TULIPAS NEGRAS
Especulam nas bolsas e nas feiras
Qual seja a mais valia da beleza.
Em raras flores negras, a grandeza
Alinhou-se a loucuras sem fronteiras:
-- "Cinquenta bulbos sobre sementeiras
A valer toda dívida holandesa!" --
Apregoa o senhor d'esta riqueza
Em face de nobrezas verdadeiras...
Dia após dia os preços vão subindo,
Até que a variedade cultivada
Se tornasse uma lenda d'ouro infindo.
Outros bulbos, porém, na tez chagada
Roubando de bons olhos quanto é lindo
Fizeram tal tesouro quase nada...
Betim - 03 09 2019
Espaço para exibição e armazenamento de poemas à medida que os vou escrevendo. Espero contar com o comentário de leitores atentos e gente com sensibilidade poética por acreditar que o poema acabado não precisa ser o fim de uma experiência, sim o início de um diálogo.
quarta-feira, 4 de setembro de 2019
REVIRAVOLTAS
REVIRAVOLTAS
“Na poeira do velho estradão/ Deixei marcas do meu coração / E nas palmas da mão e do pé /
Os catiras de uma mulher.”
Rolando Boldrim in “Eu, a viola e Deus”
Se um dia tu voltares, volta em paz.
Não voltes por ter medo do futuro.
Não nos cabe senão em horas más,
A angústia d’um final tão prematuro…
Mas se o passado não ficou p’ra trás,
Tampouco esse momento ainda obscuro.
Que a pretexto de andarmos sem perigos
Afasta tanto amigos que inimigos.
Não voltes porque temes triste fim!
Não voltes pelo tédio do presente!
A vida pode ser assim-assim…
Contudo, a solidão é inclemente:
Leva-nos a alegria até que, enfim,
Não haja razões p’ra seguir em frente,
Deprimindo-se o ânimo d’um jeito
Que é difícil deixar o próprio leito.
Não me tenhas como um cara-de-pau
Arrependido de erros do passado…
Sentado a t’esperar n’algum degrau
Recordo antes o ardor que, enamorado,
Em boa hora esqueço o dia mau.
Apenas em ficar bem ao teu lado.
A culpa como fardo se carrega,
À espera d’um perdão que tarde chega.
Mas, se a necessidade faz a lei,
Um estatuto inteiro escreve o amor!…
A única conclusão a que cheguei
É de que não se vive sem temor
De perder as batalhas que enfrentei
Em tratados vazios de valor:
Pouco valem papéis e seus dizeres
Quando tratam d’amores e quereres.
Dizem ser o melhor tempero a fome
Como excelente ao sono é a fadiga;
O desejo em ardor se nos consome
E d’amores a noite é boa amiga.
Tu, minha bela, tens da luz cognome.
E hoje, teu doce olhar mais se bendiga!
Luze na escuridão que me rodeia
E traze bons sabores para a ceia.
A mágoa, n’esse arfar, tão logo fuja
Nos permita o prazer e seu mistério.
Teus beijos a lavar-me a boca suja
Venham me redimir como homem sério
E me rabisque a rude garatuja
Onde te poetei fútil vitupério…
Após eu difamar teu nome aos berros,
Enfim haja perdão para meus erros!
Encontre o meu olhar o teu olhar
E a tua mão descanse sobre a minha.
Eu possa uma outra vez te acarinhar
Enquanto a tua nuca se avizinha…
Penso eu cá do teu lado sossegar
Para tu não dormires mais sozinha
Se te alcanço os favores, mais e mais,
Com sussurros abafo ora teus ais.
Aos martírios da vida não se some
O mal-de-amor de que falam os sábios,
Sim a arte de amar mais se retome
À leitura de velhos alfarrábios.
Pois quando à morte sei ser o teu nome
Que, sofregamente, hei-de ter nos lábios…
É o amor uma morte, ainda e enfim,
Se um dia tu voltares para mim.
Sobrália — 02 02 2014
terça-feira, 3 de setembro de 2019
DOS HOMENS
DOS HOMENS
"Os homens nascem e são livres e iguais em direitos. As distinções sociais só podem fundar-se na utilidade comum".
REPÚBLICA FRANCESA in Declaração dos Direitos dos Homens e dos Cidadãos
Desde que os homens andam pelo mundo,
Há quem ordene e quem seja ordenado.
Pôr em ordem é o hábito fecundo
De nós, frágeis bípedes, p'lo brado
Que ecoando nas centúrias, iracundo,
Nos fez povos ao havermos lado a lado
Seguidores d'uma única vontade,
Onde muitos sob mesma potestade.
