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quinta-feira, 17 de julho de 2025

LÁPIDE

 LÁPIDE


Nascer, morrer… As datas e os locais.

N’isso resumem toda uma existência!

O resto se deduz com complacência

Face às obscuridades dos anais…


Passado certo tempo, nada mais

Nos faz pensar do ser senão a ausência.

Ressalte-se da rocha a resistência

Em preservar-lhe os dados essenciais.


Descansa em paz aquele que lutou

Ou simplesmente aqui testemunhou

Outro breve intervalo em meio à História.


Reste-nos tão-somente que viveu

E o havido em sua vida se perdeu

Com exceção d’esta última memória.


Contagem - 07 07 2000


terça-feira, 13 de maio de 2025

LICEU

 LICEU


Palácio do saber, a minha escola

Fez de mim quem eu sou e quem não sou;

Quem, por artes e ofícios, m’ensinou

A poetar desde quando rapazola.


Esse mal de escrever ninguém curou.

Embora julguem algo meia-sola,

O exercício da pena não descola

D’este homem que a vida me tornou.


Faço, defronte ao prédio, reverência 

Ao lembrar minha breve experiência

Pelos seus corredores juvenis.


Eu lhe deixo este poema como ex-voto,

Escrito à mão no avesso em minha foto,

De que ali, poeta e moço, fui feliz. 


Belo Horizonte - 06 01 2000 


quinta-feira, 5 de dezembro de 2024

ADICTO

ADICTO


Tanto há males que vêm lá para o bem,

Quanto bens há que vêm cá para o mal…

Mas, entre bens e males, no final,

É ver quanto convém ou não convém.


Este vício que tenho me sustém

E alivia um vazio emocional.

O bem que me permito é tal-e-qual

O mal que me aliena d’algo além.


Ter é perder — me disse alguém mais sábio —

Mas não ter é sonhar no alheio lábio

O gozo que o desejo faz querer.


E, de lá para cá, o sofrimento

É o monstro que amiúde alimento

Por algo que me dê algum prazer.


Belo Horizonte - 04 03 2000


quinta-feira, 21 de novembro de 2024

ESCRITA

ESCRITA


Não basta rabiscar a folha em branco

Para trazer ao vulgo um verso amaro.

Carece antes passar noites em claro

Entre o desassossego e o querer franco.


Apesar dos pesares, não estanco

A ferida a jorrar-me o sangue ignaro…

Antes a fustigo até o desamparo

E choro de rir feito saltimbanco.


Trata-se, sim, da noite mais escura,

Esta escrita que faço à guisa de alerta

Àqueles que me leem a vida incerta.


Possam eles se valer de tal leitura

Ao recordar-me em hora tão sombria

Até na escuridão haver poesia.


Belo Horizonte - 06 01 2000


sexta-feira, 10 de setembro de 2021

A CARTA

A CARTA


A carta que escrevi n'esse caderno

Aqui deixei por anos, escondida.

— Muita coisa difícil de ser lida… —

Enfim, só de encontrá-la me consterno.


Amor, seja infinito; seja eterno,

Não deixou senão dor em minha vida:

Ei-la aqui! Uma carta irrefletida,

Onde meu coração em desgoverno!…


Desolados, a forma e o conteúdo

Nas mal traçadas linhas d'uma escrita

De garranchos nervosos sobretudo.


Página que m'ecoou uma hora aflita…

Queda silente enfim no criado-mudo

E bem guardada d'olhos se acredita.


Betim - 23 02 2000

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

MANUSCRITO

MANUSCRITO

Guardada em letras finas no papel
A memória dos tempos pubescentes…
Havia nas palavras reluzentes
Centelhas de emoções em carrocel.

Era o silêncio explodindo em escarcéu
Pela escrita da mão aos meus repentes,
Enquanto m’explorava inconscientes,
Ao tornar literatura inferno e céu.

Com o passar dos anos as ideias
Ali contidas têm me provocado,
Qual sonho persistente irrealizado.

Pelo sim, pelo não, guardo às plateias
Insuspeitas do mundo aquele esboço
Dos versos que escrevi ainda moço.
 
Belo Horizonte - 05 05 2000

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

PRESSÁGIOS

PRESSÁGIOS

De nada valerá vigiar o abismo...
Na noite escura caio embora sábio!
Logo uma fria virgem me abre o lábio
Como se a morte um súbito egoísmo.

Apenas sei do horror do cataclismo,
Turvando-me o sentido ainda inábil.
E houvesse de antiquíssimo alfarrábio
O oráculo sinistro que ora cismo.

