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quarta-feira, 8 de junho de 2022

FRACASSADO

FRACASSADO


Assim, depois que a vida deu errado,

— Ali pelos quarenta e poucos anos... —

Parei de me iludir ou fazer planos,

Visto tão-só sinistros por legado!


A medo de buscar novos enganos

Deixei as esperanças vãs de lado…

Eu, entre mil fracassos, fracassado

Agora a chafurdar solos mundanos:


No chão, enquanto a face toca a terra,

Perdi tanto a batalha quanto a guerra

N’aquela fé cegada de quem sonha.


Resta escutar os hurras dos alaridos,

Que os vencedores têm para os vencidos

Ao passo que caminham na vergonha…!


Betim - 26 12 2020

sábado, 11 de dezembro de 2021

A PÃO E ÁGUA

A PÃO E ÁGUA


Tenho passado a pão e água os meus dias,

Desgostoso da vida e seus prazeres.

Pois cada gozo alterca com sofreres,

Em meio a mais tristezas que alegrias.


Entre azares se perdem fantasias

Tal como auroras entre os afazeres…

Tempo se desperdiça com haveres,

Enquanto um grande amor entre porfias.


Este estranho jejum a que me obrigo

É obra involuntária de mendigo

Que pouco ou nada tem de piedosa.


É dissabor total com o que vivo!

Se o tens por sacrifício sem motivo

É que me desconheces toda a prosa.


Betim - 07 11 2020

segunda-feira, 9 de agosto de 2021

EM FINS DE DEZEMBRO

EM FINS DE DEZEMBRO


Foram dias sem sol; noites sem lua,

Aqueles que, passado o Solstício,

Trouxeram-me o momento mais difícil

D'esta vida que apenas continua.


Horas e horas vagando pela rua

Tidas no bizarríssimo exercício

De rondar por beirais de precipício

A ecoar-me ganidos de dor crua.


Alheio a tudo e todos, andava eu

Às festas que costumam dar o povo,

N'um Natal em que nem Jesus nasceu...


Nenhum excesso mais eu me reprovo.

E, para esquecer quanto aconteceu,

Vou celebrar em vão outro Ano Novo!...


Guriri - 31 12 2020

segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

SETENTA VEZES SETE VEZES

SETENTA VEZES SETE VEZES

Quantas vezes perdoei quem me feriu?
Tantas quantas houvesse a lhe perdoar...
Aquele que não erra não ouse amar
Nem sinta muito quem nada sentiu.

Peço desculpas pelo que se viu
Em nossas vidas sem comum lugar. 
Hoje, distante, sei até faltar 
Espelho que me mostre menos vil.

Perdi meu grande amor. Eu perdi tudo...
Eu, de tão agoniado,  calo mudo 
Tristezas que m'ecoam nas entranhas. 

Deus queira ao perdoar ser perdoado
Para eu poder amar quem tenho amado 
E deixar essas noites sós e estranhas.

Sobrália - 30 12 2020

terça-feira, 29 de dezembro de 2020

HOLOGRÁFICO

HOLOGRÁFICO

A imagem que se forma no vazio
Chega a brilhar no fundo da retina...
Por arte cinemática ilumina
A mensagem enviada em desvario.

Das formas impalpáveis desconfio,
Enquanto a realidade se imagina
N'uma virtualidade que alucina,
Visto que semelhantes ao arrepio!

Eu tenho para mim que a projeção,
Pretendendo falar ao coração,
Me fez mais triste o meu olhar tristonho.

De maneira que aquele sentimento
Tornasse o audiovisual em movimento
Como a mulher amada em meio ao sonho.

Sobrália - 29 12 2020 

domingo, 27 de dezembro de 2020

FOGO SELVAGEM

FOGO SELVAGEM

À labareda muda se semelha
A ardência que recobre minhas mãos.
Espalha-se na pele em tons in-sãos
Até deixar a parte bem vermelha.

Queima por dentro a carne onde se artelha
O pulso que me dói em gestos vãos.
Ao passo que por fora brotam grãos
Como se fosse agora mão de velha...

O fogo que me queima, todavia,
Avança pela pele todo dia
Como se m'estivesse o sangue em brasa.

Eu me mudar de cor logo parece
Que alguma herança indígena aparece
E acima da epiderme s'extravasa.

Sobrália - 27 12 2020

quinta-feira, 24 de dezembro de 2020

AMARO

AMARO

É muito ruim amar quem já não te ama
E te chama de amor sem nem te amar.
Se todo amor um dia há-de acabar,
Restem em paz as cinzas d'essa chama.

Andando infeliz quem muito reclama
Decerto tem motivo o desgostar:
Há quem confunda amores com folgar
E sempre faz da noite uma derrama...

