre sua existência. No fundo é apenas por isso qu'eu, na falta de palavra melhor, qualifico a ele e sua vida de extraordinários. Escrevendo, convido o leitor a tirar as suas próprias conclusões.

........

Gentil era um homem de quase cinquenta anos quando o conheci na casa de minha sogra. Era um solteirão bem apessoado com uma fala algo janota; algo aristocrática... Lembro-me que não me causara grandes impressões a princípio. Apertei-lhe a mão como a de tantos n'aquele dia em que conhecera a ele e seus irmãos. Era, com efeito, o mais expansivo e bem trajado dos três. Conhecera-os por ocasião do meu noivado, visto serem parentes ricos e distantes de minha noiva.  Ela, muito jovem ainda, apresentara-me aqueles seus três primos com idade para serem tios dos quais jamais comentava, todos bem sucedidos e fora do seu círculo de convivência familiar. Quanto a mim, com vinte e poucos anos, eu não me interessava absolutamente pelos seus parentes. O Sr. Gentil, porém, tinha um hábito que logo me deu o que pensar: Usava ele uma espécie de piteira para fumar, de modo que seus dedos tão tinham as manchas de nicotina comuns aos fumantes. Embora não fosse inédito para mim saber de pessoas que evitassem tal nódoa, confesso que jamais tive notícia d'um homem não afeminado que o fizesse... Esta fora uma peculiaridade entre tantas que conheci a seu respeito, à medida que tomava conhecimento de sua vida. N'um segundo ou terceiro encontro -- tivemos uma convivência esporádica antes do meu casamento -- conheci sua filha e a mãe dela. Causou-me espécie o facto de que ele não só não usava aliança como demonstrava morar tanto com a filha -- uma menina tímida d'uns onze anos -- quanto com a mãe -- uma senhora quase tão velha quanto Gentil, mas que ele tratava como se sua empregada fosse... Engoli em seco minha curiosidade ao longo de todo aquele encontro e qual não foi minha surpresa ao indagar de minha sogra, que era tia d'ele, o porquê d'aquela estranha convivência. E ela, para meu pasmo, confirmou que aquela senhora era efectivamente a empregada doméstica de Gentil! Insisti, perguntando da filha, ao que ela se furtou de fazer qualquer comentário além do óbvio: "Era filha d'ele com a empregada"...

Aquela revelação esdrúxula me fez revisitar cada detalhe da fugaz convivência que tive com o Sr. Gentil. Marcara-me o carinho que tinha com a filha em contraste com a secura reservava à mãe. Sim, era uma coisa quase palpável o estranhamento que aquela singular família causava a todos ao redor. Ninguém comentava, como se a situação não fosse nenhuma novidade, mas todos pareciam pisar em ovos cada vez que falavam com o Sr. Gentil e ninguém, absolutamente ninguém, ousava dirigir a palavra à sua filha ou para a mãe d'ela. Apenas Gentil conversava com as duas, alternando o tom da voz entre uma e outra de modo quase bipolar, expressando ora o amor de pai; ora o rigor de patrão. Parecera-me ele junto d'elas uma pessoa assaz diversa d'aquela que conhecera em companhia só dos irmãos: Suas maneiras foram mais reservadas, muito pouco participando das conversas então. A filha, muito bem vestida e comportada, não se misturava às outras crianças que reinavam em brinquedos aqui e ali. Quanto a mãe, servia-o em tudo que se mostrasse, obsequiando-lhe os petiscos e as bebidas servidos no buffet da casa de minha sogra. Aos quais ele jamais agradecia! Julguei-o a partir de então da pior forma possível, como um canalha! Bem como a pobre mulher como uma espécie de prisioneira de circunstâncias inconfessáveis. Muito me aborreci com aquelas cenas que somente após o encontro lograva compreender minimamente: Sim, o Sr. Gentil era um miserável misógino a torturar a mãe da própria filha com uma servidão absurda, apenas isso explicava!

Passaram-se dez anos e muita coisa mudou, sobretudo eu. Meu casamento não dera certo e, embora dois filhos, separamo-nos após sete anos de convivência. Fora uma separação muito difícil, pois, havia apostado tudo que construí n’aquele casamento. Ao fim, fiquei sem patrimônio e sem a convivência diária com meus filhos. Todos os dias, levantar-me para trabalhar era um fardo, visto que quase tudo que obtivesse seria para o sustento de meus filhos longe de mim com minha ex-mulher… Não foi uma nem duas vezes em que perambulei pela cidade sem buscar senão distração para a insônia que me acometia. Vivia deprimido e angustiado n’um período a que chamava de “a noite mais escura” em versos ruins de mau perdedor. Fiz-me íntimo de bêbados, prostitutas e andarilhos na imensidão da cidade noite afora. Tinha trinta e poucos, mas parecia ter cinquenta! Foi então que, do nada, encontrei o velho Sr. Gentil n’um inferninho. A princípio, fingi não o reconhecer, mas ele saiu de sua mesa e veio em minha direção com seu inconfundível cigarro na piteira seguro entre os dedos.

