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quinta-feira, 22 de maio de 2025

DEDO PODRE

DEDO PODRE

Certa vez, em resposta a um comentário d’ela, escrevi: “Ela tem o dedo podre, o coração de pedra e o sexo seco.”

Foi a coisa mais dura que escrevi sobre alguém, em toda a minha vida.

Eu estava magoado após ela ter dito a quem quisesse ouvir que tinha o dedo podre para escolher homens. Eu não me fiz de desentendido. Incluí-me em sua afirmativa e lhe fiz essa descrição desfavorável, antes sentimental que anatômica -- Sim, o dedo podre, mas não só...  Era como se concordasse, porém esclarecendo ser seu dedo podre quem estragava tudo o que tocava. Não eram os homens que passavam por sua vida inservíveis — ou podres, como ela os qualificou — mas sim ela que os deteriorava com sua incapacidade de ser recíproca. Forçoso esclarecer que dar para receber nunca lhe foi primordial em relações amorosas, ao menos a meu ver.

De qualquer modo, a violência de meu juízo a seu respeito me chocou. Era despeito, obviamente. Enquanto lhe orbitei a existência, eu tolerara suas maneiras com a esperança de lhe inspirar afeição. Todavia, passados anos n’esse jogo insidioso de apostar cada vez mais alto apenas para confirmar que a sorte jamais me sorriria, eu me vi perdido em ressentimentos e ciúmes. Dei para falar muito mal do amor, sentimento que supunha sagrado, para, após, destilar todo esse fel que me subia à boca diante do fracasso de nossa vida a dois. 

Penso que descuidei de mim. Deixei a barba e o cabelo desleixados, bebendo excessivamente. Atravessei noites e noites em longas e solitárias caminhadas de canto a canto da cidade sem qualquer propósito senão investigar as obscuras motivações que nos lançaram um nos braços do outro. Aparentemente, recordando agora, era como cavasse um poço dentro de mim mesmo onde eu m’escondesse dos olhos de terceiros e seus julgamentos. Nada era conclusivo. Eu revirava hipóteses sem conseguir chegar a uma teoria que me servisse de verdade, precária e provisória que fosse, sobre o que havíamos vivido juntos. 

Talvez ela tivesse, de facto, o dedo podre — o que fazia de mim não mais que uma decepção. Talvez ela tivesse me apodrecido — o que fazia d’ela não mais que uma egoísta. Não sei se o leitor, ou leitora, me acompanha o desatino, mas ambas proposições me parecem hoje injustas. Aceitá-las seria desgostar tanto d’ela quanto de mim, algo que, ao fim e ao cabo de tudo, nós não merecemos. Mas, e a podridão do dedo? Outra figura infeliz de linguagem comum aos desapaixonados. Servira tão-somente para expressar algo que também eu sentia àquela época: Azar no amor. 

Fechadas as contas, ambos nos ofendemos. Dedo podre?... Coração de pedra?... Sexo seco?... Culpa-se quem não sente ou quem não faz sentir? Se o outro não atrai, afetiva ou sexualmente, tal insensibilidade é uma questão do casal, não de cada um por si. De minha parte, esse episódio resta como um momento de imaturidade emocional. Eu lamento ter escrito o que escrevi. 

Betim - 21 05 2025

segunda-feira, 9 de março de 2020

LONGA EXPOSIÇÃO

LONGA EXPOSIÇÃO

Ela ficou ali, parada, contra a parede. Parecia ensimesmada, imersa em pensamentos tão profundos que nada no mundo a poderia tirar d'aquele transe. Era uma figura nítida: calma-mas-arguta, dir-se-ia. Só contra o fundo opaco, seu rosto se destacava com uma juventude elegante de moça que se quer mulher feita, evitando adereços que a mostrassem como as garotas de sua idade, muito pelo contrário! A elegância a que se obrigava n'aquela tarde exibia mais a pessoa viajada e vivida que ela se desejava do que quem realmente era.

Eu, confesso, fiquei observando-a longamente. Ela não se mexia; eu tampouco. De certa maneira, meus olhos se lhe tornaram duas objetivas abertas em longa exposição para, reunidas, lhe captaram a imagem n'um instantâneo d'alguns minutos. Sim, eu lhe fotografava como se fotografa as estrelas à noite! Isto é, sem pestanejar nem mudar de foco.

Completamente obcecado por sua beleza muda, eu lhe registava o rosto e o corpo inteiro: Vestia um conjunto champanha, esvoaçante, que caia negligente sobre seu corpo para lhe receber aquele e ali as saliências de suas formas. Além d'um cinto dourado, permitira-se adereços verticais como brincos de filigranas pingentes em conjunto com um colar idêntico a pender sobre o decote profundo. Tinha um corpo pequeno, mas com curvas generosas que agradeciam a brisa do verão tropical que vinha fresca ao fim do dia. Seu rosto, todavia, parecia concentrar uma calma contida de quem luta interiormente com graves resoluções. Estava maquiada, obviamente, mas o vermelho dos lábios finos e o negro do delineado do olhos castanhos eram traços finos, desenhados, não pintura. Com efeito parecia desenhado, não pintado.

Quando finalmente saímos d'aquele transe, do nada, ela me olhou diretamente, surpreendendo-me. N'uma fração de segundos ela percebeu que eu a observava e me encarou. Eu sustentei o olhar, apesar de avexado em ser descoberto, e esperei. Ela explodiu n'um sorriso aberto e espontâneo e imediatamente se virou, caminhando em direcção ao pórtico de entrada do edifício. Eu a vi abrindo a porta de vidro e desaparecer na rua da metrópole alvoraçada com o vai-e-vem de pessoas e autos no fim do expediente.

Nunca mais a vi, mas em minhas retinas ficaram gravadas o negativo de sua solitária  -- e uma inadvertida! -- longa exposição.

