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sexta-feira, 18 de julho de 2025

O SEXTILIONÉSIMO

O SEXTILIONÉSIMO Estimaram, às portas do Milênio, Que nós fôssemos mais de seis bilhões, Vendo ao mundo as finais transformações, Tal-qual profetizou o povo essênio. Tantos, que há-de faltar-nos oxigênio Ao longo dos mais tórridos verões… Por bem monetizar devastações Uns homens de poder e de grão gênio! Apocalipse à vista, um nascituro Há-de testemunhar-nos a aflição, Enquanto a profecia se completa. De facto, eis que este chega sem futuro... Só mais um a viver em negação, Diante do esgotamento do Planeta. Belo Horizonte - 20 02 2002


sábado, 12 de julho de 2025

DÈJÁ VU

DÈJÁ VU


Hoje admito que estou muito cansado

E que ando mais sozinho do que devo.

Imerso em tantos eus, quase longevo,

Pareço um caramujo ensimesmado.


Não que ainda me sinta amargurado,

Somente ao que desejo não me atrevo:

Mais nada experiencio de relevo,

Sem antes presumir tê-lo sonhado.


Aguardo o trem chegar à plataforma.

Deveras, a exceção tornou-se a norma,

Ao estranhar-me de novo de partida.


As sensações… As sombras… A tristeza!

Em face do já visto, com certeza,

Eu sigo andando em círculos na vida.


Belo Horizonte - 20 10 2002


quarta-feira, 9 de julho de 2025

INTROSPECTO

INTROSPECTO


Olhando para dentro, ora me vejo

Perplexo com quem sou e tenho sido.

Vivo às margens de mim; perto d'Olvido,

Nos vãos da solidão e do desejo.


Eu tanto m'enganei que tenho pejo

De a ilusões ter um dia dado ouvido…

Tudo hoje me parece sem sentido,

A ponto d'eu descrer de quanto almejo:


Desejar é perder-se no outro. Assim,

Procuro m’encontrar dentro de mim,

Ao invés de me buscar novos tiranos.


Para além de qualquer satisfação,

Romper de vez os elos da prisão

Que me roubou de mim por tantos anos.


Belo Horizonte- 20 05 2002




domingo, 26 de fevereiro de 2023

PITONISA

 PITONISA


Segreda às pedras tuas sós verdades,

Enquanto a lua apenas acontece...

Ou senão a poesia -- oferta e prece --

Revelará dos deuses as vontades.


Não obstante, entre enigmas e obviedades,

Hás-de contar somente algo que expresse

O destino que todo homem padece

Iludido com suas liberdades.


Tu, sacerdotisa do profundo,

Assentada no umbigo d'este mundo

Poetizas os desastres do porvir.


De vapores por fim entorpecida,

Teus versos profetizam morte e vida

Dos quais tantos em vão tentam fugir...


Belo Horizonte - 06 07 2002

domingo, 1 de janeiro de 2017

TOQUE D'ANGOLA

TOQUE D'ANGOLA

Cadencia, mestre, o berimbau
E chama o povo p'ra jogar capoeira!
Mas manda abrir a roda de maneira
A melhor se medir o bom e o mau.

Arame de aço mais vara de pau,
Que, já tensos n'um arco de madeira,
Ressoam a cabaça à tarde inteira
Com vareta e dobrão de dar o grau.

Chacoalha em tua mão o caxixi
Que ritma toda a ginga na negaça
Quando avança e recua com mais graça.

Floreia o mortal, caindo sobre si...
A seguir tua lenta percussão,
Batendo compassado o coração.

Betim - 09 08 2002

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

O MONGE E A SERPENTE

O MONGE E A SERPENTE

prólogo

Contam que quando andava pela Terra
O iluminado espírito de Buda
Vivia em penitência surda e muda
Um monge seu ferido pela guerra.

Acolhido por Buda, mais se aferra
À sã meditação, com que se escuda
A alma necessitada mais de ajuda,
Visto que grande angústia em si encerra.