Era ele, indubitavelmente. Saudou-me com um largo: “Há quanto tempo!”, ao que eu me encolhi junto ao balcão do bar enquanto uma gostosa seminua rebolava no palco ao som de “Promiscuous” e afins. Sempre muito constrangedor encontrar alguém do passado n’um lugar como aquele... Em todo caso, se quem está na chuva é para se molhar, quem está no inferno é para se queimar: Retribui a saudação do Sr. Gentil com toda a intimidade que jamais tivemos e o convidei a se sentar ao meu lado. Eu bebia uma cerveja qualquer mais uma dose de pinga e ele pediu o mesmo para si.

Começou falando exacto do que não queria falar: -- “Soube do fim de seu casamento com minha priminha.” -- calhou-lhe de introdução -- “Desculpe-me a franqueza, mas você parece bem melhor agora.

Aquilo caiu em meus ouvidos como um imenso contrassenso, afinal, não enxergava em mim senão decadência. Pedi que ele continuasse: -- “Mulheres são complicadas. Não digo que sejam inimigas, mas com certeza não são companheiras. Ou melhor, digo “companheiras” no sentido primitivo da palavra, isto é, “com-pão-eiro”: aquele com quem se reparte o pão”. Respondi-lhe intrigado: “Um tanto carola essa sua etimologia!…” E ele: “De facto, eu já fui um homem religioso.”.

Bebericávamos a cerveja e, de tempos em tempos, entornávamos a cachaça. A noite só estava começando e as belas se sucediam no palco exibindo caras, bocas, pernas e bundas. Ele fumava seu cigarro na piteira enquanto eu olhava para as garotas encabulado: “Será que ele vai contar que me viu aqui para a família da minha ex? Quer saber: Foda-se!” E tornava a enxugar o lagoinha. Ele riu para si e comentou: -- “Quando lhe conheci, você parecia um ingênuo; um pato para ser depenado. E você não me decepcionou!”. Cada vez mais desconfiado com o caminho que aquela conversa tomava, resolvi dar vazão à minha antiga curiosidade e quis saber mais de sua vida, até para eu não dizer nada que comprometesse com a família da mãe de meus filhos: -- “Isso agora é passado, mas, e o senhor, casou-se com a mãe de sua filha?” -- Ele gargalhou como se eu lhe houvesse contado a maior piada do mundo. Ficou vermelho, sem fôlego, de tanto rir e exclamou interrogando: -- “O quê?!” -- e voltou gargalhar até chamar a atenção em volta e me deixar sem graça -- “Quer dizer que você tinha interesse em minha vidinha, heim?!” -- e completou -- “Mas que surpresa!” -- Para não ficar mais sem graça ainda (e tirar de mim o foco d’aquela conversa), concordei com ele: -- “É verdade: Aquela ocasião em que conheci sua filha e a mãe d’ela nunca me saiu da cabeça.” -- ao que o Sr. Gentil, com o mínimo de palavras, me desmascarou: -- “Mas, por quê?...” -- Pronto! Eu seria obrigado a lhe revelar meu mau julgamento d’antanho… Para que eu fui revirar o lixo humano do passado? Céus, se eu não tivesse bebido tanto, eu pagava uma garota d’essas para subir para algum quarto! Mas, no estado que me encontro, será apenas para broxar e queimar dinheiro… Não estou em condições para comprar uma trepada. Aliás, já apertei o botão de FODA-SE com esse cara mesmo: -- “Apenas achei fora do comum o facto de a mãe de sua filha ser sua empregada…” -- saí-me com esta. Ele não se intimidou. Acendeu outro cigarro e contou-me sua história.

…..

-- “Acho que você não sabe de nada. Então, vou começar do começo. Meu pai foi um homem tão rico quanto mal casado. Vivia como se fosse o mais miserável dos homens sob a tirania de minha mãe que, aliás, fora a fonte de sua fortuna e carreira. Trabalhava nas empresas de meu avô materno e lhe herdou a filha, o nome e a riqueza. Minha mãe o tratava pior do que você me vira tratando a mãe de minha filha. Se aos seus olhos ela era uma empregada; aos meus olhos meu pai era pouco menos que um escravo de minha mãe.”. Falava d’aquelas coisas íntimas e tristes sem qualquer emoção, com uma indiferença didática, dir-se-ia: -- ”Meu pai me fez prometer que jamais passaria pelo que ele passou e tenho cumprido minha promessa com louvor.” -- e ainda -- “Jamais me casei nem me casarei.”