Betim - 08 03 2020

quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

CANNABIS PARA TODOS!

CANNABIS PARA TODOS!

Abertas as portas da percepção; escancaradas as janelas d'alma; quimicamente modificado o hipotálamo… Cannabis! Nada melhor para rir e esquecer. Entre tantos ópios e ódios, antes a fumaça benfazeja do Olvido. É preciso ficar bem. Isto ou se matar respirando monóxido. Sim, melhor se inspirar com cânhamo em brasa! Fazer arder ganja ultrasseleccionada! Maconha, a boa e velha maconha. Desdenho os charutos dos que têm dinheiro para queimar. Não me permito a sofisticação d'um doze anos que me exige uma vida careta de engravatado três-por-quatro… Eu quero é barato. Fumo besta para dizer besteira. Assim, eu sou o cara! Eu me garanto! Quem disse que a felicidade se compra a prestações?

Acho que não era d'essas coisas que devia estar falando… Esse preâmbulo poético-mas-porraloca meio a Bukowisk ou coisa que o valha não estava no plano do texto. Por que mesmo estou escrevendo sobre isso? Sim! Acabo de me lembrar: Era para ser uma crônica séria sobre a notícia da semana: ANVISA LIBERA CANNABIS PARA USO MEDICINAL. Porém -- e sempre há poréns quando se trata de canabinoides -- apesar da regulamentação do uso de derivados da cannabis na fórmula de medicamentos, o plantio da erva danada continua proibido em todo o território nacional.

Especialistas advertem que, apesar de ser um inegável avanço a presente regulamentação, o facto é que tais medicamentos serão inacessíveis para a grande maioria de brasileiros por um detalhe importante: Sem plantio legal, a importação far-se-á obrigatória… E importado com taxações proibitivas, diga-se de passagem. Não, amiguinhos, não vai bastar uma receita médica para adquirir canabinoides em remédios controlados. Os homens pensaram n'isso. Aquela depressão crônica diagnosticada há anos não poderá ser controlada, mesmo com a indicação de seu psiquiatra, com os medicamentos contendo os canabinoides ora disponíveis, porque provavelmente Vossa Mercê não terá como manter o seu vício, digo, tratamento. Sim, porque nossas autoridades aparentemente continuam não vendo depressão como doença e tampouco cannabis como remédio. Cannabis apenas para ricos, simples assim.

Inútil talvez repetir que já se esperava por isso. Afinal, ter uma parcela de sua população economicamente activa fazendo uso medicinal e/ou recreacional de maconha parece ser um privilégio (mais um!) de cidadãos bem-nascidos em países ricos. Parece que somos pobres demais para nos darmos ao luxo de ter alguns milhares de dependentes químicos -- seja por saúde; seja por lazer -- que possam ter a opção de enfrentar uma página em branco com a mente aberta por fumo. Precisa de maconha para escrever? Faça sucesso antes e vá para a Califórnia fumar! Nada de levantar fumaça n'um país da periferia do Capitalismo que mal consegue se enquadrar na economia de mercado. Aos olhos do resto do mundo, nós brasileiros somos mal formados, pouco produtivos, relativizamos o sucesso e não incensamos líderes oligarcas. Somos um povo absurdo e contraditório que faz leis para inglês ver enquanto impõe Ordem Social por exclusão.

Por mais que se argumente que a cannabis medicinal seja a porta de entrada para a legalização da maconha, nada nos faz supor que esta, quando e se vier, não será limitada apenas aos mais ricos. Será que apenas endinheirados precisam de viajar sem sair do lugar? Será que se entorpecer não pode ser considerado um direito individual tão básico quanto ir-e-vir? Ser livre é uma condição que se expressa também com a possibilidade de tomar decisões questionáveis, desde que não interfiram no bem estar de quem está ao redor. Se eu, ao consumir canabinoides, medicinal ou recreacionalmente, não faço mal a ninguém além de mim mesmo, como posso aceitar a interferência da sociedade n'uma decisão de foro pessoal?

O triste, é que todos sabemos a resposta. Maconheiros, somos seres alternativos semelhantes aos ameríndios do período colonial, isto é, resistentes ao trabalho que nos integra à sociedade de consumo. Mais do que tolerar modos de vida diversos ao estabelecido, querem tornar a cannabis legal item de consumo de luxo e continuar marginalizando quem a planta e usa frequentemente. Esse formato parece ser o que se apresenta para a legalização… Logo, nada de maconha para quem não tem (muito) dinheiro:

-- "No money, no honey, baby!"

Belo Horizonte -10 12 2019

sábado, 16 de novembro de 2019

AMIGO!

AMIGO!

Adquiri, com o passar dos anos,
o hábito de tratar os outros por amigo (a), mesmo que não o sejam (ainda).
É uma forma positiva, penso eu, se iniciar uma boa relação antes mesmo de saber o nome da pessoa com quem falo. Muitos não gostam e me argumentam que mal nos conhecíamos. Eu, de meu lado, respondia um velho arrazoado:

-- "Sempre que conhecemos uma pessoa há três possibilidades -- discorria  entre tolerante e persuasivo. 

A primeira, a pessoa que acabei de conhecer gostar de mim e se tornar um amigo. Gosto de acreditar que se ambos se aproximam de coração aberto, fatalmente se tornaram amistosas...

A segunda, o outro vem e não gosta de mim, tornando-se inimiga. Isso é raro e, dentro dos limites da civilidade, tolerável. Nem eu gosto de mim o tempo todo, quanto mais quem pouco ou  nada sabe de mim?! Mais do que compreensivo não gostar de mim, mas, se a pessoa for mesmo nefasta, há-de se afastar ao ver que sou pobre e humilde demais para suas ruindades. O mundo é grande o bastante para nos evitarmos mutuamente.

