quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

À MERCÊ DO TEMPO

À MERCÊ DO TEMPO

Hoje, que chove forte e venta frio,
Percebo o quanto sou eu suscetível
Às mudanças do tempo, ao mesmo nível
Dos que fixam na lua o olhar sombrio.

Abandono-me à espera d'outro estio.
No entanto, cada vez mais irascível,
Não raro me estremeço de sensível,
Gelando a espinha súbito arrepio.

No céu, nuvens pesadas bem escuras,
Deixam-me o peito opresso e amargurado
Sem eu saber sequer por quê cuidado.

Segue o tempo a variar temperaturas
Junto com meu já não tão bom humor
Enquanto nega o sol o seu calor.

Betim - 14 02 2017

VADE MECUM

VADE MECUM

Todo o saber que tenho vai comigo
Para as terras do fim, remotas ilhas...
Mesmo em meio a perigos e armadilhas,
Que debalde me tem feito o inimigo.

Com Deus por testemunha, além persigo
Um mundo novo por milhas e milhas.
Já não desejo outras maravilhas,
Que andar de sol a sol e algum abrigo.

Porque esse meu vital conhecimento
É o que me permite atravessar
A vida sem qualquer padecimento.

Tudo é sempre igual; só diverso o olhar
Com que posso me ver n'esse momento
Do que dentro de mim sei encontrar.

Betim - 15 02 2017

domingo, 12 de fevereiro de 2017

ALÉM DO ARCO-ÍRIS

ALÉM DO ARCO-ÍRIS

Porque a felicidade vez em quando
Parece estar tão perto, logo à frente...
E um belo dia chega de repente
Exacto aquilo que ando procurando.

Eu, aliás, continuo ainda andando
Atrás d'aquela estrada transparente
Que, diante dos meus olhos, simplesmente
Sumia em meio ao bosque venerando.

Então, sem qualquer duende ou pote d'ouro,
Percebo não haver outro tesouro
Senão a imensidão d'aquele instante.

Mas me senti feliz por ter andado
Por toda a minha vida, certo ou errado,
Em busca da beleza mais errante.

Betim - 12 02 2017

UM HOMEM DE FAMÍLIA

UM HOMEM DE FAMÍLIA

Tipo de hábitos bem morigerados,
Era um exemplo de homem de família!
D’aqueles que atravessam em vigília
Noites e noites entre sós cuidados.

Sistemático, tinha os seus guardados
À mão em nobiliárquica mobília,
Mas contorcia a face de quizília,
Enquanto não os visse organizados.

Por isso, quer minúcia; quer mania,
Ali ninguém jamais o interrompia,
Às voltas co’o trabalho vespertino.

Aparentando sempre sério e mudo,
Se mantinha o semblante carrancudo
Imerso n’um livreto fescenino...

Betim - 10 02 2017

sábado, 11 de fevereiro de 2017

PANO DE FUNDO

PANO DE FUNDO

A ilusão de pôr dentro d'este estúdio
Qualquer lugar do mundo n'uma foto
Faz com que -do mais perto ao mais remoto-
Reinvente-me em memórias de interlúdio.

Quer seja em louvor; quer seja em repúdio,
Já poso para a câmera e nem noto
Que finjo com olhar sério e devoto
Como se ouvisse longe algum prelúdio.

Foto a foto uma volta ao mundo,
Tendo-se apenas por pano de fundo
As mais belas paisagens do planeta.

E esse álbum estranhíssimo que fiz
Passava a falsa ideia de que feliz
Fora tendo os lugares como meta.

Betim - 11 02 2017

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

NÓS, OS POETAS

NÓS, OS POETAS

E, sim, o que somos, somos.
Nós fazemos o que podemos!
Assim, como poetas que  fomos,
Morreremos como vivemos...

Por mim, o que temos, temos.
Se perdemos ou se dispomos,
Nós fazemos o que podemos
E, sim, o que somos, somos.

Por fim, a verdade onde pomos?
Tanto escrevemos quanto lemos,
Ordenando livros em tomos...
Nós fazemos o que podemos
E, sim, o que somos, somos.

Betim - 09 02 2017

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

O MILÊNIO

O MILÊNIO

É sabido de Deus e todo mundo,
Que o fim que se aproxima a cada dia
É o mesmo da antiga profecia,
Que mil anos d'um dia faz fecundo.

Pois, se tudo de Deus nos é oriundo,
Alguma hora para Ele voltaria
Cada criatura em cuja travessia
Procura conhecer-se mais a fundo.

Isto porque ao final de qualquer era
O bem e o mal se alternam na quimera
De compreender-se o Fado à luz d'estrelas.

Deveras bem difícil de entender
O mistério de Deus em cada ser,
Que faz todas as coisas tão  mais belas.

Betim - 07 12 2000