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segunda-feira, 6 de julho de 2026

EM MAUS LENÇÓIS

EM MAUS LENÇÓIS 


É a cama onde se deita 

Ou a bela dama que se ama?

Outra vez, o mesmo drama:

Sua beleza perfeita

A idas e vindas me chama!


Drama, pois, em movimento

Põe a vida com os seus erros

Apesar dos sós desterros

Lembrados a todo momento

Nas travessias dos cerros.


Outra vez, da ânsia de ter

Ir ao tédio de possuir…

Enternecido despir

A promessa de prazer

E, após, saciado partir.


Outra vez, por bem ou mal,

Buscar em alheia alcova

Alguma esperança nova

Sempre frustrada ao final

Quando o término se prova.


Fazer amor… Dentro de mim, 

Seja engano ou desengano.

Ao malograr qualquer plano.

Reste à mente, tanto e enfim,

Somente um encontro humano.


Betim - 06 01 2026

sexta-feira, 7 de novembro de 2025

A CASA DO MEU AMOR

A CASA DO MEU AMOR


Bananeiras no quintal,

Jabuticabeira em flor…

No jardim, um roseiral:

A casa do meu amor.


Uma porta e uma janela

Sempre abertas, sem pudor.

Ecoa ais de minha bela

A casa de meu amor.


Duas águas e varanda,

D'onde mira o sol se pôr.

N'alta serra, feliz se anda

À casa do meu amor.


Uma vida retirada

Onde a tarde tem sabor

De quitandas com coalhada!…

Em casa do meu amor.


Na cozinha, seu café

Fumegante de vapor…

Se tudo ali mais doce é,

Na casa do meu amor.


Sua alcova, por dossel,

Cortinado furta-cor…

Uma estrada para o céu

A casa do meu amor.


A sonhar entre lençóis,

Se lembre do meu calor:

Um sorriso de mil sóis

Na casa do meu amor!


Passo em frente, para vê-la,

– Tantas vezes? Quantas for! –

Namoradeira… À janela

Da casa do meu amor.


Lá, não se nota estranheza...

Não se rima amor com dor.

Não se fala de tristeza,

Na casa do meu amor.


Mas, se eu lhe faltar em vir,

Venham a ela em meu favor

Tais versos, por lhe sorrir,

À casa do meu amor.


Betim - 20 10 2010


quarta-feira, 31 de agosto de 2022

MÃE

MÃE 


Reza, porque o mundo é caos

E é preciso andar com Deus.

Mas vai mover terra e céus

Em meio a homens bons e maus

Para dar de si aos seus.


Ama tanto que nem sabe

Se amar tão imensamente 

Faz bem para a sua gente

Ou é carinho que não cabe

N’um coração que só sente.


É verdade que m’escapa…

É saber que não alcanço…

Tal como o rio em remanso

S’espraia nos pés da lapa,

Eu em seu colo descanso.


Cuida de tudo e de todos 

Pois que amor não s’entesoura.

Antes, guardado desdoura

Ou se perde com engodos

De quem, mesquinho, lhe agoura.


Não ama sem mais findar,

Mãos-largas, por extremosa.

Sim cumpre a sina da rosa,

Que despetala ao deixar

Sua essência perfumosa.


Betim - 30 08 2022

quarta-feira, 24 de agosto de 2022

À MANHÃ SEGUINTE

Ressábio em taças vazias,
Garrafas pelo tapete…
Fantasias e confete
De passadas alegrias:
A rainha mais o valete
Despem-se manto e colete…!

Pálida, a luz matinal
Suavemente se derrama
Sobre os lençóis pela cama,
Onde o desnudo casal
— um varão e sua dama —
Ensaia amorosa trama.

Pela beleza da fêmea
O prazer tão prometido:
A nádega à mão — “Querido!
Faz logo inveja à gêmea…”

Outro carinho atrevido;
Outro prazer desmedido.