A terceira, fica indiferente. Se não fede nem cheira, mantém-se como conhecido. Repare -se que este será sempre um estágio provisório de relacionamento humano. Todo conhecido é um amigo ou um inimigo em potencial. Se é raro ter inimigos, ainda mais raro é ter inimigos que já foram amigos... A amizade pode esfriar com o tempo; as pessoas se distanciam e se veem vi estranhos... Contudo, bastará a mesma boa vontade inicial e o distante volta a ser próximo tanto quanto o conhecido amigo do passado torna a ter valência para quando se necessita.

Quando finalmente terminei a historinha, se outro permaneceu à escuta, tende a se identificar com a primeira probalidade. Arrisco a dizer que as pessoas querem ser amigas de quaisquer pessoas que quiserem ser suas amigas. Dá muito mais trabalho cultivar inimizades que amizades, visto que, para mim, o ódio é quase uma desnatureza.

Para o optimista, o conhecido (e mesmo o inimigo...) são amigos em potencial. E. Em relação aos homens (e mulheres, obviamente) eu escolhi ser um optimista.

É isso, amigo!

quarta-feira, 30 de outubro de 2019

ESSA POUCA PAZ QU'EU TENHO

ESSA POUCA PAZ QU'EU TENHO

Não. O inferno não são os outros. São os anos! O transcorrer dos anos, sendo mais preciso. As pessoas não são boas nem más, apenas são. Há bondade ou maldade em seus pensamentos e acções? Não importa, pois, a decisão de estarmos ou não junto d'elas sempre é resultado da vontade pessoal. Não são poucos que, embora permaneçam próximos d'este ou d'aquele, não estão com sua interioridade vinculada aos mesmos. O ser humano é sempre mais complexo em sua existência do que as regras e contratos que o permitiram, em tese, sua vida em sociedade. Quem nos fere somente o faz porque está próximo o bastante para isso, o que, em última análise, foi decisão própria. Isto significa que, n'uma situação de conflito, a vitima é culpada? Não. Significa que entre dois beligerantes haverá quem agrida mais forte o outro. Conviver, ao longo de alguns anos, envolve acumular conflitos, decepções, desencantos...

Não há-que se iludir. Ter pessoas próximas ao redor de si é, também, ofender e ser ofendido. A gente consegue ter um pouco de paz quando deixa de se importar com as ofensas alheias e aceita a si mesmo inclusive com esses defeitos que, vez ou outra, atraem a ira dos outros sobre nós. Essa pouca paz que aprendi a ter não é exactamente indiferença. Eu sinto muito quando me ofendem. Eu me lamento muito quando decepciono os outros ou os inflamo contra minhas imperfeições. Sim, eu sofro por actitudes e acções que foram motivadas conscientemente por mim. Sou responsável pelo mal que causo, mesmo quando sem intenção de causá-lo. Corro o risco e nem sempre as coisas acontecem como desejei. O Universo, com suas infinitas probabilidades, sempre haverá-de me surpreender, sobretudo quando me dou conta de que tenho controle sobre muito pouco do que acontece à minha volta. Tenho desejos, vícios, cansaços, tédios e muita preguiça. Uma hora a coisa desanda e o lombo arde!

Sem embargo, aceitar-se não é o mesmo de desistir de melhorar. Eu tenho de admitir que certas tragédias me fizeram mudar e, talvez, melhorar como pessoa. Mas até essa pedagogia da cacete e do ralho parece perder seu apelo à medida que os anos passam... A gente se entrega a um estado de nulidade que nem se importa mais em tomar as porradas da vida ao mesmo tempo em que as desfere por puro hábito em quem se encontra perto... Ninguém é inocente. Todo mundo bate e apanha. Vítima é aquele que apanhou mais e culpado aquele que não conseguiu parar de bater. Somos ainda bem animalescos n'esse ponto.

Eu luto todos os dias para não lutar. A palavra para isso é pacifismo, dizem. Desejo-me, portanto, um pacifista; um antibelicista por princípio, um recluso que se afasta quando apanha inclusive para evitar o revide. Não me quero pacifista para me sentir superior ao que quer que seja, apenas cansei de participar d'esse circo de horrores que é o mundo que nos cerca. Não quero ser mais forte e escudado para que nada me faça sangrar: Dá muito trabalho! A mera hipótese de desejar ser poderoso para não sofrer tanto me cansa... Estes que estão alto demais para serem alcançados pelas misérias do dia a dia e podem consertar seus resvalos de convivência pelo dinheiro ou pela intimidação não me interessam. Eu penso qu'eles devam ter lá as próprias misérias, ainda que não sangrem amiúde como a maioria. A riqueza não torna as pessoas melhores, tampouco incapazes dos conflitos inerentes à convivência. A riqueza traz consigo o privilégio de não ter-de se preocupar com as consequências das próprias acções. Eu, que não sou rico, invejo tal privilégio e o emulo por meio da misantropia pacifista.

Não é que não goste das pessoas, entenda-se. Considero a convivência algo muito rico e salutar, até certo ponto. A solidão tem limitações psíquicas, inclusive. A paz qu'eu aspiro é de outra natureza. Tem a ver com não se desesperar quando algo muito ruim acontece. Entristeço-me, como humanamente se reage ao que é nocivo, mas não faço d'isso condição para estar bem ou mal. É preciso entender que, em face da ausência de controle sobre quase tudo na vida, as circunstâncias, sim, são indiferentes às pessoas. Mais cedo ou mais tarde o céu desaba sobre a cabeça e o inferno se torna quotidiano. Mas esse inferno, onde os outros têm lugar, não é resultado da convivência entre humanos, sim da condição humana. Ser humano é ter diante de si sempre a perspectiva da morte ao mesmo tempo em que se habita um corpo pleno de involuntariedades. Assim como não temos muito controle se adoecemos ou não, como pretendemos ter se agradamos ou não? Evidente que conviver é decepcionar. O quanto nos decepcionamos antes de romper relações parece ser a grande questão da vida...