-- “Mas, e sua filha” insisti. -- “O que é que tem?” -- indagou -- “Eu prometi nunca ser marido, não pai.” Ele pediu outra cachaça e virou n’uma talagada: -- “Eu contratei uma empregada e comecei a trepar com ela: Simples assim.” -- eu o olhava como se diante d’um lampejo de lucidez. Ele continuou: --“Eu sabia que ela queria dar o golpe, mas eu queria ser pai. Quando ela veio me depenar, a menina já havia nascido. Eu a despedi com todos os direitos empregatícios e tomei a guarda dela alegando que a pobre não tinha como educar a menina. Ela se desesperou e eu me mantive impassível. Até que ela, para ficar perto da filha e ainda tornar a ter casa e emprego, se sujeitou a assinar de novo a carteira de trabalho como minha empregada. E foi a melhor mãe e mulher que alguém poderia desejar, paga com salário mínimo, décimo terceiro e férias!”

Ouvi aquilo embasbacado e, não podia negar, com certa inveja. Afinal, o que eu mesmo deixara e deixava com a mãe de meus filhos era muito mais para eu ter muito menos… Ele, o extraordinário Sr. Gentil, em sua canalhice dera um golpe de mestre. Ou melhor, um contra-golpe!

-- “Mas, e o amor?!” perguntei, embora a pergunta soasse tola desde o instante em que saíra de minha boca… Mesmo assim, ele respondeu: -- “O amor é um luxo a que nos permitimos quando moços. Olha para ti mesmo” -- a intimidade ébria já lhe permitia tratar por “tu” -- “Aqui n’este antro” -- olhou-me nos olhos frisando as palavras -- "a intimidade comprada que tens com qualquer uma d’estas garotas é incomparavelmente maior que a que tiveste com minha priminha!”  E continuou: -- “Sexo é um encontro humano. É algo concreto; é um acontecimento. Já amor é uma abstração” -- e sorveu o resto da cerveja.

Pedi mais uma e fui para o banheiro. Esvaziei a bexiga que já doía de tão cheia e me olhei demoradamente no espelho: “Quem sou eu?”. Foi então que eu tive o meu momento de lucidez: "Percebo, enfim, que aquela história de piteira para não enodar os dedos era, nada mais nada menos, que a metáfora perfeita d'uma vida onde os vícios não deviam deixar marcas". Perguntei-me em voz alta, ainda diante do espelho, feito demente: -- “Quem diria que um canalha, no final das contas, teria razão?”.

Não sei quanto tempo permaneci ali parado, olhando-me. Só sei que quando retornei ao balcão do bar o extraordinário Sr. Gentil já havia ido embora.. E -- o melhor -- pago a conta toda! Saí d’aquela espelunca de alma lavada, livre, enquanto assobiava um samba antigo sob a luz da lua.

