quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

AO PARTIR

AO PARTIR

Antes ser quem vem vez em quando,
     [ entre saudades,
Do que quem fica lamentado
     [ contrariedades.

Quero que me lembres feliz
     [ E enamorado.
Não a reclamar quanto fiz
     [ quando ao teu lado.

Se acaso um dia eu não voltar
     [ para os teus braços,
Não paire angústia em teu olhar
     [ por meus maus passos.

Não!... Retoca ora o carmim
     [ dos lindos lábios,
E dá o amor que deste a mim
     [ para mais sábios.

Betim - 06 02 2020

POR ESCRITO

POR ESCRITO

Absorto pelo afã de fazer versos
Não cuido de passar a pão e água,
Ainda a revisar papéis dispersos.

Igual um alquimista em sua frágua,
Eu fujo à companhia dos demais
A purificar d'alma toda a mágoa.

Não por me haver melhor!… De mais a mais,
O Olvido nos alcança tudo e todos
E a morte quando vem nos faz iguais.

O certo é que busquei de tantos modos
Fazer sorrir-me a musa desvairada,
Que cai em esparrelas mais engodos:


De saída eu vi má minha jornada
Ao preferir as rimas ao dinheiro,
Ocupado em poetar por quase nada.

De facto, por retorno financeiro
Ninguém escreveria uma só linha!
Visto poeta ser poeta o tempo inteiro…

Penso não ser alguma coisa minha
Isso de procurar sonoridade
Que a Poesia da Música avizinha.

Gastei em escrever a mocidade
N'aquela indiferença franciscana
Em face da riqueza e da vaidade.

Demorei a entender a luz profana
E ver que Deus, se existe, bem s'esconde
Ao longo da sangrenta História humana.

Deveras, sem saber quando nem onde
Depois de às soledades inquirir
Apenas o silêncio me responde…

Às voltas co'as quimeras do porvir,
Deixo o transcendental como mistério,
Sem mais especular seu existir.

Ainda que entre os meus passe por sério
Muitos há que por falho me tomem
Sempre lhes tolerando o vitupério…

Minhas provocações bem os consomem:
-- "Sob Deus, ao homem é mais condenável,
Ir matar um homem ou amar um homem?" --

Vê-se porquê sou tão pouco vendável…
Contudo, eu me divirto p'ra valer
Vendo escandalizar-se algum notável!

Concedo que é questão de se temer,
De maneira que a gente sempre viva
A se matar por medo de morrer.

Mas quando por Deus o homem mais se priva,
Corre o risco de nunca cogitar
Haver uma existência alternativa.

Aceita inopinado o seu lugar
Na altíssima pirâmide que eleva
Para outrem mais distante contemplar

E, ainda que profunda a sua treva,
Impõe-se o autoengano d'uma crença
A aceitar quanto d'ele a vida leva…

Eu, que sou miserável de nascença,
Não me iludo co'o mérito dos ricos,
Tampouco co'a memória de quem vença.

Porquanto a História escrita em impudicos
Floreios que sustém meias verdades
De grandes a reinar sobre nanicos.

E embora se conquistem liberdades,
Querem nos convencer que estamos vivos
Tão-só para fazer-lhes as vontades.

Os poetas são, portanto, inexpressivos
N'um mundo onde os homens são medidos
Por aquilo que vendem aos altivos.

Visto apenas quererem entretidos,
-- Nunca alertas ou mesmo questionados --
Aqueles que às palavras dão ouvidos.

Não mais que multidões de embasbacados
Correndo atrás de artistas de artifício
Nas indústrias de mídia fabricados.

Nada de vagos poetas cujo ofício
Busca obter das palavras os clarões
Ao longo d'uma vida de ócio e vício.

De quebra, suscitar vãs reflexões
Co'a extrema liberdade dos vadios
Que se sabem entregues já aos leões.

Até porque, n'estes dias tão sombrios,
Poetar tem parecido inoportuno
Àqueles que detém os senhorios.

Se por males alheios não me puno,
Tampouco pela fúria do infeliz
Que s'entende de déspotas aluno.

Ele sim se apequena com o país,
N'uma resignação de vira-latas,
Que à sua própria gente mais maldiz.

Já farto de pessoas insensatas,
Eu cuido de meus versos ignorando
Do estúpido as estúpidas bravatas.

