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segunda-feira, 4 de julho de 2022

TU, O REI

TU, O REI


E se fosses o rei, e se tu fosses

Aquele que, aclamado, nos governa,

A mentir para o povo frases doces...


Aquele que virtudes só externa

Digno d'excelentíssimos louvores

Sob a Sabedoria Sempiterna.


Se fosses o maior entre os maiores,

Aquele que d'heróis fora nascido

Herdeiro d'esperanças e temores!


Aquele que dos deuses o Escolhido

Para mostrar por nós predileção,

E em ti teu povo d'outros distinguido.


Se fosses tu o Chefe da Nação,

Com que decretos-leis ordenarias

Dos grandes e pequenos a visão?


Com que exércitos tu comandarias

O anseio contra inválidas cobiças, 

Estendendo ao redor hegemonias?


Com que armas às massas insubmissas

Haverias-de impor tua vontade

Ao condenar dos maus as injustiças?


Com que realizações prosperidade

Todo o reino contigo gozaria

Reunido sob a tua autoridade?


Com que fausto, opulência e fidalguia

A corte dos notáveis mais brilhantes

Sempre em tua saúde brindaria?


Se fosses tão amado que os errantes,

Ousando questionar-te a liderança,

Quedassem reduzidos a inflamantes...


Se, ao merecer de todos a confiança,

Honrasses mais o cargo com conquistas,

E não, antes de morto, uma lembrança...


Se, cercado de célebres artistas,

D'uma época dourada pela glória

Deixasses boquiabertos teus cronistas!


Talvez tanta grandeza meritória

Fizesse que, embriagados de sucesso.

Elevassem teu nome para a História.


Talvez, atravessando sem tropeço

A estrada do Poder, possam julgar-te

Seres um vencedor desde o começo.


E que ao sobrelevar teu estandarte,

Mesmo os senhores bélicos mais pálidos

Proclamem teu valor por toda a parte!


Mesmo estes, que das guerras vêm inválidos,

Deixando a juventude nas batalhas,

Se aprumem respeitosos mesmo esquálidos...


Levantam-se a aplaudir as tuas falhas

E urrem a tua alcunha como lema!

Mesmos os já revestidos de mortalhas


Façam te recordar o forte emblema,

Quando em face dos teus vãos inimigos

Lhes leve todo o horror em hora extrema.


Mesmo tantos vivendo sem abrigos

Acuados pela fome e pela peste

Evocassem-te o nome nos perigos.


Mesmo aqueles que alhures expuseste

E esmagaste sem ver em tua alteza

Somente a te mostrares inconteste.


Mesmo os demais reis da redondeza

Respeitosos, ouvissem-te o clamor,

Qual fosses de teu reino fortaleza.


Todos, sem exceção, em teu favor

Te fizessem maior em cada grei

E por eles eleito imperador!  


Ou se em verdade fosses pobre rei

D'um enclave onde, déspota absoluto,

Tão-só tua vontade fosse lei!


Vassalo de vassalos, diminuto

Castelão cujo feudo teus senhores 

T'esquecessem até o contributo...


Se tu fosses dos reis um dos menores...

Que sequer como rei reconhecido

Fosses por quem exploras sem pudores.


Se não mais que um tirano esclarecido,

Que entre cegos tem olhos de ver

Apenas p'ra tomar do desvalido...


Se não mais que um escravo do poder

Que aos seus mais importuna do que manda

E nem respeito faz por merecer...


Se não mais que outra alteza veneranda

Empenhada em furtar do reino a si

Qual fosse um ladrãozinho de quitanda...


Se não mais do que servos para ti

Fosse este povo doente e gemebundo

Que em vilas de teu reino conheci...


Se, afinal, o pior rei de todo o mundo

Fosses tu ao ignorar os teus deveres,

E ao legar um país árido e infecundo...


Se, bem ou mal, com máximos poderes

Quem súbito um tirano se descobre

Sempre soube guardar-se mais haveres...


Grande ou pequeno rei; mais nobre ou pobre,

Com certeza em defesa me dirias

Que pouco fazes porque pouco o cobre...