Aquele monge à paz se disciplina,
De sorte que mais nada o encoleriza,
Mesmo se tudo em volta desatina.

Assim, quer na tormenta; quer na brisa,
Segue impassível sua dura sina,
Que a entonação de mantras ameniza.

*  *  *

o carma

Na guerra, conduzira ele elefantes
Contra inimigos vindos de bem longe.
Nada, porém, de que ele se lisonje,
Atormentando-o em todos os instantes.

Ferido após barbáries excruciantes,
Decide, mudo e só, fazer-se monge...
A fim-de que da guerra mais se alonje
E o coração da sua vida d'antes.

À espera da impossível redenção,
Procura compensar sua violência
Com uma radical resolução:

— "Enquanto eu respirar n'essa existência,
Nada mais morrerá por minha mão
A ter de novo limpa a consciência."

*  *  *
o encontro

'Pós anos de silêncio e solidão,
Aquela alma culpada e penitente
Eis que encontra uma filha de serpente
Totalmente indefesa pelo chão.

De tão fraca, ele a pega com a mão
Quedando quase inerte simplesmente. 
Co'os olhos em seus olhos, frente a frente,
Sem esboçar a mínima reacção.

O monge a colocou em sua cesta
E a carregou consigo para fora
Da sempre tão quente e úmida floresta.

Já no mosteiro, a todos apavora
Como se enfim tivesse má a testa,
Tal risco que corriam àquela hora.

*  *  *
o concílio 

Buda, que às boas almas conhecia,
Pede a palavra ao povo alvoraçado:
— "Amigos, escutai cá do meu lado!
É necessário mais sabedoria..."

"Deixai-o co'a serpente noite e dia
Até que por fim todo o seu cuidado
Mostre-nos a que fora destinado
Isto o que só loucura parecia."

— "Ouço e obedeço." — disse-lhe um por um.
Assim o monge pôde co'a serpente
Viver este viver tão incomum.

De resto, vivia ele tão-somente
Como se fosse sem perigo algum
Aquela realidade surpreendente. 

*  *  *
a ophiophagus

Pelas selvas dos Gates Orientais
Já na estação das chuvas das monções,
Cobras que comem cobras são vilões
D'estas tórridas terras tropicais.

Deveras, as imensas cobras reais
S'elevam tão ferozes quanto leões
E inoculam peçonha aos borbotões
Sobre maiores e mais fortes rivais.

Espécie tão feroz, antes que nasça,
Seja logo da mãe abandonada 
A não fazer dos filhos sua caça.

Serpente... Mesmo assim fora adoptada
Pelo silente monge cuja graça
Acreditara ser por ela dada...

* * *
a iluminação

Dia após dia, o monge em seu cuidado
Alimentava a cobra presa ao cesto,
Trazendo camundongos que, de resto,
Ninguém mais parecia achar errado.

Tinha fé que co'o tempo do seu lado
Perderia ela instinto tão molesto
A ponto de entender do monge o gesto
E ter o seu furor pacificado.

Julgava que seria agradecida
Ao ser tratada com suma bondade
Ao longo já de toda a sua vida.

Porém, se aproximava da verdade,
Por uma estrada então desconhecida,
Cercado de total perplexidade...

*  *  *
o nirvana

Grande demais p'ro cesto onde vivia,
A serpente s'eleva toda ereta.
Bem diante d'ela o monge jaz, asceta,
A lhe encarar nos olhos todavia.

Ameaçadoramente bela e esguia,
Eis que prepara o bote por repleta
D'uma violência própria já inquieta,
A contrastar co'a paz que oferecia:

N'um átimo, ela voa em seu pescoço...
E crava as suas presas já tristonha
Por aquele que mata 'inda tão moço.

Após, ela inocula-lhe a peçonha,
Que súbito da morte lhe abre o fosso,
Adormecendo feito alguém que sonha.

