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quarta-feira, 28 de junho de 2023

CORDEL MONETÁRIO

CORDEL MONETÁRIO


Ouvidos de mercador

Escutam quando convém:

Fale o freguês com desdém 

Do produto ou seu valor

E o vendeiro, sonso ou pior,

Fingindo que nada escuta,

Força cara de paisagem…

Se pechincham por vantagem,

Ignore qualquer disputa

Quem vive de porcentagem!


Eis um homem muito humano…

Atento às necessidades 

— E sobretudo às vontades! —

Dos que buscam, salvo engano,

O interesse quotidiano.

Vem como quem não quer nada,

Sondar alheios desejos

Com regalos e gracejos

Enquanto varria a entrada

Ou esfregava os azulejos.


Pelo sim; pelo não, solta

Um sorriso obsequioso,

De que, gaiato, faz gozo

A quem lhe sorri de volta,

Mostrando-se curioso.

Logo um mundo de vantagens

Desfila diante dos olhos

Do incauto posto de antolhos

Qual cavalos de carruagens

Ao pastar entre restolhos.


Não perde por esperar…

Com verde colhe maduro

No sentimento inseguro,

Que faz o mundo girar

E viver só no futuro.

Mas, ironias à parte,

A oculta mão do mercado,

Desde o varejo ao atacado,

É quem reduz engenho e arte

Ao vil metal dourado!


Betim - 28 06 2023


terça-feira, 20 de setembro de 2022

CORDEL DO ANDARILHO E SUA TRISTEZA

CORDEL DO ANDARILHO E SUA TRISTEZA


Andava légua e meia pela estrada

Quando fui encontrar minha tristeza.

Aproximando d’outra encruzilhada,

M’esperava, anciã, de vela acesa.

Sozinha, bem no meio do jornada, 

M’envolveu n’um instante de clareza:


– “Por aqui seguirás para a distância,

Andando como sempre caminhaste.

Por ali, tornarás com a tua ânsia

De partir se ficares onde amaste

Se, amando, te ressente tanta errância

Que te inquieta onde quer que tu andaste.”


— “Mas, por quem sois, tristíssima senhora,

Deixai-me que caminhe o meu caminho!

Nem prazer nem dor mais me apavora,

Mais do que o ter-de ser sempre sozinho!

Permiti que ame minha amada agora

E depois partir livre passarinho…


A senhora tristeza, no entretanto,

Se calou encarando esse andarilho

Com um olhar profundo de acalanto

Como se, docemente, para um filho

Olhasse entre sorriso e quase pranto

Que s’embarga no olhar de maior brilho:


— “Andarilho que amaste uma mulher,

Recorda-te que andar é quem tu és!

Se deixas teu caminho a quem vier

Tu perderás o chão sob os teus pés…

Para não seres mais do que qualquer,

É querer a alegria que o revés.


“Se amaste as longitudes dos desertos

E as longas soledades silenciosas,

Admirado nas dores por expertos

Por fim te recolheste às venturosas

Que te leem os relatos descobertos

E te invejam a amada imersa em rosas!


Quedo absorto e admirado das palavras

Com que a tristeza a mim s’esclareceu.

Poesia, a mais incerta d’entre as lavras

Dê paga pelo verso que m’escreveu!

Diz a Tristeza: Tu, que n’alma escalavras,

Força ainda mais fundo teu cinzel!


Betim - 20 09 2022






quarta-feira, 29 de junho de 2022

A B C DOS SERTÕES

 A B C DOS SERTÕES


Água, porque sem água nada presta.

Não tem lavoura; não tem criação,

Em meio às carestias do sertão

Se o sol, dia após dia, mais molesta.


Bacurau, porque a noite é longa e só

Onde o rancho retirado se ilumina.

Um chamego, a carícia feminina…

Cachaça, bate-coxa mais xodó.


Cirandas, onde a tarde cai corada.

A alegria vencendo a nostalgia 

Faz a gente encontrar a fantasia

Nos pés descalços d'uma meninada.


Dias, enquanto o sol traz os trabalhos

E a tarefa é entregue concluída.