Com efeito viver em coletivos
Tem permitido aos homens muito mais
Do que como se meros seres vivos
Vivessem como vivem seus iguais:
Escolhem d'entre si os mais altivos
E d'eles fazem entes divinais
Que reinem sobre todos afinal,
Embora para o bem ou para o mal...
Assim, quando a verdade se faz crença
Haver ou não haver já não importa.
Sem que grandes luzes os convença
Mediante uma esperança natimorta,
Se identifiquem pela diferença!
A fé na eternidade os reconforta,
Enquanto se resignam nas misérias
E desdenham do corpo as vis matérias.
Muitos pela violência de seus feitos
Lograram ter o mando de milhares
Postos em avanguardas, contrafeitos,
Ou pagando tributos seculares.
Os que pela Fortuna eram eleitos,
Dominando pessoas e lugares,
Usavam do Poder com liberdade
E depois o deixavam como herdade.
Exibiam-se ornados por coroas
Em face de vassalos humilhados
Exigindo cobrirem-no de loas,
Tanto seus actos certos como errados.
Por fim, eles dispunham das pessoas
Como se actores sobre vãos tablados
Onde todos, por cálculo ou capricho,
Seguem alheio texto ou vão cochicho...
Qualquer ordem fundada no divino
Ao querer reinar n'este e n'outro mundo
É Poder que absoluto e ladino
Governa tudo e todos sem segundo.
Decerto é alheamento tão malino
Mais faz, do nascituro ao moribundo,
Quem confundindo trono com altar
Tão-só obedecer, não cooperar.
A Realeza, a suprema distinção,
Ao revestir de Deus a monarquia
Impõe a Ordem Social por submissão
Que usualmente descamba em Tirania.
Mas súbdito se torne cidadão
Quando indivíduos contra a fidalguia:
Escravos são tão-só de seus abdômens,
Nunca d'homens mais homens do que os homens!
Pirâmides, porém, são construídas
Em cada sociedade pelas moedas...
São riquezas quem rege nossas vidas,
E atravessa às Nações em suas quedas
Para além das verdades conhecidas
Entre revoluções e labaredas:
Sob a mão invisível do Mercado
É que se ordena o povo sob o Estado.
Portanto, seja livre embora pobre
A base da magnífica arquitetura
Que s'ergue diariamente d'ouro e cobre
E adquire, indiferente, mais altura.
Até que essa excessiva carga sobre
Solape a metafórica estrutura
Co'o rearranjo das bases e dos cumes
Para com novos pares, novos numes...
Haverá verdadeira Liberdade
Aos homens que se iludem pelo engano?
Quando entenderão que na Igualdade
Se livram de qualquer divino plano?
Que apenas com fraterna humanidade
A união que dá força ao ser humano
Transforme sua acção em meio a História
Sem deuses nem heróis em sua glória!
Dos homens, o que s'espera é consciência.
Já basta de inverdades convenientes
E de belas mentiras p'la existência --
Explicações covardes; coniventes --
Submetam realidades à Ciência,
Jamais a outros achismos complacentes.
De modo que, também por discordância,
Se possa argumentar com tolerância.
Sejam, deveras, livres porque iguais.
Não escravos de suas diferenças,
Que só faz com que queiram mais e mais
Em lugar de sanarem desavenças
Ou rastejando em busca dos ideais
Se percam de presentes e presenças
Por futuros pretéritos perfeitos
Entre sós labirintos de conceitos.
Essa Ordem capaz de nos reunir
É a força e a fraqueza das pessoas:
Juntos, os homens devem discernir
E haver coisas tão úteis quanto boas.
Ou senão, como impérios a decair,
Mais combater por cruzes ou coroas...
Regras haja a ordenar como vivemos
E impedir que uns aos outros nos matemos!
Poderes são por homens exercidos
E devem, para o bem da Humanidade,
Por concordância às regras submetidos
E nunca por temor à potestade.
Aqueles que governam, escolhidos,
Jamais se arvorem outra qualidade
Senão servir a todos igualmente,
Dando lugar no tempo competente.
Queiram os homens ter por objetivo
O próprio bem-estar tido em comum.
Que o anseio d’haver-se são e vivo
Não faça negar vida a sequer um.
Ao contrário, se mostre compassivo
Inclinando-se sem desdém nenhum:
Conviver é o chamado mais profundo
Desde que os homens andam pelo mundo...
Belo Horizonte - 30 08 2019
"Os homens nascem e são livres e iguais em direitos. As distinções sociais só podem fundar-se na utilidade comum".
REPÚBLICA FRANCESA in Declaração dos Direitos dos Homens e dos Cidadãos
Desde que os homens andam pelo mundo,
Há quem ordene e quem seja ordenado.