*  *  *
o darma

Procuraram o Buda entristecidos
Seus discípulos mais a má serpente.
E pretendiam matá-la simplesmente 
Depois dos factos já acontecidos.

Que, embora fossem bem esclarecidos
Sobre o valor de todo ser senciente,
Bradavam por justiça, mas somente
Buscavam a vingança dos perdidos.

E Buda disse: — "Leva para a mata
A cobra ainda viva, com certeza!"
Mas os monges: — "Jamais! É uma ingrata!!!"

Pagou tanta bondade com torpeza..."
E Buda: "Só segue ela a Lei inata:
Agiu conforme sua natureza. 

*  *  *
epílogo

"Estamos todos — Buda diz — sujeitos
À lei do Darma — isto é, Lei Natural. 
Tanto um humano quanto um animal
Vive segundo seus sábios preceitos."

"E ainda que dotados de direitos,
Seres sencientes somos afinal.
A luz está em ver o próprio mal
Para então renunciar a seus malfeitos."

"Pois, mais que da serpente essa maldade
— Na qual vedes traiçoeira ingratidão —
Havia sim desejo à liberdade!"

"Aos olhos da serpente, era prisão
E os cuidados no monge — a tal bondade —
A mais só e absoluta reclusão."

Betim - 20 02 2002 

sábado, 24 de dezembro de 2016

MNEMÔNICA

MNEMÔNICA

De aliterações, rimas e assonâncias
A mente liga pontos e faz pontes,
Que há séculos e séculos são fontes
Para poetas contarem suas ânsias.

Assim, as milimétricas distâncias
Que por entre neurônios alguém conte
Nos têm a imensidão d'um horizonte
Após nos registrar tantas errâncias...

Espaço-tempo em si, nossas memórias
Parecem nos contar outras histórias
À medida que os anos têm passado.

Sem embargo, há-de ser a oralidade
Capaz de nos dizer toda a verdade
N'um verso febrilmente declamado.

Belo Horizonte - 25 01 2002

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

ORÁCULOS

ORÁCULOS

Segreda às pedras tuas sós verdades,
Enquanto a lua apenas acontece...
Ou senão a poesia -- oferta e prece --
Revelará dos deuses as vontades.

Não obstante, entre enigmas e obviedades,
Hás-de contar somente algo que expresse
O destino que todo homem padece
Iludido com suas liberdades.

Tu, sacerdotisa do profundo,
Assentada no umbigo d'este mundo
Poetizas os  desastres do porvir.

De vapores por fim entorpecida,
Teus versos profetizam morte e vida
Dos quais tantos em vão tentam fugir...

Belo Horizonte - 06 07 2002

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

QUIPROQUÓ

QUIPROQUÓ

Pois é... Há quem troque isto por aquilo,
Fazendo tempestade em copo d'água.
Turbilhão d'emoções ardem em frágua
Na vigília do espírito intranquilo!...

É fácil ver maldade n'um vacilo
Quem tem o coração já cheio de mágoa.
Após, em turvo rio ele deságua
E rompe igual barragem seu sigilo.

Ao se pressupor culpa, cai por terra
A ideia de que o inocente também erra,
Pois deve ser punido mesmo assim.

Quanto mais se defende, mais se acusa
Qualquer coitado diante da confusa,
Que julga em tudo sempre algo de ruim.

Betim – 19 12 2002

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

RAIO DE SOL

RAIO DE SOL

O pó que se acumula na mobília
Captura a luz na fresta da janela.
São milhões de corpúsculos aquela
Réstia a luzir tal-qual dourada trilha.

Percebo a rarefeita maravilha
Em fluidificada luz então mais bela,
Que lento movimento se revela
A olhos semicerrados em vigília.

A janela d'uma única bandeira
Deixava o sol entrar no quarto escuro
Espremido por tábuas de madeira.

Parecia o sol raiar assim mais  puro
Como quisesse já d'essa maneira
Me dar toda a alegria que procuro.

Inhapim - 12 09 2002