Amantes regozijados,
Se vê em seu repousar:
Enfim o ardor dar lugar
À languidez dos ousados,
Ora entregues ao desfrutar
De ser amado e de amar

Tudo, porém, tem final:
A alvorada traz o dia!
Em face da hora tardia,
Mal se despede o casal,
A disfarçar toda a orgia
D'aquela noite vadia.

Belo Horizonte - 07 08 2022


terça-feira, 9 de agosto de 2022

DE TUDO UM POUCO

 DE TUDO UM POUCO


Sou tudo aquilo que admiro,

Mas também o que condeno.

Às vezes, insone ao sereno,

Plenamente dou um giro

E aeroplano terrapleno…


Roubei o fogo dos deuses

Mais o amuleto dos reis!

Para o arrepio das leis

Tenho empenhado enfiteuses

De terras de alheias greis.


Sou um louco para os sãos

E um santo para os devassos.

Alguém de meios escassos

Que habita entre os desvãos

De ainda impossíveis paços!


Às vezes bom sendo mau,

Pois que faz mal querer bem…

Sou tudo o que me convém:

Quem nada nunca de igual

Está contido e contém!


Entre ser e ter, viver!

Entre tudo e nada, o sonho…

Seja eu alegre ou tristonho

Um pouco de tudo a ver

E me pôr no que componho!…


Betim - 08 08 2022





sexta-feira, 8 de abril de 2022

SEPULTO

 SEPULTO 

 

Corpo dado à terra; 

Alma dada aos céus! 

Vão-se anéis; troféus...  

Resta o que s'enterra.

 

Ora a sete palmos,

Entregam-no a Deus

E ao pranto dos seus,

Morto, escuta salmos.

 

Amigos e amores

Recordam-lhe a vida,

Dando em despedida

Coroas de flores.

 

Nada d'isso importa

Senão aos que ficam

E na cova indicam,

De seu fim, a porta.

 

E a lápide diz

Concretada a laje,

Como se um ultraje:

"Eis outro infeliz!".

 

Belo Horizonte - 11 11 2021

 


quinta-feira, 18 de junho de 2020

TABUADA

TABUADA

Quantas vezes eu fui eu?
E quantas tantas não fui?...
Qual colunata que rui
Em templo que se perdeu
Quanto a memória dilui:

Tábua de números vãos,
Minha vida é repetir
Várias vezes no existir
Nos dedos de minhas mãos,
Contando cada devir. 

Fui quem eu tinha-de ser;
Sou quem soube me tornar.
Tabela a se decorar,
Conto até não mais poder
Quanto fiz multiplicar.

Aritmético, eu me vejo
Sempre em conflito comigo:
Vezes ou versus, persigo 
Meu ser imerso em desejo
Sem nunca encontrar abrigo.

Pois recito, igual rosário,
Os números encontrados!
Como se mantras sagrados
Mudassem destino vário
Com os mesmos resultados...

Betim - 17 06 2020

segunda-feira, 11 de maio de 2020

VISTAS GROSSAS

VISTAS GROSSAS

Vejo, mas finjo que não.
Olho, mas foco o vazio.
Para o lado o olhar desvio;
Para cima ou para o chão
Para não ver um vadio...!

Sua simples existência 
Me causa tal destempero,
Que, à beira já do entrevero,
Simular-lhe a falsa ausência 
É tudo quanto tolero.

Sim, olho para não ver
E evitar o que aborrece.
Pois, mais males se padece
Em ver o que não se quer
Do que quem se desconhece.

Enquanto fala eu caminho;
Como não fosse comigo,
E eu indiferente sigo
Na graça de estar sozinho
Mesmo ao lado do inimigo. 

Vistas grossas pois nubladas
De lágrimas não vertidas...
Muito embora parecidas,
Ambas perdidas miradas:
Muros entre nossas vidas.

Betim - 09 05 2020









sábado, 11 de abril de 2020

MISCELÂNEA

MISCELÂNEAS

N'um caldeirão cultural,
Tenho misturado gostos.
Entre locuções, apostos,
Vírgula e ponto final,
Escrevo meus desgostos.