O inferno são os anos! Os outros, no início, são o paraíso. São os anos que transformam anjos em demônios, não a Queda. A decadência moral é lenta, não súbita. Qualquer relacionamento humano sofre com o desgaste dos anos. A pele cicatriza e endurece. O coração, também. Envelhecer é perder a sensibilidade ao que nos faz mal; é aprender a levar porrada, sangrar e não desabar. Ou, se desabar, juntar os pedaços e se afastar d'aquilo que nos agride. Bobagem dizer que o sofrimento é quem mais e melhor ensina. Se assim fosse, os mais sofredores seriam os mais sábios. Acumular traumas nos torna receosos, covardes, controláveis... Não, o sofrimento embrutece. Isto posto,  violência é uma linguagem que só deveria ser utilizada quando todas as demais formas de linguagem não permitiram a correta comunicação para o fim de conflitos. O que se vê, no entanto, é a violência ser utilizada com mais frequência e necessidade do que deveria. A solução final dos conflitos mediante a força é a paz de cemitério e o opróbrio dos vencidos... E esta paz não é paz de facto; é trégua entre conflitos. O vencido de ontem é o revoltoso de hoje e o revanchista de amanhã.
A guerra, para os que têm a sagrada sede de justiça, nunca termina. Trata-se d'uma necessidade de guerreiros que, no afã de buscar justificar seu parasitismo milenar, alimentam ódios e vinganças a mascarar projetos imperialistas.

Pacifistas deixam para lá, não porque sejam altruístas, mas porque não faz sentido lutar senão para sobreviver. E essa pouca paz qu'eu tenho diz respeito à compreensão de que envelheço. Depois de anos, as cenas podem até ser semelhantes, mas os olhos são outros. Não há mal maior que idealizar os outros. Eles nunca foram tudo aquilo que pensávamos. Eu mesmo nunca fui tudo aquilo que pensava.

Entre a idealidade e a realidade, passaram-se vinte e poucos anos: Tudo ao redor é conflituoso, há notícias de guerras se aproximando e os outros talvez se mostrassem um inferno com o passar dos anos, mas já foram um paraíso. As pessoas mudam; eu mudei. Sim, nada mudou e tudo é diferente. Mais vinte e poucos anos e o inferno será outra coisa.

Fique eu em paz...

Betim - 30 10 2019



domingo, 13 de outubro de 2019

DESAGRAVOS E OUTRAS AGUDEZAS DO ESPÍRITO

DESAGRAVOS E OUTRAS AGUDEZAS DO ESPÍRITO

Injuriado, injustiçado, incomunicável… Quanto sofrimento há-de aguentar um coração? Parece bom aos que se veem como bons serem maus com os que veem como maus! Toda acto de força é uma fraqueza, sobretudo quando os violentos juram fazer uso d'ela para o bem. Eu não sou um violento. Ele também não. Pacifistas por princípio, preferimos morrer a matar quem quer que seja, pois, a manutenção de minha vida não justifica o extermínio de outra. Não sou santo; ele não é santo, mas, humanamente, não vemos sentido em dividir a Humanidade entre bons e maus, embora muitos o façam.

Em todo caso, uma vez acusado de se omitir diante de malfeitores e condenado por não combater suas maldades, os bons -- que nem são tão bons assim… -- julgaram por bem decidir que ele não devia ser contado entre os bons e lhe deram a pena que se concede aos muito maus, de sorte que, declarado muito mau, ele fosse contado entre os maus. Convém salientar que para homens como nós -- isto é, pacifistas -- os conceitos de bom e mau nos são quase indiferentes por inconclusivos ou circunstanciais. No caso, ele foi mau por se negar a ser mau com os maus, segundo os bons. Percebe-se que a bondade d'estes é uma caprichosa construção colectiva na qual todos aceitam seus papeis sociais e concorrem pelo bem comum dos bons enquanto os maus, uma vez identificados, são progressivamente excluídos do convívio social, quando não exterminados.

Ele sabe que eu sei que ele não é mau, mesmo com os critérios estabelecidos sob a égide da bondade do momento, que imputa, por exclusão, o rótulo de maus aos que relativizam ou mesmo condenam tal bondade de ocasião. Sem embargo, animais sociais que somos, submetemo-nos aos conceitos e valores d'esta sociedade para existirmos n'ela, portanto, respeitamos suas leis, regras, normas e etiquetas, ainda que as saibamos puramente convencionais. O que realmente não é convencional, é a vida humana; é o sofrimento humano. Existimos entre homens que acreditam na bondade -- e mais, que se acreditam bons!-- embora conscientes das limitações d'esta bondade. Afinal, os costumes mudam, mas a condição humana permanece. A única ética possível para homens como nós, cujas ideias já foram estabelecidas para além do bem e do mal, é de alinhar decisões, posturas e actitudes sempre entre aquelas que diminuam o sofrimento das pessoas ou seu desenvolvimento humano. Não há cor, símbolo, bandeira, camisa, hino ou distinção passional que seja capaz de distinguir para nós os homens entre "nós" e "eles", tanto quanto a distinção entre "bons" e "maus" tampouco nos servira.

