Espaço para exibição e armazenamento de poemas à medida que os vou escrevendo. Espero contar com o comentário de leitores atentos e gente com sensibilidade poética por acreditar que o poema acabado não precisa ser o fim de uma experiência, sim o início de um diálogo.
sábado, 1 de junho de 2019
JOVENS N'UM MUNDO VELHO
Manifestações de rua têm se sucedido nas últimas duas semanas com o chamamento de jovens por velhos ideólogos. Sim, o mundo no qual conceitos como "esquerda, direita, extremistas e centrão" fizeram sentido é o da Assembléia que criou a República Francesa a partir das cinzas do Antigo Regime, ainda no século XVIII…
Ou seja, temos convivido com uma polarização ultrapassada em pelo menos duzentos anos como ordem do dia... Um mundo velho, caduco, de frases feitas sendo repetidas à exaustão e jovens se dividindo entre extremos ideológicos incomunicáveis. A pergunta dos Titãs permanece:-- "Quem quer manter a Ordem? Quem quer criar desordem?" -- Direitas ou esquerdas… Extremos ou centros...
Para começar o contraditório, podemos citar o próprio presidente da República, segundo o jornal O Globo ainda no dia 15 d'este mês:
"Se você perguntar a fórmula da água, não sabe, não sabe nada. São uns idiotas úteis que estão sendo usados como massa de manobra de uma minoria espertalhona que compõe o núcleo das universidades federais no Brasil"
Ou ainda o governador João Dória, acerca das manifestações conclamadas pelos bolsonaristas, no dia 19 último:
"O povo já foi à rua, já manifestou as suas posições. Consideramos como algo inútil, inadequado (as manifestações pró-Governo), estabelecendo o potencial de confronto que não é o momento".
Entre prós e contras, o Brasil tem perdido. Hoje, dia 30 de maio, novas manifestações em defesa da Educação Pública (não só a universitária) tomam as ruas de várias cidades do país. A impressão para quem olha de fora é de que os movimentos mobilizadores das manifestações correm o risco de transformar as ruas em palco de competição ideológica. A leitura "factual e pragmática" dos jornalistas tem se limitado a comparar números de participantes, de modo a municiar os analistas políticos sobre o tamanho dos respectivos "exércitos de massas de manobra" -- inúteis ou úteis, a depender de quem julga.
Ao chamar a sua militância para rua, o Governo transformou o que era uma reivindicação de classe n'um confronto ideológico, esse sim, inútil. Os problemas na Educação Pública permanecem, mas as soluções em debate deixaram de ser técnicas e passaram a ser ideológicas, de modo que propor mais ou menos recursos deixasse de ser uma questão orçamentária para se transformar n'um projeto de desinteligência nacional.
Inúteis não são aqueles que vêm às ruas com bandeiras coloridas, sim a ideologização dos discursos. Compete ao Governo esfriar os ânimos e propor ambientes institucionais para responder à sociedade. Sob pena de, dia não dia sim, assistirmos as ruas das cidades brasileiras como cenário de manifestações cada vez mais afirmativas de grupos à direita e à esquerda, do que catalisadoras de legítimas pautas nacionais.
No dia em que as datas coincidirem, com a direita e a esquerda na mesma avenida, não haverá mais debate; haverá confronto. Resta-nos -- como jovens ou nem tanto -- desmascarar os velhos manipuladores e construirmos um mundo que possamos chamar de novo…
É isso.
Belo Horizonte - 30 05 2019
sexta-feira, 31 de maio de 2019
CANTILEVER
Embora seja mísula ou balanço
A viga que avançasse no vazio,
Uns têm por cantilever: Desafio
De dar às estruturas tal avanço.
O que deverasmente não alcanço
É ter que um anglicismo tão sombrio
Se imponha na linguagem que confio
Ser isenta de dúvida e de ranço...
Apresentam palavras ignoradas
E querem que entendamos as ciladas
Do que não é atalho, sim obstáculo.
Para enfim nos impôr a ferro e fogo
Coringas que atravessam nosso jogo
Como expressões estranhas ao vernáculo!
Betim - 29 05 2019
quarta-feira, 29 de maio de 2019
PALAFITAS
PALAFITAS
Sobre estacas submersas as moradas
Da vila sobre as águas a marear:
Casas de paus e tábuas d'um lugar
Que por ora rio; ora mar, banhadas.
Canoas ao invés de vãs calçadas
Onde todos andavam a remar
Por, da vazante à cheia, acompanhar
O vai-e-vem das águas enlameadas.
O mangue e a maresia omnipresentes
No cheiro nauseabundo das manhãs
Entranhando algas e almas d'estas gentes.
E ainda que insalubres e malsãs
N'elas vêm repousar, indiferentes,
Depois de derrotarem Leviatãs.