Nada me evitaria o azar previsto,
Ainda que soubesse a sua origem
Ou em mero cogitar saber que existo.

Mas... Essas soledades tanto afligem!
Visto que a amplidão que enfim conquisto,
É sempre estar a um passo da vertigem...

Caeté – 15 07 2000

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

O MILÊNIO

O MILÊNIO

É sabido de Deus e todo mundo,
Que o fim que se aproxima a cada dia
É o mesmo da antiga profecia,
Que mil anos d'um dia faz fecundo.

Pois, se tudo de Deus nos é oriundo,
Alguma hora para Ele voltaria
Cada criatura em cuja travessia
Procura conhecer-se mais a fundo.

Isto porque ao final de qualquer era
O bem e o mal se alternam na quimera
De compreender-se o Fado à luz d'estrelas.

Deveras bem difícil de entender
O mistério de Deus em cada ser,
Que faz todas as coisas tão  mais belas.

Betim - 07 12 2000

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

ATEMPORAL

ATEMPORAL

A memória do amor que permanece
A despeito do bem e mal vividos
Guarda-nos todo o ardor dos tempos idos,
Mesmo quando tudo o mais se esquece.

A vida passa sem que o encanto cesse,
Porque menos ou mais arrependidos
Vivemos sob o império dos sentidos
Entre o que se deseja e se conhece.

De grandes esperanças os amores
Têm ao longo dos anos nos levado
Às mesmas fantasias do passado.

Pois tanto as alegrias quanto as dores
Nos cabem na aventura desmedida
Que bem sabe por vezes ser a vida.

Belo Horizonte - 02 04 2000

sábado, 4 de fevereiro de 2017

O CÍNICO

O CÍNICO

Pela felicidade não se regre
Aquele que d'amor soube o desgosto.
Depois, em bons momentos recomposto,
No instante d'um prazer talvez se alegre.

Se não era feliz, estava alegre:
Tinha agora um sorriso no seu rosto
Mesmo tendo receios, beija com gosto,
A medo que a ilusão se desintegre.

Porque, entre estar alegre e ser feliz,
Ostenta um tipo sério, quase triste,
E ri a gargalhar de quanto existe.

Percebe que sorrir pouco condiz
Com alegria e até felicidade
Quando o amor é um sonho, não verdade.

Belo Horizonte - 05 05 2000

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

EM DEMASIA

EM DEMASIA

Pior do que recordar esse tempo ido
É ainda revivê-lo em fantasia;
Ficar pensando, sempre e em demasia,
Em tudo o que podia ou não ter sido...

O dia às vezes fica tão comprido
Qu'eu nem cuidava já do que fazia...
Se o hoje, mero amanhã de ontem, se adia,
Vivendo assim como eu tenho vivido.

Vejo tudo passar em minha mente
N'um mundo paralelo, diferente,
Todo alheio às presentes realidades.

Ao invés de viver, vivo pensando
A ponto de não ver mais onde ou quando
Existo em minhas vagas inverdades.

Belo Horizonte - 01 04 2000

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

EFEMÉRIDE

EFEMÉRIDE

Segundo alguns astrônomos do fim,
A outrora grande estrela de Belém
Nos reaparecerá, logo e também,
Vinda d'algum galáctico confim.

Previsto está seu curso, certo assim,
Em tábuas antiquíssimas do Além
De cuja profecia soube alguém,
Revelando-nos algo sempre ruim.

-- "Surgirá uma grande luz no céu..."
E o fim estará próximo de novo
Pelos números postos n'um papel!

Uma nova estelar agora trovo
Que com hora marcada e brilho fiel
Será sinal de Deus a todo o povo.

Betim - 12 12 2000

sábado, 28 de janeiro de 2017

MARÍTIMO

MARÍTIMO

Vejo o entra-e-sai de barcos da marina
Logo assim que começa a viração.
O mar quebra nas pedras do costão
E mais ao largo espraia em  areia fina.

Um d'estes que a maralto se destina
Eu lhe acompanho a só navegação,
Que busca na distância a imensidão
Na paz d'uma luz já vespertina.

Nos rasos, arrecifes mais abrolhos
Variando do turquesa ao azul profundo
Os entretons mais lindos d'este mundo.

Tal a beleza diante dos meus olhos,
Que me percebo todo sentimento
Entregue às impressões d'este momento.

Ubatuba - 02 01 2000

QUIMERA

QUIMERA

Eu, a bem da verdade, jamais disse
Que já não te quisesse ou que esquecera.
És -- metade ilusão, metade fera  --
A mulher que talvez nem existisse...