Mestiço, aliás, o meu jeito
Já é algo meio a meio...
Verbalizar me é o anseio
Posto à conta do sujeito
Que, oculto, deixo alheio.

De vera, proseio; poeto.
Escrevo sobre o Japão
Ou sobre o meu coração
Com mesmo assombro repleto
De vã imaginação.

Mas cozinho em fogo brando
Esse sopão revirado
Que, de letras adornado,
Vos sirvo de vez em quando,
Ao lume bem temperado.

Se vós de letras gostais,
Do caldeirão a servir,
Um pouco de tudo a vir
Para provar sempre mais:
É favor m'o repetir!

Betim  - 11 04 2020

sábado, 4 de abril de 2020

A BOM ENTENDEDOR

A BOM ENTENDEDOR 

Como diz o outro (e eu concordo!):
-- "Escuta quando alguém fala,
Mas mais enquanto se cala..."
De vera, às letras abordo,
Falando de minha fala.

Língua, por assim dizer,
É tudo o que absoluto
Leio, escrevo, digo e escuto
Tão-somente a compreender
Onde o ritmo dissoluto.

Se um pingo for mesmo letra,
Só um ai diz quase tudo...
É melhor do que ser mudo
Ver até onde penetra
Quando o ouvido mais agudo.

Embora vernacular
O acento de quanto digo,
Cada verso que persigo
É escrito a se falar
Com o sotaque do amigo.

Porque o leitor o reescreve
Assim que me põe na boca
A palavra antes tão oca
Pelas vivências que teve
Em tudo que a língua toca.

Como diz o outro (e eu concordo!):
-- "Escuta quando alguém fala,
Mas mais enquanto se cala...
De vera, às letras abordo,
Falando de minha fala.

Betim - 10 09 2015

quarta-feira, 1 de abril de 2020

EU E MINHA SOMBRA

EU E MINHA SOMBRA

Na hora dourada do poente,
Quando tudo é luz e brilho,
O sol n'água faz seu trilho:
Bola de fogo esplendente,    
Onde caminho andarilho...

Súbito senti, porém,
Comigo alguma presença...
Embora não tenha crença
Em coisas d'aquém ou além,
Perscrutei a tarde imensa:

Tão comprida minha sombra
A alongar-se atrás de mim...!
Tão extensa era por fim,
Que inusitada me assombra
A caminho do jardim. 

Sorri ao sol que partia:
Ao me ver assim sozinho
Caminhar pelo caminho
Fez fazer-me companhia
Essa sombra que adivinho!

De facto, a mim bem pregada,
Sem expressão nem careta,
A sombra é forma completa.
Pois, ela era sem ser nada
Além de minha silhueta.

Vi andando ao sol se pondo
Minha sombra me seguindo.
Tudo pareceu mais lindo:
Nem pergunto nem respondo,
N'ela sei me despedindo...

Betim - 01 04 2020

sexta-feira, 13 de março de 2020

EU E TODO MUNDO

EU E TODO MUNDO

Ninguém é feliz.
Tudo é desencanto
Face ao próprio pranto.
Ou como o outro diz:
-- "Cada um no seu canto
Que chore seu tanto!"

Bilhões de chorões
P'los confins do mundo.
Mirando o profundo,
É como o outro em senões:
-- "Cada um lá no fundo
Nasce moribundo!"

Ricos, pobres, todos...
Vivemos morrendo.
Eu só não entendo
Os tempos e os modos!
-- "Cada um vive sendo
Ao avesso estupendo!...

Se faz o que quer;
Se diz o que pensa;
Não faz diferença
Se homem ou mulher:
-- "Cada um se convença
Ser a vida imensa...

Mas só fica o nada,
Sem sentido algum...
E o lugar-comum
É a encruzilhada:
-- "Cada um é cada um;
Ninguém é nenhum.

Logo o olho arregala
Face à dor que aflora
De dentro p'ra fora
Ou como o outro fala:
-- "Cada um tem sua hora...
Se um ri o outro chora!...