Vencer cada dia é vencer a vida

Apesar da obra muita e os homens, falhos.


Estradas, visto o mundo sem porteira

E as terras só amamos quando as vemos.

Ir em frente, mesmo que deixemos

Quando muito pegadas na poeira…


Fortes, porque chamados já de cabras

Por percorrermos, brutos, a caatinga.

Podem vir, que tem água na moringa

E pólvora na audácia das palavras.


Grilos, porque atravessa a noite imensa

Sua música esdrúxula e ritmada

Que preenche de beleza o escuro nada

E sempre em solidão quem ouve pensa.


Histórias, repetidas desde o Graal

Ou a que por Carlomagno principia.

Todo um mundo d'Europa, França e Bahia

Em roda da fogueira do quintal.


Incelenças, onde a vida é sentinela 

D'alma a ser convencida  ao passamento.

Mas todo de esperança e sentimento

O povo a encomendar junto à janela.


Jandaias, onde avoem mais laranjas

E verdes entre rinhas animadas.

Alegrem as caatingas admiradas

Ao largo de currais, roças e granjas.


Labaredas, ardendo os canaviais

Dos massapês em roda d'um engenho.

Línguas de fogo vivo onde o ferrenho

Labutar pelas noites infernais.


Merendas, para bem ver as folias

Dos fogos e fogueiras de São João.

E o povo que se ajunta no grotão

Celebra menos graças que alegrias.


Nonadas, que se vive com tão pouco

Que nem carece ter senão mais fé.

A vida é uma estrada andada a pé

Em que vou meio sábio ou meio louco.


Oxente! Porque só de espanto a espanto

A conversa se estica em longo fio.

Versejador ritmado em desafio,

Eu, no meio do povo, incerto canto…


Pirangueiros, uns tantos vão por aí

A desdenhar, quer viola; quer repente.

Mas na praça a minha arte a toda gente

Terão-de tolerar-me o caxixi!


Quintais, onde brincava de cangaço

De alpercatas, alforje mais chapéu.

Ou vaquejar as reses em tropel,

Co'o açoite lambendo no espinhaço.


Revência, verdejando no roçado

As lavouras no meio da estiagem.

Explodindo de ramas a paisagem

Em contraste ao sertão já ressecado.


Sarapatel, a mor-de mais festança

Para o povo folgar no seu gostoso.

Um capado servido saboroso

De se comer fazendo só lambança.


Trancelins, para a moça mais bonita

Lá da roça vir dama cá na rua

E ficar serenada sob a lua.

Junto d'este que poeta se acredita.


Urupema, de letras, não de grãos

O ofício de em cordéis se versejar:

Pôr cada palavra em seu lugar

Ao aplauso ou arrepio dos cidadãos.


Valentias, que a heróis estes sertões 

Cantam os sertanejos romanceiros.

Lembrados por famosos violeiros 

No afã de se falar aos corações.


Xique-xiques, que a seca dá ao ganho

Dos homens e dos bichos da caatinga 

Pouco vale ao caboclo a sua rezinga

Tampouco ao carcará o seu gadanho.


Zabumba, caixa, triângulo e sanfona

Se acheguem a encerrar esse abecê

Mais um forrobodó aqui se vê

Ao povo mais feliz de toda a zona.


Betim - 28 06 2022

sábado, 11 de janeiro de 2020

CORDEL DO AMOR QUE SE FOI

CORDEL DO AMOR QUE SE FOI

- Primeira Parte: ENTREOLHARES
 
Espera... Guarda contigo
As águas dos olhos meus
N'um último olhar de adeus
Um olhar d'amante e amigo
Onde encontrarás abrigo
Ao molhar os olhos teus
No que viveste comigo.

Se por ventura lembrares
Dos meus olhos a te olhar
Me haverás-de recordar
D'outros tempos e lugares
Entre longos entreolhares
Quando ousávamos sonhar
A despeito dos azares...

Foram noites; foram dias,
Acalentando prazeres
Em extremados quereres...
Em lânguidas agonias...
Gozaste-me as ousadias
Sempre com plenos poderes
Sobre as minhas fantasias!...

