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quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

O AGNÓSTICO

O AGNÓSTICO

Não me foi concedido conhecer
Entidades ou espíritos d'Além...
Prodígios nem milagres vi também,
Senão os que a Natura faz saber.

Se Deus eu sequer tento compreender,
É que seguir rebanhos não convém.
Em minha mente o Eterno m'entretém
Tanto quanto o Infinito nego haver...

Apenas essa carne onde eu habito
É tudo em que deveras acredito
Com suas sensações e realidades.

O mais são ilusões que em vão contemplo
Nas sós arquiteturas d'algum templo
Onde os homens põem deuses e inverdades.

Betim - 18 12 2018

quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

MILÊNIO - ou o fim do mundo que não veio

MILÊNIO - ou o fim do mundo que não veio

"Ao menos pude ver o fim do mundo
Ou senão o Milênio que o promete..."
-- Na esperança que então se nos repete
D'outro ponto final vasto e profundo.

O alvorecer do fim me foi fecundo,
Coberto de ressaca e de confete.
Depois de regressar do rio Lete,
Em versos e champanhe já desbundo:

-- "Evoé! Vinde findar-nos, Antichristo!
Cumpri do Apocalipse os sete selos,
Realizando os sinais como previsto...

Mas na branca manhã de meus desvelos,
Não vi quaisquer prodígios senão isto:
"Os mesmíssimos males e atropelos!..."

Betim - 12 12 2018

A ESPADA DE DÂMOCLES

A ESPADA DE DÂMOCLES

Busca antes à vaidade que à verdade
Aquele se coloca sobre todos,
Embora com bravatas e denodos
A jactar-se com grande propriedade.

Quem se dá excessiva liberdade,
Tentando aconselhar de muitos modos,
Não percebe por sobre seus engodos
A espada por um fio de maldade...

Assemelha-se a Dâmocles no trono:
Refestelado em luxo aqui e ali
Como de tudo aquilo fosse dono.

Patético, dos outros zomba e ri.
Até que horrorizado, quase ao sono,
Vê a espada pendente sobre si!

Betim - 12 12 2018

terça-feira, 11 de dezembro de 2018

SR. BOM SENSO

SR. BOM SENSO

Que se difira o sábio do sabido,
Bem como o poeta douto do pretenso...
Ainda que seu saber seja imenso
E o laurel pelas letras merecido.

No trato co'os demais aborrecido,
Mostra-se, todavia, um tanto infenso,
Como fiscal da escrita por bom senso
Entre o condescendente e o descabido.

Sim, o Bom Senso: Filho do Bom Gosto;
Pai do Senso Comum e do bastardo
Clichê... Que não lhe dá senão desgosto!...

Pois esse afrancesado felizardo
Entende do leitor por pressuposto
Um intelecto inculto e meio tardo.

Betim - 11 12 2018

OSSUÁRIO

OSSUÁRIO

Entre úmeros e fíbulas mexidas
Mais falanges em pó de volta ao pó,
Fêmures sustentando um crânio só
Qual feixes de esculpturas divertidas.

As catacumbas d’ossos revestidas
Herdam do campo santo fieis tão-só.
Onde obscuros artistas sem mais dó
Põem caveiras de tíbias guarnecidas!

Com efeito, se admira à luz de velas
Inumeráveis vértebras, costelas,
Mandíbulas, clavículas e escápulas…

Mas vindo à cripta mais que de ordinário,
Indiferentes, põem n’um relicário
Ossos tanto de santos que de crápulas.

Betim—10 12 2018

O CARIOCA

O CARIOCA

Mas contam que Bocage aqui andando
Pela ampla Guanabara, de passagem,
Reteve enternecido a sua viagem,
Loas tecendo ao Rio venerando.

Assim, o gentil Janeiro sonetando,
Calhou a si tão bem quanto a paisagem
Um ardor tropical de bom selvagem,
Que pela terra o foi apaixonando.

Escreve lisonjeiro ao vice-Rei
A fim-de que intervisse contra a lei,
Cá ficando a poetar em desvario.

Baldas quedam as súplicas, porém.
Restando-lhe clamar como convém:
-- "Nem Goa nem Lisboa... Quero o Rio!"

Betim - 09 12 2018

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

A EMENDA

A EMENDA

Escrevendo um soneto atarantado,
Enveredei por rimas que, tonantes,
Aqui e ali variam as consoantes
Deixando o verso frouxo e descuidado.

No afã de ver o poema publicado,
Envio-no com pressa aos contratantes,
Que me advertem das rimas um pouco antes
De levarem ao prelo um verso errado.

Folha à mão, considero-lhe os poréns,
Co'os olhos sobretudo nos vinténs
Que me darão a paga por completo.