Betim - 11 03 2020





sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

UM PÉ D'ÁGUA

UM PÉ D'ÁGUA

Invernou… Chove na roça.
Melhor tomar uma pinga
Quando a quarta s'endominga
E o dia anoitece em poça
De goteira que respinga!…
Mais do que pobre na chuva
Clamo contra os elementos
Pelos terríveis momentos,
Sem capa, galocha e luva,
Enfrentando os quatro ventos.

Trotava n’uma égua baia
De marcha um tanto ligeira
Mesmo n’aquela lameira:
Vinha n’um caia-não-caia;
N’um sobe-e-desce ladeira…
Enquanto a tarde baixava,
Eu e a égua à beira-rio
Fomos tinindo de frio,
Pois tanto sob chuva brava
Quanto sob vento bravio.

Longe avisto a propriedade
De gente rica e importante.
O dono andava distante
N'alguma distante cidade…
Sem família pela herdade,
Ninguém me vê no aguaceiro.
E eu… Vejo selas de couro,
Mais duas esporas de ouro
Junto à tulha do caseiro
Penduradas qual agouro…

Chego encharcado à varanda
E a estranhos peço pousada.
Ciosos de tão má jornada,
Tão-logo  a chuva se abranda,
Me levam a outra morada
Onde abrigado eu pernoite…
A chuva não dava trégua
Até que, légua após légua,
N'um rancho no antro da noite
Enfim amarrei minha égua.

Despeço-me do caseiro
Que por guia me trouxera
Àquela extrema tapera
Pr'os lados d'algum pesqueiro
Onde a escuridão impera…
Logo ajeito meus trastes
E me deito cerca ao fogo.
N'uns goles de cana afogo
Da solidão os contrastes
Do azar no amor e no jogo.

Depois de cear solitário
-- Mandioca e linguiça fritas--
Recordei minhas desditas
N'esse Fado obscuro e vário
Prenhe em passagens aflitas…
Lá fora, a chuva constante
Amaina e volve em pancadas.
E o mundo tão mais distante
Quando escutei as passadas
D'alguém pela noite errante:

-- "Ôoo de casa!"-- disse o estranho
-- "Ôoo de fora!" -- respondi
Foi se aprochegando ali
E na caneca d'estanho
Logo da pinga servi.
Ele não fez cerimônia:
Bebeu e comeu à farta,
Falou sem mais parcimônia
E, diante de minha insônia,
Mostrou-me enfim uma carta…

"A quem interessar possa,
O portador da missiva
Serviu comigo na activa
Das armas da força nossa…"
Sentados n'aquela choça
Nos fins dos confins do mundo
Passávamos por senhores,
Imersos em bons lavores,
Mesmo que dois vagabundos,
Pedindo alhures favores…

O outro, coletor de raízes,
Andava na mata virgem,
Ostentando nobre origem,
Sobre fundas cicatrizes
E farrapos de lentigem…
Costumado àquele rancho,
Se abrigava da invernada
Até volver para a estrada,
Tomando-se caminho ancho
Que desse em feira afamada.

Era chuva que Deus dava
Alta noite, às bategadas…
Das canecas emborcadas
'Pós que a língua tilintava
Nas bocas emborrachadas.
Meu visitante animado,
Contava causo após causo,
Quando, do nada, lhe pauso
E lh'envido, desafiado,
Uma prova de arrojo e auso:

-- "D'aqui à vila são horas
Debaixo de chuva e vento.
Na borda do mato, intento
Correr trilhas em desoras
E trazer da tulha esporas
Da fazenda dos maganos
Que me deram por retiro
Esta cova de vampiro…
Este abrigo de mundanos…
Onde revolto suspiro."

Foi dito e feito: Peguei
Meu poncho 'inda molhado
E saí a pé pelo eirado
Até que à estrada voltei
De novo todo encharcado.
Andando feito  infeliz
Curvado em chuva pesada
Sem ver na névoa cerrada
Mais que um palmo do nariz
Seguia por rumo a estrada.

