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terça-feira, 25 de maio de 2021

AMIGOS DAS LETRAS

 AMIGOS DAS LETRAS


Livro em punho, reúnem-se na praça

Para o Encontro Marcado desde a aurora…

Em meio ao burburinho, quem lá passa

Mal percebe a conversa vida afora,

Que o bronze, patinado, lhes embaça,

Enquanto a eternidade se demora.

Vates, deram à pena qualidades

Que envolvem suas almas de saudades.


E a cidade que viu seus nobres passos

Agora os rememora ternamente

Em cena que alheava dos cansaços 

Pessoas que os indagam, frente a frente:

Imaginam nos livros os espaços

Onde a hora d’elas próprias se apresente…!

Ávidas de encontrar nas narrativas

Uma vaga certeza que estão vivas.


Belo Horizonte - 05 05 2021


quarta-feira, 1 de abril de 2020

MANSUETO

MANSUETO 

 - " Quem anda desde a aurora já enlutado? 
Quem é esse senhor todo de preto 
Que caminha p'lo campo neblinado? 
Quem, tão ensimesmado e circunspeto, 
Vagando insone em meio ao insone gado?" 
 - '" Herdeiro de Gonçalves indireto 
E neto primogênito, portanto, 
Aquele é o Senhor de Monte-Santo!'"

- "Sim, mas, por que anda em trajes de velório 
De capa preta sobre o preto fato? 
Como homem tão esplêndido e notório 
Chafurda as suas botas n'um regato?" 
 - "' Avança, resoluto, ao promontório 
Para ecoar pelo abismo o grito ingrato 
Onde ondas em perpétua sinfonia 
Façam coro à sua íntima agonia.'" 

 - "Ouvi! Verte ganidos sobre o Atlântico 
O rico herdeiro de alma miserável. 
Decerto s'entretem como romântico 
Ou actor a declamar do praticável…" 
 - "' Não! D'um celerado o triste cântico 
S'espalha em desespero formidável!… 
Lamenta ele uma perda mui sentida, 
Que em vão lamentará por toda a vida…! '"

- "Não soube de enterrar sua consorte 
Tampouco de moléstia na família… 
Ignoro haver mal que desconforte 
A quem tanto a Fortuna há tanto brilha 
Decerto, para tal, levou-lhe a morte 
A sua muito amada única filha…" 
 - "' Enganai-vos, pranteia ele uma prima 
Por quem desenvolvera estranha estima…"

- "Valha-me Deus! Que absurdo, ó temerário!… 
Que cousas conheceis que desconheço? 
 - "'Não essas conversinhas de ordinário 
Que o povo conta a frente pelo avesso, 
Mas sim o que se pensa solitário 
E s'executa às ocultas mais expresso: 
Ardendo de paixão por uma virgem, 
Matou-a enlouquecido de vertigem.'" 

 - "Que escuto?! Nosso jovem mais brilhante 
Assassino de moça em sua casa?! " 
 - '"Deveras, surpreendi-o claudicante 
Depois d'ele enterrá-la em cova rasa!… 
Em choque, nada havia em seu semblante 
A não ser os dois olhos 'inda em brasa. 
Chamei sua família - que o cuidou - 
E à bela com exéquias enterrou… "' 

"'Desde então ele vaga noite afora 
Até topar com tal desfiladeiro 
Do mesmo modo como ao enterro fora,
Recoberto de preto o corpo inteiro… 
Sua triste figura me apavora 
Tanto quanto o malfeito derradeiro 
Àquela moça que ele tanto amara 
E que, ao negar seu corpo, molestara.'" 

 - "Monstro! Inumano! Estúpido! Canalha! 
Eu mesmo hei-de matá-lo com as mãos!… 
Como fugira à forca? Que gentalha! 
Que família s'esconde entre os irmãos?!… 
Uma camisa de seda por mortalha 
Suja de sangue e lama d'estes chãos…" 
 - '" Vamos ter co'o fidalgo, como julgais, 
A fim-de que ele pague com seus ais!…"' 

"'Sim, Gonçalves Terceiro: o Mansueto, 
Aquele de quem fora bom amigo, 
Tanto na boêmia quanto no escudeto. 
Todavia, testemunha do perigo 
De cujo crime ouvira o atroz dueto, 
Deixando meio-morta e sem abrigo 
A amada que jamais se quis amante 
E morrera em seus braços suplicante. "' 

 - "Embora légua e meia a caminhada, 
D'ali, cercada a terra, só há mar! 
Não há fuga senão jogar-se ao nada, 
Pulando sobre as ondas a espumar. 
Ajudai o suicida na empreitada 
De pelo abismo extremo se matar!" 
 - "' Certamente, caríssimo, eu irei 
E aceito, se assim for, rigor da lei."'

Assim juramentados homicidas, 
Partiram dois senhores respeitados 
Sob pena de perderem suas vidas, 
Se, em face do malfeito, condenados… 
Justiça mais vingança divididas 
Nas mentes de homens tão civilizados 
Fizeram escurecido o claro dia 
No instante em que a neblina se perdia.