Pôr em ordem é o hábito fecundo
De nós, frágeis bípedes, p'lo brado
Que ecoando nas centúrias, iracundo,
Nos fez povos ao havermos lado a lado
Seguidores d'uma única vontade,
Onde muitos sob mesma potestade.
Com efeito viver em coletivos
Tem permitido aos homens muito mais
Do que como se meros seres vivos
Vivessem como vivem seus iguais:
Escolhem d'entre si os mais altivos
E d'eles fazem entes divinais
Que reinem sobre todos afinal,
Embora para o bem ou para o mal...
Assim, quando a verdade se faz crença
Haver ou não haver já não importa.
Sem que grandes luzes os convença
Mediante uma esperança natimorta,
Se identifiquem pela diferença!
A fé na eternidade os reconforta,
Enquanto se resignam nas misérias
E desdenham do corpo as vis matérias.
Muitos pela violência de seus feitos
Lograram ter o mando de milhares
Postos em avanguardas, contrafeitos,
Ou pagando tributos seculares.
Os que pela Fortuna eram eleitos,
Dominando pessoas e lugares,
Usavam do Poder com liberdade
E depois o deixavam como herdade.
Exibiam-se ornados por coroas
Em face de vassalos humilhados
Exigindo cobrirem-no de loas,
Tanto seus actos certos como errados.
Por fim, eles dispunham das pessoas
Como se actores sobre vãos tablados
Onde todos, por cálculo ou capricho,
Seguem alheio texto ou vão cochicho...
Qualquer ordem fundada no divino
Ao querer reinar n'este e n'outro mundo
É Poder que absoluto e ladino
Governa tudo e todos sem segundo.
Decerto é alheamento tão malino
Mais faz, do nascituro ao moribundo,
Quem confundindo trono com altar
Tão-só obedecer, não cooperar.
A Realeza, a suprema distinção,
Ao revestir de Deus a monarquia
Impõe a Ordem Social por submissão
Que usualmente descamba em Tirania.
Mas súbdito se torne cidadão
Quando indivíduos contra a fidalguia:
Escravos são tão-só de seus abdômens,
Nunca d'homens mais homens do que os homens!
Pirâmides, porém, são construídas
Em cada sociedade pelas moedas...
São riquezas quem rege nossas vidas,
E atravessa às Nações em suas quedas
Para além das verdades conhecidas
Entre revoluções e labaredas:
Sob a mão invisível do Mercado
É que se ordena o povo sob o Estado.
Portanto, seja livre embora pobre
A base da magnífica arquitetura
Que s'ergue diariamente d'ouro e cobre
E adquire, indiferente, mais altura.
Até que essa excessiva carga sobre
Solape a metafórica estrutura
Co'o rearranjo das bases e dos cumes
Para com novos pares, novos numes...
Haverá verdadeira Liberdade
Aos homens que se iludem pelo engano?
Quando entenderão que na Igualdade
Se livram de qualquer divino plano?
Que apenas com fraterna humanidade
A união que dá força ao ser humano
Transforme sua acção em meio a História
Sem deuses nem heróis em sua glória!
Dos homens, o que s'espera é consciência.
Já basta de inverdades convenientes
E de belas mentiras p'la existência --
Explicações covardes; coniventes --
Submetam realidades à Ciência,
Jamais a outros achismos complacentes.
De modo que, também por discordância,
Se possa argumentar com tolerância.
Sejam, deveras, livres porque iguais.
Não escravos de suas diferenças,
Que só faz com que queiram mais e mais
Em lugar de sanarem desavenças
Ou rastejando em busca dos ideais
Se percam de presentes e presenças
Por futuros pretéritos perfeitos
Entre sós labirintos de conceitos.
Essa Ordem capaz de nos reunir
É a força e a fraqueza das pessoas:
Juntos, os homens devem discernir
E haver coisas tão úteis quanto boas.
Ou senão, como impérios a decair,
Mais combater por cruzes ou coroas...
Regras haja a ordenar como vivemos
E impedir que uns aos outros nos matemos!
Poderes são por homens exercidos
E devem, para o bem da Humanidade,
Por concordância às regras submetidos
E nunca por temor à potestade.
Aqueles que governam, escolhidos,
Jamais se arvorem outra qualidade
Senão servir a todos igualmente,
Dando lugar no tempo competente.
Queiram os homens ter por objetivo
O próprio bem-estar tido em comum.
Que o anseio d’haver-se são e vivo
Não faça negar vida a sequer um.
Ao contrário, se mostre compassivo
Inclinando-se sem desdém nenhum:
Conviver é o chamado mais profundo
Desde que os homens andam pelo mundo...