Ilhéus - 21 07 2011
sexta-feira, 3 de maio de 2019
CAIXA DE LUZ
Tanto através dos vidros se ilumina
O salão onde baila a fidalguia,
Que igual caixa de luz a fantasia
Faz verter cores vãs sobre a retina.
Ali nem Arlequim nem Colombina,
Entregues à total patifaria,
Tirariam Pierrot d'essa agonia
Que é amar a tirana que o fascina.
As sedas que farfalham nos tablados
Abrem alas aos pares mascarados,
Bailando pela caixa luminosa.
Porém, trocam-se os pares na berlinda.
Por deixar sua bela 'inda mais linda,
Sorri Pierrot ao orná-la d'uma rosa...
Belo Horizonte - 02 05 2019
quinta-feira, 2 de maio de 2019
VALENTADA- da zoeira ao bullying
Julga-se infeliz a piada,
Que após ter sido contada
Sem fazer rir, faz chorar.
Limita o humor a risada
N'um esgar esmagada
Por fora de hora ou lugar.
Assim, a troco de nada,
Dos outros dá gargalhada
Por mais dar o que falar.
E, em face da dor causada,
Indiferente lhe brada
O que não pensa calar.
Após, de cara lavada,
Expõe seu ódio à manada,
De iconoclasta sem par.
Mas passa por voz ousada
Para arrotar valentada,
Qual fosse a plateia d'um bar.
Mais intimida que enfada,
Buscando outra temporada
Para mais se manter no ar.
E fica a pessoa errada
Tão ridicularizada,
Que ri para não chorar.
Betim - 15 04 2019
sexta-feira, 26 de abril de 2019
BH - BETIM - BH
No para-brisa do auto outro arrebol;
Outro dia que acaba em carmesim.
Vindo de Bê-Agá¹ para Betim,
Na Leste-Oeste baixo o para-sol...
Adiante paro e espero no farol:
Miro as serras nos longes do confim.
Pelo retrovisor, a noite enfim
Traz estrelas e a lua em seu lençol.
Dia seguinte contra o sol avanço.
Pela mesma autopista engarrafada,
Cego de luz, ao vão clarão me lanço.
No para-brisa do auto outra alvorada;
Outra vida que passa lá e cá...
Indo de Betim para Bê-Agá.
Belo Horizonte - 20 04 2019
¹BH, por silabismo, Bê-Agá.
terça-feira, 2 de abril de 2019
POR MOR DE
Se eu disser que é meio poeta;
Você diz que é meio pó!
Se eu disser -- "Meio soneta..."
Você diz que é meio só!
Se eu disser meio pateta
Você diz que meio sem dó:
-- "Estrofe meio incompleta…"
Eu:-- "Meia rima tão-só!"
SE EU DISSER QUE É MEIA QUADRA
ME DIGA QUE É QUADRA E MEIA
SE EU DISSER QUE É QUADRA E MEIA
ME DIGA: É MEIO QUADRÃO!-²
E se eu disser que é meio ódio;
Você diz que é meio amor…
Se eu disser que sobe ao pódio;
Você diz que é perdedor…
Se eu disser que é luz de sódio
Você diz que é de vapor
Se eu disser:-- "Meio episódio!"
Você diz que é meio autor…
SE EU DISSER QUE É MEIA QUADRA
ME DIGA QUE É QUADRA E MEIA
SE EU DISSER QUE É QUADRA E MEIA
ME DIGA: É MEIO QUADRÃO!
Se eu disser meia verdade;
Você diz meia mentira.
Se eu girar pela cidade;
Você diz que nem saíra.
Se eu disser que é roda-roda
Você diz que é gira-gira
Se eu disser cobra criada,
Você diz que é taruíra…
SE EU DISSER QUE É MEIA QUADRA
ME DIGA QUE É QUADRA E MEIA
SE EU DISSER QUE É QUADRA E MEIA
ME DIGA: É MEIO QUADRÃO!
Se eu por mor de fazer verso;
Você, por mor de inventar.
Se eu disser que é controverso;
Você diz p'ra contrariar.
Se eu por mor de andar disperso;
Você diz sequer andar…
Se eu disser meio Universo;
Você diz qualquer lugar…
E SE EU CANTO A MEIA-QUADRA
VOCÊ CANTA A QUADRA E MEIA:
DUAS ESTROFES QUADRADAS
EM SETE PÉS DE QUADRÃO!
Betim - 01 04 2019
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¹- POR MOR DE: Por causa de; em atenção a (ex.: por mor da festa, havia uma multidão na rua). = POR AMOR DE, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008–2013, https://dicionario.priberam.org/por%20mor%20de [consultado em 02–04–2019].
²- Refrão tradicional nordestino ligada a uma forma fixa repentista.