O alto d'onde avistaram o fidalgo 
Era estrada deserta n'aquela hora. 
Não houve caçador, tampouco galgo 
A perseguir as lebres campo afora 
Não houve ali vadio em busca d'algo 
Ou rebanhos descendo sem demora. 
Não houve mais viv'alma pela estrada 
Enquanto os dois cumpriam a jornada. 

Os dois, já pressurosos e silentes, 
Sabiam que impossível de escapar 
Do poder ancestral d'aquelas gentes 
Há muito acostumadas a mandar. 
Visto que fossem tão indiferentes 
Às leis e autoridades do lugar. 
Sabiam que seriam descobertos, 
Mesmo que seus motivos fossem certos. 

Sabiam que o sujeito que buscavam 
Era, d'entre os maiores, o melhor: 
Um finório que tantos adulavam 
Pois em Coimbra esplêndido doutor 
E viajado a países que sonhavam 
D'aquela sociedade a fina flor… 
Sabiam que aquele era um intocável, 
Muito embora o seu crime detestável…

Sabiam que ele tinha esposa e filha. 
Mas, sobretudo, o fiel depositário 
Das grandes esperanças da família… 
Entrementes, o sangue hereditário 
Lavava aquele sangue peralvilha 
Da moça cujo mal involuntário 
Foi ser bela demais para viver 
Cerca ao primo que a quis como mulher. 

Chegando ao promontório finalmente 
Encontram junto ao abismo Mansueto… 
Parecia mais parvo que demente, 
Vindo do funeral, todo de preto. 
Vendo que não virava ele de frente 
Vão lhe tacando pedras mais graveto 
Até que o celerado lhes encara, 
Mostrando o animal que se tornara.

- "' Maldito seja!"' - grita o antigo amigo 
Mansueto, assoberbado, por fim diz: 
 - 'Que fazes aqui, cão!? Que tens comigo?' 
 - "Vimos te ver morrer, grande infeliz! 
O amplo oceano te sirva de jazigo!…" - 
Mansueto, porém - 'O que que eu fiz!?…' - 
E buscando razão sem saber onde, 
Inopinadamente ele responde: 

 - 'Sabei-me tão-somente um amador 
Que amou a sua bela mais que vida! 
Se viestes me matar, é um favor 
Que fazeis a esta besta combalida… 
Todavia, o que fiz foi por amor 
Que ela me desdenhou, desfalecida. 
 - "Vinde! Temos punhais para um duelo… 
Eis que a morte escutou o vosso apelo!"

- 'Já faz horas eu duelo com a morte, 
À beira d'este abismo tão profundo! 
Não lamento, afinal, a minha sorte 
Se por ganhar o amor perdi o mundo. 
Eu tive a minha bela por consorte 
'Inda que n'um enlace moribundo: 
Entregue totalmente a meus abraços 
Me afagava, arfante, nos seus braços'…

'Que é o gozo senão quase morrer
Que após, desalentado, se revive?
Mais forte a segurei em seu prazer
A ponto que em seus olhos eu estive!
Sim, eu estive dentro de seu ser
E ali, a graça mais profunda tive:
Eu pude ver amor nos olhos d'ela!
Tão bela era na morte a minha bela…'

'Ela implorava: "Mata-me d'amor!" 
E então, enamorado, a fiz morrer.' 
 - "Celerado! Implorava de pavor, 
Sabendo com certeza perecer… 
 - '"Quão sem limites vive este senhor
Que a vida d'uma bela fez perder?… 
Mansueto… Talvez, manso pelo nome, 
Mas um monstro voraz em sua fome…!"

Dito isso, ouviu-se um grito lancinante 
E um corpo a despencar sobre o mar frio. 
O povo os encontrou n'aquele instante 
Ao ver o cabo extremo mais sombrio 
E foram testemunhas, no flagrante, 
Do salto do fidalgo no vazio 
E assim pereceu sem outro tanto 
Mansueto, o Senhor de Monte-Santo.

Betim - 01 04 2020

terça-feira, 3 de dezembro de 2019

UTÓPICO

UTÓPICO

 "A riqueza e a liberdade tornam as pessoas menos tolerantes com as ordens duras e injustas 
enquanto, por outro lado, a pobreza e a miséria embotam o espírito, 
tornando-as pacientes e retirando do oprimido o espírito orgulhoso da rebeldia."

por Thomas Morus, in UTOPIA

Enquanto entre oprimidos e opressores
Se dividirem tantas sociedades,
A Ordem que promovem os senhores
Sustentar-se-á com vis desigualdades.
De modo que os maiores e os melhores
Vivam com numerosas propriedades.
Os demais, que disputem pelos restos!
Míseros, remediados e modestos...

Pouco importa onde vão morar os pobres,
Como vivem e mesmo do que morrem.
Apenas os burgueses, feito nobres,
Obtêm dos reis as leis que lhes socorrem
Pois, muito satisfeitos com seus cobres,
Das agruras da vida sempre correm
Até pensarem ser inalcançáveis
No topo de pirâmides instáveis...

