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segunda-feira, 29 de agosto de 2022

HIPOCRISIA

HIPOCRISIA 


A gente deseja, mas nem pensa!

A gente pensa, mas não fala…

A gente fala, mas nada faz.

A gente faz, mas esconde…!

A gente esconde, mas deseja?


A gente deseja, pensa, fala, faz, esconde e deseja de novo…


Mas é errado?!


A gente deseja errado porque acham a gente errado.

A gente é errado:

A gente deseja!


Mas mais errado é quem não deseja.


E, porque não deseja, não pensa.

E, porque não pensa, não fala.

E, porque não fala, não faz.

E, porque não faz,

não tem nada a esconder,

nem tampouco a mostrar.


Errado é quem acha errado!


Deixem de achar!!

Deixem de julgar os outros!


Betim - 25 08 2022

terça-feira, 16 de agosto de 2022

LESBIANISMO TARDIO -SEXOPATIA IMAGINÁRIAS

LESBIANISMO TARDIO


Fenômeno sexual cada vez mais presente em nosso quotidiano, a súbita atração de mulheres maduras por outras mulheres — fossem estas lésbicas “de nascença”; fossem estas sáficas eventuais — envolve sobretudo a consciência do papel nefasto do Patriarcalismo nos relacionamentos cis e heterossexuais. Com efeito, a uma altura da vida em que já não se vê oprimida pelos papéis sociais que exigem da mulher uma sexualidade tradicional, seja como filha de alguém; esposa de alguém, formadora/cuidadora de alguém e, por último mas não de somenos, mãe de alguém. Os papéis sociais aliados à formação patriarcalista fazem com que a mera possibilidade de envolvimento afetivo-sexual da mulher com outra mulher fosse existencialmente incompatível com a condição humana feminina, isto é, um ser que tem no potencial de formar outro ser mediante o encontro humano. Aparentemente, toda mulher deveria se reprimir qualquer impulso lésbico sob pena de jamais ser mãe, de acordo com esse viés tradicional da sociedade sobre sua existência. Uma vez compreendido que tal contradição de papéis é sobretudo artificial, a mulher se sentiria livre para ousar não só novos amores, mas sim novas formas de amar.

Não obstante, vivenciados a filialidade, os relacionamentos heteronormativos e a maternidade, a mulher se perceberia pronta para novas vivências. Não faltando, aliás, argumentos excepcionais em favor do lesbianismo para os novos relacionamentos d’uma balzaquiana, a saber:

- desnecessidade de uso de contraceptivos;
- ínfimo risco de violência sexual ou mesmo de feminicídio;
- compreensão mútua dos ciclos e alterações de humor;
- melhor sensibilidade e compreensão nas relações sexuais;
- maior tolerância em relação às questões morais do Patriarcalismo (infidelidade, prostituição, abandono de lar etc…
- maior tolerância com as questões fisiológicas e psicológicas da saúde da mulher, em especial no que concerne à baixa de libido ou mesmo à dispareunia.

O carácter sexopático d’este fenômeno se expressa, todavia, antes nas pessoas em geral em face da mulher de meia idade que “de um dia para o outro” assume um relacionamento lésbico absolutamente inédito em sua vida. Sexopática é a estupefacção alheia, não o comportamento lésbico tardio em si. De certo, esse fenômeno questiona todas as ideias correntes sobre sexualidade, logo, tem potencial para transformar toda a relação das pessoas com seus arranjos afetivos. O jamais ter olhado com afeição ou desejo para outra mulher não impede, per si, tal encontro humano. O que se considera digno de nota é porque esse primeiro impulso lésbico tem acontecido com cada vez mais frequência após os quarenta anos. Além das razões pragmáticas aventadas acima, percebe-se uma sincera decepção das mulheres de meia-idade para com as promessas jamais cumpridas de adequar-se ao lugar que o Patriarcado que lhe destinou, insistindo na desimportância da sexualidade em face das glórias da vida familiar em detrimento das limitações heteronormativas. 