Mas os céus, indiferentes,
Por sobre justos e injustos,
Se derramava entre sustos
A meus passos delinquentes…
Mais açoitando os arbustos
E as palmeiras recurvadas,
Em saraiva ora o aguaceiro
Enlameia o trecho inteiro,
Engrossando as enxurradas
Enquanto andava ligeiro.

No baixio, feito enchente
Passava acima da ponte
Um corguinho cuja fonte
Lacrimava tão-somente,
Agora, aqui bem defronte,
Em rio de correnteza
Se via afinal mudado…
Ao muro da ponte atado
Fui, sem susto nem reza,
Atravessar ao outro lado.

Logo eu topei a fazenda
Onde pedira licença.
A minha raiva era imensa!…
O meu rancor era lenda!…
Passei detrás da despensa
Sem ouvir cachorro ou gente
E na tulha penduradas
Vi as esporas douradas,
Que cobicei plenamente
Há poucas horas passadas.

Peguei com algum esforço
Sem ver nem ouvir viv'alma.
Decerto, com muita calma
(Porém sem nenhum remorso),
Pela alameda de palma
Chego à porteira em paz.
E volto por rumo ao rio
Que enchera todo o baixio.
Deixando as águas atrás,
Passo a ponte por um fio!…

Já amanhecia quando
Avistei o rancho de pesca
A brisa até correu fresca
Face ao sítio miserando
N'aquela grota grotesca.
O sol nascia no outeiro
E a chuva enfim dava trégua!
Contudo, meu companheiro
Foi sem deixar paradeiro
E nem rastro de minha égua…

Entrei no rancho aturdido
Sem saber o que fazer:
Aonde foi s'esconder
Não podia ser seguido…
Só na mesa pôde ver,
A carta mostrada então!…
Pegando o papel, aflito,
Havia no verso escrito:
"Ladrão que rouba ladrão…

Betim - 14 02 2020

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

NEM MAIS NEM MENOS

NEM MAIS NEM MENOS

O que sei é o que sou.
Não, eu nunca me limito:
Raio em fuga ao infinito;
Trovão que na noite ecoou...
Mais audaz do que bonito!

O que sou é o que sei.
Sim, aprendi a aprender
E escrever para me ler.
Se nem súbdito nem rei,
O melhor que posso ser.

Betim - 12 02 2020

terça-feira, 31 de dezembro de 2019

TERRA A TERRA

TERRA A TERRA

MOTE:
Sem saber onde nem quando,
Cuido que em fúria desabes:
-- "Guarda contigo o que sabes
E faz agora o que mando!"

GLOSA:
Se a pessoa é sempre certa
Pensa nunca estar errada...
Assim nunca aprende nada:
O que estraga, não conserta;
O que fala nunca é brando.
Tudo o que faz é mais guerra.
N'um discurso terra a terra,
Sem saber onde nem quando.

Sua fala é já de briga.
É sua voz, com certeza,
Que prevalece na mesa...
Qualquer outra é inimiga:
-- "Valha-me Deus que te acabes
Antes que o dia termine! --
Falo sem que me amofine:
-- "Cuido que em fúria desabes..."

Entre o sábio e o bem-nascido
Se distingue a tolerância...
Dando lições de ignorância,
Por si mesmo é convencido:
-- Em meu saber tu não cabes!
Meu pensar tu não alcanças!" --
 Enfim, sem esperanças: 
-- "Guarda contigo o que sabes!"

O saber da Autoridade
Imposto é pelo mais forte.
Mas nem é saber; é sorte:
É nascer com nome e herdade!
No mais, ter voz de comando
A humilhar quem lhe contesta
Com ar de metido à besta:
-- "E faz agora o que mando!"

Betim -  13 12 2019

quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

PARADIGMÁTICO

PARADIGMÁTICO

Eu sou o melhor que posso
Jamais quem devia ser.
Talvez não vá merecer
Senão outro olhar insosso
Face ao que tento escrever.
Todavia, sigo o exemplo
Dado pelos poetas mortos:
Manter-se d'olhos absortos
Nas retidões que contemplo
Em meus caminhos tortos...