É sabido que os reis pela coroa
Porfiam em manter esta estrutura,
Cuja base, pessoa após pessoa,
Permite dar a Alteza mais altura.
Passando toda acção sua por boa
Mesmo que alguma imensa desventura,
Que para maior glória da Realeza
Arrasta o povo a guerras e a pobreza.

Assim os reis submetem o seu povo:
Deixando-os na miséria e ignorância!
E a esperança em qualquer governo novo
É frustrada na estúpida inconstância
Que demanda ao exaurido outro renovo.
Ao passo que movido por sua Ânsia
O rei conduza o povo para a guerra,
Que espalha peste e fome pela terra.

Em todo caso, ao longo dos milênios,
Os regimes, em cíclicos quartéis,
Assistem ascender heróis e gênios
A reis ou imperadores em corcéis
E depois se retiram dos proscênios
Ora discretamente; ora em tropéis!...
Na Queda, tudo muda sem mudar
Co'os pobres no mesmíssimo lugar.

N'algum lugar, porém, no tempo ou espaço
Haveria aquela ilha afortunada,
Na qual nada é sobejo nem escasso.
Onde prata não é valorizada,
Nem ouro ou cobre trazem embaraço.
A riqueza não vale quase nada
E os habitantes vivem sem conflitos,
Tendo tão-só na Ciência os olhos fitos.

Não cuidam em possuir grandes vantagens
Tampouco se acumulam privilégios.
Buscam mais conhecer em longas viagens
Alheios de quaisquer favores régios,
Ao explorar remotíssimas paragens
E abarrotar de livros seus colégios
Onde gastam a vida em aprender
Ao invés de mais prazeres a entreter.

Eles têm a paz como ideal superno;
A guerra, como estúpido flagelo.
Evitam relações co'o mundo externo
E ainda de conquistas vão anelo.
Contudo, obcecados co'o moderno
S'esmeram em buscar o bom e o belo
Em todos os aspectos da existência,
Submetendo os seus feitos à consciência.

Cultivam em seus modos o respeito,
Mas têm da intolerância tal horror,
Que julgam toda forma de despeito,
Verazmente, com máximo rigor!
Visto que retratar-se d'um malfeito
É dever de todo homem de valor.
E há tal entendimento entre os ilhéus,
Que vivem a admirar o mar e os céus.

Os mais afortunados por entre eles
Cuidam em reverter ao bem comum,
Provendo-se de bons panos e peles
E garantindo a todos desjejum,
Se ajudam, do doutíssimo ao mais reles,
Sem que ninguém esqueça de nenhum.
Em busca do progresso, todos juntos,
Debatem com saber os seus assuntos.

Em suma, a educação, não a chibata
Faz com que mais desejem bem servir
Não algum abastado aristocrata,
Sim gente que carece mais sorrir
N'uma vida esforçada, mas pacata,
A que haja mais fartura em seu porvir.
Pois só com o progredir da maioria
Haverá real progresso qualquer dia.

Porquanto, fim em si, o Capital
Aos homens mais e mais faz diferentes:
Elevam na pirâmide outro degrau
Às custas de mais jugo sobre as gentes
Até que em desespero, no final,
Se levantem contra armas inclementes,
Que espalham sangue novo sobre o chão
E mantêm dos vencidos a exclusão.

Uns haverão chamar de Comunismo
A Ordem d'este arquipélago utopista;
Ou denominará Distributismo
Se for mais religioso que sofista
O crítico que, diante d'um abismo,
Na tal Terceira Via ainda insista...
Com efeito, Utopia, a sociedade
É o sonho de toda Humanidade...

Não admira que um mar indescoberto
Banhasse as suas praias ignoradas.
Cercada d'um vastíssimo deserto,
Embora de águas quentes e salgadas.
E que mais ninguém saiba bem ao certo
Se foram ou serão mais navegadas...
Resta como o relato interessante
Que um dia fez a um sábio um navegante.

Belo Horizonte - 02 12 2019

quarta-feira, 4 de setembro de 2019

REVIRAVOLTAS

REVIRAVOLTAS
 
“Na poeira do velho estradão/ Deixei marcas do meu coração / E nas palmas da mão e do pé / 
Os catiras de uma mulher.” 
Rolando Boldrim in “Eu, a viola e Deus” 

Se um dia tu voltares, volta em paz.
Não voltes por ter medo do futuro.
Não nos cabe senão em horas más,
A angústia d’um final tão prematuro…
Mas se o passado não ficou p’ra trás,
Tampouco esse momento ainda obscuro.
Que a pretexto de andarmos sem perigos
Afasta tanto amigos que inimigos.

Não voltes porque temes triste fim!
Não voltes pelo tédio do presente!
A vida pode ser assim-assim…
Contudo, a solidão é inclemente:
Leva-nos a alegria até que, enfim,
Não haja razões p’ra seguir em frente,
Deprimindo-se o ânimo d’um jeito
Que é difícil deixar o próprio leito.

Não me tenhas como um cara-de-pau
Arrependido de erros do passado…
Sentado a t’esperar n’algum degrau
Recordo antes o ardor que, enamorado,
Em boa hora esqueço o dia mau.
Apenas em ficar bem ao teu lado.
A culpa como fardo se carrega,
À espera d’um perdão que tarde chega.

