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segunda-feira, 26 de novembro de 2018

AGUADAS

AGUADAS

A chuva e seu pincel de fantasia
Dão ao vale horizontes desmedidos,
Onde os olhos se perdem comovidos
Ao longo já de toda a travessia.

Mas mais bonito mesmo é quando estia
E os campos do Senhor, reverdecidos,
Parecem rebrilhar agradecidos
Às águas que caíram noite e dia.

A luz do sol s'espalha quase pura
E o céu em pleno azul se transfigura
Por sobre o rio cheio que o espelha.

Felizes, companheiros do lugar
Às culturas do tempo vêm plantar,
E fecundar a chã terra vermelha!

Pará de Minas - 26 11 2017

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

GALEGO-PORTUGUÊS - Des-História Universal

GALEGO-PORTUGUÊS - Des-História Universal 

Têm escutado desde Compostela
Falares que ganharam todo o mundo:
Duas gentes e um gosto tão fecundo
De cantigas d'amigo ou pastorela...

A língua, tão dolente quanto bela,
S'esmerava em cantar o amor profundo
E os transes de Ninguém e Todo Mundo
Espalhados por cada caravela.

Depois de atravessar os oceanos
Deixam por toda a parte maravilhas
E ecos de antigos galos e romanos.

E o latim que levaram para as Ilhas
Souberam temperar com seus enganos,
Cantando o amor maior em redondilhas.

Betim - 09 09 2017

quarta-feira, 28 de março de 2018

VESTÍGIOS

VESTÍGIOS

'Inda devem haver restos de nós
Espalhados n'aquela residência.
Onde vestígios já d'outra existência
Debaixo de tudo quanto veio após...

Mas mais vazio há dentro quando sós
A saudade nos preenche toda a ausência.
Como quando uma luz na transparência
Revela em suspensão nuvens de pós.

Eu sem querer t'encontro de repente
E o passado fazendo-se presente
Me traz o teu sorriso uma outra vez.

E me pego sorrindo aqui também
Com meu olhar perdido para o além
A imaginar que tu longe me vês...

Betim - 02 01 2017

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

ARIDEZ

ARIDEZ

Como ouvisse trovão e não visse raio,
No claro céu dos longes dos sertões.
Assim também os secos corações
Qual chão esturricado ao sol de maio...

Incoerências à parte, de soslaio,
Surpreendo redemunhos d'emoções
Varrendo as desoladas amplidões,
Onde antes todo o campo verde gaio.

Brilhante, o contraforte do penedo
Reluz igual matéria incandescente
Àquela claridade onipresente.

De facto um novo sol cada rochedo,
Espelhando-se a pino no meio-dia
Por sobre terra tórrida e vazia.

Mantena -  30 05 2017

sábado, 30 de dezembro de 2017

D'ORAVANTE

D'ORAVANTE

Não mais ser um refém de meus problemas!
Mas, no que depender de mim ou não,
Poete eu a minha humana condição 
E não outra engrenagem nos sistemas...

Para valer a pena escrever poemas
Carece mais ter dúvidas à mão,
Que sempre para tudo solução 
Na vida e seus inúmeros dilemas.

D'oravante serei calmo, não frio
Ciente de que a verdade, na verdade
Se revela n'algum canto sombrio.

E ainda que não seja novidade,
-- Ao contrário, p'ra mim até tardio --
Saiba eu ver tudo com serenidade.

Betim - 30 12 2017

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

GARAPA

GARAPA

Passa a cana na moenda, colhe o caldo
E espreme dois limões mais o bagaço.
Tem-de fazer do jeito como eu faço
Senão arrisca ao fim ser tudo baldo.

Nas contas lá do céu tem de ter saldo
P'ra Deus abençoar nosso cansaço.
Bebendo, estalo os beiços: -- "Geladaço!..."
E eu um copo após outro já m'esbaldo.

Fazendo assim-assado há-de dar certo.
Qualquer outro refresco nem de perto
Me mata a fome e a sede n'um só gole.

Fica a palavra dada e o arranjo feito:
Garapa preparada d'este jeito
Deixa o sujeito até de miolo mole...

Belo Horizonte - 29 11 2017

quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

ASSENTAMENTO

ASSENTAMENTO

Era roça, mas tinha ardor de luta.
Não era terra herdada, era conquista.
Pois não fora comprada a prazo ou a vista,
Ao que a sua valia era absoluta.

Por nada nem ninguém se lhe permuta
Esta terra a seus olhos tão bem-quista.
Que, tomada d'algum monopolista,
Porquanto improdutiva e devoluta...

