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quarta-feira, 3 de agosto de 2022

SOB FORTE EMOÇÃO

SOB FORTE EMOÇÃO

Não me ames para logo me odiares
Por não te amar tanto quanto me amas.
Amor e ódio têm quase as mesmas chamas
Quando queimam estúpidos azares…
 — E, se enfim me perderes, me matares!

Não te quero jamais a te julgares
Príncipe a me salvar de sujas lamas.
Ao passo que, alterado, em vão me chamas…
Tão pura feita puta em teus altares!
 — E, se enfim me perderes, me matares!

Não fiques regulando meus olhares!
Ainda que eu me deite n’outras camas,
Não venhas m’enredar em tristes tramas,
Em que eu mereça sim me maltratares.
 — E, se enfim me perderes, me matares!

Por favor, não me mates por me amares!
Se, por mais me quereres, mais reclamas;
Trazes a novos dias velhos dramas
Para, de amado, odioso te tornares.
 — Para enfim me perderes e matares!

Brumadinho — 30 07 2022

quinta-feira, 18 de março de 2021

ATRÁS DAS LENTES

ATRÁS DAS LENTES


Tem um olho que vê e outro que percebe

As minúcias de quem se lhe rodeia

E já se pretende amigo em meio a ceia...

Folgado feito um príncipe na plebe!

-- Pois míope entre sombras devaneia.


Na ideia de que dando se recebe,

A outros faz elogios à mancheia

E desata a falar da vida alheia

Às voltas com quem come e com quem bebe.

-- Pois míope entre sombras devaneia.


Anda pelo jardim junto da sebe,

Construindo-se castelos seus de areia.

Incerto já do que ama e do que odeia

Ou do mundo como ele lhe concebe...

-- Pois míope entre sombras devaneia.


N'um espelho d'água o luar s'embebe

Enquanto ao redor tudo clareia.

Logo emerge do fundo uma sereia

Ao náufrago que, enfim, desapercebe

-- Quem míope entre sombras devaneia.


Belo Horizonte - 05 01 2021

quarta-feira, 29 de julho de 2020

POR REJEIÇÃO

POR REJEIÇÃO

Se tu, d'um modo ou d'outro, não me queres,
Apesar d'eu te amar e tu me amares,
Cuida para que a vida que buscares
Não te leve mais longe do que esperes
-- E uma estranha a ti mesma te tornares!

Seguirei a beijar outras mulheres,
Lembrando de teus lábios e vagares,
Que levarei por todos os lugares
Antes que tu m'esqueças os prazeres
-- E uma estranha a ti mesma te tornares!

O não que tens à boca; o malmequeres
Que despetalas para os meus azares!...
Tudo o que, indiferente, me negares
Deus te conceda em dobro ao quereres
-- E uma estranha a ti mesma te tornares!

E se um dia aos pagos tu volveres
Para me confundir em teus folgares
Lembra que pedi para voltares,
Porém tiveste medo de sofreres
-- Para estranha a ti mesma te tornares!

Betim - 28 07 2020

quinta-feira, 9 de julho de 2020

NA ESBÓRNIA

NA ESBÓRNIA

Se, de pernas para o ar, me alucinares,
Entregue aos meus desejos; aos meus beijos.
Talvez te dedilhasse alguns arpejos
Pelas tuas auréolas, com vagares...
-- Dar-te-ia mil amores por me amares!...

Confesso que ao rondar por lupanares,
D'outras tantas beldades fiz ensejos;
Entre alheias alcovas, percevejos 
Aturei para o mal de meus azares!
-- Dar-te-ia mil amores por me amares!...

Ébrio fauno, por todos os lugares
Onde uma luz vermelha aos azulejos,
Eu fiz a meretrizes mil gracejos
No afã de conhecer-lhes os folgares.
-- Dar-te-ia mil amores por me amares!...

Aceita, bela dama, meus bons ares
Em troca de carinhos benfazejos:
Pelas noites de Vênus, sem bocejos,
Eu terei os prazeres que me ousares!...
-- Recebe mil amores por me amares!...

Betim - 09 07 2020

quinta-feira, 2 de julho de 2020

TESTEMUNHO

TESTEMUNHO

Viver sem perceber sequer que vive...
Parece ser a esfera irrefletida
De quem como eu passara toda a vida
Negando que estivesse n'um declive:
-- Lembre-se qu'eu também aqui estive!

Não terá sido inútil o que obtive
Com tanta luz frustrada de saída.
Minha miséria é coisa conhecida...
Condenada por muitos, inclusive!
-- Lembre-se qu'eu também aqui estive...

Quem sou? Em que me livre; em que me prive,
Tão-só me desconheço em minha lida.
A existência, uma sarça consumida
Da qual apenas cinzas me retive...
-- Lembre-se qu'eu também aqui estive!

Diga-me, quem comigo mais convive,
Pois ando sem saber quanto valida
A caminhada vã logo cumprida
E enfim desapareça no que tive...
-- Ou esqueça qu'eu também aqui estive.

Betim - 30 06 2020

terça-feira, 21 de abril de 2020

PANDEMIA

PANDEMIA 

Contágio em progressão exponencial 
E o planeta a hibernar involuntário. 
Mas, quando o solidário é solitário, 
Fazer nada é fazer o essencial 
-- Ainda que haja mortos no final. 

Contagem de doentes em geral 
E após fazer dos leitos o inventário: 
O invisível parece imaginário, 
Mas enche enfermarias no hospital. 
-- Ainda que haja mortos no final. 