Mas, se a necessidade faz a lei,
Um estatuto inteiro escreve o amor!…
A única conclusão a que cheguei
É de que não se vive sem temor
De perder as batalhas que enfrentei
Em tratados vazios de valor:
Pouco valem papéis e seus dizeres
Quando tratam d’amores e quereres.

Dizem ser o melhor tempero a fome
Como excelente ao sono é a fadiga;
O desejo em ardor se nos consome
E d’amores a noite é boa amiga.
Tu, minha bela, tens da luz cognome.
E hoje, teu doce olhar mais se bendiga!
Luze na escuridão que me rodeia
E traze bons sabores para a ceia.

A mágoa, n’esse arfar, tão logo fuja
Nos permita o prazer e seu mistério.
Teus beijos a lavar-me a boca suja
Venham me redimir como homem sério
E me rabisque a rude garatuja
Onde te poetei fútil vitupério…
Após eu difamar teu nome aos berros,
Enfim haja perdão para meus erros!

Encontre o meu olhar o teu olhar
E a tua mão descanse sobre a minha.
Eu possa uma outra vez te acarinhar
Enquanto a tua nuca se avizinha…
Penso eu cá do teu lado sossegar
Para tu não dormires mais sozinha
Se te alcanço os favores, mais e mais,
Com sussurros abafo ora teus ais.

Aos martírios da vida não se some
O mal-de-amor de que falam os sábios,
Sim a arte de amar mais se retome
À leitura de velhos alfarrábios.
Pois quando à morte sei ser o teu nome
Que, sofregamente, hei-de ter nos lábios…
É o amor uma morte, ainda e enfim,
Se um dia tu voltares para mim.

Sobrália — 02 02 2014

terça-feira, 3 de setembro de 2019

DOS HOMENS

DOS HOMENS

"Os homens nascem e são livres e iguais em direitos. As distinções sociais só podem fundar-se na utilidade comum".
REPÚBLICA FRANCESA in Declaração dos Direitos dos Homens e dos Cidadãos

Desde que os homens andam pelo mundo,
Há quem ordene e quem seja ordenado.
Pôr em ordem é o hábito fecundo
De nós, frágeis bípedes, p'lo brado
Que ecoando nas centúrias, iracundo,
Nos fez povos ao havermos lado a lado
Seguidores d'uma única vontade,
Onde muitos sob mesma potestade.

Com efeito viver em coletivos
Tem permitido aos homens muito mais
Do que como se meros seres vivos
Vivessem como vivem seus iguais:
Escolhem d'entre si os mais altivos
E d'eles fazem entes divinais
Que reinem sobre todos afinal,
Embora para o bem ou para o mal...

Assim, quando a verdade se faz crença
Haver ou não haver já não importa.
Sem que grandes luzes os convença
Mediante uma esperança natimorta,
Se identifiquem pela diferença!
A fé na eternidade os reconforta,
Enquanto se resignam nas misérias
E desdenham do corpo as vis matérias.

Muitos pela violência de seus feitos
Lograram ter o mando de milhares
Postos em avanguardas, contrafeitos,
Ou pagando tributos seculares.
Os que pela Fortuna eram eleitos,
Dominando pessoas e lugares,
Usavam do Poder com liberdade
E depois o deixavam como herdade.

Exibiam-se ornados por coroas
Em face de vassalos humilhados
Exigindo cobrirem-no de loas,
Tanto seus actos certos como errados.
Por fim, eles dispunham das pessoas
Como se actores sobre vãos tablados
Onde todos, por cálculo ou capricho,
Seguem alheio texto ou vão cochicho...

Qualquer ordem fundada no divino
Ao querer reinar n'este e n'outro mundo
É Poder que absoluto e ladino
Governa tudo e todos sem segundo.
Decerto é alheamento tão malino
Mais faz, do nascituro ao moribundo,
Quem confundindo trono com altar
Tão-só obedecer, não cooperar.

A Realeza, a suprema distinção,
Ao revestir de Deus a monarquia
Impõe a Ordem Social por submissão
Que usualmente descamba em Tirania.
Mas súbdito se torne cidadão
Quando indivíduos contra a fidalguia:
Escravos são tão-só de seus abdômens,
Nunca d'homens mais homens do que os homens!

Pirâmides, porém, são construídas
Em cada sociedade pelas moedas...
São riquezas quem rege nossas vidas,
E atravessa às Nações em suas quedas
Para além das verdades conhecidas
Entre revoluções e labaredas:
Sob a mão invisível do Mercado
É que se ordena o povo sob o Estado.

Portanto, seja livre embora pobre
A base da magnífica arquitetura
Que s'ergue diariamente d'ouro e cobre
E adquire, indiferente, mais altura.
Até que essa excessiva carga sobre
Solape a metafórica estrutura
Co'o rearranjo das bases e dos cumes
Para com novos pares, novos numes...

Haverá verdadeira Liberdade
Aos homens que se iludem pelo engano?
Quando entenderão que na Igualdade
Se livram de qualquer divino plano?
Que apenas com fraterna humanidade
A união que dá força ao ser humano
Transforme sua acção em meio a História
Sem deuses nem heróis em sua glória!