Ao contrário do safismo/aquilianismo  — onde se percebe uma posição mais fluida e/ou instável com a homossexualidade — o lesbianismo tardio constrói toda uma sexualidade nova sobre as ruínas da antiga. Trata-se de uma descoberta de novos papéis sociais do que a busca d’uma existência alternativa ou descolada da sociedade. A mulher de meia-idade ao assumir uma existência homoafectiva não se afasta de sua posição social, ao contrário, traz para a sociedade a “normalização” do amor entre mulheres como um facto tão digno e comum quanto qualquer relação heterossexual. Aliás, todo o passado da lésbica tardia, com seus relacionamentos amorosos inclusive, são reconsiderados tendo em vista a emergência de recomeço que a meia-idade impõe sobre as pessoas. A ideia de mudar tudo para tentar de novo de modo diferente parece muito sedutora à essa altura da vida. Não mulheres ressentidas por não terem se descoberto lésbicas antes, visto que não o eram mesmo. Repare-se: Não saíram do armário pois jamais haviam entrado antes. 

É a quantidade imensa de casos similares que tem feito com que muitos estudiosos passassem a se debruçar sobre o lesbianismo tardio no afã de encontrar razões de ordem psíquica para um comportamento sexual que se acreditava firmemente vinculado às descobertas sexuais da adolescência e às escolhas comportamentais da mocidade. Isto porque as teorias sexuais vigentes tendiam a demonstrar que a opção sexual se daria entre os 16 e os 22 anos, mais ou menos na mesma época em que o indivíduo escolhe uma carreira profissional. A opção ou orientação sexual era vista segundo as citadas teorias como um impulso irresistível ao qual o indivíduo seria incapaz de ignorar ou rechaçar, definindo-o enquanto homossexual. Houve até quem falasse em determinismo genético ou biológico para explicar “a exceção à regra” que a homossexualidade se apresentava para os teóricos comportamentais do século passado.

Hoje em dia, em todo caso, a homossexualidade é vivida pela mulher de meia idade como uma opção prazerosa e racional. Algo que se consolida com a visão que relacionamentos heteronormativos (família, filhos e tais…) são por via de regra menos espontâneos e mais rígidos do que os relacionamentos lésbicos, onde o encontro humano, o prazer sexual e o companheirismo são mais valorizados do que questões patrimoniais ou de segurança jurídica.

Como essa sexopatia tem ganhado contornos de pandemia, a reacção da sociedade patriarcalista a denuncia como questão a ser “curada” pelo bem da “família”. Esposas-e-mães a preferir relações homossexuais ao casamento pode ser o início de um processo de implosão da sociedade tal como a conhecemos. A revisão das teorias comportamentais sexuais em face do fenômeno do lesbianismo tardio pode mudar tudo o que se conhece sobre sexualidade humana e seu psiquismo, onde se pode prenunciar um mundo onde os relacionamentos sejam fruto de encontros humanos não condicionados pelo gênero sexual.

Betim — 12 08 2022

segunda-feira, 15 de agosto de 2022

COMPLEXO DE HELENA - SEXOPATIAS MAGINÁRIAS

 COMPLEXO DE HELENA - SEXOPATIAS MAGINÁRIAS

Como todos os complexos psicopáticos, o complexo de Helena se refere mais propriamente sobre a associação de doenças mentais e um conjunto de sintomas típicos decorrentes de situações existenciais específicas a ponto de causar estranhamento aos indivíduos neurotípicos. De difícil diagnóstico pela séria carga de controle moral que acompanha as pacientes por parte do restante da sociedade, o helenismo se define enquanto consequência do excesso de atenção-admiração-julgamento-expectativas que as mulheres muito bonitas recebem das pessoas o tempo todo ao longo de suas vidas.

A história de Helena de Tróia, a mulher que suscitou um conflito internacional por deixar o esposo-rei para viver como o amante-príncipe, é preciosa para descrever as características da complexada helenista, a saber, uma mulher que tem na beleza uma arma de destruição em massa. Empoderada por uma beleza fascinante, a mulher percebe haver um papel social elevado para si se permitir usar da sedução para conquistar homens em posição de comando ou mesmo alavancar sua fama em meio às mídias pop-artísticas e às redes sociais. Cientes do impacto que provocam sobre as pessoas, a helenista assume uma posição ambígua de gozo pelo excesso de atenção bem como de sofrimento pelo excesso de julgamento. São desejadas tanto quando invejadas, o que lhes afasta progressivamente do contacto comum e da exposição continuada para círculos mas restritos de convivência. De certa maneira, é como se a beleza feminina fosse intimidadora o bastante para influenciar toda sorte de encontro humano que atravessa a vida das complexadas. Pode-se destacar como sintomas típicos do complexo de Helena:

- personalidade narcisista e egocentrismo;

- cinismo estrutural comportamental;

- excessiva frieza afectiva e realismo emocional;

- baixa libido ou mesmo assexualidade funcional;