Tu me amaste co'a urgência
Com que se amam os famintos
De toda entregue aos instintos 
Que dominam a consciência...
Onde o desejo e a violência
Se apresentam indistintos
Entre imanência e existência!

Desde os ombros devassados,
Os prazeres prometidos
Na carne nua aos sentidos
Pela língua degustados...
À flor da pele mostrados
Para meus olhos perdidos 
Hão-de ser sempre lembrados. 

Tive fome de teus lábios;
Tive sede de teus beijos.
Tanto quis n'esses lampejos,
Que meus olhos menos sábios
Sem bússolas ou astrolábios
Perdi n'um mar de desejos,
Que hoje parecem ressábios...:
 
Este olhar de despedida
Que acontece ora entre nós
Súbito m'embarga a voz
N'uma emoção tão sentida,
Que levo por toda a vida.
E o que quer que venha após
Não muda quanto és querida.

.................................... 

- Segunda Parte: TÃO PERTO, TÃO LONGE

Tantas vezes eu passei
Na frente da tua casa!...
Meu peito aberto se abrasa:
Do amor o ardor apaguei
Nas cinzas do que sonhei!...
Tantas vezes... Que me arrasa
Te perder quanto me dei.

Como esquecer quem ausente
Mais presente ‘inda se faz?
Como, enfim, estar em paz,
Enquanto dentro da gente
Um turbilhão inclemente
Põe-me a olhar para trás
Ao invés de seguir em frente?... 

É triste te olhar nos olhos
E n’eles me ver menor...
Porém, não os ver é pior
Do que os espiar por ferrolhos
Ou andar como se d’antolhos
Nada visse ao meu redor,
Senão d’amor os restolhos...

Porque saber-te tão perto
Fez más as boas lembranças,
Que me trazendo esperanças,
Tornou-me o caminho incerto,
Sonhando embora desperto,
Nas solitárias andanças
Pelo meu próprio deserto.

Porque saber-te tão minha,
Muito embora me deixando,
Vem me assombrar vez em quando.
Pois se a noite se avizinha,
Cogito se estás sozinha
Ou mesmo se em mim pensando
Meu desejo te adivinha!...

Porque saber-te tão linda
A meia hora de distância
Apenas m’enchera de ânsia
Diante d’uma história finda...
Finda, mas que sinto ainda
Na minha total errância
À espera de tua vinda...

Contudo, nossos caminhos
Se afastavam, divergentes,
Co’os deuses indiferentes
A tanto afã por carinhos...
Decerto foram mesquinhos
Em não nos querer contentes
Para deixar-nos sozinhos.

.................................... 

- Terceira Parte: AOS TEUS OLHOS

Se me fosse permitido
Ver por meio dos teus olhos,
Quiçá um clarear d’abrolhos
Revelasse-me quanto o Olvido
Ocultara do acontecido
Até o silêncio entreolhos
D’um amor enfim perdido...

Dá-me os teus olhos p’ra ver
Como viste o que não vi!
Mostra o que nunca entendi
Para de vez t’esquecer
Ou simplesmente poder
Não ter saudades de ti
Nem esperanças manter.

Deixa-me ver como vês;
Deixa-me olhar como olhas.
Entender tuas escolhas
E cotejar teus porquês
Ao me negares mercês,
Antes que tu te recolhas
À distância uma outra vez.

Em face de teus motivos,
Penso que possa livrar-me
Dos apelos de teu charme
Que os olhos me têm captivos.
Resta esconder-me dos vivos.
Ou senão viver ao alarme
D’estes teus lábios lascivos...

Não fosses do mundo o centro,
Cairia por ti de joelhos
E embora d’olhos vermelhos,
Te veria desde dentro...
Mas, se teus olhos adentro, 
Vejo como por espelhos
Os azares que concentro.

Soberbo olhar que m’empedra,
Não o rosto: O coração!
Receio, ao par da ilusão,
Os sós amores de Fedra,
Cuja lendária paixão
Lembra a do tosco carvão
Que diamante se poliedra...

De facto, estrelas cadentes
Após riscarem o céu,
Deixam crateras ao léu
Com desastres surpreendentes
Que tornam selvas crescentes
N’um titânico escarcéu
Pedrinhas esplendecentes...