O que existe são homens e todos sangram abertas as veias. Não entendo como se possa negar ajuda pela cor da camisa do outro… Ele também não. Isso nos faz objeto da incompreensão de uns e outros, visto que para muitos o grande exercício da vida é aprender a identificar os valores que regem este ou aquele indivíduo e lhe impingir um rótulo definitivo: Preto, branco, mestiço, veado, maconheiro, bandido, vagabundo, fracassado, parasita, acomodado, inútil, papa-hóstias, macumbeiro, ateu, safado, comunista, reacionário, babaca, otário, gado, milico, punheteiro, arrombado, lambe-botas, patriota, americanófilo, xenófobo, misógino, machista, feminista, conservador, caipira, caipora, favelado, sem-terra, reformista, esquerdista, direitista, centrista, fascista…

Enfim, tudo aquilo que os homens de bem não são. Homens bons não são nada além de juízes dos outros. Mas para se sentirem merecedores d'este patamar elevado do qual assistem os homens em seus conflitos quotidianos e pôr em funcionamento sua máquina de etiquetar, eles se tornam suprapartidários e apolíticos, não para fazerem filosofia ou poesia, como eu e ele eventualmente pretendemos, mas sim para purificarem o poder e exercê-lo sob um paradigma sobre-humano -- o que é uma desumanidade em si.

Eu e ele, ao contrário dos bons, abdicamos de julgar os homens quando nos vimos igualmente sujeitos a paixões e sofrimentos. Quem quiser observar o homem e entender suas acções deve ter em mente que esse ser entre os seres morre, adoece, ama, odeia, come, bebe, se droga e, sobretudo, pensa. Entre a dor e o prazer, existe por um certo tempo n'esse mundo. Isso implica em ter menos gente presa ou morta pela coletividade quanto for possível. Do mesmo modo, menos exércitos espalhados pelo planeta garantindo antes o fluxo de matérias-primas que a pacificação de territórios às voltas com guerras fratricidas. O que deveria ser excepcional, infelizmente, tornou-se a regra. A democracia para os bons é uma questão de demografia. N'um mundo de "nós" e "eles", os muros são mais importantes que as pontes, pois, os capitais devem circular livremente; as pessoas, não. Eu e ele sabemos que isso é uma distopia apocalíptica, mas os bons não se incomodam em dividir o mundo novamente e usufruir d'ele em ilhas exclusivas, inacessíveis aos maus.
O sonho dos bons, em última análise, é um genocídio. A diferença é que acreditam ter as mãos limpas enquanto se afastam do caos que consideram o mundo sem eles e que os maus vão acabar se matando uns aos outros. De longe, nas terras altas e frias do Norte, hão-de olhar horrorizados para as zonas de guerra mundo afora e educarem seus filhos com o mantra "vocês têm sorte", mostrando a precariedade da vida no mundo que abandonaram aos maus, ainda que estes sejam crianças famélicas.

Ele está preso; eu, não. Mas o que não temos em comum com os bons que o prenderam é a ilusão de somos bons ou melhores que os outros. Apenas somos, com nossas ideias e esperanças. O dia que os bons partirem de vez para as Ilhas Afortunadas que o dinheiro d'eles emancipou do resto do mundo e deixarem para os que aceitam a Humanidade como imperfeita, esse CU DO MUNDO que eles desdenham será ainda o nosso país. Um país que não barra ninguém na fronteira e se alegra em ser o mais diverso e colorido possível. Um país onde ninguém liga para o que outro faz ou é. Onde há pobres, sim! Favelados, sim! Analfabetos, sim! Sem-tetos, sim! Difícil porque não é óbvio como a cor da pele ou a boca que se beija… A distinção entre bons e maus tem de ser superada sob pena de sermos todos maus segundo os critérios dos que se autoafirmaram bons.

E estes, eu e ele o sabemos, um dia vão partir de vez em busca da ordem e progresso que não enxergam por aqui em algum lugar bem mais ao Norte.

Betim -13 10 2019

segunda-feira, 23 de setembro de 2019

OI, AMIGO!

OI, AMIGO!

Adquiri, com o passar dos anos, o hábito de tratar os outros por amigo (a), mesmo que não o sejam (ainda). É uma forma positiva, penso eu, se iniciar uma relação antes mesmo de saber o nome da pessoa com quem falo. Muitos não gostam e me argumentam que mal nos conhecíamos. Eu, de meu lado, respondia sempre um velho arrazoado:

-- "Sempre que conhecemos uma pessoa há três possibilidades -- discorria  entre tolerante e persuasivo.  A primeira, a pessoa que acabei de conhecer gostar de mim e se tornar um amigo. Gosto de acreditar que se ambos se aproximam de coração aberto, fatalmente se tornaram amistosas...

A segunda, o outro vem e não gosta de mim, tornando-se inimiga. Isso é raro e, dentro dos limites da civilidade, tolerável. Nem eu gosto de mim o tempo todo, quanto mais quem pouco ou  nada sabe de mim?! Mais do que compreensivo não gostar de mim, mas, se a pessoa for mesmo nefasta, há-de se afastar ao ver que sou pobre e humilde demais para suas ruindades. O mundo é grande o bastante para nos evitarmos mutuamente.

A terceira, fica indiferente. Se não fede nem cheira, mantém-se como conhecido. Repare -se que este será sempre um estágio provisório de relacionamento humano. Todo conhecido é um amigo ou um inimigo em potencial. Se é raro ter inimigos, ainda mais raro é ter inimigos que já foram amigos... A amizade pode esfriar com o tempo; as pessoas se distanciam e se veem vi estranhos... Contudo, bastará a mesma boa vontade inicial e o distante volta a ser próximo tanto quanto o conhecido amigo do passado torna a ter valência para quando se necessita."

Quando termino a historinha, se outro permanecesse à escuta era sinal de que tendia a se identificar com a primeira probabilidade. Caso, contrário, eu nem me importava. Arrisco a dizer que as pessoas querem ser amigas de quaisquer pessoas que quiserem ser suas amigas. Dá muito mais trabalho cultivar inimizades que amizades, visto que, para mim, o ódio é quase uma desnatureza.

Para o optimista, o conhecido (e mesmo o inimigo...) são amigos em potencial. E, no que diz respeito aos homens (e mulheres, obviamente) eu escolhi ser um optimista.