Dentro em breve, sucumbes à mesmice
E vais em busca d'outra primavera.
Quanto a mim, como quem mais nada espera,
Vivencio hoje os dias da velhice.

Sinto que me devoras sem qu'eu veja,
Se queres-me o querer que te deseja
E se entrega por ti ao que quiseres.

Baldo é... Logo de novo hás-de partir!
Mas volverás, se Deus o permitir,
Uma única mulher entre as mulheres.

Belo Horizonte - 20 02 2000

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

LINHA D'ÁGUA

LINHA D’ÁGUA

A embarcação que deixa agora o porto,
Na linha de seu casco, todo o mar
Já vem ao seu redor se nivelar
Embora haja das ondas desconforto.

Eu sigo seu flutuar um tanto absorto
Das cores em contraste a figurar
Onde as águas riscam o navegar
E após ponho sobre um verso torto.

A linha que a água faz em todo o mundo
Ao vazar os oceanos sobre as costas,
Divisa o mar e a terra ao olhar profundo.

N’ela sei eu buscar novas respostas
Que permitem ao espírito fecundo
Idear a luz em cores decompostas.

Vitória - 25 06 2000

TARUÍRA

TARUÍRA

Pequena e clara, sobe p'la parede
A lagartixa sempre amedrontada.
Penso me ver em sua só mirada
Enfim refestelado sobre a rede.

Perto, um cálice mata a minha sede
Enquanto eu acompanho outra jornada
Rastejante que empreende essa coitada
Cuja vida a mim não cheira nem fede.

É tão pequena qu'eu mal posso  vê-la
E, por discreta, é fácil esquecê-la
Camuflada n'algum reboco caiado.

Eu com ela me entendo, todavia,
Por lhe aprender mais dia menos dia
Essa arte de viver sem ser notado.

Betim - 02 07 2000

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

CÍLIOS POSTIÇOS

CÍLIOS POSTIÇOS

Se a maquiagem é máscara sobre a face,
Teus cilíos são cortinas nas janelas
D'essa alma que me ocultas e revelas
Onde desconhecida eu já te outrasse.

Certo desassossego ora em mim nasce
Ao olhar sem ver pupilas como aquelas
Que cá me surgem entre piscadelas
Como se o teu olhar o meu chamasse...

Fixo um ponto de fuga na distância
A fim-de se aplacar em mim tal ânsia
Que, magnética, atrai-me para ti.

Pois, mesmo que somente um artifício,
Deixar eu de te olhar é tão difícil,
Que chego a duvidar já do que vi.

Belo Horizonte - 23 03 2000

ARRAZOADOS

ARRAZOADOS

Não fosse o mundo todo algo tão louco
Talvez pudesse eu ser mais razoável.
Inobstante me veja um tanto instável
E que razão já tenha muito pouco...

Fumaças de esperanças eu tampouco
Ostento para além do suportável.
Na verdade era como o miserável
Que às próprias pragas tem o ouvido mouco.

Assim, depois de tanto questionar
O mundo e suas vãs contradições,
-- Sonhando cada coisa em seu lugar... --

Eu entendi que ideais são ilusões,
Que embora possam tudo após mudar
São, para o bem e o mal, também razões.

Betim - 05 03 2000

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

FOLHA DE ROSTO

FOLHA DE ROSTO

Há-de conter os nomes em caixa alta
Toda primeira folha de papel
Que abre às paixões do livro seu tropel
Quando aos olhos o título nos salta.

É quem nomina quando a capa falta,
Conquanto o conteúdo quede fiel.
E, à guisa de relíquia ou de troféu,
Mantenha cada frase em cada pauta.

Face oculta do livro, prima folha...
A que bem de primeiro e longo se olha
Pouco antes d’uma história começar.

Dê ao livro por rosto algumas letras
A fim-de que furtivos qual penetras
Possam na fantasia alheia adentrar.

Belo Horizonte - 01 04 2000

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

MANUSCRITO

MANUSCRITO

A carta que escrevi pus n'um caderno
E lá deixei por anos escondida
Uma coisa difícil de ser lida...
Enfim, só de lembrar eu me consterno.

Amor, seja infinito; seja eterno,
Jamais aconteceu em tua vida.
Só quem nada sofreu, logo se olvida
E hoje, ser insensivel é tão moderno!...

Desoladores, a forma e o conteúdo...
Tamanha a agitação, até a escrita
É a exacta expressão d'aquilo tudo.

Sim, palavra a palavra alguém me dita.
As frases passionais que guardo mudo
E sobrenatural se me acredita

Betim - 23 02 2000