sexta-feira, 25 de novembro de 2022

A QUE ME DEIXA

A QUE ME DEIXA

Uma mulher me veio em meio ao sonho:

Dizia que me amava, mas partia.

E eu, tomado de estúpida apatia,

Segui de longe seu andar tristonho. 


Desperto de cenário tão bisonho,

A recordar-me a imagem que fugia: 

O porte senhoril, a face esguia...

À luz, seus olhos baixos recomponho.


Mas não fixei seu rosto, coisa alguma.  

Sequer soube d'um nome a ter chamado,

Se todas as mulheres e nenhuma.

 

Era ela um recordar, porém, sonhado; 

Alguém que à minha mente desarruma...

Aquela que me deixa em meu passado.


Belo Horizonte - 07 09 1997

quinta-feira, 24 de novembro de 2022

SAUDOSO

SAUDOSO E eu pensava saber o que é saudade... Ou ter falta d’alguém não doesse tanto…! Como calar tantos ais tristes de espanto, Se vivo desolado em soledade? Quão longe estou de ti n'esta cidade?! Tão distante não me ouves mais o canto… Escusa, minha amada, se me encanto Contigo eu conheci felicidade…! Contigo, as horas são-me mais breves, E até as dores sobre mim mais leves Se tuas mãos sustentam-me o rosto. Sem ti, porém, eu vivo em desconsolo. Saudoso de carinhos, deito ao solo, Transido de carências e desgosto… Brumal - 17 06 1997

MISSIVA

MISSIVA


Se eu derramar um poema em teu ouvido

E, linda, me beijares com ternura,

Talvez os versos valham-me a procura

Nos escuros recônditos d’Olvido.


Contassem-me do olhar incendido

Que s’espelha em teus olhos de luz pura,

Pode ser qu’eu poetasse com ventura

Acerca d’este amor que tens vivido.


Então, somente então, do que sinto

Diriam estes ais que não desminto 

E t’escrevo ao lembrar horas saudosas.


Porque a alma me roubaste com um beijo,

E o corpo me ardeste de desejo,

Recebe-me tu, laudas perfumosas...


Belo Horizonte - 21 12 1997


ENLUARADA

ENLUARADA


Afasto dos mundanos minha pena

E a caminho de ti eu peregrino.

Onde, ora profano; ora divino 

Teu olhar se revela à lua plena.


Eu me demoro a olhar para esta cena

Quando a ti, enluarada, me destino. 

Até que o coração em desatino

Diante de teu sorriso se apequena.


Ao toque de teu rosto tão-somente

Vejo que não és mármore, sim gente!

E que me queres quanto eu te quisera.


Já de damas-da-noite se perfuma

O teu jardim de casa envolto em bruma…

Tu te banhas de luar à minha espera!


Santa Bárbara - 24 07 1997


SERENÍSSIMA

SERENÍSSIMA


Este amor que vivemos, minha amada,

Enche horas de suspiros e de ensejos,

Enquanto estrelas caem aos teus desejos

E o luar se nos derrama em serenada.


Triste é mirar a noite ora estrelada

Se, sozinho, ao violão elevo arpejos

Na esperança de a ti ofertar beijos:

— “Estrela d’alva em minha madrugada!...”


A luz se acende em tua escrivaninha

E logo uma silhueta se adivinha 

À voz que se derrama em serenata.


Ao chamado dos versos, de repente,

Assomas à janela a ver contente 

No céu a lua plena pôr-se em prata.


Santa Bárbara - 31 01 1997


quarta-feira, 23 de novembro de 2022

BOA NOITE... BOM DIA!

BOA NOITE... BOM DIA!


Todas as noites, sinto ao ver chegar

A hora em que ela sorri se despedindo.

Suspiro de deixá-la ao encontro findo,

Ansioso de amanhã a reencontrar…!


Sei que ando pela rua sem lugar

E apresso a madrugada que vem vindo.

Vou sonhando acordado o rosto lindo,

Que já me acostumei a acarinhar.


Logo logo virá um novo dia

E a tristeza dará azo à alegria

De a ver enamorada novamente.


Entrementes, um outro pôr-de-lua

BOA NOITE... BOM DIA!


Todas as noites, sinto ao ver chegar

A hora em que ela sorri se despedindo.

Suspiro de deixá-la ao encontro findo,

Ansioso de amanhã a reencontrar…!


Sei que ando pela rua sem lugar

E apresso a madrugada que vem vindo.

Vou sonhando acordado o rosto lindo,

Que já me acostumei a acarinhar.


Logo logo virá um novo dia

E a tristeza dará azo à alegria

De a ver enamorada novamente.


Entrementes, um outro pôr-de-lua

Me faz dar meia volta à sua rua

Para velar teu sono ternamente.


Betim - 12 04 1997

Para velar teu sono ternamente.


Betim - 12 04 1997

ALÉM-AMAR

ALÉM-AMAR

Às vésperas do amor; antes de tudo,
Como ao cais, caravela de partida
Para descobrimentos conduzida
Pelo vento a silvar bem forte e agudo.

Ou, do lado de cá, onde desnudo
Teu corpo antes do meu jaz sem guarida...
Virgemmente na espera d'outra vida,
Da qual, enamorado, 'inda me iludo.

O amor é continente indescoberto
Que pela linha do oceano então deserto,
Antes mesmo d'eu ver, em mim já via.

E eu?... Sou a nau que além quer navegar
Por um amor que ainda aquém-amar
Antes mesmo d'eu ser, em mim havia.

Betim - 12 05 1996