E do mesmo modo o amor
Após devastar minh’alma,
Levou-me a clareza e a calma
Soterrando-me em torpor...
Nada há mais em meu favor: 
Eis quem te houvera a palma,
Hoje a teus olhos menor!...

.....................................

- Quarta Parte: ESCUSÁVEL

Coisa horrivelmente chata
Essas lamúrias de tonto!...
Penso ter chegado ao ponto
De não ver quão insensata
A memória quase ingrata
Que te faço no que conto
Tanto que a língua desata.

Melhor te pedir escusas
E me afastar com meus ais
Certo de que amor demais
Evoca sombrias musas
Entre memórias confusas
Dos sonhos tornados reais
Até topar com recusas...

Perdoa estes ais; perdoa
Esta insistência infeliz;
Este extremado cariz
De exagerada pessoa...
Perdoa a enfadonha loa
Que nem condigo condiz
Nem agradável ressoa.

Perdoa-me a cantilena
Que se arrasta aos teus ouvidos...
Considera-os qual gemidos
D’uma alma que antes serena
Mais se agita e s’envenena
Face aos beijos já perdidos
Em tua mirada amena.

Considera-os desatinos
D’uma alma tão perturbada,
Que uma vez desembargada
Fica a especular destinos
Onde amores vespertinos
Tidos por fava contada
Tornem em sonhos ladinos.

Considera-os, entretanto,
Amores, que amores são!
Acolhe a minha ilusão
E mesmo o ardor com que canto
Como desabrido encanto
Que redescobre a paixão
Entre sorrisos e pranto.

Eu assim cuido que sigo
Sem perturbar-te o momento
Com meu audaz sentimento
Buscando em teu colo abrigo.
Tudo o que quero contigo
É levar-te como alento
Do mais doce amor comigo. 

Sim, porque o amor que se foi
É o que sempre será...
Sim, este é aquele que há-
De me aquecer com um “oi!”...
Sim, feito aboio de boi 
Que me ecoando lá e cá
Tangesse o peito que dói.

Sim, porque este amor passado
Sempre te faz resplendente. 
Mesmo que estejas ausente
Sempre te sinto ao meu lado.
E sim, porque enamorado
EuC sempre te tenho em mente:
Amor no peito guardado...

Betim – 11 01 2020

sábado, 7 de dezembro de 2019

JOANA D'ARC (cordel à beira-mar)

JOANA D'ARC (cordel à beira-mar)

Que dizem as ondas que quebram no cais?
-- Marulho de horrores de antigas batalhas...
Cem anos de guerra e milhões de mortalhas
S'evoca nas pedras do porto em Calais:
Tambores e pífaros dando honras reais
Àquela que soube os Franceses chamar
Contrária a invasores subtis d'além-mar
Se disse movida por vozes dos Céus
E embora donzela, com homens incréus,
Na volta de Ingleses p'ra beira do mar.

Dos anjos e santos, ainda menina
Escuta o chamado a elevar o seu rei.
Em vestes de moço, contrárias à lei
Da igreja e do reino, parece ladina
Guerreira submissa à vontade divina
Tomada, porém, de fervor sem par.
E mística vai de lugar em lugar
A ter com vitórias um grande sinal.
Coroa seu rei na primaz Catedral
E inflama os Franceses da beira do mar!

Por toda a Bretanha e na vil Normandia
Franceses se agitam nas praças de guerra
E os fortes varões da temida Inglaterra
Tiveram de agir com vileza e ousadia:
Acusam a jovem de insã bruxaria.
Por meio de inquérito diante do altar
Até que a fizeram em chamas queimar
No afã de apagar dos Franceses o ardor.
Contudo, por mártir, com imenso fervor
Inspira os Franceses na beira do mar.

O rei e seu povo percebem na moça
Sinal de que os Céus estariam com eles.
Levantam-se todos, do grande ao mais reles,
E expulsam aqueles que vinham sem bossa
Pilhando em rapina as cidades e a roça
Em guerra por guerra, sem nunca findar.
Cem anos passados tão-só a lutar
No ardor homicida de irmão contra irmão,
Lembravam em Joana o conflito cristão,
Ressoando nas ondas na beira do mar!