Amaro. Muito amaro aquele amor,
Em cuja boca o beijo é sem sabor,
Depois de tantas falas celeradas.

Amara. Desamar quem não te amou.
Pois o tempo de amar já te passou:
-- "Sumam com ilusões enamoradas!"

Betim - 23 12 2020

segunda-feira, 21 de dezembro de 2020

COPAS ENVERGONHADAS

COPAS ENVERGONHADAS

Cheias de não-me-toques, as coroas
Dos altos eucaliptos pelo vento
Ondulam a ciciar n'esse momento
Em que caminho longe das pessoas.

Sob o rumor das ramas passo lento,
Rememorando coisas más e boas...
Mas me pego encantado a tecer loas
Ainda às pudicícias vãs do evento:

Sim, as árvores têm suas vergonhas,
Assim como ora tenho meus remorsos,
Em meio a horas tão sós quanto tristonhas.

Pois apesar de todos os esforços,
Somos só solitários a afastar
O bem e o mal de quem quer nos tocar.

Sobrália - 21 12 2020

domingo, 20 de dezembro de 2020

TRANSAMAZÔNICA

TRANSAMAZÔNICA

Mais dia menos dia vou-m'embora,
Rodar por roças novas onde o sol
Traz ainda mais perto o seu farol
E faz rachar a terra que se cora.

Diz-que quando o aguaceiro se demora,
Não vai trator de esteira nem patrol.
Somente a mosquitada onde terçol,
Malária, dengue, berne, catapora...

Para cada trecho ínvio haja morada,
Fazendo a travessia uma jornada,
Dias e dias preso ao lamaçal...

Quem porém das águas passa o inverno
Reine, pobre diabo, n'esse inferno
Sem lei nem grei da selva tropical!

Sobrália - 20 12 2020

PAPOS ALEATÓRIOS

PAPOS ALEATÓRIOS

Falo e não sei do qu'eu estou falando.
Escuto e não entendo ou sequer tento.
Parecer ser parece o meu intento,
Mas meneio a cabeça quando em quando.

Concordo mesmo em nada concordando.
Emendo as frases sem mais pensamento.
Sei o outro interromper todo momento
E mesmo assim eu sigo divagando.

Pelo gosto de ouvir a minha voz
Não deixo haver silêncios entre nós
Como tivesse pânico em pensar.

Incapazes d'algum desejo análogo,
Passamos o estranhíssimo diálogo
Todo o tempo falando sem parar.

Sobrália - 19 12 2020 

sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

TRECHO VARIANTE

TRECHO VARIANTE

Hoje atalho por dentro a estrada velha
Sem as curvas do vale rio abaixo:
Um viaduto elevado sobre o riacho
E um túnel logo após que s'emparelha.

Então, passando o trecho, olho de esguelha
E relembro como era ali embaixo,
No tempo em qu'eu andava cabisbaixo
Com rugas a cravar a sobrancelha.

De vera, foram muitas travessias
Tristes em meio a tristes desventuras,
Que tanto obscureciam os meus dias.

De modo que o caminho em meio à serra,
Agora abandonado, em si encerra
O meu lugar-comum de sós agruras.

Antônio Dias - 17 12 2020

PATÉTICA

PATÉTICA

Se gosto de sorrir com seu sorriso,
Também gargalho em suas gargalhadas.
É muita areia?  Dou duas carradas!
Trocentas horas extras, se preciso...!

Tem graça a sua vida no improviso
E o gosto peculiar para piadas...
Falas tão graciosas que engraçadas,
Mas que sempre me põem de sobreaviso.

Parece sem temor de aparecer
Pois faz chorar de rir quem quer que fosse
Como nada tivesse p'ra perder.

O riso que ora tenho ela quem trouxe...
Sem vergonha de si e do que quer,
Tudo o que faz a vida ser mais doce.

Betim - 16 12 2020

quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

AS MENINAS

AS MENINAS

Parecem-se igual duas gotas d'água
Nas pupilas dos olhos espelhadas
-- As meninas me passam alvoraçadas;
Com as maçãs do rosto ardendo em frágua! --

Jamais eu poderia olhar com mágoa
Àquelas traquinagens descuidadas,
Se o coração, em fortes ressacadas,
É um mar onde o amor, rio, deságua...

Elas correm de costas para mim
Como se me corressem outrossim
Pelo tempo que tudo quer levar.

Caminham sempre juntas na memória,
Por alguma alameda ora ilusória,
Tão parecidas são em meu olhar.

Betim - 15 12 2020

CADERNETA

CADERNETA

Passou pela cabeça e eu escrevi.
Pois antes de ser verso ou pensamento
Fora a contemplação do vão momento
Ou algo de interessante que eu ouvi.

