sábado, 12 de julho de 2025

DÈJÁ VU

DÈJÁ VU


Hoje admito que estou muito cansado

E que ando mais sozinho do que devo.

Imerso em tantos eus, quase longevo,

Pareço um caramujo ensimesmado.


Não que ainda me sinta amargurado,

Somente ao que desejo não me atrevo:

Mais nada experiencio de relevo,

Sem antes presumir tê-lo sonhado.


Aguardo o trem chegar à plataforma.

Deveras, a exceção tornou-se a norma,

Ao estranhar-me de novo de partida.


As sensações… As sombras… A tristeza!

Em face do já visto, com certeza,

Eu sigo andando em círculos na vida.


Belo Horizonte - 20 10 2002


quarta-feira, 9 de julho de 2025

INTROSPECTO

INTROSPECTO


Olhando para dentro, ora me vejo

Perplexo com quem sou e tenho sido.

Vivo às margens de mim; perto d'Olvido,

Nos vãos da solidão e do desejo.


Eu tanto m'enganei que tenho pejo

De a ilusões ter um dia dado ouvido…

Tudo hoje me parece sem sentido,

A ponto d'eu descrer de quanto almejo:


Desejar é perder-se no outro. Assim,

Procuro m’encontrar dentro de mim,

Ao invés de me buscar novos tiranos.


Para além de qualquer satisfação,

Romper de vez os elos da prisão

Que me roubou de mim por tantos anos.


Belo Horizonte- 20 05 2002




sexta-feira, 4 de julho de 2025

OSTRACISMO

OSTRACISMO 


Hoje em dia, eu converso com ausentes

E componho uns silêncios reflexivos.

Tenho andado entre vivos e não vivos,

Como se um purgatório de descrentes.


Eu cumpro a minha pena sem correntes,

Embora saiba ter os pés captivos

Por perscrutar dos meus os seus motivos

Co’a culpa que se impõem os inocentes.


D’olhos no que passou, eu passo os dias

Às voltas co'as lembranças mais baldias

Em minha irrelevância indiferente.


E, de tudo que amei distanciado,

Percebo ter eu mesmo me tornado

Senão um estranho entre estranha gente.


Congonhas - 30 06 2025


quinta-feira, 3 de julho de 2025

PAMPULHA

PAMPULHA

Ócio criativo: Fotos de postal

E água de coco com pastel de feira.

No mais, contemplação e brincadeira;

E o entardecer nas águas no final.

A turistar n’algum nobre quintal

Ou a revisitar pálios sem bandeira,

Flano pela avenida sempre à beira,

Que lhe contorna o plano magistral.

É bom estar aqui só por estar

E rever tudo o que há para se olhar,

N’um encontro de velhos conhecidos:

Meus olhos e a paisagem, tão-somente.

O sol raia nas águas seu poente,

Feliz de meus sorrisos desmedidos.

Belo Horizonte - 26 06 2025











SECO E FRIO

SECO E FRIO


O beijo ficou seco; os lábios, frios.

Talvez eu já não veja ou seja visto...

Mesmo ainda te amando, ora desisto

Farto de teus humanos desvarios.


Talvez sorrisses sóis; chorasses rios.

E eu, tão equivocado de tudo isto,

Já não mais te quisesse ser benquisto,

Entregue ao desatino dos baldios.


O beijo ficou frio; os lábios, secos.

Pelo vazio em mim escuto os ecos...

Não há porque não ser o mesmo em ti.


P'ra todos os efeitos, assim seja:

Olhando para mim talvez te veja

E estejas tu tão só quanto eu aqui.


Betim - 08 03 2019

COLIBRIS

 COLIBRIS


Soubesse parar no ar; soubesse olhar

E ver quanto m’escapa ao entendimento.

Retirar do momento o movimento

E reter-te à retina até te amar.


Talvez no coração fosse guardar

Senão o pensamento, o sentimento

Ou obter da sensação contentamento,

A tempo d'uma flor desabrochar.


Tal como os colibris pelo jardim,

Não te ofertar senão delicadeza,

Às voltas com efêmero festim.


E, também como eles, ter certeza

Da doçura do beijo em teu carmim:

Nutrir-me tão-somente de beleza.


Betim - 20 06 2025

segunda-feira, 23 de junho de 2025

ONDE HOUVER CAMINHOS

 ONDE HOUVER CAMINHOS


Eu andarei… Ainda que por rumo.

Prescinde de razões ou companhia

A vontade de ser em travessia

Para além dos lugares que costumo.


Sim. Onde houver caminhos; onde o fumo

S'eleva na distante serrania…

E o encanto vai ao encontro da poesia

Para além das palavras que perfumo.


Perscruto a solidão das madrugadas

A ver n'estas paragens neblinadas

Ainda a fantasia e a maravilha.


Porque sinto que, estando em movimento,

Até o ar que respiro contra o vento

Conquisto sob um sol que imenso brilha.


Sabará - 20 06 2025