Cabanas e roçados dão a posse
Aos homens e mulheres assentados
N'um chão regado à lágrima agridoce.

Mas sonhos pelos campos veem semeados.
E, prontos a enfrentar quem quer que fosse,
Verdejam os terrenos ocupados.

Pará de Minas - 26 12 2017

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

À NOITE

À NOITE

Escureceu e apenas vagalumes
Luzindo aqui e ali pelo caminho...
Nos longes, relampeava bem clarinho
Instantâneos de serras e seus cumes.

Em concerto ritmado nos friúmes
Acordes que nas sombras adivinho:
Dois sapos coachando e um passarinho
Responde assoberbado de ciúmes...

Nem lua nem estrelas vêm brilhar
Tão carregado o céu de nuvens grossas
Pouco antes d'um dilúvio desabar.

Libélulas chapinham pelas poças
E as corujas azulam do lugar
Co'a chuva que abençoa nossas roças.

Pará de Minas - 26 12 2017

sábado, 23 de dezembro de 2017

SOLFEJOS

SOLFEJOS

Estes sons sem qualquer significado
Além do serem sons e soarem bem,
Têm me invadido o quarto e a alma também
Vindos d'alguém algures acordado.

A melodia qu'eu tenho escutado
Não chegava a ser música, porém,
Repetia-se como mais convém
A quem do canto faz aprendizado:

-- "Dó, ré, dó, dó, ré, mi. Mi, ré, dó...
Seguia a solfejar na noite só.
E, a batucar co'os dedos, eu ouvindo.

A voz atravessava a escuridão
E acalentava em plena solidão...
Me vi quase chorando de tão lindo!

Betim - 23 12 2017

ESPÓLIO LITERÁRIO

ESPÓLIO LITERÁRIO

Deixo para depois da minha morte
A ilusão de influenciar quem quer que seja.
Resulte n'algum bem tanta peleja,
Onde o desesperado se conforte.

Afinal hão-de seguir-me o esconso norte,
Certos de que a verdade ali esteja.
E, embora eu não mereça tal inveja,
Muitos se alegrarão de tão má sorte!

Meus males serão bens de qualidade
Àqueles que buscarem, por absortos,
Aspectos de qualquer dourada idade.

Sem ter-de endireitar caminhos tortos,
Outro exemplo da estranha realidade
Da poesia viver de poetas mortos.

Betim - 22 12 2017

GENUÍNO

GENUÍNO

A par de dramaturgos e ensaístas,
Tenho procurado ouvir-me a própria voz.
E não os emular em versos sós
No afã de figurar por fúteis listas.

Não me vejo ranqueado entre os artistas
Que de antigas escritas sopram pós:
Reescrevem a fazer pouco de nós,
Furtando d'outros bem diante das vistas.

É como se escrever só fosse certo
Após subir nos ombros d'um experto
E, lá do alto, admirar nossas vidinhas.

Não importa se sou ou não de interesse;
O que escrevo, correto me parece.
Pobres as rimas? São ao menos minhas!

Betim - 23 12 2017

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

UM DESALMADO

UM DESALMADO

A vida é movimento continuado
Do ser entre se almar e desalmar.
Por pena ou humanidade, há-que encontrar
Algum discernimento mais confiado.

O mundo fez de mim um desalmado
No dia em que cessei de me importar
E a esperança deixou de ter lugar
Dentro do coração amargurado.

Com efeito, parece que minh'alma
Perdera-se-me e bem com ela a calma
Que tinha no semblante quando moço.

E o pouco ou quase nada que hoje sinto
Só lembra do que tanto me ressinto,
E tem me feito mais e mais insosso...

Betim - 19 12 2017

ESPÓLIO LITERÁRIO

ESPÓLIO LITERÁRIO

Deixo para depois da minha morte
A ilusão de influenciar quem quer que seja.
Resulte n'algum bem tanta peleja,
Onde o desesperado se conforte.

Afinal hão-de seguir-me o esconso norte,
Certos de que a verdade ali esteja.
E, embora eu não mereça tal inveja,
Muitos se alegrarão de tão má sorte!

Meus males serão bens de qualidade
Àqueles que buscarem, por absortos,
Aspectos de qualquer dourada idade.

Sem ter-de endireitar caminhos tortos,
Outro exemplo da estranha realidade
Da poesia viver de poetas mortos.

Betim - 22 12 2017

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

FIGURA DE PROA

FIGURA DE PROA

Irrompe contra as ondas o veleiro
Co'os três mastros vergados pelo vento.
Na proa, uma sereia face ao tormento,
Cantando para mar e marinheiro.