A folha em branco esteja sempre ali
Onde a escrita repouse sem intento
Para desanuviar meu sentimento
E depois me lembrar do que esqueci...

Tenho sempre no bolso; bem à mão,
Alguma caderneta de rascunho
Que me recebe as letras de ocasião.

E, senão de meus dias testemunho,
Haja ao menos dos gestos a expressão
D'esse afã de poetar de próprio punho.

Betim -  15 12 2020

segunda-feira, 14 de dezembro de 2020

DOIS MIL ANOS DEPOIS DE CRISTO

DOIS MIL ANOS DEPOIS DE CRISTO

Não houve Natal quando ele nasceu.
Tampouco no solstício d'outro inverno
O mundo parou para olhar o eterno
E receber aquele que Deus deu.

Não sabem se de facto aconteceu:
Anjo, virgem, massacre, luz, governo...
Todavia, o que há entre o céu e o inferno,
Em outro sonho humano se perdeu.


Contaram dois mil anos -- vai saber!... --
O tempo que calhou de acontecer
Aquele nascimento obscurecido.

De tudo, a única coisa que nos resta
É essa mui ruidosa e estranha festa,
Que inventaram para um recém-nascido.

Ubatuba - 28 12 1999

domingo, 13 de dezembro de 2020

ENTRESSONHO

ENTRESSONHO

Durmo como estivesse esvaziado
De qualquer vão vestígio de existência.
D'olhos fechados, vívida consciência
De imaginar-me à noite despertado.

Meu sono parecia tão pesado,
Que a morte não seria coincidência.
Visto aquela máxima indolência,
Enquanto eu totalmente desligado.

Entre nada e lugar nenhum, a mente
Não concebia o tempo onde o presente
Acontecia para todo mundo.

Apenas o vazio e o esquecimento.
E aquele fora o meu melhor momento
De todos qu'eu vivera n'esse mundo.

Betim - 12 12 2020

quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

AO OLVIDO

AO OLVIDO

Se tenho tanta coisa p'ra esquecer
D'esta que, bem ou mal, já m'esqueceu,
É porque o meu caminho se perdeu
Enquanto eu insistia em bem querer.

Talvez não fosse mesmo para ser
Ou quem virá será melhor do qu'eu.
Talvez não seja nada: Aconteceu...!
Passou e não há nada a se fazer.

Nomes, cores, lugares, sentimentos,
Pessoas, coisas, ares e momentos...
Tudo o que teve a ver com quem partiu.

Cedo ou tarde será tudo esquecido.
Deixando-me a memória rumo ao Olvido,
Indiferente a quem chorou ou riu.

Betim - 09 12 2020

DE MÃO BEIJADA

DE MÃO BEIJADA  

Pretendia-se um lorde, o beija-mãos, 

Entre mil gentilezas e mesuras. 

E, em face d'outra vítima, as finuras 

Que a polidez obriga aos homens vãos. 

 

Entregues ao malandro, os olhos sãos 

Veem suas intenções, então obscuras, 

Como ambíguas promessas de venturas. 

E disse por fim sim depois de nãos... 

 

Beijando a mão até subir à nuca, 

Armava para a pomba uma arapuca 

Com lábia que desliza pelos lábios. 

 

Depois de consumada outra conquista, 

Sem olhar para trás, perde de vista 

Os olhos que deixou quiçá mais sábios. 

 

Betim - 09 12 2020  

 

terça-feira, 8 de dezembro de 2020

À RISCA

 À RISCA

As linhas no papel tenho seguido
À maneira d'um mapa do futuro:
Útil, firme, vistosa...O que procuro
Seja uma arquitetura do inavido!

Para gente viver que o construído
Se me projecta para além do obscuro,
Tornando-me pelo hábito maduro
Ao ser, senão mais sábio, mais sabido.

Desenho a planta baixa sobre a terra,
Enquanto cada estaca mais s'enterra
Para que o prédio mais alto s'eleve.

E o papel que me aceita o devaneio
Recorde meu engenho e meu anseio
Se tão longa a arte quanto a vida breve.

Betim - 07 12 2020

segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

BACURAU

BACURAU

Ave de boca aberta, engole vento
Ao rapinar as nuvens de insectos.
Surpreende pela noite os circunspectos
Que vagam nas desoras ao relento.

Mal veem o seu contorno pardacento,
Mas bem lhe ouvem os lúgubres projectos...
Muitos sequer conhecem d'ele aspectos,
Tão obscuro que é seu avistamento.

-- ''Amanhã eu vou...'' -- lembra seu piado,
Como fosse um noctívago cansado,
Que hesita em deixar a madrugada.

Sim, vigia na noite a mata escura
Co'a mesma ensimesmada e só procura
Que o boêmio algures faz do nada ao nada.

Betim - 07 12 2020