Mas se fosses tal rei, nem me darias

A chance de ditar contestações

Ou reclamar de ti patifarias...


Decerto m'enviarias aos porões

Depois que me cortando a longa língua

E declarar-me um vil entre os vilões.


Ali, com outros mais postos à míngua,

Torturas de deixar em carne viva:

Vermelhidão, inchaço, ardor e íngua...


Mas se fosses tal rei, sequer a oitiva 

De meus males por conta de teus bens

Permitirias senão em negativa.


Um rei sem tempo para tais poréns,

Tampouco impressionado com coitados

Às voltas com biscates e vinténs...


Um rei sem mente para os olvidados

Tampouco para os mais despossuídos

Que vivem pelo reino despojados...


Mas se fosses tal rei, entre desguidos,

Tu não te negarias privilégios,

Ainda quando às custas de oprimidos.


Um rei indiferente a modos régios, 

Grasnando sem decoro e sem decência

Contra cortes, senados e colégios...


Um rei indiferente à complacência,

Entregue a um hedonismo pleno e cru,

A buscar-se senão concupiscência...


E se fosses o rei; se fosses tu

A palavra de vida e até de morte,

Onde todo o desejo esteja nu.


E se fosses aquele que é mais forte;

O que manda e desmanda sobre todos

Apenas por que o gozo lhe conforte. 


Talvez serias quem de tantos modos

Seduziu, aliciou, comprou, vendeu...

Com tão falsas promessas, com engodos...


Talvez serias tu, ou talvez eu,

Quem com más intenções desfrutaria

De quantos o dinheiro corrompeu.


Talvez serias quem da fantasia

Houvesse-de gozar a qualquer custo,

Lucrando co'a extrema carestia.


E se fosses aquele que, sem susto,

Fruísse tanto luxos que luxúrias,

Ainda que passando por injusto.


Talvez serias quem d'entre penúrias

Arrancasse mais gozos do que penas 

Indiferente a tão iguais lamúrias...


Talvez serias quem a horas amenas

Inopinado entrasse pela alcova 

D'uma virgem vendida a ti apenas...


Talvez serias quem em verso e trova

Pudesse ter nos braços d'esta bela

Alguma experiência plena e nova


Talvez serias tu, ou talvez ela,  

Quem sendo corrompida, corrompesse:

Natureza que apenas se revela... 


Se fosses o ceifeiro; se ela, a messe,

Talvez não fosses mal, apenas rude,

Como uma flor no campo alguém colhesse.


Em sendo tu o rei, ninguém se ilude:

Em códices, papiros, pergaminhos...

Hás o nome da bela e a juventude!


Talvez listas de nomes e carinhos,

Em sendo tu o rei, maior riqueza

Para a inveja dos reis circunvizinhos...


Talvez os privilégios da realeza,

Em sendo tu o rei, sejam conquistas

A um esteta do sexo e da beleza.


Em sendo tu o rei, tuas artistas

São amantes desnudas, concubinas,

Tão afáveis ao toque quanto às vistas...


Talvez as liberdades femininas

Em teu reino, ou senão em tua alcova,

Proclamasses em férias libertinas.


Talvez tua grandeza posta à prova

Reafirmasses nas lides amatórias

Que em cada nova amante se renova.


Em sendo tu o rei, tuas vitórias

Seriam antes dúzias de mulheres

A cantar dos amores teus as glórias.


Mas se fosses o rei, tantos misteres 

Minariam as finanças sem remédio

Apenas por fazeres que quiseres. 


Talvez porque te fosse imenso o tédio

E a graça de ser rei se te perdesse,

Sentindo já da morte o negro assédio...


Talvez porque de tudo que acontece

Metade seja sonho... E a outra metade

Sonho dentro do sonho se parece...


Porque se fosses rei, em realidade,

Ainda que tu fosses Salomão,

Não serias mais que outra iniquidade.


Porque é ser rei extrema condição

D'um poder pelo reino e para si

Que só faz de quem reina uma ilusão.