Dos homens, o que s'espera é consciência.
Já basta de inverdades convenientes
E de belas mentiras p'la existência --
Explicações covardes; coniventes --
Submetam realidades à Ciência,
Jamais a outros achismos complacentes.
De modo que, também por discordância,
Se possa argumentar com tolerância.

Sejam, deveras, livres porque iguais.
Não escravos de suas diferenças,
Que só faz com que queiram mais e mais
Em lugar de sanarem desavenças
Ou rastejando em busca dos ideais
Se percam de presentes e presenças
Por futuros pretéritos perfeitos
Entre sós labirintos de conceitos.

Essa Ordem capaz de nos reunir
É a força e a fraqueza das pessoas:
Juntos, os homens devem discernir
E haver coisas tão úteis quanto boas.
Ou senão, como impérios a decair,
Mais combater por cruzes ou coroas...
Regras haja a ordenar como vivemos
E impedir que uns aos outros nos matemos!

Poderes são por homens exercidos
E devem, para o bem da Humanidade,
Por concordância às regras submetidos
E nunca por temor à potestade.
Aqueles que governam, escolhidos,
Jamais se arvorem outra qualidade
Senão servir a todos igualmente,
Dando lugar no tempo competente.

Queiram os homens ter por objetivo
O próprio bem-estar tido em comum.
Que o anseio d’haver-se são e vivo
Não faça negar vida a sequer um.
Ao contrário, se mostre compassivo
Inclinando-se sem desdém nenhum:
Conviver é o chamado mais profundo
Desde que os homens andam pelo mundo...

Belo Horizonte - 30 08 2019

quarta-feira, 13 de março de 2019

HIPÁTIA, A GRANDE

HIPÁTIA, A GRANDE

"Reservai-vos o direito de pensar. Mesmo pensar errado é melhor do que não pensar." Hipátia d'Alexandria

Opróbrio dos cristãos d'Alexandria,
Anátema a seus santos assassinos!!!
Por que Hipátia foi morta?! Bruxaria?
Monstros esses irmãos alexandrinos!...
Que n'um acto d'extrema covardia
Da igreja silenciam missas e hinos
Para a lapidação d'outra inocente...
No templo do Senhor!... Insana gente...

Malditos sejam! Corja de ignorantes!
Sequazes a serviço de tiranos!
Cristãos de Satanás que, militantes,
Cumprem de poderosos mortais planos...
Àquela que no céu via os Errantes
Indiferente aos óbices mundanos,
Vêm matar para a glória d'uma igreja
Que senhora do mundo se deseja.

Tentam calar a voz dos que, pensantes,
Evitavam das crenças os grilhões.
E, a despeito do ardor de intolerantes,
Mantêm-se fiéis a suas convicções,
Insubmissos a dogmas limitantes.
Tirando as suas próprias conclusões
Da Natura e de sua realidade,
Às voltas tão somente co'a verdade.

Ainda assim se movem as estrelas
Em órbitas que os sábios, confundidos,
Tentam fazer caber em curvas belas
Muito embora não vejam resolvidos
Os problemas do Cosmos com querelas...
Visto ideais lhes ceguem os sentidos
No afã de impôr respostas ilusórias
Que igrejas fazem crer satisfatórias.

A metrópole d'Alta Biblioteca,
Reputada por séculos guardiã
Das fontes do saber ora resseca
Feito o Saara ao redor, sem amanhã...
Quem quer conhecimento agora peca
Conforme a lei estúpida cristã,
Aniquilando em plena luz do dia
Co'a astrônoma, a própria Astronomia!

Não contentes a lançam à fogueira
E queimam com seu corpo seus escritos!
A celebrar co'a fúria costumeira
A morte de pagãos e de proscritos...
Cegos de diviníssima cegueira,
Preferem absolutos a infinitos,
Propondo Deus e a Terra bem no centro
D'olhos que apenas olhem para dentro.

Não restou nada... Rolos e mais rolos
De papiros de cálculos, teoremas,
Desenhos de astrolábios e monjolos...
Além das efemérides, sistemas
Co'o sol estacionário que esses tolos
Fizeram olvidar sem mais dilemas.
E a despeito de tudo, ao credo seu,
Condenaram de Hipátia a Galileu...

Por razões semelhantes, por mil anos
Mulheres vão morrer assassinadas...
E, bruxas, em castigos desumanos
Serão por seus saberes condenadas,
Enquanto os tribunais com mais enganos
Mantêm mesmo as mais sábias subjugadas
À autoridade d'outros patriarcados,
Que se alternam no mando dos Estados.

Maldita Alexandria, as maravilhas
Ruem uma após outra em cataclismos
Ou ainda com milícias e guerrilhas
Cuja barbárie abraça fanatismos...
Perdida a mais audaz de suas filhas
Em febres de cristãos e cristianismos,
Antes mesmo dos hunos e suas levas,
Quem primeiro chega à época das trevas...

