sábado, 15 de outubro de 2016

AÉREO

AÉREO

As nuvens a ocultar o sol lá fora
Alertam de que tudo é fugidio...
Tarde de céu de chumbo e vento frio,
Que me fez recordar outras d’outrora.

E o tempo vai passando sem demora
No vento a me zunir seu assovio.
Já me sentia há tanto tão vazio,
Como se eu com o vento fosse embora.

Eu, de ponta-cabeça sob o céu,
Me imaginava a andar nas nuvens densas
Enquanto rascunhava algum papel.

E ainda que me julguem bem pretensas
As evasões de quem vivesse ao léu,
Me aceito catador de ideias suspensas.

Betim - 21 05 2012

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

NEÓFITOS

NEÓFITOS  

Há bem pouco iniciados nos mistérios
De Vênus e de Baco, seus prazeres
Nós temos desfrutado como seres
Que encontram nas folias refrigérios.

O dia-a-dia vivemos muito sérios
Às voltas com maçantes afazeres.
Lá p’las tantas, porém, belas mulheres
Nos fazem bem folgar feito gaudérios.

Apreciamos as danças e a nudez
Para extrair-nos a máscula e alva seiva
Na pele que ditosa se lhes eiva.

E, por fim, as deixamos sem talvez.
A serviço dos deuses, quando em quando,
Mais jornadas d’amor lhes celebrando!

Belo Horizonte – 26 06 2011

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

DIR-TE-IA

DIR-TE-IA

Tendo tanto a dizer, eu nada falo
Só te olho sem saber o que fazer...
E, quando balbucio um som qualquer,
Sem que me faça ouvir, eu já me calo.

Às vezes, parecia que d’estalo
Sairia quanto tinha a te dizer,
Mas estacava apenas de te ver,
Como se iluminada por um halo...

Olhos ardósias qual lousa de giz,
Com tão mimosos lábios e o nariz
Compondo a tua face inconfundível.

Dir-te-ia que te quero mais do que antes.
Por desgraça, porém, n’estes instantes
Silencio co’a voz quase inaudível!...

Betim – 08 08 2012

terça-feira, 4 de outubro de 2016

ODE SERENADA

ODE SERENADA

I

Em glória a lua agora,
Que a viola viola a noite...
As cordas de aço pela rua afora
Vibram para que o peito mais se afoite:
Um coração batendo compassado
Co’a música em seresta
Revê de forma honesta
                        [ o seu passado.

II

Recorda aquela idade
Na qual a fantasia
Alumbra os anos vãos da mocidade
Sobretudo de música e poesia:
A bela época de áureas ilusões!...
Concertos nos quintais
E acordes triunfais
                        [ pelas canções.

III

Recorda amor antigo
Que tanto o coração
Fizera já sofrer feito um castigo.
Acabrunhado pela solidão
Ao ver o triste fim de quem amou,
Buscando se perder
Já sem saber sequer
                        [ por onde andou.

IV

Recorda uma outra lua
Em névoas serenada...
Quando andando só por deserta rua
À janela de sua namorada.
Ali veio cheio de encantos e esperanças
E embora ela dormisse
Alguns versos lhe disse
                        [ em falas mansas.

V

-- “ Amada tão amada,
Malgrado o teu pudor,
Rogo que tu me venhas à sacada...
Seja o tardio da hora um mal menor,
Quando tão suave a voz quanto o acalanto!
De modo que acordando,
Murmures quando em quando
                        [ este meu canto.”

VI

“Ainda estás dormindo...
Recebe-me em teus sonhos!
Faça-se meu cantar a ti bem-vindo
Até deixar teus olhos mais risonhos.
Escuta de meu peito o canto amante
Te entrar pela janela...
Agora, minha bela
                        [ e d’oravante.”

VII

Cantou tantas modinhas
N’aquela noite clara,
Que por fim suas almas bem juntinhas
Viu como se estivessem cara a cara.
Sem embargo, ninguém veio à janela:
Cantando até a aurora,
Após se fora embora
                        [ ‘inda sem vê-la.

VIII

Passaram muitos dias
E os dois não se encontraram.
Ansiava já, perdido em agonias,
Tudo o que as circunstâncias lhes negaram.
Teme que esse momento não se dê...
Dir-se-ia igual à lua,
Que ao sol se insinua,
                        [ e nunca o vê.

IX

Até que enfim a viu
Nos braços d’outro rapaz...
Ela, desconcertada, lhe sorriu;
Mas ele sequer d’isso foi capaz.
Seguiram por caminhos bem contrários
Sem nunca ele esquecer
O quanto puderam ser
                        [ extraordinários.

X

De facto, muitos anos
E amores se passaram.
Seguindo cada qual com seus enganos.
Bem confusos e vãos se reencontraram.
Era como se fosse ainda jovem...
Jamais foi tão feliz!...
E os sonhos que lhe quis
                        [ ainda o comovem.

XI

Contudo, ela mudou
E não sabe o que quer.
Já ele nunca mais se enamorou,
Como se não houvesse outra mulher.
Sabia que na noite serenada
Deixara o coração
Em cada só canção
                        [ ali cantada.
 

XII

A noite se enluarara
Nas cordas do violão.
À luz sabidamente tão rara
D’uns olhos marejados de emoção,
Ele e ela se encontrando novamente:
Não cuidam do futuro
Ou mesmo se algo obscuro
                        [ em seu presente.