Betim - 08 09 2018

sexta-feira, 22 de junho de 2018

O ESQUELETO DE PINGUIM - O Homem do Saco e Outros Contos

O ESQUELETO DE PINGUIM

-- "Hoje eu vi um esqueleto de pinguim." -- disse-lhe a menina, do nada. Ele coçou a cabeça e olhou para a distância como se tentasse visualizar a incomum imagem do pássaro que não voa sem a roupagem negra que o caracteriza. Não conseguiu. Sem saber bem o que dizer, saiu-se com um vago: -- "Que bom, filhinha." -- e escondeu a total ignorância sobre pinguins esqueléticos no jornal que lia. A menina, frustrada, com a reacção do pai, voltou para o parquinho e foi brincar no escorrega.
Ele, contudo, não conseguia mais fixar na leitura das notícias. A ideia do esqueleto de pinguim lhe parecia quase surreal. Não que imaginasse tais aves fossem invertebradas ou que dissolvessem nas nevascas após a morte, mas era incapaz de dar imagem àquele pensamento. Isso o frustrava profundamente enquanto olhava para sua filha brincando, já esquecido de todo do jornal. Sim, n'aquela tarde tranquila, enquanto a filha brincava, quedou enfeitiçado pelo demônio da monomania...
Nada a fazer, nada fez. Não havia ali livros para consultar. O telefone móvel, inútil, estava sem bateria. Ele era, aliás, um d'aqueles raros seres do milênio passado que odiava atender ligações na rua e que frequentemente se esquecia de pôr para carregar o celular antes de sair. Considerava uma impertinência sem tamanho as pessoas pensarem que todos estão o tempo todo disponíveis para todos. Ele, não! Ele queria estar ali, agora, relacionando-se com o presente imediato ao invés de se perder em nuvens de informações com fotos ruins ou vídeos ainda piores. Saíra de casa para levar a filha ao parquinho e levara o jornal mais para se proteger do sol do que para se informar. E eis que, provocado pela imagem absurda, deseja subitamente ter um celular à mão para fazer uma busca. Tateou os bolsos, mas, como de hábito, o aparelho estava apagado... Maldisse, como tantas vezes já o fizera, àquela mania de se sabotar deixando o telefones sem carga. Olhou para os lados e viu alguns pais e mães que, como ele, estavam esperando a brincadeira dos filhos terminar para irem para outro lugar. Como se tornou comum hoje em dia, quase todos estavam olhando para as telas azuis dos seus aparelhos, totalmente desligados do que faziam os filhos no parquinho. Pensou em pedir um celular emprestado, mas repeliu quase de imediato a ideia. Afinal, que haveria-de dizer: -- "Por favor, empreste-me o celular para saber como é um esqueleto de pinguim..."! -- Não, não... Nada a ver!... Poderia mentir, dizendo estar n'uma emergência, mas aquilo lhe pareceu ainda pior: Era péssimo mentiroso! Quando ousava soltar uma mentirinha, por mais inofensiva que fosse, seu corpo parecia se pôr em revolta contra sua mente e a denunciava por todos os meios possíveis: Gaguejava, furtava-se a olhar o outro nos olhos, corava sem mais nem quê e ria sem que houvesse do que rir.... Era um embusteiro patético que não enganava nem uma criança de colo. Tinha de haver outra solução!
Não, aquilo era absurdo! Não tinha-de saber como era o esqueleto d'um pinguim! Valha-me Deus! Por que a menina teve-de lhe falar d'aquilo? Mas era horrível a sensação de não saber... Por mais que se esforçasse, a ideia do pinguim sem carne não correspondia a qualquer imagem possível em sua mente. E a angústia o tomava d'uma maneira absurda de modo que repetidas vezes se imaginou abordando um dos presentes para pedir o celular e sanar sua curiosidade. Não o fez, contudo, contendo-se heroicamente do ridículo de ser denunciado em sua curiosidade mal-sã tão logo devolvesse o aparelho e o outro lhe visse a busca absurda no histórico. Não. Absolutamente, não! Não se exporia a um vexame d'esses com desconhecidos.
Tinha-de haver outra forma... Ir para casa, então! Mas havia prometido aquele passeio à menina durante a semana toda!... Não podia simplesmente arrancá-la d'ali e ir para casa: Ela não entenderia. E com razão! Foi com muita insistência que a menina o fizera vir ao parquinho. Semanas de insistência! Pensou n'algum artifício, mas nada lhe vinha além das mentiras mais toscas e das desculpas mais vazias. Não havia meio: Tinha-de esperar a filha querer ir para casa. Ela era demasiado esperta para cair n'uma esparrela qualquer. Ademais, haviam acabado de chegar.
Ele se sentou no banco do parquinho e pôs o jornal de lado. Por mais que se esforçasse, via apenas o pinguim, negro e simpático, bem encarnado e penado. Confundia-se: Pinguim tem bico ou não? Dá para ver seus olhos? Evocando lembranças de documentários assistidos em tardes de tédio mal conseguia fixar alguma imagem para além dos desenho caricatos que as animações consagraram. Os pinguins em sua mente não se pareciam sequer com a ideia de pinguim que guardava... Vivendo nos trópicos e longe dos grandes centros, obviamente jamais vira um pinguim de perto. Não sabia quase nada sobre o bicho e admiti-lo era doloroso n'aquele momento. Como podia ser? Como o esqueleto de pinguim?!
Exausto após quase uma hora de devaneio, chamou a filha e lhe perguntou: -- "Querida, onde mesmo viste o tal esqueleto de pinguim? Foi no caminho para cá? Vamos voltar lá para o papai ver também! Exclamou vitorioso com a solução enfim encontrada.
-- "Que pinguim? Não, não era um pinguim... -- respondeu ela sem entender -- Era uma avestruz!" -- e, de novo, ele olhou para o vazio, preso àquel'outra imagem ainda mais inimaginável...

Betim - 22 06 2018

domingo, 3 de junho de 2018

A REPRIMENDA - O homem do saco e outros contos

A REPRIMENDA - O homem do saco e outros contos
Entregou o manuscrito e ficou esperando que o outro terminasse de ler. Como não dissesse nada resolveu quebrar o silêncio que já se tornava incômodo.
-- "Estás com cara de quem leu e não gostou. É um pouco como te vejo esse texto..."
-- "Não faças isso" -- o outro disse --
-- "Isso o quê?" -- atalhou.
-- "Analisar-me como se eu fosse uma personagem de romance. Tenho certeza que sou mais complicado que isso".
Não esperava por aquela reacção. Assumiu um tom mais sério a partir d'ali.
-- "Na verdade, meu caro, as pessoas mais interessantes que conheço são personagens de romance. É quase um elogio ser descrito como ou analisado como uma..."
-- "Discordo." -- interrompeu o segundo -- "Parece uma necessidade humana pôr o acaso em narrativa; dar sentido ao caos." -- e concluiu: -- "Não precisas tentar me encaixar n'algum perfil psicológico para deduzir minhas motivações. As coisas simplesmente acontecem e nos afectam. É apenas isso! Não há um grande plano, humano ou divino, por detrás. Não há uma sociedade secreta ou coisa que o valha manipulando os liames que nos movem. Não há nada além de gente tentando viver sua vida da melhor forma que consegue."
-- "Agora quem vai discordar sou eu. -- disse, por fim, o primeiro -- Há muita gente "fora da curva" que faz coisas impressionantes ou que sentem o mundo de modo diferente. Essas pessoas que busco conhecer. Essas que chamo de interessantes ou extraordinárias".
-- "Ah, sei: Assassinos que cometem crimes perfeitos; homens que vão para uma guerra e trazem um olhar pessoal da História; mulheres belíssimas que olhos seguem deslumbrados... Queres saber? Estou farto d'este monte de nada a que a indústria cultural chama de entretenimento."
Betim - 03 02 2018