Maldita cristandade, todo o Egito,
Além da Líbia, Núbia e Mauritânia,
Perdidos para a fé de arábio rito!
Depois de enfraquecida na cizânia,
Que da Iconoclastia fez conflito
O povo que Bizâncio leva à insânia
De mais ceder o Império dos Augustos
Em troca d'um falaz reino dos justos...

Maldito Patriarcado, p'lo poder
Que de temporal torna-se teocrata:
Um bispo que a invejar uma mulher
Inspira enfim a turba que lhe mata...
E faz o que melhor se lhe aprouver
Ao arrepio da metrópole que ingrata
Silencia em face d'este crime
Que nem a santidade lhe redime!...

Calai-vos, religiosos assassinos!
Tão confiantes em Deus e sua amizade
Que ainda a repetir tais desatinos
Denegais às mulheres liberdade,
Impondo com versículos divinos
Toda sorte de vã obscuridade...
Calai-vos de vez, cheios de vergonha,
E deixai logo em paz quem pensa e sonha.

E, mais que a Biblioteca ou que o Farol,
Alexandria lembre de seus sábios!
Reescrevam-se papiros em seu prol,
Devolvendo-lhe os muitos alfarrábios
Onde outra vez no centro esteja o sol.
E, a despeito de gregos e de arábios,
Da cátedra a filósofa comande...
Ali, eternamente: Hipátia, a grande!

Betim - 11 03 2019
---

¹-Hipátia de Alexandria (c. 351/370 - Alexandria, 8 de março de 415) foi uma filósofa neoplatônica grega do Egito Romano. Foi a primeira mulher documentada como tendo sido matemática. Como chefe da escola platônica em Alexandria, também lecionou filosofia e astronomia. fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Hip%C3%A1tia

²- Os Errantes: Para Pedro Nunes, a Machina do Mundo era composta de dez esferas celestes concêntricas. No centro estava a Terra, formada pelos quatro elementos: terra água, ar e fogo, e sobre ela estavam dez esferas: as das sete estrelas errantes (os planetas, o Sol e a Lua), a das estrelas fixas e ainda mais duas esferas que explicavam uma o movimento diurno das estrelas (as fixas e as errantes), e outra o movimento de precessão dos equinócios, na altura chamado movimento dos auges e estrelas fixas. fonte: http://vintage.portaldoastronomo.org/tema_pag.php?id=37&pag=1

³- Refere-se ao famoso processo movido pela Inquisição contra Galileu Galilei no séc. XVII por causa de seu livro " Diálogo sobre os Dois Principais Sistemas do Mundo" onde tece comparações entre a teoria geocêntrica e a heliocêntrica.
fonte: https://www.terra.com.br/noticias/educacao/voce-sabia/voce-sabia-a-igreja-reconheceu-que-errou-ao-condenar-galileu,400811f48735b310VgnCLD200000bbcceb0aRCRD.html
E ainda: Galileu queixou-se de que alguns dos filósofos que se opunham às suas descobertas se recusaram até a olhar através de um telescópio:
"Meu prezado Kepler, desejo que possamos rir da estupidez notável do rebanho comum. O que você tem a dizer sobre os principais filósofos desta academia que estão cheios da teimosia de uma víbora e não querem olhar os planetas, a lua ou o telescópio, apesar de eu ter oferecido livre e deliberadamente a oportunidade mil vezes? Verdadeiramente, assim como a víbora fecha seus ouvidos, esses filósofos fecham os olhos à luz da verdade."
fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Processo_de_Galileu_Galilei











quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

DESCONHECIDO


DESCONHECIDO
“Se existir um Deus ele terá que implorar por meu perdão.”
 Grafite no campo de Mauthausen-Gusen
¹

Deus — o desconhecido² ou qualquer um — 
Há mais de dois mil anos não é visto
Sem nunca visitar lugar algum.
Embora ausente desde Jesus Cristo,
Havendo-O por geral lugar-comum,
Maior nosso abandono em face d’isto:
Com silêncios responde os nosso gritos,
Vagando pelos amplos infinitos…

Todavia, em memória dos caídos,
Uma vez mais recorde-se, por real,
A história esquecida de vencidos,
Em desespero face ao puro mal…
Um — entre outros milhões desconhecidos — 
Nos seja o herói de todos no final,
Quando posteridade se concede
A alguns grafites seus pela parede:

Era em vagões de gado abarrotados
Que se chegava ao campo de extermínio.
Todos os dias, diante dos soldados,
Na pedreira o execrável tirocínio
De carregar granitos tão pesados,
Quanto os horrores contados desde Plínio³.
Onde novos Germânicos com Ciência,
Excedendo os Romanos em violência!…

Havia, com efeito, essas jazidas
D’onde extraíam blocos de granito,
Mas, mais que as rochas, eram as vidas
D’aqueles que clamavam ao Infinito
Que viam nos trabalhos exauridas…
Porquanto, a minerar o monolito,
Em subir e descer sob olhos maus,
Mais da escada da morte seus degraus.

Eram como formigas carregando
Os blocos do rochedo escada acima.
Entre os degraus, os passos vacilando,
Apenas um sobre o outro mais se arrima
Dos blocos que rolavam vez em quando
E esmagavam a quem caísse em cima…
Com muitos perecendo pela escada,
Que por isso da morte era chamada.