Posso até claudicar de vez em quando
E confundir o novo co'o bonito
Como quem admirado sai poetando…

Sem embargo, ajo assim porque acredito
E, sem sombra de dúvida, reafirmo:
Sim, eu faço a minha arte por escrito.

Betim - 05 02 2020

A PÃO E ÁGUA

A PÃO E ÁGUA

Se manter a barriga bem fornida
É tudo o que se deve desejar,
Que propósito posso dar à vida,
Senão sempre ter algo a mastigar?

Especulo se a mesa é bem servida
Ou quais especiarias no manjar.
Boa a conversa, pois, boa a comida
E um bom anfitrião tem seu lugar!

Não obstante, por mal de meus pecados,
Tenho passado apenas a pão e água,
Bem longe dos banquetes celebrados...

Mas antes que tal passe por mágoa,
Informo que se a sorte assim permite
Aceito à vossa mesa outro convite!

Betim - 06 02 2020

terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

DURMA D'UMA VEZ!

DURMA D'UMA VEZ!

Ela não quer dormir p'ra não acordar
Amanhã tendo um mundo por fazer...
Ela quer dançar 'té o sol nascer
Para mesmo acordada ousar sonhar
-- E só depois de morta repousar...

Dizem que a noite é para descansar
E -- "Durma d'uma vez!" -- vem lhe dizer
Para sério e sensato mais parecer
Aquele que ela acusa de a matar
-- E só depois de morta repousar...

Dizem que o dia é para trabalhar
E -- "Durma d'uma vez!" -- vem lhe saber
Para mais e melhor lhe desdizer
Aquele que ela acusa de a calar
-- E só depois de morta repousar...

Dizem que a vida é para s'enricar
E -- "Durma d'uma vez!" -- vem lhe querer
Para por bem ou mal lhe convencer
Aquele que ela acusa, enfim, de a amar
-- E nem depois de morta repousar...

Belo Horizonte - 04 02 2020

ARROZ DE FESTA

ARROZ DE FESTA

Apagadas as luzes do salão,
Após as despedidas dos convivas.
Nas taças, só as marcas das salivas
D'aqueles que brindaram à exaustão.

Onde há pouco ecoavam "urras! vivas!"
Agora há só silêncio e escuridão:
Confeitos espalhados pelo chão
E ornatos se soltando das ogivas...

Até os mais chegados vão embora
Em vista do avançado d'aquela hora
E do cerimonial já encerrado.

Todavia, na porta da despensa
Co'a última garrafa por licença
Festeja, animadíssimo, o embriagado!

Betim - 04 02 2020

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

GINARQUIA

GINARQUIA

Que venha o Matriarcado!... Feminália,
Terra das amazonas belicosas!
Que mais que empoderadas; poderosas:
A despeito da extrema represália...

Bradam: -- "Todo o poder à genitália!" --
Onde sexualidades vigorosas
Permitam existências entre rosas,
Deixando passos leves de sandália.

Mátria, em lugar de pátria, seja o lar
Não d'homens, sim d'humanos a sonhar
Uma vida de beleza e de prazeres.

Pois menos pode a força que o cuidado...
Seja eu, com liberdade, governado 
P'lo coração imenso das mulheres.

Betim - 03 02 2020

domingo, 2 de fevereiro de 2020

DESTEMPERO

DESTEMPERO

Tu estás certo, mas estás errado.
Há verdades em tudo o que disseste,
Mas mesmo que o ocorrido inconteste,
Terás, decerto, o aparte já guardado
-- Se Razão não é facto, apenas lado.

És, inobstante, um juiz destemperado
D'esses que veem diversos como peste
E os taxas de imorais, bem preocupado,
Como ameaças à Lei, à Ordem e ao Estado.
-- Se Razão não é facto, apenas lado.

Estabelece trânsito em julgado
Tua idiossincrasia cafajeste,
Enquanto de "justiça" se reveste
A vingança do rico contra o ousado...
-- Se Razão não é facto, apenas lado.

Tudo apenas risco calculado:
Lanças mão d'um enredo de faroeste
A fazeres do real o que te preste
E chegares ao topo, douto e honrado.
-- Pois Razão não é facto, apenas lado.

Betim - 02 02 2020