quinta-feira, 24 de maio de 2018

O HOMEM DO SACO - O Homem do Saco e outros Contos

O HOMEM DO SACO

Andava bem cedo cedo para o trabalho quando vi um homem a carregar algo. Ele passou por mim na avenida que margeia o rio da cidade em que vivo. Trazia consigo um saco de pano alvejado relativamente cheio. Parei a certa distancia e o vi saltar a mureta da avenida para, após, avançar até a margem gramada. Lá, deitou cuidadosamente sua carga e, após longos minutos olhando para aquela coisa, partiu. Contudo, quando estava já a alguns metros do saco, parou, vasculhou os bolsos e tirou algo como um botão de rosa vermelha. Ele a cheirou e, voltando lentamente em direção ao saco, repetiu a muda contemplação. Por fim, lançou a rosa sobre. Abalou d'ali calmamente e, após galgar o barranco beira-rio, chegou à avenida, onde o perdi de vista rumo ao centro da cidade.

O leitor há-de convir que, pelo modo atípico que procedera, não parecia que tal homem se desfizesse de lixo ou de coisas velhas. Ao contrário, dir-se-ia que um ritual venerável acabara de acontecer diante dos meus olhos, tal a gravidade que o homem se impunha nos mínimos gestos. Temi pelo pior...

Não que a aparência d'aquele homem inspirasse qualquer forma de sofrimento mental ou de tendências violentas. Era um tipo de meia idade vestido com certo apuro que, inusitadamente, carregava um saco de pano que, nem grande nem pequeno, pouco parecera lhe pesar às costas. Mas, o que poderia haver naquele saco para inspirar tamanha reverência?

Distraído da urgência em chegar ao trabalho, dei livre curso à minha imaginação. Fora uma cena tão bizarra que tenho certeza de que o leitor, tal como eu, deva se lembrar das histórias de quando criança acerca d'um personagem sem rosto que assombra filhos e, sobretudo, pais: O homem do saco. Crianças pequenas desaparecidas sem testemunhas, como que tragadas pelo chão. Ele, a entidade misteriosa, era o culpado quando culpado não havia, ao menos não um identificável. O saco, embora médio, podia ter um bebê já morto ou abandonado ali para morrer.

Qual o quê, isso não! Estávamos à luz do dia em uma avenida de certo movimento. O que eu havia visto decerto mais alguém vira, apesar de ainda não ter amanhecido de todo e da neblina rarefeita que tomava os baixios. Ademais, não percebi a menor sombra de medo ou receio na quase teatral despedida que o homem se impôs ao saco e seu conteúdo. Não teve pressa em se evadir do local e tampouco parecia temer a interrupção de quem quer que fosse em seu demorado contemplar do saco sobre a grama à beira do rio. Nada fez para se esconder e nada parecia ter a esconder.

Podia, sem embargo, ser alguma espécie de relíquia. Aquele homem deixara ali algo que era ou fora valioso para si. Cartas, fotos, documentos, lembranças?... Sim, havia de ser! Seu aspecto ensimesmado que então eu recordava me fez tomar outra opinião desse homem e seu saco. De facto, ele parecia se despedir de algo ou alguém ao se demorar. Tomado pela curiosidade, fiz menção de ir até a beira do rio, porém contive-me: Aquilo não era da minha conta! Não devia me envolver, fosse o que fosse, mesmo que lograsse fazer uma descoberta. De qualquer forma, logo algum transeunte deveria passar e ver o que havia no saco. Eu tentava pensar em outra coisa, mas simplesmente não conseguia! A imagem de alguém a passar, parar, abrir o saco e se rejubilar com o achado me perturbava profundamente. Afinal, era uma oportunidade.

Àquela altura minha imaginação não tinha mais freios... Já não eram papéis velhos de recordos infelizes que jaziam ali, pensava eu, eram jóias! Pois sim: Agora, com toda a certeza, eu compreendia a insólita cena... Agora sim percebia claramente o que vi... Agora podia dar fim a tais elucubrações vadias.  Deveras, o homem do saco tinha o olhar perdido dos amorosos e a angústia dos que renunciam a grandes esperanças! Era um olhar de dor mal contida sob solene sobriedade. Haja o que houver naquela saco, tem a ver com seu olhar melancólico, concluí.