É isso, amigo!

sábado, 16 de março de 2019

E DEUS DEIXOU DE SER BRASILEIRO…

E DEUS DEIXOU DE SER BRASILEIRO…
Parafraseando o ex-presidente - aquele que hoje se encontra preso na cela d'uma cadeia - pode-se se afirmar: - "Nunca antes na História d'este país… (pausa dramática) … houve uma sucessão tão infeliz de grandes tragédias, massacres, desastres, acidentes, atentados, cataclismos, azares, equívocos, injustiças e insanidades em tão curto espaço de tempo. Tudo isso em meio a uma crise econômica que parece não ter fim. As más notícias parecem se suceder n'uma ânsia sádica de nos retirar toda esperança enquanto colectividade que compartilha um território ensolarado na América do Sul e a língua portuguesa.
Eu, sinceramente, não me permito listar n'este texto as minhas tristezas, mas tenho a suspeita de que o leitor tenha uma lista semelhante em mente. Tenho andado tão triste, como brasileiro, que me vi tomado pela constatação insofismável: Deus mudou de nacionalidade. Alguns podem argumentar que Deus nunca foi exclusivamente brasileiro, mas gostávamos de acreditá-Lo mais nosso diante do milagre de nossa sociedade multiétnica, cordial e, sobretudo, avessa a conflitos.
O Brasil, depois de ter sido Pindorama, a idílica terra das mil palmeiras, chega a uma espécie de vértice onde tudo - nossa natureza, nossa juventude, nossa alegria… - parecem se tornar uma antítese do que nos acostumamos a ver. Até o jeito relaxado com que encaramos a existência, de chinelo e bermudas n'um boteco de copo sujo, parece não ter mais lugar. Afinal, como celebrar a vida de cerveja em punho quando o ódio anda à espreita e desfere facadas em quem pensa diferente? Como mandar nossos filhos para a escola quando se teme psicopatias e sociopatias em corações adolescentes? Confesso que não tenho encontrado respostas.
Mesmo nossa vizinha Venezuela, que também se referia a si mesma como nacionalidade do Criador, parece disputar conosco essa triste condição de terra abandonada nos trópicos. Se Deus não é mais brasileiro, venezuelano tampouco. Aliás, Deus parece ter se desterrado de vez da América do Sul. Fôssemos místicos como nossos avôs, evocaríamos provavelmente os Sinais dos Tempos diante do fim próximo e, penitentes, rogaríamos o retorno da misericórdia divina.
Debalde, pois, Deus se foi para muito longe. A julgar pelos indicadores econômicos e de desenvolvimento humano, Deus tem preferido ajudar àqueles que mais cedo madrugam, a saber, os orientais. De maneira especial, o Todo-Poderoso tem derramado suas graças sobre o chineses, a despeito de serem ateus e comunistas… Na China, as colheitas têm sido abençoadas e a riqueza, sem precedentes. Enquanto os latino-americanos continuam embasbacados pela "decadence avec elegance" do Ocidente anglo-saxão, a China lança as bases da nova ordem econômica que terá a África como fiel da balança. 
Hoje em dia, mais do que qualquer outra nação, é a China que tem investido e concorrido para promover estabilidade política e desenvolvimento econômico nos países africanos. A Europa e seu colonialismo civilizatório ficaram no passado, mas o brasileiro, em seu complexo de vira-latas, continua se inferiorizando diante dos presunçosos "machos-adultos-brancos-sempre-no-comando", como diria Caetano.
Se Deus é chinês, eu não sei. O que sei é que brasileiro ele não tem sido.
Betim - 16 03 2019

quarta-feira, 9 de maio de 2018

EU SOU O UNIVERSAL - Crônicas d'Anteontem

EU SOU O UNIVERSAL - Crônicas d'Anteontem

Digo e repito: Após dois mil anos o Deus cristão envelheceu. E sou humilde o bastante para admitir que tal constatação sequer é minha, mas do poeta Guerra Junqueira, ainda nas brumas do novecentos. Aliás, preferiria fazer dessa crônica uma releitura honesta dos poemas de Guerra, o que provavelmente enriqueceria o leitor. Contudo, forçado a destrinchar esse Credo às avessas que proferi recentemente (ver o soneto "OS BISMILÉSIMOS ANOS"), premio o leitor com algumas páginas de reflexão enmimesmada sob o olhar raivoso de crentes e a esguelha desconfiada de não-crentes. Não que eu não acredite em Deus -- o cristão ou outro. Ao contrário, torço para que exista. Admito que muito me conforta ser grato a esse amigo talvez imaginário quando algo dá certo e poder evocá-lo em meu favor quando dá errado, mas é preciso concordar que a ideia do Deus uno-e-trino da doutrina cristã parece ter se desgastado a ponto de não fazer mais sentido na intelectualidade ocidental. E a culpa, mais do que da secularização da sociedade, é sobretudo das instituições religiosas que se denominam cristãs. Religião já teve a função de moralizar os costumes e dar um sentido maior para a existência humana. Hoje em dia, parece apenas um esforço pragmático por poder, seja econômico; seja político. Incapazes de olhar para as contradições da própria doutrina quando confrontada com os conflitos e emergências da pós-modernidade, religiosos simplesmente se esquivam de pensar.