Encabulado em tomar a decisão,
Atraso a primeiríssima edição
E a emenda me sai pior do que o soneto...

Betim - 06 12 2018

PERIPATÉTICO

PERIPATÉTICO

-- "Eis aqui uma árvore de louro.
Acolá, uma fonte d'água pura..." --
Assim o grande mestre se afigura
Lendo ao livro da vida seu tesouro.

E continua: --"Valem mais do que ouro
As lições observadas na Natura!" --
Lógico, o Estagirita outra leitura
Deixava para um século vindouro".

Andando pelos campos macedônios
Se ri tanto de deuses e demônios
Que usam para explicar o inexplicável...

E no afã de instigar os seus discípulos,
Mostrava o quanto os dogmas são ridículos,
Visto saberes d'um mundo imutável.

Betim - 05 12 2018

domingo, 2 de dezembro de 2018

VISÃO PERIFÉRICA

VISÃO PERIFÉRICA

É diferente o olhar sobre a cidade
De quem a vê passar pela janela
D'outro ônibus ou trem que lhe revela
Todo dia uma dura realidade.

Acostumar-se co'a dificuldade
Que mais afasta o asfalto da favela
E ainda crer que assim se desmantela
A ordem piramidal da sociedade.

Longas horas perdidas no percurso
Questionam quem do mérito o discurso
Insiste em lançar mão para mandar.

A verdade é que aqui da periferia
A cidade mais parece a fantasia
Que julga pôr cada um em seu lugar...

Betim - 01 12 2018

sexta-feira, 30 de novembro de 2018

EM NEGAÇÃO

EM NEGAÇÃO

Quem não faz nada nunca por ninguém
Parece negar a outrem a verdade
De que não há qualquer necessidade
De tratar tudo e todos com desdém.

Apenas o que mais se lhe convém
Faz, fazendo valer sua vontade:
Negada e renegada a liberdade,
Pois sempre d'olhos fitos para o Além.

Ainda que uma esperança assim conforte,
Vê estes que têm a alma malferida,
Como se nada nem ninguém importe.

Vivendo alheios à alheia dor vivida,
Já não em negação de sua morte,
Mas sim por negação da própria vida.

Betim - 30 11 2018

SINGULARIDADE

SINGULARIDADE

Surrealizo os teus olhos feito estrelas
E atravesso as galáxias de teu verso...
Pelas letras, recrio outro Universo
Onde estás bem no centro das querelas!

Em fuga, duas linhas paralelas
Reúnem no infinito o haver disperso.
De modo que contigo desconverso
Sobre eu ser lar de múltiplas janelas.

Espaço-tempo d'um buraco negro
De cujos mil megatons me desintegro,
A ponto de deformar matéria escura.

E mesmo a luz se curva ora atraída
Àquela gravidade desmedida
Que bem dentro de ti se transfigura.

Betim - 29 11 2018

sábado, 24 de novembro de 2018

O TALARICO

O TALARICO

Tarde demais, o amigo se mostra um...
Ou melhor, que jamais foi mesmo amigo.
Até tento entender, mas não consigo
Quem se reduz a ser lugar-comum!

Hoje não é ninguém quem foi nenhum
Dos que um dia evitou andar comigo.
Ao contrário, de mim pediu abrigo,
Fazendo de meu pão seu desjejum.

Mas s'entreteve com minha mulher:
Enquanto ela buscava m'esquecer,
Ele esquecia tudo o qu'eu lhe fiz.

Hoje só lhe devoto o mais frio ódio
Sempre que recordo do episódio...
Que mais posso fazer d'esse infeliz?

Betim - 12 02 2014

GINECEU

GINECEU

Bela entre as belas, ela se deleita
Em vê-las todas nuas e agitadas:
Pernas, coxas e mãos entrelaçadas
Sem que possa dizer a mais perfeita!

Já essa sobre aquela ali se deita
Ao passo que aquel'outras, perfumadas,
Vêm se trocar carícias delicadas
E também ela beija à sua eleita.

A rainha, resguardada por eunucos,
Apraz-se em companhia de donzelas
Longe do velho rei entre caducos.

E alheia à toda Corte, junto d'elas
S'entregava aos desejos mais malucos...
Feliz d'estar ali, bela entre as belas.

Belo Horizonte -  24 11 2018

sexta-feira, 23 de novembro de 2018

MONTE DE VÊNUS

MONTE DE VÊNUS

De tua geografia explorador
Tornei-me entusiasmado e persistente.
Não raro te desnudo tão-somente
Para te ver corar tanto candor...

