sábado, 8 de julho de 2023

EGIPTOLOGIA

EGIPTOLOGIA

Como uma lagartixa no cimento,

Deixou quentar ao sol as suas partes:

Uma estátua improvável para as artes,

Ensimesmada em seu padecimento.

O achado pousa sobre o pavimento,

Ao largo de monturos de descartes.

E há celeuma de hipóteses e apartes

Diante da antiguidade do momento…

Esqueçam sob a terra por milênios 

Depois tragam às lentes d’alguns gênios

E logo vai parar n'algum museu.

Mas muito mais do que o ouro da nobreza

A luz do artista egípcio traz acesa

Na pose inusitada que escolheu.

Betim - 07 07 2023









quinta-feira, 6 de julho de 2023

SONHAMENTO

SONHAMENTO


Isso da gente sonhar é coisa fina,

Onde os desejos brincam de existir

Nas voltas do já-ido co’o porvir,

Que rearranjam a trama cerebrina.


Uma outra realidade se imagina

D'olhos fechados na hora de dormir:

O sonho adentra o sono a produzir

Cenas como que envoltas em neblina.


Meio memória; meio fantasia,

A vida diferente acontecia

Ou apenas se fazia sem limites.


E ao despertar se vê que cada sonho,

Mais que algo singular ou até risonho,

Nos faz conosco mesmos por fim quites.


Betim - 05 07 2023


quarta-feira, 5 de julho de 2023

ANTIRROMÂNTICO

 ANTIRROMÂNTICO


A vida é muito mais do que um romance

Escrito para o amor nos dar alento.

Importa antes sentir que o sentimento 

E manter a alegria sempre ao alcance.


Desejo que a paixão em paz descanse

P’ra que possa gozar sem sofrimento.

Deixai de idealizar o encantamento

Vós que olhais o mundo de relance!


Sob pena de soar pouco literário,

Prefiro ver as coisas como são 

A viver n’algum limbo imaginário.


Aviso aos dependentes de emoção:

Deixai de ler meus versos ao contrário

Vós que buscais do amor sua ilusão!


Betim - 04 07 2023


domingo, 2 de julho de 2023

CELESTE

CELESTE


Moça d'olhos azuis; sorriso aberto…

Como se na terra um pouco do céu

Me permitisse Deus — embora incréu — 

Haver um anjo Seu no mundo incerto.


Talvez o céu quisesse estar mais perto

E aqui viesse ficar sem escarcéu

Na pupilas de quem sorrindo ao léu

Me iluminava o dia enfim desperto.


Ou senão porque o azul nos olhos d'ela

Um pouco do divino se revela,

Como se Deus brilhasse em seu sorriso.


Decerto, tanto azul nos olhos seus 

Parecem vir do céu ou vir de Deus,

Como se fosse um pouco o paraíso.


Belo Horizonte - 01 07 2023



sexta-feira, 30 de junho de 2023

IDÍLICO

IDÍLICO


Como não amar essas tardes quietas,

Em que o sol se demora sobre os montes?...

Vou prolongando o olhar nos horizontes,

N’um divagar de ideias incompletas.


Solidária aos lamentos vãos dos poetas,

A brisa murmurante pelas fontes

Me faz sonhar de ninfas ais insontes

A zunir entre abelhas, borboletas…


Na quentura que o sol de inverno traz,

Tenho à Natura deuses encontrado,

Por bosques e riachos, serenado.


Arcádias alterosas… Minha paz…!

Regozijo-me só de andar ao léu,

E pastoreio as nuvens pelo céu.


Betim - 29 06 2023








quarta-feira, 28 de junho de 2023

CORDEL MONETÁRIO

CORDEL MONETÁRIO


Ouvidos de mercador

Escutam quando convém:

Fale o freguês com desdém 

Do produto ou seu valor

E o vendeiro, sonso ou pior,

Fingindo que nada escuta,

Força cara de paisagem…

Se pechincham por vantagem,

Ignore qualquer disputa

Quem vive de porcentagem!


Eis um homem muito humano…

Atento às necessidades 

— E sobretudo às vontades! —

Dos que buscam, salvo engano,

O interesse quotidiano.

Vem como quem não quer nada,

Sondar alheios desejos

Com regalos e gracejos

Enquanto varria a entrada

Ou esfregava os azulejos.


Pelo sim; pelo não, solta

Um sorriso obsequioso,

De que, gaiato, faz gozo

A quem lhe sorri de volta,

Mostrando-se curioso.

Logo um mundo de vantagens

Desfila diante dos olhos

Do incauto posto de antolhos

Qual cavalos de carruagens

Ao pastar entre restolhos.


Não perde por esperar…

Com verde colhe maduro

No sentimento inseguro,

Que faz o mundo girar

E viver só no futuro.

Mas, ironias à parte,

A oculta mão do mercado,

Desde o varejo ao atacado,

É quem reduz engenho e arte

Ao vil metal dourado!


Betim - 28 06 2023


domingo, 18 de junho de 2023

À LUZ DE LAMPARINA

À LUZ DE LAMPARINA


Luz, de fio a pavio, à escrivaninha,

Enquanto a pena corre no papel,

Aquela débil chama, cujo cordel

Queimando lentamente cada linha.


Na noite mais escura e mais sozinha,

Tinha a mente febril; peito em tropel…

Escreve — sem patrão e sem troféu —

Rimas tantas quantas lhe convinha.


Arde no seu olhar a mesma luz,

Que pela escuridão a mão conduz,

N’essa ânsia de traçar letra após letra.


De sorte que ilumina o mundo inteiro

Tal luminar à guisa de candeeiro,

Quando a escrita com arte mais penetra.


Betim - 18 06 2023