XIII

E feito alucinados
Viveram o momento...
De facto, pela lua ora encantados
E ouvindo da seresta o movimento
Sentiram-se a ressoar em harmonia.
Em noite serenada,
Verdade misturada
                        [ à fantasia. 

Ouro Preto – 12 10 1995

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

DE NOITINHA

ANOITECER

Quando as cigarras cantam à tardinha
E o arrebol sangra os longes do horizonte
Que a lua, alfange em prata, além desponte,
Se d'ela a estrela d'alva se avizinha!

Deveras, n'aquela hora tão sozinha,
Haja um concerto cá do alto do monte,
No qual a passarada outra vez conte
A bela melopeia que me convinha.

Avesso ao burburinho das cidades,
Encontre eu pelas brenhas alterosas
Lindas soledades,  poentes rosas...

De modo que com amplas liberdades,
Minh'alma evada além na serrania
Para eu me despedir de mais um dia.

Betim - 27 09 2013

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

ODE MELANCÓLICA

ODE MELANCÓLICA

I
Não fosse o teu olhar
Me abrir d’alma as janelas,
Apenas bastaria eu me calar
E nada saberiam das procelas
Que têm há muito tempo me aturdido.
Sem qu’eu possa, porém,
Buscar mais nada além
                        [ do próprio olvido.

II
Assim, a merencória
Feição dos olhos meus
Expõe demais a minha dor inglória
À penetrante luz dos olhos teus.
Pois entre olhos se vê, mal comparando,
Estrelas a orbitar,
Podendo se alinhar
[ de quando em quando.

III
Falaz luz dos felizes
Ou estranho afã d’um triste?...
Enquanto se cutuca as cicatrizes,
Não fecha suas feridas quem insiste!
Quando eu me for, não chores.
Não. Nem sempre essa vida
Nos vale ser vivida
[ em meio a dores.

IV
Por isso, ergue-te a taça
E bebe do teu vinho!
Embriaguemo-nos, pois, a vida passa
E mais suave a tua pele ao meu carinho...
Alegra-te apesar d’essa tristeza
Que turva meu semblante.
E traz-me ao peito amante
[ outra beleza.

V
Mas curta a vida curta
Quem d’ela tem à farta!
Se hoje cheira bem rama de murta.
Amanhã, igual palha se reparta...
A mão que ora te toca tão quente
Não mais será um dia...
Pousada ao peito, fria
[ e inutilmente.

VI
Entende que essa idade
Na qual tenros os frutos
Passa e leva consigo, na verdade,
Uma época de riso e olhos enxutos,
Que contrasta com outra mais futura.
Uma época onde então
Partido o coração,
[ se desfigura...

VII
Escuta, minha linda
Os versos do infeliz.
Percebe quanto ardor contêm ainda
E não só como insólitos ardis
A bem te seduzir com más urgências.
Talvez seja um mistério
Quedar já sob o império
[ de aparências.

VIII
O triste é um realista,
Que sonha realidades.
E não importa o quanto ele resista,
Tão-só lhe restarão suas saudades...
Alguns chamarão isso pessimismo
Mas outros, lucidez.
Vivendo sem talvez,
[ e sem cinismo.

IX
Tampouco evita a treva
Aquele que a conhece.
Já sabe a escuridão aonde leva
E nada teme quando se entristece.
Ao contrário, compreende até melhor
Os factos e as razões
De tantos corações
[ tontos d’amor.

X
Sorri, tu que tão bela
M’escutas estes ais.
Sorri, porque a tristeza te revela
A verdadeira dor de amar demais.
E, sorrindo, percebes meu pranto
Enfim, revelação.
Que só na escuridão,
[ alumbra tanto.

XI
Decerto alguma dor
Também o teu sorriso
Se oculta entre o prazer e o dissabor.
De tentar viver como é preciso
Ou ouviste que mais bela nos seduz
A moça que sorri,
Senhora já de si,
[ de encontro à luz.

XII
Embora fale pouco,
Sorrio ainda menos.
Não cuido se casmurro, arisco ou louco
Por ter tantos em conta de somenos...
Sem embargo, apesar de tão sisudo,
Às vezes eu me alegro
De pôr meu olhar negro
[ além de tudo.

XIII
O facto é que sorrindo
Soubeste me entender:
Faz do mundo um lugar sempre mais lindo
Quem alegrias e dores envolver
N’um sorriso mais denso de poesia
Já não porque feliz
Mas sim, porque se quis
[ melancolia.

Betim – 27 09 2016

quinta-feira, 2 de abril de 2015

AMOR POR AMOR


AMOR POR AMOR
____________________________________

AMOR POR AMOR


Eu te amo porque eu te amo, nada mais...
Não há porque te amar senão amar,
Se em teus olhos os meus têm seu lugar
Vislumbrando a áurea e os dons espirituais.
Somos o que sonhamos, ademais
Sonhaste o quanto ousara eu te sonhar.
E, ao longo já da vida, ao te encontrar,
Não fora te esquecer nunca jamais.
Porque amo, vivo só de sobreaviso,
Visto que no momento mais preciso
Irias, com certeza, aparecer.
Ou porventura não me fora a vida
A jornada confusa e inadvertida
Rumo ao meu eu profundo n'outro ser?
Betim - 31 03 2015