E descubro, por sob o teu pudor,
Toda uma natureza esplandecente.
Onde vales, planícies e a vertente
Que tenho palmilhado com ardor:

Em leve elevação, eis o áureo monte
D'onde se descortina esse horizonte
Esplêndido de curvas venturosas.

Mas onde, sobretudo, aquela gruta
Cuja lenda e mistério mais s'escuta
Como a fonte de néctar entre rosas!

Betim - 23 11 2018

quinta-feira, 22 de novembro de 2018

BODAS DE CIANURETO

BODAS DE CIANURETO

Romântico a meu modo, eu não me oponho
A morrer já de mãos dadas contigo.
Bebamos outra dose de perigo,
Baforando tragadas d'algum sonho.

Pego-me a te admirar assim tristonho
Como se fosse um íntimo inimigo
Capaz de te acolher no mesmo abrigo
Onde oculto do ser meu mais bisonho:

-- "Que preferes, champanha ou cianureto?"
À maneira do músico eu te poeto,
Fazendo graça com nossa tristeza. 

No mais, comemoremos estas bodas
'Pós-excessos das mais bizarras fodas,
Mareados sob um céu azul turquesa.

Betim - 22 11 2018

DESAPEGO

DESAPEGO

Deixo de te querer para que partas
E enfim possas amar alguém de novo.
Se os votos do passado não renovo
É antes por sabê-los velhas cartas...

Certo que tu de mim logo te apartas,
Aceito-o, mas ainda me comovo.
Não obstante é bem como diz o povo:
De males as pessoas andam fartas!

Volta a sorrir, ainda qu'eu te chore
Debalde uma saudade sem remédio
Ou a solidão por vezes me apavore.

Cuida apenas de assim matar o tédio
E impedir que tristeza te descore,
Vivendo tudo o mais sem intermédio.

Betim - 21 11 2018

quarta-feira, 21 de novembro de 2018

ESTROBOSCÓPIA

ESTROBOSCÓPIA

Mostra-se quadro a quadro ou fotograma,
Como que congelando o movimento.
Somente a iluminar cada momento
No instante que o lampejo se derrama. 

Sequência de instantâneos cujo drama
Põe entre claro e escuro um andamento.
Onde o corpo à luz do pensamento
Diverso espaço-tempo a si proclama.

Em longa exposição se lhe captura
A trajetória toda n'um só plano,
Fazendo o passo a passo da figura.

E se, por cinemático esse engano,
Revelar-se inusual nomenclatura,
Far-se-á tão-só de luzes outro humano.

Betim - 21 11 2018

terça-feira, 20 de novembro de 2018

DÂNAE

DÂNAE

Chuvas d'ouro lhe jorram sobre o sexo...
Pois quando os deuses amam, generosas,
Suas mãos amantes lhe ofertem rosas
Ou, se forçoso for, o áureo amplexo!

À ninfa enclausurada vem perplexo
Honrar com suas galas vigorosas.
Ao fecundá-la tanto quanto esposas,
Lhe goza entre palavras já sem nexo.

Em resposta, ela verte a sua linfa
N'outra chuva prateada pois de ninfa,
Onde ejacula a gala feminina.

E mais a sua fúria se agiganta,
Entumescida a vagina sacrossanta
Que em chamas de prazer tudo ilumina.

Betim - 20 11 2018

domingo, 18 de novembro de 2018

NÓS COMO VÓS

NÓS COMO VÓS

Também nós temos sangue sob a pele
-- Vermelho, não azul como sonhais... --
Mas, derramados, correm tão iguais,
Que sequer se distingue este d'aquele.

Entre nós e vós, tal sangue enfim revele
Menos as diferenças do que os ais
E mostre que todos perdem mais
Quando o afã de vitórias os impele.

Nós como vós havemos-de morrer,
Andando n'esse mundo sem saber
Aonde se vai dar com tanta briga.

O certo é respeitar a liberdade
E sorrir sem ser dono da verdade
Àquele que m'estende a mão amiga.

Belo Horizonte - 17 11 2018

sexta-feira, 16 de novembro de 2018

LUA À MÍNGUA

LUA À MÍNGUA

Decresce pelo céu a lua ao meio,
Desanuviando a noite dos sertões.
Da mata, um uratau geme canções
Bisonhas e com uivos de permeio.

Embaraçada pelo seu gorjeio,
A lua fica à míngua em seus clarões...
Vai minguando minguante aos corações
Desiludidos já d'algum enleio.

Tal luar antes esconde que revela,
A encher de densas sombras os caminhos
Por onde o enamorado se desvela.

Tristes, o mãe-da-lua e os passarinhos,
Vendo a lua minguar tão menos bela,
Deixam esses desertos mais sozinhos...

Betim - 15 11 2018