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terça-feira, 23 de março de 2021

TRAJECTÓRIA

TRAJECTÓRIA 


Há pessoas que encontram a poesia ao longo de suas vidas. Umas entendem que ela faz perceber através das palavras o inusitado nas pessoas e nas coisas. Outras, por outro lado, escrevem para si mesmas n'um movimento cada vez mais profundo dentro de si mesmos. Creio que me identifico com o segundo tipo... Escrevo desde a adolescência e sigo escrevendo, embora já um homem de meia idade. Nunca o fiz por desejar notoriedade ou deixar por meio das letras algum legado. Na verdade, não me importo muito com a indústria literária ou de entretenimento: Jamais pretendi viver da escrita, ao contrário,  sempre reservei o direito de, ao menos nos versos d'um poema, ser totalmente livre do mundo e suas responsabilidades. Escrevo poesia, talvez, porque quase ninguém paga para ler.  Quem leu, leu porque quis e gostou porque achou bom. Nunca me motivou o comercial nem o acadêmico da Literatura. Logos, não escrevo para vender livros ou ou gerar teses de mestrado.


Trajectória, dizem alguns, é o caminho descrito por algo em movimento. Sou um poeta em curso que bem recentemente começou a expor seus escritos para a incompreensão alheia. Sim, para não quer vender seus alfarrábios as páginas virtuais facilitaram muito as coisas. Comecei a publicar poemas na web apenas em 2015, embora já escrevesse há 24 anos...!  Ocupei alguns espaços; afastei-me d'outros, mas jamais me deixar pelo compadrismo literário de aplaudir para ser aplaudido. 


Em tempo: Divido com minha precária ocupação de poeta a pretensão de ser fotógrafo e a responsabilidade de ser arquiteto. Pago minhas contas com projetos enquanto devaneio com letras. Os instantâneos?  Penso ser outra crise de meia idade! Penso ser feliz com tudo o que faço, bem ou mal, mas devo confessar que preocupo os mais próximos com essa mania de escrever sempre que posso. Hipérgrafo, dizem de mim os entendidos... Mas, oportuna ou inoportunamente, viver entre as letras tem me ajudado a ser com mais profundidade tudo o que sou.


Escrevo, mais amiúde, versos de forma fixa, isto é, com estrutura estrófica, metro, ritmo e rima. Escrevo versos livres também, por via de regra, quando aflitos demais para caber em esquemas. Vez em quando, prosaico, arrisco um conto ou uma crônica. Escrevi um romance: PASSIONAL - Notas d'um bilhete suicida, mas não tive dinheiro para imprimir e publicar. Não muito raro, pago uns tostões para ser lido em antologias, mas com tanta discrição que eu mesmo me esqueço que contribuí para elas. Gosto quando alguém senta para conversar comigo sobre poesia, mas ainda é algo muito raro. Às vezes encontro uma turma legal para teclar e trocar impressões, ainda que a maioria dos literatos deseje sobretudo ser declarado gênio antes dos vinte anos...


Eu não. Até porque tenho mais de quarenta!


Betim - 11 03 2031

quarta-feira, 4 de novembro de 2020

IN DUBIO PRO VICTIMA

IN DUBIO PRO VICTIMA (artigo de opinião)

Enquanto escrevo o país arde contra a absolvição d'um homem acusado de estupro. Por falta de provas que corroborassem a acusação da possível vítima, o juiz Rudson Marcos, da 3ª Vara Criminal de Florianópolis, decidiu que não houve crime. Relação sexual, todavia, houve. A dificuldade em se provar o consentimento ou não da mulher gerou, segundo o que foi reportado na decisão, a dúvida razoável que livrou o réu. Canalizando a revolta dos vencidos na demanda judicial, o veículo de imprensa The Intercept Brasil divulgou as cenas chocantes do interrogatório a que a acusadora fora submetida pelo advogado de defesa do réu e a conclusão -- desnorteante, mas plausível diante das imagens -- de que vencera n'esse julgamento a tese d'um estupro culposo. 

Não é incomum a imprensa lançar mão de expressões exageradas ou mesmo sensacionalistas com o objetivo de atrair a atenção da opinião pública. Na verdade, a ideia de estabelecer paralelo entre o homicídio culposo (aquele no qual o homicida não teve provada a intencionalidade da morte de outrem, embora sua responsabilidade sim) e uma modalidade de estupro na qual a consensualidade do parceiro no ato sexual possa ser ignorada é algo inusitado... O estupro culposo, alinhavado com a ideia de merecimento do ocorrido pela vítima em função de sua roupa, reputação e mesmo das circunstâncias, permitiu ao acusado André de Camargo Aranha sair pela porta da frente do Fórum ao passo que sua acusadora, a jovem Mariana Ferrer, fosse desqualificada como alpinista social basicamente por ser pobre e bonita. A culpa, entenderam o juiz e o promotor, foi do Universo... Ou melhor, da vítima que interpretou uma relação sexual não consentida (ela estaria embriagada ou narcotizada) como estupro. 

Aliás, por via de regra em caso de estupro, a culpa é sempre da vítima até que se prove o contrário. Isso não é bom. Não é bom para nós enquanto sociedade onde, estatisticamente, acontece um estupro a cada oito minutos, segundo o Anuário de Segurança Pública de 2020. Mais do que decidir se houve justiça ou não no caso de Mariana Ferrer, a preocupação do Judiciário brasileiro deveria ser, também, civilizatória. Isto é, há estupros demais no Brasil e uma das razões são as próprias peculiaridades do crime: Na falta de provas e testemunhos contundentes, restam apenas os depoimentos de acusado e acusador. É a palavra de um contra a do outro, de modo que sempre haverá dúvidas sobre a verdade dos factos. E, como sabemos, in dubio pro reu... O Judiciário, há séculos, prefere se omitir a errar. O que pode até ser razoável na maioria das vezes se tornou uma licença para estuprar impunemente, haja vista sempre haver dúvida razoável n'um crime que se pode se confundir com intimidade. Com efeito, o que diferencia o estupro do acto sexual comum é a compreensão que os envolvidos têm do que aconteceu. Isso, por si só, deveria fazer o Judiciário mudar o modo como aprecia esse tipo de acusação e, sobretudo, como decide sobre a culpa.

É interessante que a sociedade mude quando identifique situações que promovem a criminalidade e a desigualdade. Supor dúvida razoável em casos de estupro tem, historicamente, beneficiado estupradores e silenciado vítimas. Não há solução à vista com tal sistema. Em casos de acusação de estupro, o ônus da prova deveria ser do acusado, jamais da acusação que, em tese, é vítima de um crime gravíssimo. Em termos civilizatórios, ao menos, teríamos pessoas mais preocupadas em ter o consentimento dos parceiros do que interpretando sinais de consentimento. Urge àqueles que se pretendem bem intencionados aprenderem a respeitar a vulnerabilidade de quem está diante de si, seja pela juventude; seja pela condição física ou mental. Na dúvida, sejamos pela (possível) vítima.

Betim - 04 11 2020