Belo Horizonte - 30 08 2019
segunda-feira, 2 de setembro de 2019
APÓCRIFOS
APÓCRIFOS
Os covardes costumam não ter nome;
Escondem-se por trás de maus escritos
A propagar mentiras para malditos
Virem no ódio matar a sua fome.
Essa raiva ancestral que lhes consome
Faz com que, como títeres aflitos,
Se movam ao redor de monolitos
Na adoração a um deus de pedra-pome...
Orgulhosos da própria estupidez,
S'elevam como reis dos ignorantes,
Sem ninguém a imputar quanto se fez.
Vêm gargalhar de todos após e antes
Certos de mais lucrarem da escassez
Com toda a indiferença dos pedantes.
Contagem - 01 09 2019
sábado, 31 de agosto de 2019
DUAS E DOIS (poliamoroso)
DUAS E DOIS (poliamoroso)
A que horas os amores vão além?
Não veem em meio à tanta solitude
Só desejar em vão que alguém ajude.
Enquanto os esperavam como um trem.
Sem horas nem minutos vão e vêm
Como se dois casais em inquietude:
Certos de que a verdade os desnude,
Um encontro marcado agora têm.
É hora de trocarem-se carícias
Transportados aos campos de delícias
D'onde se lhes emana leite e mel.
No afã de se amarem sendo amados
Permitam-se encontrar, enamorados,
N'outros braços o gozo mais fiel...
Belo Horizonte - 31 08 2019
A que horas os amores vão além?
Não veem em meio à tanta solitude
Só desejar em vão que alguém ajude.
Enquanto os esperavam como um trem.
Sem horas nem minutos vão e vêm
Como se dois casais em inquietude:
Certos de que a verdade os desnude,
Um encontro marcado agora têm.
É hora de trocarem-se carícias
Transportados aos campos de delícias
D'onde se lhes emana leite e mel.
No afã de se amarem sendo amados
Permitam-se encontrar, enamorados,
N'outros braços o gozo mais fiel...
Belo Horizonte - 31 08 2019
DESESCRITA
DESESCRITA
Pior que desdizer, desescrever
Me tem sido um anseio tão urgente
Que, tão-logo pontuo reticente,
Questiono se de facto deve ser.
Um mal menor nos falhos há-de haver
Quando estes se dão conta de repente
Dos absurdos que têm à sua frente
Antes que algum incauto logre ler.
Mas se não me assevero do malfeito
Despisto a explicá-lo d'algum jeito
Mesmo que expresse inútil do que quis.
Passo por distraído ou descuidado,
Enquanto um outro verso mal traçado
Vem a lume n'um átimo infeliz...
Contagem - 30 08 2019
Pior que desdizer, desescrever
Me tem sido um anseio tão urgente
Que, tão-logo pontuo reticente,
Questiono se de facto deve ser.
Um mal menor nos falhos há-de haver
Quando estes se dão conta de repente
Dos absurdos que têm à sua frente
Antes que algum incauto logre ler.
Mas se não me assevero do malfeito
Despisto a explicá-lo d'algum jeito
Mesmo que expresse inútil do que quis.
Passo por distraído ou descuidado,
Enquanto um outro verso mal traçado
Vem a lume n'um átimo infeliz...
Contagem - 30 08 2019
sexta-feira, 30 de agosto de 2019
JUNCAL
JUNCAL
Lá pelos baixios onde se forma o rio
No meio das raízes a água mina
E verte por sob a ponte, cristalina,
Em lagrimal ligeiro ao serro frio.
Estendem-se em verdura e desvario
Os juncos alagados na retina
A ignorar a que bem que se destina
Tanta beleza em sítio tão sombrio...
Miro, remiro e admiro: Luz brejeira!
E, longe, o sol se põe de tal maneira,
Que mal se pode crer senão em Deus.
Cada junco se inclina em reverência
Enquanto o vento leva sem violência
Um ângelus de paz dos lábios meus.
Betim - 29 08 2019
Lá pelos baixios onde se forma o rio
No meio das raízes a água mina
E verte por sob a ponte, cristalina,
Em lagrimal ligeiro ao serro frio.
Estendem-se em verdura e desvario
Os juncos alagados na retina
A ignorar a que bem que se destina
Tanta beleza em sítio tão sombrio...
Miro, remiro e admiro: Luz brejeira!
E, longe, o sol se põe de tal maneira,
Que mal se pode crer senão em Deus.
Cada junco se inclina em reverência
Enquanto o vento leva sem violência
Um ângelus de paz dos lábios meus.
Betim - 29 08 2019
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