Nas ruas, mais vazias que o normal, 
Apenas mascarados sem salário  
Vagam em meio ao caos comunitário, 
Com risco de contágio, pois, viral. 
-- Ainda que haja mortos no final. 

E não há solução: Tudo é mortal. 
A fome em casa e o vírus no cenário... 
A morte se tornou algo ordinário; 
Covas nos cemitérios, afinal, 
-- Somos milhões de mortos no final. 

Betim - 21 04 2020 

domingo, 9 de fevereiro de 2020

MAIS E MELHOR

MAIS E MELHOR

O que é a vida senão a soma aos dias 
Entre os quais este ou aquele, comumente, 
Aparece a outros olhos frente a frente?... 
Se deixa só pegadas pelas vias,  
-- Mais e melhor se viva de alegrias...  

Não basta se sonhar com utopias 
Ou ter os olhos fitos no presente: 
Morrer é não estar... Deverasmente, 
Há muitos que inexistem por quantias!  
-- Mais e melhor se viva de alegrias...  

Pois, se vive mais quem tem mais valias, 
Viver melhor é algo diferente: 
Há quem trate cachorro como gente, 
E gente igual cachorro de agonias... 
-- Mais e melhor se viva de alegrias...  

Antes que as horas sejam já tardias 
Ou desapareçamos de repente, 
Busca quanto te deixa mais contente 
Para que, com felizes harmonias, 
-- Mais e melhor se viva de alegrias!  

Betim - 09 02 2020 

terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

DURMA D'UMA VEZ!

DURMA D'UMA VEZ!

Ela não quer dormir p'ra não acordar
Amanhã tendo um mundo por fazer...
Ela quer dançar 'té o sol nascer
Para mesmo acordada ousar sonhar
-- E só depois de morta repousar...

Dizem que a noite é para descansar
E -- "Durma d'uma vez!" -- vem lhe dizer
Para sério e sensato mais parecer
Aquele que ela acusa de a matar
-- E só depois de morta repousar...

Dizem que o dia é para trabalhar
E -- "Durma d'uma vez!" -- vem lhe saber
Para mais e melhor lhe desdizer
Aquele que ela acusa de a calar
-- E só depois de morta repousar...

Dizem que a vida é para s'enricar
E -- "Durma d'uma vez!" -- vem lhe querer
Para por bem ou mal lhe convencer
Aquele que ela acusa, enfim, de a amar
-- E nem depois de morta repousar...

Belo Horizonte - 04 02 2020

domingo, 2 de fevereiro de 2020

DESTEMPERO

DESTEMPERO

Tu estás certo, mas estás errado.
Há verdades em tudo o que disseste,
Mas mesmo que o ocorrido inconteste,
Terás, decerto, o aparte já guardado
-- Se Razão não é facto, apenas lado.

És, inobstante, um juiz destemperado
D'esses que veem diversos como peste
E os taxas de imorais, bem preocupado,
Como ameaças à Lei, à Ordem e ao Estado.
-- Se Razão não é facto, apenas lado.

Estabelece trânsito em julgado
Tua idiossincrasia cafajeste,
Enquanto de "justiça" se reveste
A vingança do rico contra o ousado...
-- Se Razão não é facto, apenas lado.

Tudo apenas risco calculado:
Lanças mão d'um enredo de faroeste
A fazeres do real o que te preste
E chegares ao topo, douto e honrado.
-- Pois Razão não é facto, apenas lado.

Betim - 02 02 2020

sábado, 1 de fevereiro de 2020

AMOR E SANGUE

AMOR E SANGUE

Ai! Amo quem me mata; me maltrata,
Quem ri de meu amor tão desarmado.
Não me respeita o peito maltratado
E tem por meus carinhos mofa ingrata:
-- Afinal, me ama tanto que me mata...

Que o amor é para si uma bravata
Onde o outro é um espólio conquistado.
Que depois que usa e abusa põe de lado
Como fosse uma puta bem barata.
-- Afinal, me ama tanto que me mata...

Comigo, diz que a vida é muito chata;
Sem mim, diz que tudo é muito errado.
Vai-volta indiferente do passado
E perdoa com ares de autocrata!...
-- Afinal, me ama tanto que me mata!

Nem sei mais se é amor o que nos ata
Ou se outro fio trágico do Fado.
O que sei é que morro sem cuidado
N'um caso passional de longa data...
-- E ao final, me ama tanto que me mata...

Betim - 01 02 2020




terça-feira, 24 de dezembro de 2019

HÁ PIORES

HÁ PIORES!

Poeta, talvez careça de bons modos,
Enmimesmado diante dos senhores.
Não sou o maior nem um dos melhores,
Embora ande à maneira dos rapsodos...
-- E se me acham tão ruim, contesto: -- "Há piores!"

Às vezes, eu também caio em engodos
E encontro iras buscando ver amores.
Não sou bajulador de entendedores,
Tampouco rastejante sobre lodos.
-- E se me acham tão ruim, contesto: -- "Há piores!"

Escrevo sobre tudo e sobre todos,
Em versos não isentos de temores...
Temerário a ignorar os meus terrores,
Irrompo na avanguarda com denodos!
-- E se me acham tão ruim, contesto: -- "Há piores!"

Remontando ao vulgar dos visigodos,
Um vernáculo ibérico de ardores
Exercito entre rimas e pudores
N'esse afã de poetar de tantos modos.
-- Pois se me acham tão ruim, contesto: -- "Há piores!"

Belo Horizonte - 24 12 2019