Quando me dei conta, já estava a caminho da beira do rio. Acto contínuo, atravesso a avenida, salto a mureta da guarda e ando sobre a grama sem tirar os olhos do saco que tanta imaginação me havia causado àquela manhã. Aproximo-me, lentamente. Paro. Miro o saco inerte sem que ainda nada em sua aparência denunciasse seu conteúdo. Relembro cada detalhe do antigo possuidor d'aquele saco na ânsia de encontrar algo que me preparasse para qualquer dissabor ao abri-lo... Todavia, nada me ocorreu. Tudo, -- o lugar, a hora, a postura do sujeito, a longa contemplação ao fim... -- tudo apenas indicava haver algo surpreendente dentro daquele saco a poucos metros de mim. Em tempo, estava sozinho e me asseverava constantemente de que não fora seguido ou observado. Súbito surge em mim um profundo sentimento de posse em relação àquele saco. Ele era meu! Eu o havia visto primeiro! Após vencer a minha própria desconfiança, estava ali pronto para usufruir das melancólicas lembranças de um amoroso abastado. Sim, devia haver jóias delicadas lá! Ex-votos d'Amor cuja presença ele não pôde suportar junto a si; presentes de dias felizes, mimos de passeios românticos... Enfim, caro leitor, um espólio de sentimentalidades!

Fui chegando perto do saco já quase triste por fatalmente sair do transe de que a imaginação me havia feito presa. Aquela emoção de profunda beatitude de ser o escolhido do Fado, fortuito descobridor de segredos! Paro diante do saco e identifico a rosa vermelha que o vi jogar. Agacho-me e a retiro sem maiores cuidados. Toco o pano e abro o saco. Observo. Está cheio de toda sorte de papeis rasgados, mas algo em seu interior parecia mais denso e pesado. As tiras de papel, para minha alegria, denunciavam profunda atividade emocional. Sim! Eram manuscritos, fotografias, bilhetes de teatro e cartões  rasgados com violência por alguma alma passional... Era forçoso vasculhar o saco e achar o que tinha além de papel nele. Abro mais a boca, chacoalho. Tem algo ali! Enfio as duas mãos quase com violência e aperto a matéria oculta sob os papéis. Contudo, ela se desmanchou ao aperto... Não era um bebê morto ou qualquer violência absurda. Não era uma relíquia dourada... Era simplesmente um monte de merda! Instintivamente tirei as mãos do saco, mas era inútil, pois, a merda, presa à pele, impregnou minhas mãos. Quanto mais eu as agitava, mais fediam!

Olhei para o saco entristecido. Tudo fora um golpe, uma PILHEIRA! E, ainda que não se visse pessoa, eu podia ouvir uma gargalhada zombeteira dentro de mim... Fiquei aturdido. Não poderia sair dali naquele estado e tampouco havia com o que me limpasse. O rio, urbano, corria ao fundo de um canal inacessível.

* * *

Sem saber o que fazer, permaneci ali algumas horas, esperando que anoitecesse para que meu vexame fosse menor. Acho que de tão transtornado pelo engodo em que caíra eu sequer conseguia pensar com clareza. Meus olhos chispavam ódios e meus lábios maldiziam vinganças. Todavia, não tinha ninguém para culpar a não ser a mim mesmo, afinal, eu tomara a decisão de abrir o saco e vasculhá-lo! E esse pensamento apenas me entristecia mais...

Quer por curiosidade; quer por ambição, eu cai numa esparrela! Só me restava bradar contra o Fado por ter-me posto o homem e seu saco no caminho... E eu o fiz: Murmurei diatribes infindas contra os céus, contra o homem do saco, contra os amores do homem do saco, contra o próprio saco e, sobretudo, contra a merda no saco!

Penso ter passado um bom tempo assim, a praguejar contra tudo e todos, até que um menino se aproximou dali. Ele cuidava de cavalos de carroceiros que, enquanto não tinham carreto, levavam seus animais para pastar a grama da beira do rio. O menino se aproximou intrigado e me perguntou o que eu estava fazendo naquele lugar. Muito envergonhado, eu lhe contei a história do homem do saco que eu surpreendera horas atrás e de como ficara preso ali, ao que ele perguntou:

-- "Por que você não vai embora e deixa esse saco aí? -- e reparou melhor no pano alvejado -- "Você tem certeza de que só tem merda e papel nele?"

Eu olhei de novo para o saco e respondi:

-- "Eu estou com tanta raiva, que mesmo se houvesse ouro no meio da merda, eu preferiria jamais ter posto os olhos nesse saco!" -- em um desalento sincero -- "Não vale a pena se aproximar disso: Não tem nada de bom aí!"

O menino se aproximou do saco receoso. Sacudiu e olhou dentro. Torceu a cara ao sentir o fedor da merda remexida e deduziu, tal como eu, que não havia nada de bom ali. No entanto, ele insistiu:

-- "Vamos sair de perto disso!"

Ao que lhe contestei:

-- "Mas, e se outra pessoa passar e, pensando que tem algo no saco, ficar breado de merda também?" -- meu pesar era sincero... -- "Não quero que ninguém passe pelo o que passei. Além do mais, não posso ir embora pela avenida sujo assim!

