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segunda-feira, 25 de maio de 2020

A INÚTIL

A INÚTIL

De que me serve amá-la se inservível?…
Como, por estresse, o aço resta dúctil,
Assim também o amor acaba inútil
Tensionado bem mais do que o admissível.

Enquanto o amor se mostra incompatível 
—  Com dois a discutir por algo fútil —
Costuma a melindrar, sutil e sútil,
Qual colcha de retalhos implausível.

Ou ela não me ama ou não se quer amada.
Tampouco importa a página virada
Em face do que anseia em seu porvir.

Mas, seja como for, nada mais vale…
Apenas não se espere qu'eu me cale:
Inútil ou não, ela vai me ouvir!

Betim - 01 09 2008

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

CACÓFATO

CACÓFATO

Se ALMAMINHA fez célebre Camões
Sem ele dar-se conta que o escrevera,
Mais ainda se quis quem mal o lera
Alheio das mais doutas opiniões...

Ao terno vocativo e seus senões
Outra cousa um maldoso lh'entendera
E ainda outra quem d'ouvido em cera
Menos se lh'escutou que deu razões.

Se estragaram-lhe os versos tal galhofa
É que o besta à barriga mais estofa
Vendo o tolo sem cuidar da própria vida

Bah! Até os mestres erram... Quem diria?!
Diante d'outra leitura bem vadia
Ou senão d'alguma mente poluída!

Betim - 02 12 2008

domingo, 25 de dezembro de 2016

NATAL DE JESUS

NATAL DE JESUS

Três sábios seguem uma estrela nova...
Vêm d'Oriente e atravessam o deserto.
Chegam a Belém  co'o designo certo
De ver o filho de Davi: --“Boa Nova!

“Nasceu Jesus, o ungido!!! Deus renova
Sua aliança... Eis a nós o céu aberto!
Jaz o menino entre as palhas desperto...
Acalme-se o mar! Um monte se mova!...”

Há dois mil anos contam essa história,
No regozijo d’uma Humanidade
Que o divino reveste então de glória.

Pois celebram os homens, em verdade,
No solstício com seu mistério antigo,
A alegria de ter Jesus consigo.

Betim - 24 12 2008

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

EM BREVE

EM BREVE

Dá tempo ao tempo tu que te anseias tanto
E te angustias pelo que virá...
Seja medo d'alguma coisa má;
Seja esperança d'outro grande encanto.

Não, não te desanimes por enquanto.
Antes vê n'este instante tudo que há-
De mais emocionante a fazer já
Um verso que te sirva de acalanto.

Deixa que se esvaziem as palavras
E espalha mais sementes pelas lavras
Do desolado solo de teu peito.

Logo logo estarás de novo em paz
Apenas co'o viés que o tempo traz
De sempre mudar tudo do seu jeito.

Betim - 12 12 2008

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

MONUMENTÁLIA

MONUMENTÁLIA

Se os olhos viram já coisas demais,
Talvez a imensidão dos céus de Deus
Falasse um pouco mais aos olhos meus
Do que as cúpulas mais monumentais.

Ou as pedras de colunas colossais
Por onde vêm e vão os passos teus.
A balizar os mesmos pés plebeus
Distraída através de arcos triunfais...

Passo pela avenida secular
E contorno o obelisco grafitado
Enquanto assisto o tempo ali passar.

Ao largo, rememoro ‘inda o legado
D’aqueles que deixaram no lugar
Essa imensa presença do passado.

Belo Horizonte - 07 12 2008

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

BANHO DE BANHEIRA

BANHO DE BANHEIRA

Nua, faz que não vê meus olhos n'ela
Pois indo se banhar sem pressa alguma.
Cobre-se, do pescoço aos pés, de espuma:
Consegue d'algum modo ser mais bela...

De facto, mais esconde que revela
A neve branca que ora lhe perfuma.
Não fosse a aborrecer, uma por uma,
Eu sopraria as bolhas só por vê-la!