Em belíssima mulher, esse madeiro
Fora esculpido apenas com o intento
De afastar-lhes o espírito agourento,
Que aos homens rouba o sopro derradeiro.

Estes que pelo mar foram espalhando
Sua visão de mundo e sua língua,
Certos que toda luz aos poucos míngua...

Mas 'inda a ouvem cantar de vez em quando
Os versos d'uma gente navegante,
Que foi ao fim do mundo e mais avante.

Betim - 20 12 2017

CONHECENÇA

CONHECENÇA

Mas como é bom rever a ponta aguda
Depois de navegar por mar aberto!...
Saber-me do canal de novo perto,
Onde aos olhos cada angra se desnuda.

Pelos costões de pedra ir sem ajuda
Até topar co'o cabo indescoberto.
E em todo o litoral quase deserto,
Reconhecer mesmo a ilha mais miúda.

Dos rasos de arrecifes e de abrolhos
Passei ao largo pondo longos olhos
Para avistar enfim a extensa costa.

Agora é só fundear a embarcação
No estuário d'água doce d'um rincão
Onde coisa nenhuma me desgosta.

Ubatuba - 16 07 2017

sábado, 16 de dezembro de 2017

EM GRUPO

EM GRUPO

Ser mais um entre muitos ou não ser?
Eu, para bem ou mal, me tornei nós...
Mas, mesmo que tão juntos, somos sós
Às voltas com joguinhos de poder...

Em grupo, viver é sobreviver.
Como se da manada andando após
Um guepardo sempre à espreita que, veloz,
Fosse a qualquer instante surpreender.

O medo nos motiva a ir em frente
E nos reúne em torno do presente
Tal-qual peças vãs n'um tabuleiro.

Nós: Eu sou eu perdido em meio a eus!
Para fazer sentido isso, só Deus...
Ou senão outra parte sem inteiro.

Betim - 16 12 2017

ALJÔFAR

ALJÔFAR

Cintila sobre a face embevecida
Essa lágrima só de maravilha.
Assim uma mamãe e sua filha
Sorrindo d'emoção quase incontida...

Certas que assim será por toda a vida,
Pois, quanto maior o amor, mais se partilha...
E mesmo após a morte ainda brilha
Sua estrela no céu engrandecida!

Essa lágrima vale mais do que o ouro,
Visto tamanho amor o maior tesouro
Que deixam como herança para os seus.

Mas fique tal imagem registrada
Como memória sempre a ser lembrada
D'um amor semelhante ao amor de Deus.

Betim - 16 12 2017

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

ARCO-ÍRIS

ARCO-ÍRIS

Após a chuva em sol se interromper,
As nuvens, feito aguadas de cobalto,
Fazem rajar o azul por todo o alto
E o arco de sete cores aparecer.

No estio vêm alegres de se ver
Quando até mesmo o sol de luz é falto
E seus raios refratados dão um salto
Para em meus olhos virem se perder.

Cores dentro da luz, revelação
Da íntima natureza da energia
Vista como frequência e oscilação.

Por símbolo da mais pura alegria,
-- Seja d'Aliança; seja à humana união --
S'eterne, embora efêmero, em poesia.

Betim - 12 12 2017

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

LIBELO

LIBELO

Mui respeitosamente, eu vos escrevo
No sentido de ouvirdes meu clamor.
Àquele que ora acuso, em desfavor
De mim bem se fez rico e longevo.

Se enumerar seus crimes não me atrevo
É antes por repulsa que pudor.
Tal homem me causara tanto horror
A ponto d'eu pagar o que não devo.

Escrava, não esposa, tenho sido...
Em seus lábios o amor fora a mentira
Com que m'enternecera o tolo ouvido.

Ponde termo à união que ninguém vira
Em justiça acolhendo o meu pedido:
-- "Seja nulo o que em Deus não existira!"

Betim - 12 12 2017

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

MEIAS-IRMÃS

MEIAS-IRMÃS
Elas eram ainda bem pequenas;
As duas filhas d'uma só mulher.
Uma negra, mais linda que qualquer;
A outra, bela de faces bem morenas.
E embora diferenças assim plenas
Não se afastam nenhuma hora sequer:
Ambas sempre a sorrir, haja o que houver,
De sorte que tranquilas e serenas.
Filhas da Tolerância, têm dois pais:
O Respeito e o Direito. Além do mais,
Ao vê-las toda a gente já se alegra.
Precisas conhecê-las, se te apraz:
Àquela que é morena chamam Paz
Enquanto a Liberdade, sim, é negra.
Betim - 11 12 2017