Mas, e daí? Bem, eu tenho andado obcecado faz alguns anos pela ideia de "ordem social". Sim, aquela irmã do "mercado" smithiniano cuja mão invisível nos oferta, dia após dia, víveres bem diante de nossos narizes sem que uma grande e complexa estrutura estatal actue nos bastidores da coisa. Irmã bastarda, reconheço, visto que falem tão pouco d'ela, a ordem social sintetiza uma ideia ainda mais impressionante, a saber, como milhões de seres humanos convivendo face a face na exíguo espaço d'uma mesma cidade conseguem não se trucidar. Se não convencem boas intenções ou livros de autoajuda, tampouco vão adiantar visões positivas sobre a índole (ou coisa que o valha) d'esse animal excepcional que é o homem em sociedade. Para a compreensão de tal fenômeno urbano, é possível se perceber duas grandes fontes de normatizações pré-modernas que estabeleceram os parâmetros para uma "cultura da ordem social": O poder secular e o poder temporal. N'outras palavras, diante dos conflitos e injustiças do dia a dia (que incluem a convivência muito próxima de fome, miséria e ignorância com luxo, opulência e expertise), as regras que são incutidas nos corações e mentes das pessoas evocam "Poderes Maiores" capazes de punir quem decide sair da linha. Com efeito, se todo injustiçado decidisse responder com violência ao querelante, teríamos banhos de sangue nas ruas, não automóveis. 

O Estado pune o violento e, se este falhar, Deus punirá. Bem, ao menos essa era a lógica do sistema: Seguir as regras para que todos consigam conviver ainda que ofendidos e incomodados pelas impertinências do próximo. A ordem social, portanto, é baseada no temor ao Estado e no amor a Deus. Seguimos as regras para evitar sermos submetidos pelo "monopólio da violência" que o Estado com suas forças armadas e policiais impõe e procuramos "agradar a Deus" (ou, para além da tradição ocidental, os deuses) na esperança que repetidos sacrifícios, orações e ritos O sensibilizem para nossa condição de seres humanos. Em larga medida, tudo o que fazemos para viver em sociedade depende de regras definidas pelos poderes estabelecidos pela colectividade, neste mundo e no outro.

O problema é que não parece ser o bastante, haja vista que a felicidade e o sucesso pessoal parecem independer do seguimento honesto de tais regras. E, sendo a sociedade um agrupamento de indivíduos focados em suas necessidade e vontades, a ideia de sacrificar o próprio bem-estar ou sanidade em nome do bem comum (nos termos do que as autoridades assim o consideram) soa simplesmente absurda para as pessoas hoje em dia. O Deus de Jesus Cristo, após acompanhar e abençoar a progressiva expansão dos valores culturais -- a ferro, fogo e vil metal -- do Ocidente mundo afora, chega ao terceiro milênio envelhecido, quase senil. Escrevo isto não para causar espécie (não apenas, ao menos), mas sim para admitir que mesmo que Sua importância no imaginário colectivo ainda seja perceptível, ninguém mais em sã consciência tem medo de ir para o Inferno bíblico. Por outro lado, se a esperança do Céu ou do Paraíso persistem, ninguém parece estar disposto a fazer muito mais que confiar no amor de Deus para se safar do julgamento de seus hábitos, actos, palavras e pensamentos. Mesmo os ortodoxos -- que, admitamos, são uma minoria quase folclórica -- não resistem ao cinismo para confrontar suas crenças religiosas com as práticas da sociedade secularizada. 

Se a velhice de Deus é resultado de dois mil anos de espera na conclusão do cumprimento das Escrituras com a Encarnação do Verbo Divino em Jesus Cristo, Sua senilidade é percebida com a incoerência d'aqueles que exigem Sua presença no mundo, via de regra, por meio das armas e do dinheiro. O que assistimos no mundo, sobretudo a partir de dois mil e um, não é uma odisseia no espaço, sim uma guerra contra o terror. Religiosos ressentidos com a secularização da sociedade decidiram aterrorizá-la ao invés de revisar sua doutrina e e dialogar com não-crentes. Saliente-se, porém, que o fundamentalismo não é um privilégio de muçulmanos, mas ainda um movimento reaccionário também perceptível em grupos de orientação judaico-cristãos, cuja resposta para qualquer questão contemporânea ainda é restrita aos seus livros sagrados. Mais uma vez na História, em nome de Deus, religiosos apresentam um projeto de poder e se organizam para nos governar com o discurso de que são sumamente honestos diante d'um sistema político-estatal corrompido. Não explodem bombas (ainda...), mas perseguem com violência as religiões afro-brasileiras e o catolicismo sincrético, além de abençoar veladamente a barbárie contra minorias LGBT. 

Definitivamente, os religiosos do terceiro milênio não são santos! Longe d'isso: São empresários do entretenimento e do jornalismo que mergulham a opinião publica n'uma sensação de urgência constante e artificial. No império das certezas, há pouco ou nenhum lugar para a reflexão, apenas para a acção. Seus jornais, filmes, telenovelas e mesmo propagandas manifestam esse contínuo empoderamento para enfrentar o mundo. 

E até Deus, se existir, está vendo isso tudo, velho e senil...

sexta-feira, 27 de abril de 2018

A CIDADE AO MEU REDOR - Crônicas d'Anteontem

A CIDADE AO MEU REDOR - Crônicas d'Anteontem

De repente paro no canteiro central da avenida e me sinto rodeado pela cidade. Como se desperto de um sono conturbado, deixo de seguir o fluxo que me impelia a seguir em frente. Paro e observo. Rostos desconhecidos passam por onde também eu acabei de passar: "Eu fora mais um" -- pensei comigo -- enquanto lidava confuso com meu súbito despertar. Carros vêm e vão pelo asfalto sinalizado enquanto a sombra dos edifícios se projeta sobre os largos. Escurecia aos poucos e havia pressa, muita pressa, em tudo e todos que passavam por ali. Apenas eu estava parado.