Em todo caso, é bom estar tão perto
E saber que seu corpo ali coberto
A mim se mostrará em esplendor.

E logo há-de ficar à flor da pele
Toda a sensualidade que a impele
A ser minha mulher e meu amor.

Betim - 02 03 2008

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

DE CUJOS

DE CUJOS

Aquele que serei quando morto,
De cuja sucessão eu trato agora,
Declarará de mim pela última hora
Tais termos a me dar algum conforto:

-- “Duvido que algum anjo, certo ou torto,
Tenha me acompanhado desde a aurora.
Ainda assim eu, antes de ir embora,
Sei chorar sangue como Jesus no horto!...”

“Não que essa minha angústia se compare,
Mas sim, depois de tudo, ‘inda repare
Ignorar quais propósitos tem Deus.”

“Deixo-vos, por herdade, o que couber
E o intento de a existência, por fim, ser
Vida que gera vida para os seus.”

Betim – 20 02 2008

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

ESTAÇÃO DAS ÁGUAS

ESTAÇÃO DAS ÁGUAS

N’uma noite qualquer de primavera,
Tanajuras revoando pelos ares
Anunciam as chuvas por tornares
À terra que mais úmida se houvera.

Tu desde criança sabes que, de vera,
O voo d’aquelas rainhas invulgares
Espalhadas por todos os lugares
Tem um quê de alegria e de quimera.

Hoje, enxames de içás em profusão
Vêm me desanuviar o coração
Enquanto à brisa tépida te inspiras.

Leva contigo as minhas fantasias
E as lembranças de criança que querias
Conhecer tal-e-qual um dia ouviras.

Sobrália – 10 11 2008

terça-feira, 25 de outubro de 2016

O PECADOR

O PECADOR

Têm meus olhos a exacta e vã medida
Da extensão da maldade que há no mundo.
Executei-e-sofri o mal, fecundo
Foi seu lavrar por toda a minha vida

Anos de mocidade à inadvertida
Experimentação do que é imundo!
Busquei sempre prazer, poço sem fundo,
Atrás d'uma beleza corrompida...

A esconder-me do bem, relativizo.
Até que se me impôs, sem prévio aviso,
A minha volta triste e maltrapilho.

Mas espero, por fim, não por meu mérito,
Sim pelo amor d'Aquele cujo inquérito,
Far-me-á, embora pródigo, seu filho.

Betim - 02 11 2008

domingo, 23 de outubro de 2016

EXISTÊNCIA

EXISTÊNCIA

N'uma vida de mais erros que acertos
Atravessei os anos do Milênio.
Contudo, sucumbi ao meu mau gênio
Em face da clareza dos expertos.

Tão-só mantive os olhos bem  abertos
Para o drama encenado no proscênio.
Mais carente d'amor que de oxigênio,
Só encontrei espíritos desertos...

Assim cheguei ao ponto de duvidar
Que me houvesse de facto algum lugar
Onde eu possa levar em paz a vida.

Drama ou não, continua um teatro o mundo.
Existindo, eu tento, erro e me confundo,
Mas atraso um pouco a hora da partida...

Betim - 08 08 2008

segunda-feira, 2 de março de 2015

ANTIGUIDADES


ANTIGUIDADES
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ANTIGUIDADES

Aqui e ali busco àquele que fui
Em deixas a este que hoje me tornei.
Não mais que escritos: Muito pouco, eu sei...
Embora possa ver quanto a obra intui.

De mim para mim, algo se institui
Como se patrimônio que me herdei
Pela magnificência d’algum rei
Cujo velho palácio, entanto, rui.

Relíquias ou memórias, guardo há anos
Para me cotejar os desenganos,
À medida que apenas envelheço.

Visto que -- nem mais hábil; nem mais sábio --
Pude me constatar lendo o alfarrábio
Em cujas letras vãs me reconheço.

Betim - 12 01 2008