Seguir o ritmo incorrupto
D'estas frases bem medidas,
Mais as rimas conhecidas
Pelo fluir ininterrupto
Das poesias admitidas
No Parnaso Lusofônico!...
Sim, pelos poetas d'antanho,
Entre sozinho e estranho,
Eu me fizera anacrônico,
Tendo em seus versos mais ganho.

Ainda que incompreendido
Em face de meus escritos,
Eu penso que mais bonitos
E mais cheios de sentido
Quando miram infinitos
Para acercar-se do humano...
Sem mais razões para haver,
Versos são vãos onde ser!
Já não tenho qualquer plano
Senão escrever a quem ler.

Sejam-me, pois, paradigmas
As formas fixas antigas,
Quer de esquecidas cantigas;
Quer de insondáveis enigmas.
Pois mesmo que com fadigas
E muito incertos aplausos,
Continuo olhando para cima
Tendo aos antigos estima:
Eu sigo a contar meus causos
Com bons metro, ritmo e rima!

Betim - 04 12 2019

sábado, 16 de novembro de 2019

OBSERVADORES

OBSERVADORES

Pessoas que sonham pouco
Não raro não fazem nada,
Pois vivem na encruzilhada:
Direita? Esquerda tampouco!
Sem elas prossegue a estrada...

Veem os outros s'estrepando
E dando co'os burros n'água!
Se não têm paixão, nem mágoa.
Só observam onde e quando,
Rio, o desejo deságua...

Distante, acontece a História:
Reis, sistemas, sucessões,
Guerras e revoluções:
Homens em busca de glória
A conduzir as Nações!

Todos passam, entretanto,
Enquanto eles olham de lá
Satisfeitos de quanto há
N'este mundo em desencanto
Onde a História não está.

Pois permanecem parados,
Certos de estarem mais certos.
Entendem-se como expertos
E os demais como enganados,
Face a seus olhos despertos.

Mas estar certo não basta
Quando há um mundo a mudar.
Mais perde por esperar
Quem diante de etnia ou casta
Aceita outrem prejulgar.

Ou tolera os privilégios 
Dos que vivendo de rendas
Ao longo de suas contendas
Arvoram-se homens egrégios
Como se mitos ou lendas.

Pretendem ser imparciais 
Quando são só impresentes...
Passam por indiferentes,
Analisando os demais,
Mas por coloridas lentes!

Sim, pois há conveniências
Em se ignorar dos tiranos
As sombras de seus enganos
À margem das consciências
Sobre os direitos humanos.

Ou ainda s'emudecer
Diante das contradições
Que vêm gerando exclusões
Para mais prevalecer 
Sobre as pessoas, cifrões!

Quanto elevam, entretanto, 
Logo derrubam também...
À glória quem a sustém
E ao vencedor o seu canto!
-- Mais tudo que lhe convém...

Assim assistem o mundo
Como fosse um espetáculo
Onde o herói segue o oráculo
A superar sem segundo
Obstáculo após obstáculo!

São plateia, nunca palco.
Onde ora aplauso; ora vaia,
Àquele que sobressaia.
Té' que encanecido e glauco
Do Poder Supremo caia...

Observam, em todo caso,
Todas as dores do mundo,
Seguros de que no fundo
Vivamos todos ao acaso
N'um planeta moribundo.

E entretidos co'a verdade
Comprometem-se com nada,
Apenas passam da idade
Assistindo a Humanidade
Lá de sua encruzilhada.

Betim - 15 11 2019

sábado, 19 de outubro de 2019

APRENDIZADO

APRENDIZADO

O que sei e o que não sei
Resulta no que aprendi.
Na escola de cor ouvi
Cada rio e cada rei,
Que logo após esqueci.

Mas aprendi a aprender...
Isto é que é mais importante:
Buscar para cada instante
Quanto precise saber
Para entendê-lo pensante.

Pois conhecer e pensar
As duas faces do estudo.
Sábio não é saber tudo,
Sim o saber procurar
A ver o obscuro desnudo.