Embora não fizesse sentido minha hesitação -- se é que se podia chamar de hesitação àquela actitude -- decidi não retornar ao caminho imediatamente. Ao contrário, deixei que o bulício da cidade me envolvesse n'um estranho abandono contemplativo. Era interessante ver a pressa dos outros em contraste com minha apatia, como se eu tivesse conseguido me colocar à parte d'aquela realidade e fosse capaz de percebê-la sem a sentir em mim. Eu era um observador, mas o que observava? Fosse outra a situação, decerto projetaria sobre a cidade em movimento novos espledores e peculiaridades. Mas, não. Tampouco me coloquei ali como cientista social a descrever conflitos urbanos ou como publicitário de agências de viagens para apregoar as excelências do lugar. Humildemente, estava ali com minhas inquietudes e misérias a reconhecer-me no anonimato de cada pessoa que passava, de cada auto que trafegava. Distinguia-me apenas por não ter pressa de sair d'ali. Há quem defenda que o ser humano tenha aversão ao vazio e, por isso, se ocupe em inventar adornos de bom gosto ou histórias tranquilizantes para cada vão percebido no espaço que habita. A cidade ao meu redor, porém -- cenário de existências comuns -- talvez escape d'essa avidez em dar sentido a tudo que caracteriza a existência humana. Ao contrário, tudo o que vejo é a lento decantar de ações humanas n'um lugar que é antes resultado que intenção.  É como a poeira que o movimento constante agita indefinidamente por quilômetros até pousar sobre o concreto e encardi-lo, pintando de cinza escuro todas as superfícies aparentes e apagando todas as marcas individuais capazes de indicar pessoalidade: Monumentos, publicidades, pichações, ornamentos, sinalizações, paisagismos... Qualquer esboço de assinatura de pessoal que tente se impor ao olhar coletivo é continuamente coberto e recoberto pela pátina acinzentada de minúsculos sólidos em suspensão.

Percebo que a cidade resiste a ser obra de indivíduos, apagando nervosa os traços d'este ou d'aquele em sua tecitura. E toda arquitetura e todo urbanismo e todo paisagismo são, no fundo, tentativas meios desesperadas de criar o extraordinário da arte dentro do ordinário da vida metropolitana. O espalhafatoso, o confortável, o dispendioso e o elegante são jogados no espaço urbano no afã de fazer com que o citadino abra seus olhos diante da paisagem quotidiana, mas, sobretudo, são jogados ali para se fazerem assinatura d'um indivíduo cercado por oceano de anônimos. Debalde: Assim como a poeira homogeniza a cidade com seu cinza-carvão, também o olhar cansado do cidadão apressado em deixar a metrópole ruidosa o faz insensível ao diferente. Ninguém enxerga nada.

Essa incapacidade de beleza, essa estoica afirmação do funcional e essa negação contínua do individual me exasperavam às vezes: A cidade ao meu redor não é bela senão enquanto paisagem vista de longe. Não é bela aqui n'essa esquina escura cercada de prédios altos e cinzentos. Sem embargo, dou-me conta que essa impessoalidade é mais justa e realista que a assinatura de algum mestre do desenho. Sim, a cidade ao meu redor é matéria modelada por milhões de pés e mãos, não pelo gênio de um só. Quem quiser ver a arte do indivíduo, não será aqui. Ei-lo: O prédio colorido e ousado que causou espécie em minha juventude hoje passa quase desapercebido após envelhecer como eu... Mal se distingue dos demais para evocar qualquer lembrança de seus ideadores. Está ali, mas não estava até eu parar para vê-lo coberto pela mesma poeira cinza que o fez semelhante ao cubo de concreto armado que lhe ladeia. 

É esse espetáculo do indistinto que a cidade ao meu redor me oferece. Eu me sento na guia da calçada e aplaudo.

Belo Horizonte - 20 04 2018

terça-feira, 17 de abril de 2018

OS OUTROS - Crônicas d'anteontem

OS OUTROS

Sim, agora que estamos apenas nós aqui, podemos falar d'eles: Coitados, tão estúpidos... tão simplórios... tão idiotas... Nós, que não somos como eles, é que sabemos a verdade! Como eles não sabem? Quando vão se calar e fingir que concordam conosco? Afinal, temos méritos intelectuais inquestionáveis e sistemas filosóficos inteiros! E eles, oras!...

Quem eles pensam que são? Eles pensam? Doutrinados que foram para repetir frases feitas e acreditar em historinhas infundadas!... Ao contrário de nós, que temos verdades sólidas e perfeitas, mas, justamente por isso, universais: Servem para tudo e todos! Ai d'aqueles que não entendem!... Como podem se cegar diante dos factos que elencamos e, sobretudo, da força de nossas convicções?! Até quando serão escravos de ideias alheias? Até quando se submeterão às ideologias apressadas ou aos maniqueísmos primários que os líderes vociferam continuamente?! A propósito, seus líderes: Que ridículos! Matéria para caricaturas! Contradições ambulantes, tangem feito gado a massa buliçosa...

Que espetáculo patético! Quanta manipulação interessante-interesseira! Quantos pseudo-pensadores!!!

Os outros estão lá e nós aqui. Entre iguais, falamos e somos compreendidos: Todos como um! Democracia?! O exaustivo debate com quem só escuta a si mesmo e contra-argumenta lugares comuns me esgota: Falar, discutir, parlamentar... É inútil! Muito mais produtivo impor nosso ponto de vista e eliminar as contradições, internas ou externas.

O curioso é que, saindo d'aqui, nos misturamos... Na multidão da metrópole, parecemos todos iguais: As cores simbólicas dão lugar às roupas do dia a dia. Difícil dizer quem é isto ou aquilo: Coexistimos.

E, embora não concordemos em quase nada, nossa humanidade nos exige ao menos a consciência de nosso destino comum, isto é, a morte. Ah, que excepcional a condição humana... Não basta aos homens morrer: É preciso viver tendo consciência de quão breve pode ser a vida!...

Talvez não sejamos, nós e os outros, tão diferentes assim.

Mas, o que estou dizendo? Onde estão os nossos princípios? Onde estão os nossos hinos e bandeiras? Onde as nossas palavras de ordem! Não devemos baixar a guarda jamais!

Pelas palavras ou pela força, venceremos!

(Mesmo que vitória provisória à espera da próximo entrevero...).

Betim - 15 04 2018