-- "Uai! -- exclamou o outro -- "É melhor enterrar então." -- e concluiu: -- "O que não pode é ficar igual você está: Reclama que a merda fede, mas não sai de perto... Fica só lamentando com quem passa, ao invés de fazer algo de útil!". -- E foi-se embora.

* * *

O sol ainda estava alto. Fiquei olhando atônito para o menino que partia sem que eu tivesse como contrapor seu argumento. De facto, minha actitude era mesmo patética! Com as mãos sujas de merda e sem ter como lavá-las ou como andar pela rua, só me restava cavar o chão e enterrar o saco. Ademais, era uma maneira mais útil de passar o tempo enquanto o sol não começasse a declinar no céu.

Assim fiz, primeiro limpando uma clareira no gramado. As mãos, sujas de terra e de merda, fediam tremendamente... Começo a cavar o chão e, com muita dificuldade, abro um buraco raso. Despejo o conteúdo do saco no buraco que fiz e vejo o papel misturado com merda encher tudo. Agora, com o sol forte, o fedor era evidente. Não entendia como não pude percebe-lo mais cedo, antes de pôr as mãos no saco... Ou a certeza de achar algo me absorvera de todo; ou, com o tempo ainda frio, a merda não fedesse tanto. O facto é que agora, com o conteúdo todo ao ar livre, pude distinguir algo pequeno brilhando no meio daquilo. Talvez fosse um anel... Uma aliança... Ou talvez não fosse nada. Cheguei o rosto bem perto e era, de facto, um pontinho dourado a reluzir na massa escura fedorenta. Para saber o que era, só pondo a mão na merda de novo! O leitor deve se lembrar do que eu dissera ao menino -- "mesmo se houvesse ouro no meio da merda"... -- Olhei longamente o brilho faiscante no meio da merda. Teria de meter a mão de novo naquilo... Não o fiz: Deitei terra sobre merda, papeis e saco de pano e, com o monturo já alto, eu fui embora tendo a certeza de que era o melhor a ser feito.

Era um mal menor. Já havia perdido tempo e trabalho naquele dia. Aquela história de saco abandonado já me custara muito e eu sequer podia confiar no que vira, tamanha a minha raiva. Simplesmente, não queria mais saber. Apenas sair dali já me servia de consolo.

Mesmo assim, dia após dia, enquanto passar por aquela avenida a caminho do trabalho, eu olharei para um monturo que apenas eu sei reconhecer, matutando sobre o possível anel ali deixado. Sem esquecer, contudo, do dia inteiro que perdi às custas de um homem e seu saco.

Betim - 05 05 2016

quinta-feira, 17 de maio de 2018

BOA VIZINHANÇA - O Homem do Saco e outros Contos

BOA VIZINHANÇA - O Homem do Saco e outros Contos

Pareceu-me um tipo bem apessoado, d'aqueles que pela simpatia logo conquistam: Sorria, respondendo positivamente a tudo quanto lhe dissessem. Enfim, queria sempre resolver o problema, existisse ou não.

Mudara-se há pouco para vizinhança e havia me procurado, enquanto eu me preparava para sair de casa. Era de manhã bem cedo e estava frio. Ele se aproximou, identificou-se como o novo vizinho e pediu-me ajuda com o hidrômetro: Após algumas horas de faxina, dissera, faltava-lhe água em casa... Embora estivesse vestido para o trabalho, fiquei sensibilizado e lhe fiz o obséquio de subir com ele ao castelo d'água de sua casa e lhe mostrei o reparo que devia fazer na boia da caixa. Ele, muito agradecido, me desejou um bom dia enquanto eu saía para cuidar da vida. Horas mais tarde, ele me cerca ao voltar com minha filha da escola: Pedia que lhe ajudasse com o gás de cozinha, pois não tinha ainda contactos na cidade. Mandei vir o gás e ele pagou o entregador. Quando saí do almoço para voltar ao trabalho, ele outra vez me chama e pede para ver o sinal da antena de TV enquanto ele a ajusta no telhado. Confesso que a boa vontade já estava no fim, mas não lhe neguei também esse pedido. Imagem na tela, já me dirigia à saída quando ele, com sua positividade característica, pediu-me que lhe ajudasse a instalar também o chuveiro. Aquilo me pareceu demasiado e lhe disse não. Argumentei que estava atrasado para o trabalho e ele assentiu.