A verdade não é crença,
Tampouco o que se deseja.
Saber o que quer que seja,
Se se aceita, não se pensa,
Embora em livros se veja.

Se aprendo desconfiado,
Testando a todo momento.
É que tudo já pensado
Para ser conhecimento
Antes foi aprendizado.

Betim - 19 10 2019












segunda-feira, 14 de outubro de 2019

MARASMO

MARASMO

O tédio te invade, poeta,
Nas cinzas do teu cigarro.
Teus vagos olhos de esteta
Veem a tristeza concreta
Nas flores murchas d'um jarro...
Escreves senão ao escarro
D'uma plateia seleta
Que anseia, desinquieta,
Tanto o novo que o bizarro
A suas vidas sem meta.

Não lamentes as ingratas,
Que tão volúveis te afagam.
Tampouco o afã de magnatas
Que em meio a vãs serenatas
D'aguardente s'embriagam...
Tuas pegadas se apagam
Entre pessoas cordatas,
Que a bazofiar bravatas
Tonteiam e após t'esmagam 
Como fazem às baratas!...

As angústias que partilhas
Lhes entretêm os serões...
Tuas grandes maravilhas
Se apequenam nas cartilhas
Dos que não têm opiniões.
Obscurecem-te os clarões
Entre intrigas peralvilhas
A buscar senão senões
D'estas rudes redondilhas.

Corre os olhos pelas linhas
E apura o teu versejar!...
Faz d'estas horas sozinhas
Mais estrofes comezinhas
Para alheios embalar...
Traz um imenso luar
Para as novas carochinhas
Que bem ou mal adivinhas
Onde as rimas dão lugar
A novidades mesquinhas...

Porque se indústria a cultura;
As letras, outro mercado.
Nega essa tua loucura
A quem decerto assegura
D'ela fazer um legado...
Pois, nem certo nem errado,
'Inda vives à procura
Do que sublime figura:
tanto marasmo extremado
Faça-se Literatura!

Betim - 14 10 2019

domingo, 13 de outubro de 2019

NA LUZ VERMELHA

NA LUZ VERMELHA

Tinha dentes amarelos
De café e nicotina...
Seus olhos azuis, tão belos,
Decerto valem castelos,
P'lo que retêm na retina...
Onde castanhos cabelos
Luzes louras se imagina:
Já à cabeça platina
Não sem maiores desvelos
De mulher não mais menina.

Ela pede uma bebida;
Eu acendo seu cigarro.
Gargalha, desinibida,
N'uma risada comprida:
Ela bafora; eu pigarro...
Seu decote convida
E eu, saliente, lhe agarro
Louco por vê-la despida
Com uma fúria incontida.
O que se mostra bizarro...

À escada do sobe-desce
Eu lhe segui pé por pé.
Lá, contudo, me aparece
Um cornudo que padece
Das misérias da má-fé...
Diz o outro que s'entristece
E que mata e morre até!
Mas a dama o desconhece,
E logo a malta enlouquece:
-- "Pega fogo, cabaré!"

Brilha navalha na mão
E voa garrafa no ar!
A dama a chorar no chão
Parece pedir perdão
Ao corno que a quer matar.
Mas já rendido o vilão
Ela renega o chorar
E estapeia um pescoção
Na estupefacta feição
Co'os dedos a lhe marcar.

-- "Sou puta e filha da puta!
Não devo nada a ninguém.
Quem me reprova a conduta
M'expõe como dissoluta,
Dizendo-se homem de bem.
Eis o pateta em disputa
Por dama alheia, porém...
O que ninguém mais refuta
É que quem perdera a luta
Só resta dizer amém!"

E tapa depois de tapa
O corno toma da dama.
Como à malta nada escapa,
Todos riam à socapa
D'aquele pomposo drama...
E quanto a mim -- na caçapa
A bola da vez da trama --
Vencida a primeira etapa,
Ela e eu saímos do mapa
Para acabarmos na cama.

Belo Horizonte - 12 10 2019