Pode se firmar que todos os tabus religiosos e morais recorrentes nas mais diversas culturas ao longo da História no sentido de normatizar sobre o pudor feminino tinham, por via de regra, inibir a possibilidade de dar destaque às mulheres do povo através da beleza. Vestimentas como véus, burcas, capuzes, perucas etc... foram infligidos às mulheres ao longo dos séculos para indistinguir  as mulheres. N'esses contextos, apenas mulheres da realeza ou da nobreza poderiam se apresentar culturalmente com mais liberalidade, ainda que submetidas aos mesmos tabus. A estas mulheres de alta sociedade, além da beleza física somava-se o esmero da educação e o talento artístico de modo a criar um corolário de virtudes que a destacassem. A helenista se percebe no mundo como uma mulher merecedora de atenção generalizada e a potencializa com excessivo apuro nos cuidados com a aparência e o vestuário. 

Além da conversação e da polidez, cultiva a helenista o senso de observação e se acostuma a fazer para si análises de personalidade das pessoas de seus círculos sociais. Têm propensão ao autoritarismo e não raro são conservadoras no campo das ideias, embora dificilmente expressem opiniões controversas ou se apresentem a debater o que seja sem controlar o fio da conversa. Notadamente espirituosas, desqualificam o interlocutor rebelde com apreciações risíveis acerca d'algum ponto fraco do oponente antes que a conversa se revele desagradável, sempre dominando a cena. Esse ar de superioridade latente construído a partir d'uma beleza intimidadora faz da helenista uma pessoa com pouco senso de realidade e absolutamente incapaz de colocar no lugar d'aqueles a quem considera menos afortunados. Adquire com o tempo a estranha convicção de que todos estão a seu serviço, tal a quantidade de mimos, regalos, presentes e deferências que os outros, como se encantados, lhe dedicam. Helenistas não têm amigos, têm séquitos; não têm amores, têm oportunidades. São continuamente denunciadas como alpinistas sociais, mas a verdade é que o senso comum exige beleza extraordinária para famoso "le phisique du rôle"  dos membros dos círculos elitistas. 

Paradoxalmente, são tão atraentes quanto assexualizadas... Na verdade, enxergam no sexo apenas mais um instrumento de sedução do que um prazer propriamente dito. Não que se neguem à prática sexual, antes à sexualidade. No fundo a helenista considera o seduzido uma pessoa moralmente fraca, ou melhor, um títere manipulável. Logo, a encantadora jamais se encanta. Se a beleza é a promessa do prazer — como advoga Sthenhall — a beleza feminina seria a promessa d'um encontro humano excepcional, tanto afectivamente quanto sexualmente. Logo, é d'essa ideia verificada no senso comum que se constrói o palácio de vaidades da helenista. A contínua promessa do prazer mantêm seus admiradores enredados a suas ambições e retroalimentam sua autoestima a ponto de considerarem dano colateral o rastro de destruição que deixam ao longo de suas existências. Nomes, pessoas, dignidades e até nações, como no caso de Helena de Tróia, sacrificados na fogueira de seu altar.

Betim - 15 05 2022

segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

MANÍACO

MANÍACO

Caminha pelas sombras, predador,
Belo e mau como um lívido Satã.
À caça de mulheres cujo amor
Revelará mortal pela manhã…

Com efeito, as mais ávidas em flor
Quedam hipnotizadas n'esse elã
Que envolve todo grão conquistador
Às voltas com orgia assim pagã.

Finge ser dos amantes o melhor.
Porém, tão-logo as deita no divã,
Parece confundir prazer e horror
Pronto a lhes devorar a carne chã.

Sua ânsia de prazer só não é maior
Que o apetite por sangue cujo afã
O leva a conduzir ao seu sabor
Às moças que seduz com lábia vã.

Deveras, a ocasião se faz melhor
A sós na alcova… Pois, moral malsã
Dá razão ao misógino valor
Que ainda faz da vítima a vilã…

Matava indiferente do estupor,
Fosse ela donzela ou cortesã…
Em plena foda, ao gozo, em pleno ardor;
Deixando-a inerte já sem amanhã.

Traz consigo, em memória do terror,
À guisa de troféu ou talismã,
D'elas alguma joia em seu favor,
Quer fosse um camafeu ou cruz cristã.

E some… Sem deixar senão pavor.
Após tomar a morte como irmã,
Um maníaco em série matador
Se mostra a insanidade mais insã.

Betim - 08 12 2018