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quinta-feira, 27 de novembro de 2025

TERCEIRA PONTE

TERCEIRA PONTE

Era uma cidade que tinha mar.
Era uma saudade que tinha amor.
Era liberdade; era caminhar.
Era soledade: Um sol a se pôr.

Era somente ir para não chegar.
Era sozinho ir para onde mais for…
Era pôr fim para recomeçar:
Era secar as lágrimas... E o suor!

Era atravessar e s'enternecer.
Era o mais passado e era o porvir.
Era a própria vida no entardecer.

Era anonimamente inexistir...
Era se lembrar para s'esquecer
Era, por fim e apenas, ir e vir.

Vila Velha - 05 11 2009

sexta-feira, 2 de maio de 2025

ALGAZARRA

ALGAZARRA


A alegria ruidosa dos meninos 

Martela em meus ouvidos embotados.

Às gargalhadas, vêm muito agitados

Cercar-me os solitários desatinos.


Correm os seus brinquedos vespertinos,

Soltando exclamações pelos gramados,

A ponto d’eu deixar quaisquer cuidados,

Em face do festim dos pequeninos.


Deixo as letras e os números do dia

E m’entrego à fruição da fantasia,

Que aquela meninada m’ensinava.


Por dentro, corro e grito brincadeiras

Quase a esquecer de vez minhas canseiras,

Certo de qu’eu também ameninava.


Betim - 16 10 2009


domingo, 11 de dezembro de 2016

EM SEU NONE

EM SEU NOME

Sim, como todos sabem, Deus é UM;
Mas também evocado como Alá...
Ou Adonai, Elohim, Javé, Jeová...
Por Senhor... Coroaci...  Por Olurum...

Pois isso de crer em Deus é bem comum:
O Altíssimo Criador nos céus está
E, Omnipotente, tudo Ele nos dá
Mesmo sem termos mérito nenhum.

D'um modo ou d'outro, o mundo agora existe
E Deus, seja quem for, nos acompanha
N'essa fé a mover cada montanha...

Ignora-se se está feliz ou triste.
O facto é que em Seu Nome guerra e paz
Por séculos e séculos se faz.

Betim - 11 12 2009

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

A GENTE DA ROÇA

A GENTE DA ROÇA

Quando isso tudo aqui era sertão,
Uma cultura feita da Natura
Fazia a gente ver a vida dura
Como que a mais perfeita educação.

De facto, cá se aprende desde então
A não se carecer d'outra fartura
Que aquela que nos eitos se procura
E irrompe d'ouro verde em nosso chão.

A gente sabe que não sabe tudo...
Mas, mesmo sendo pouco o nosso estudo,
De atrevido rascunho alguns maus versos!...

Uma vez ou outra, a gente que é da roça
Se faz de cantador quase de troça
Para assuntar uns causos controversos...

Sobrália - 28 12 2009

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

RECÍPROCO

RECÍPROCO

Ama-me como te amo; isto é, faminto!
E o saber e o sabor de cada gesto
Sejam-nos um desejo manifesto
Por te sentires tal como me sinto.

Que nossos gozos como algo indistinto
Se misturem em nós ao que, de resto,
Possa servir ainda de pretexto
De mais nos permitirmos por instinto.

Beija-me como beijo a tua boca...
Toca-me como minha mão te toca
E sente como meu peito te sente.

Assim, por não mais que um momento,
Possamos ser os dois um só sentimento:
Ama-me como te amo, simplesmente.

Betim - 13 02 2009

LEMBRETE

LEMBRETE

Não te esqueças de mim quando te fores
E, longe, não escutes mais meus ais.
Lembra-te, pois, de mim uma vez mais,
Ao me leres os versos e os amores.

Recorda-me o cartão junto das flores,
Que com letras vermelhas passionais,
Sangrara versos vãos de amar demais,
Cantando em frenesi os teus louvores.

Não me esqueças nas sombras da memória
Onde, apesar de tudo, a nossa história
Restará entre outras, boa ou não.

Lembrar para esquecer e relembrar,
Talvez seja onde o amor tenha lugar
Para eu ficar em ti, no coração.

Belo Horizonte - 01 10 2009

terça-feira, 15 de novembro de 2016

FAZER O AMOR

FAZER O AMOR

Como fazer sensível algo abstracto
Senão como uma forma de carinho?
O toque em tua pele haja o caminho
Para unir duas carnes com um acto.

Pode ser dando sangue para o pacto
Ou apenas não querer gozar sozinho.
Teus beijos, tão mais doces do que o vinho,
Ao pôr as nossas almas em contacto.

Como é doce fazer o amor amando!
Como é bom em teus braços, quando em quando,
Eu poder sentir que amo e sou amado.

Por fim, o amor se faz encontro humano
Ao ser compartilhado, salvo engano,
Nos prazeres que um ao outro temos dado.

Betim - 15 02 2009

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

O ALCOÓLATRA

O ALCOÓLATRA

Os anos que passaram pelo espelho
Branquearam minha barba e meus cabelos...
Bem como pelos peitos alvos pelos
Recobriram-me a pele vil de velho.

E por vezes me dói tanto o meu joelho,
Que mal sei dar aos pombos uns farelos.
Noites inteiras passo entre desvelos,
Enquanto um esporão brota no artelho...

Pois é... Olheiras fundas, carnes moles...
Mais a papada, pintas, manchas, rugas...
E as mãos cheias de calos e verrugas.

Uma vida passada toda aos goles,
Para no fim, tão pobre quanto  Jó,
Entregar minhas cãs de volta ao pó...

Belo Horizonte - 20 09 2009

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

O PIOR DE SI

O PIOR DE SI

Havia acontecido uma mudança:
Os dois não se tocavam com ternura...
Veem, na vida presente e na futura,
Uma a uma se frustrar cada esperança.

Perdidos o respeito e a confiança,
Restara um dia a dia de amargura
Onde a dor se avizinha da loucura,
Ao apagar do prazer qualquer lembrança.

Testemunham após o pior de si
Como já não houvesse mais ali
Nem sombras da alegria que os unira.

E esse amor, apagando-se a olhos vistos,
Talvez morra ao menor dos imprevistos,
Como se tudo fora de mentira.

Betim - 09 11 2009

terça-feira, 1 de novembro de 2016

DESARVORADO

DESARVORADO

A despeito dos nomes tão pomposos
Ou das palavras belas e sensatas,
Nada mascara mais suas ingratas
Razões para iludir os desditosos.

Sempre co’os ditos mais espirituosos
Nos repete historietas e bravatas,
Por fazer crer que tem luzes inatas,
Ocultando interesses duvidosos.

Quem guindado às alturas do poder,
Faz, absolutamente, o que bem quer
Enquanto o embasbacado tudo aplaude.

Seja este só mais um desarvorado,
Que quando do palanque for apeado
Não faltará já outro que lhe malde.

Betim – 01 10 2009

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

VICE-VERSA

VICE-VERSA

Este muito diverso ser humano,
Andando tão disperso pelo mundo,
Já aceita o Universo moribundo,
Sem ser sequer um terço de seu plano...

Vê o bem converso em desengano
Torná-lo seu reverso n’um segundo.
Oculta em prosa e verso o mais profundo,
Como se desde o berço assim mundano.

No momento adverso, ele se altera
E feito outro (um perverso!) mais se admira
Do modo controverso que o fizera.

Mas já de todo imerso ao que conspira,
É da medalha o anverso o que se vira:
Ser o inverso do inverso do que era.

Belo Horizonte – 29 09 2009