Já de noite, topo com o vizinho na rua. Ele apenas esperava que eu chegasse para lhe emprestar a caixa de ferramentas e poder instalar seus trens. Havia pedido à minha esposa mais cedo, mas ela se escusou de fazê-lo, alegando que não mexia em minhas coisas. Cansado, fui até a garagem e peguei a bendita caixa. Ele gracejou algo que me pareceu exagerado e disse que devolvia assim que terminasse. De facto, tão logo entrei em casa já pude ouvir o zunido da furadeira e, após, as batidas do martelo. Da sua casa, parede-e-meia com a minha, dava-me a impressão de que trabalhava comigo dentro... E foi assim até bem tarde, n'uma faina ininterrupta até que lá pelas onze da noite fui forçado lhe bater na parede geminada e ele silenciou lá do lado d'ele. Mesmo assim, ainda pude ouvir sua movimentação ajeitando móveis até de madrugada, n'uma insônia inoportuna e sem remédio... Como não conseguisse dormir, preparei-me para sair no dia seguinte ainda mais cedo que o rotineiro no sentido de evitá-lo, como já pressentisse que viria ter comigo. Dito e feito: Mal ponho os pés na calçada e lá estava ele, muito clamoso, pedindo-me desculpas pela algazarra da noite anterior. Civilizado, disse compreender. Ainda falava quando ele engatou um novo pedido, agora de carona ao Centro da cidade para ver a instalação do telefone. Como não me custava nada -- nada além do inconveniente de sua companhia, é claro -- dei-lhe a carona, embora visivelmente mal-humorado pela noite em claro. Ele, ao contrário, parecia jovial como sempre. Puxou assunto durante todo o percurso, ao que lhe respondia com monossílabos ou expressões genéricas. Se percebera minha irritação, fingiu não ser com ele. Despedi-o na avenida do comércio e segui com o auto para o meu trabalho mais adiante.

Tudo parecia conspirar contra mim n'aquele dia... Na hora de vir para almoçar em casa, topo com o farol do carro ligado e a bateria descarregada! Pedi para vir o eletricista e o mesmo só poderia me atender mais para o final da tarde. Liguei para casa e disse que não viria almoçar e tampouco pegaria nossa filha no colégio. À procura d'um restaurante, desço para o Centro a pé e entro no primeiro que identifico. Por mal dos pecados, topo com o vizinho se servindo ainda na fila da balança: Que maçada! Muito sorridente, o coitado me chama para sentar-me com ele à mesa. Sem qualquer alternativa razoável, aceito e sigo com ele para o mezanino do restaurante. Já antevia outra conversa inútil como a da manhã e ele não me decepcionou: Falou o tempo todo! Contou da cidade d'onde vinha, da família que tinha e da casa junto à minha!!! E eu, que seguramente não queria saber de nada daquilo, fui obrigado a lhe tolerar uma hora de conversa fiada. Nervoso, olhava continuamente para o relógio em busca d'um pretexto que me tirasse d'aquele lugar, mas não havia. Quando finalmente terminou sua refeição e pagamos, o dito cujo pergunta a que horas volto para o bairro pois passaria ainda o resto da tarde no Centro. Informo-lhe o horário, ao passo que o outro, com um sorriso aberto de orelha a orelha, já confirma a conveniência de me acompanhar. A contragosto, combino onde o pegaria e volto para o trabalho. De facto, , n'esse meio tempo, o eletricista veio com a bateria carregada e pôs o carro para funcionar, logo, sequer essa desculpa me livrara... Paguei o conserto e fui encontrar meu algoz para mais uma hora de companhia forçada. E ele estava lá, tal como combinado. Seu sorriso já me causava mal estar e sua conversa infindável já era evidentemente um suplício para mim. Quando chegamos, cheguei a sorrir com a perspectiva de me livrar d'ele, mas o vizinho, para minha surpresa e sem qualquer cerimônia, me acompanhou até dentro de casa e entabulou conversa com minha esposa! Ela, que não esperava a visita, foi logo preparando um café e o recebeu na cozinha mesmo, como já se fosse de casa... Fiquei ali, pasmo, assistindo aquele disparate e indeciso entre pô-lo para fora com alguma indisposição súbita ou acompanhar minha mulher em sua recepção improvisada. Decidi-me pela segunda opção que, embora desagradável, parecia a mais correta. A conversa enveredou para a pane da bateria do auto e os imprevistos subsequentes. Seco, narrava os factos resumidamente, enquanto nosso convidado parecia se deliciar em não só desenvolvê-los, mas ainda em analisá-los e interpretá-los à luz do Fado ou da História... Duas horas virando xícaras de café para rememorar um dia que parecia interminável! Quando eu já pensava que jamais se cansaria de nós, o vizinho, cheio de nove horas, decide finalmente se retirar.

Ao me deitar, desabafei com minha mulher o quanto me custava suportar aquela companhia constante do vizinho. Ela, como era de se esperar, me censurou veementemente. Disse que era um exagero meu; que eu vivia como um caramujo, insociável e impaciente etc... Enfim, arrumei para a cabeça, como diz o outro. Encerrei o assunto prometendo ser mais tolerante com o coitado que, de modo evidente para mim, precisava de novos amigos.

Dia seguinte, estranho a calma de sua casa e vou para o trabalho. Não há sinal d'ele ou de qualquer pessoa em sua casa. Tudo transcorre bem ao longo do dia e volto para casa no horário de sempre. Contudo, não suportando a curiosidade, aperto-lhe a campainha e, assim que me atende, vou logo lhe perguntando pelo dia e se precisava de alguma coisa.

Betim - 17 05 2018