Vez ou outra, d’exaustão, alguém caía
Derrubando os que vinham logo atrás.
A diversão dos guardas consistia
Em ver quantos morrendo em quedas más!
Sádicos, vêm contar ao fim do dia
Aqueles que deixando paus e pás
Já sobre o nada tendo olhos absortos
Jaziam entre as rochas semimortos.

Um aos alojamentos, entretanto,
Retornando da faina em hora incerta,
Ao contrário da placa do recanto,
Percebe que o trabalho não liberta -4
Nada pode senão gizar n’um canto
Da parede esta triste descoberta…
“‘Inda que sobre as pedras sobreviva
Não há pessoa ali que saia viva!”

E, citando o salmista sem porvir:
 “Senhor Deus, por que vós me abandonastes?” -5
Escreve o que não se ousava repetir…
Ao lado, contra as suásticas nas hastes:
 “Dobrar (a verdade) é igual mentir
Citava o velho verso sem contrastes
D’um bom poeta anarquista e pacifista, -6
Caído n’outro cárcere hitlerista…

Sobre a última parede ele, porém,
Descreve em letras grandes, desvalido,
A sua desgraça como lhe convém
Sem sua assinatura, para o Olvido,
Na qual ao próprio Deus culpa também,
Certo em permanecer desconhecido.
Se existir (mesmo) um Deus” — escreve então — 
Terá que me implorar por meu perdão!”¹.

Quando Aliados chegaram ao lugar,
Avançando pela Áustria devastada,
Custaram eles mesmos a aceitar
O relato brutal d’aquela escada
Pela qual se matava a trabalhar.
 — Ou melhor, se morria na jornada… — 
Não creriam não fosse os resgatados
Testemunhando tudo aos soldados.

Aliás, o odor nauseante dos defuntos
E as pilhas de cadáveres vertidas
Demonstravam a morte nos conjuntos
De prédios, oficinas e jazidas
Onde homens padeceram anos juntos
A vida mais terrível d’entre as vidas,
Visto vivida face a face à morte,
Que omnipresente ali fez sua corte.

Por dias, os horrores monstruosos
Revelam-se um inferno tal-e-qual,
Parecendo antes obra de raivosos,
Que alguma humanidade racional.
Métodos que demonstram, criteriosos,
A mais perversa lógica do mal:
Onde se fabricava a morte em série,
Mais matava o trabalho que a intempérie.

E a esperança que ecoa n’alma humana
Mais parece perder do que salvar
Na teimosia do escravo que s’engana
E crê que se liberta a trabalhar…-4
Tão-somente se adia outra hora insana,
Na qual entre morrer e se matar
Decide uma outra vez subir a escada
Ou conhecer dos mortos a morada.

Os Aliados, afinal chegam à cela
Na qual o nosso herói marcou presença
Escrevendo à parede, incerta tela,
Com Deus a sua humana desavença.
Quem antes de morrer se nos revela
O tamanho d’uma alma tão imensa
Que, a exigir do Senhor consolação,
Mais merecera d’Ele ouvir: — “Perdão!”

Belo Horizonte — 29 01 2019

¹- Autor desconhecido. Grafite encontrado em 1945 com mais outros dois n’uma cela do cárcere do campo de Mauthausen
²- At 17:23
³- Plínio, o velho (23–78 d.C). Historiador e naturalista romano.
4-”Arbeit macht frei” é uma frase em alemão que significa “o trabalho liberta”. A expressão é conhecida por ter sido colocada nas entradas de vários campos de extermínio do regime nazista durante a Segunda Guerra Mundial,
5- Salmo 21:2 e Mateus 27:43
6- Erich Mühsam, in “O prisioneiro” / Der Gefangene: August 1919
http://www.gedichte.eu/ex/muehsam/brennende-erde/der-gefangene.php


sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

A VIRGEM E O EUNUCO

A VIRGEM E O EUNUCO "e ele suspira, assim como suspira o eunuco ao abraçar uma virgem."  Eclesiástico 30.21 Foi quando sobre o campo damasceno Reinaram os selêucidas da Grécia, Que do magno Alexandre o mando pleno Herdaram após longa peripécia. Expandindo pela Ásia o mundo heleno, Fosse de forma sábia ou mesmo néscia: -- "Aos povos antiquíssimos d'Oriente Um novo império grego se sustente!" Temeroso de novas guerras, houve Um povo que firmando juramento Ao grande imperador por bem aprouve Seu rei dar sua filha em casamento. A fim-de que melhor e mais se louve Sua fidelidade em detrimento Dos costumes e leis que partilhavam, Enquanto mais aos gregos se inclinavam. Quanto à filha do rei, viveu reclusa. De infante prometida ao grão senhor, Quando as regras lhe chegam, por confusa, Ignora ela que fosse ardor e amor… Já moça, todavia, como se usa, É posta a cultivar o seu pudor N'alguma escura alcova sem janelas, Na qual os ricos guardam suas belas. Parecia em desleixos s'entregar A uma existência estúpida de inválida Por tola-mas-donzel subir no altar. Preocupado com sua forma esquálida, O rei, seu pai, ordena lhe chamar. E duro lhe questiona em sua doença, A ver n'essa tristeza antes ofensa: -- "Filha minha, o que vós me quereis mais? Se vos dei por consorte um soberano, Por que tão alto ecoam vossos ais? Resguardei-vos d'olhar mal e mundano, Mas vós, dia após dia, definhais Em morrer empenhada, salvo engano. Dizei-me, ó principesca, que quereis A vô-lo conceder com mãos de reis." -- "Senhor meu pai, sozinha apenas vivo Qual canário cantando na gaiola: Grades, embora d'ouro, o têm captivo E, tolo, s'equilibra pela argola… Só peço um preceptor que, compassivo, Possa fazer-me as vezes d'uma escola E ensine o que se sabe ou se acredita Até qu'eu me perceba uma erudita". -- "Minha princesa, muito me pedis, Pois prometi guardar-vos dos olhares Àquele que vos tem olhos gentis. Eu, contudo, por todos os lugares Mandarei vos buscar, como se diz, Um castrado que sirva por bons lares. Algum d'estes, discreto e de valor, Há-de se nos servir de preceptor". De facto, era costume muito antigo, Que houvesse um servidor emasculado N'aquelas casas reais por sob abrigo. Porquanto confiável, pois, castrado Tinham por secretário e mesmo amigo Quem fora desde a infância preparado. Aquele, todavia, também douto A aplacar da princesa o tom revolto. Mas os melhores vinham do Alto Nilo. Jovens núbios e etíopes que, escravos, 'Inda impúberes passam por aquilo… Sob pretexto d'havê-los menos bravos, Junto a sábios obtêm por fim asilo, Vivendo sem grilhões duros e ignavos. E aprendem tudo quanto a se saber Para fâmulos leais virem a ser. Co'os homens do deserto se aprendia As ciências de ecônomos mordomos. E, além das muitas línguas, geometria, Cultivos de verduras, ervas, pomos… Alguns tinham noções de astronomia Outros, pelas estantes guardam tomos, Escriturando para seus senhores Contratos, enfiteuses e penhores. Mas não raro os eunucos eram vistos A guardar bens muito mais preciosos. Vindo ter onde folgam os benquistos: Os herdeiros e herdeiras desejosos! Onde a salvo de tantos imprevistos Os senhores proíbem, bons esposos, O convívio de estranhos com os seus Restritos aos umbrais dos gineceus. O rei, muito zeloso, à filha diz Irem buscar no Egipto o preceptor Que lh'ensinasse tudo quanto quis. E ela, muito admirada em seu favor, Não escondia o quanto era feliz Em ver muito maior o seu valor. Contente, beija ao pai as suas mãos E torna, alegremente, a seus desvãos. Chega o eunuco, um tipo afeminado; Melhor, emasculado… Era um mancebo Em modos e trejeitos refinado. Tão belo quanto Apolo ou quanto Febo… Lá dos confins do Sud fora levado, Ainda bem pequeno; ainda efebo, Onde o Nilo em montanhas escondia A fonte em que extenso principia. No Egipto ele valeu seu peso em ouro! Visto falante em grego o carinegro -- Por distinto do núbio e até do mouro A pele n'um retinto tom de negro -- Na Síria revelou-se um grão tesouro O eunuco àquela virgem d'olhar egro, Porquanto lh'ensinasse em seu poder Da grande Alexandria o grão saber. Breves anos os dois a compartilhar Dos papiros o gosto e mesmo o gozo, Lograram, sempre juntos, encontrar As verdades d'um século sinuoso Fosse na Septuaginta as contemplar Ou mais do Estagirita consciencioso. E, observando os mistérios pitagóricos, Confrontam hedonistas e alegóricos. Todavia, onde Amor quer habitar Pouco podem os planos das Nações… Tardando o imperador em desposar A princesa de grandes opiniões, Vê ela em seu eunuco a quem amar A despeito de suas limitações… Desvairada, ela ordena que a possua Deitando em sua alcova toda nua. Iniciado aos mistérios de Priapo Onde em prazer anal se consumava, O eunuco se despindo cada trapo À virgem penetrou ardendo em lava Co'o deus em suas mãos erecto e guapo! Em facto, à bunda d'ela castigava Enquanto o frágil hímen preservado Ao futuro marido era guardado. Ele -- por quase macho ou quase fêmea -- Soube amá-la apesar de tudo e todos. Pelas sombras d'alcova, su'alma gêmea… Como homem ou mulher, de muitos modos, A sós vinha chamá-la de Epistêmea! A ocultar com enganos como engodos A verdade das tardes solitárias Mais a abraçando pelas horas várias… E enfim, o imperador ao desposá-la Rompendo-lhe seu hímen intocado, Mais ignora que, enquanto ela se cala, Pensa apenas em ter com seu amado: Depois do soberano deflorá-la, Goza com seu eunuco afeminado! E o sangue no lençol, nódoa tão vã, De todos sele a paz pela manhã… Betim - 23 01 2019