Belo Horizonte - 07 12 2019

quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

ROLDÃO (cordel à beira-mar)

ROLDÃO (cordel à beira-mar)

Na antiga cidade do Grande Condado,
Na qual o rei franco propôs sua Marca,
Vislumbra vir Hércules p'la nona barca
E ali, n'essas águas, ao encontro do Fado
Se fez ele herói em remoto passado...
Neblina dos montes vê densa baixar
A ponto que olhando não saiba o que olhar:
A Carlos parece que traz uma espada
E assim vencedor d'essa longa jornada
Por fim s'engrandeça na beira do mar:

-- "Saúdo os caídos em má retaguarda
À custa de infâmia, traição e impostura,
Que tanto contrastam co'a firme bravura
Oposta a ladinos na serra galharda.
Ninguém poderá contra sua figura
Ousar diminuir esse feito sem par...
O passo estreitado que soube fechar
Co'o próprio cadáver de espada na mão!
Negou-se a tocar d'Olifante o berrão
P'ra qu'eu o cantasse na beira do mar".

"De facto, Roldão em fechar o caminho
Se pôs entre as rochas e contra o inimigo.
Sustenta seu posto com grande perigo
Contendo guerreiros por horas sozinho.
Mas queda ferido sem ter outro abrigo
Senão os abismos d'aquele lugar.
A espada Duranda lá soube jogar
E a morte esperou sobre as neves tingidas
Co'o sangue d'aquelas inúmeras vidas
Que agora recordo na beira do mar.

"Os doze de França nas terras d'Espanha
Na má retaguarda caíram um a um
À prova meus homens, sem medo nenhum,
Ficaram p'ra sempre n'aquela montanha
Lembrados em verso na imensa façanha
De toda uma tropa sozinhos parar!
E, se hoje às Espanhas eu pude voltar,
Decerto foi pelo total sacrifício:
Roldão e seus homens n'um precipício
Serão sim eternos na beira do mar!

Belo Horizonte - 05 12 2019

quarta-feira, 19 de setembro de 2018

ODISSEU (cordel à beira-mar)

ODISSEU (cordel à beira-mar)

Ritmado em agudo martelo, o galope
Por metro pretende n'um verso onze pés
Mais rimas de décimas postas de viés
E adeuses à beira do mar onde eu tope
O sábio Odisseu co'o grande ciclope:
Partindo com pressa d'aquele lugar,
Contém Polifemo depois de o cegar,
E brada 'inda impávido contra o homicida
Dos crimes havidos n'essa ilha perdida,
Enquanto s'evade da beira do mar.

Aquele, porém, de Neptuno era filho
E evoca em desgraça desditas sem fim
D'encontro aos helenos com tempo ruim
Os mares extremos fechando-lhes trilho
E estrelas no céu a negar o seu brilho
Até que, perdidos, se veem naufragar
E Odisseu sozinho ali vindo chegar:
Saúda, entretanto, às gaivotas pairando
E as ondas insãs a quebrar quando em quando
S'espraiam em espumas na beira do mar.

Chegara estrangeiro na própria cidade,
Oculto d'aqueles que lhe andam em roda
Da esposa tão só que jamais se incomoda
P'la espera do rei cuja imensa saudade
Tecendo ao tear vê passar sua idade
Refém de mesquinhos no eterno manjar:
Enquanto conspiram tomar seu lugar
No trono que vago demanda outro rei…
Embora a buscar no arrepio da lei
Um novo senhor para a beira do mar!

Consuma a vingança e a vontade dos deuses
Quem fora escolhido p'ra ser vencedor!
Conquiste da glória o mais alto penhor
Deixando na beira do mar os adeuses!
No mais, os mercados com vis enfiteuses
Arrendem as naus para além navegar
E busquem colônias por onde habitar
Nas terras distantes que o nauta pisou
E cheguem tão longe quanto ele chegou
Nas praias extremas da beira do mar.

Peruíbe - 24 07 2018