Porque se se diverte aqui e ali

Os que realmente reinam, por discretos,

São muitos que nas sombras conheci...


Porque decorativos feito objetos

Os reis dão rosto e nome ao que somente

São mecanismos de ordem obsoletos.


Mas se fosses o rei, provavelmente, 

Te irias corromper, porque o Poder

Nos corrompe absoluta e plenamente.


Irias exigir todo o querer

Satisfeito mediante privilégios

Que te facultam quanto te aprouver.


Dizendo conceder favores régios,

Corromperias a ordem e as normas

Mediante inconfessáveis sortilégios…


Tens de tudo e com nada te conformas

Como homens que se creem superiores,

Reacionário a políticas reformas.


Nos porões do palácio, mil horrores

Por trás da Renascença diletante

A distinguir a plebe dos senhores!


E tu, entre despótico e arrogante,

Seguidos gabinetes de ministros

Irias titerar a todo instante.


Em nome do governo, sem registros,

Por ti fariam toda sorte de crime,

Sumindo documentos em sinistros.


No empenho de manter forte o regime

Mentir, roubar, matar e reprimir

Um poviléu que esquálido se oprime.


Reinarias no afã de garantir 

Tão-só longevidade å Realeza

E entre Democracias subsistir.


Unindo Burguesia mais Nobreza 

Verias uma elite esclarecida,

Mas alheia às mazelas da pobreza.


Brilhando pela corte enriquecida,

Um astro de satélites rodeado

Terias para ti excelsa vida!


Por mil bajuladores celebrado

Com infindas lisonjas e louvores

Terias a ilusão de ser amado.


Contudo, de beldades os favores,

Em meio a canalhices e adultérios,

Terias desejando seus amores.


Escândalos seguidos, por deletérios,

Ao chamar dos incautos a atenção 

Para trazer à luz Reais Mistérios…


N’aquele mar de lama, a corrupção,

Depois de comprar tantas consciências,

Traria para ti condenação!


E se fosses o rei? Dize-me, então!!

Serias diferente dos demais?

Ou diferente apenas teu brasão??


Usarias do mando e tudo mais

No afã de te servires a ti mesmo

Ou a riqueza manter dos principais?…


Haverias de sair em guerras a esmo

A espalhar fome e peste pelo mundo

Enquanto te angustias n’um tenesmo…?


Ao invés de semear solo fecundo,

Tu virias saquear o grão alheio,

N’um ardil tão estúpido que imundo?!


D’um modo ou d’outro, teu fútil anseio

De reinar sobre os mais e ser servido,

Usando o povo todo como esteio.


Se fosses tu o rei, reconhecido

Serias se findasses co’a Realeza,

Não por déspota mais esclarecido.


Irias dar progresso, com certeza, 

Se uma vez divididos os poderes

Estes se vigiassem na grandeza.


Se todos por direitos e deveres

Igualmente regidos pelas leis,

Sem distinguir aqueles que quiseres!


Se fosses tu o rei, sem novos reis

Sobre o poder que ordena a sociedade,

Acima de famílias, tribos, greis…


Deverias deixar, em realidade,

O trono sem mais trono de uma vez

Por todas nos desvãos da Antiguidade!!


Sim, absolutamente! Sem talvez.

Jamais outro energúmeno absoluto

Além dos que se batem no xadrez!


Nunca mais um regime dissoluto

Que institucionalize vãs linhagens,

Ao fazer da eugenia um atributo.


Se te fizessem rei, com homenagens

Cercariam a ti bem como aos teus,

Cobrindo-vos de joias e roupagens 


Far-te-iam defensor do próprio Deus,

Visto que a religião professada

A ti faz conformados os plebeus.


E se não creres mais em quase nada,

Farão rezar por ti um povo inteiro

A ser-te a iniquidade perdoada!


Terás o paraíso verdadeiro

Que é a excelente vida d’Excelências

Onde és entre os primeiros o primeiro


Dir-te-iam, por vastíssimas ciências,

Que tu és antes símbolo que gente,

Para disciplinar as consciências.


Um rosto que tenaz-mas-indulgente

Dê ao povo um ideal de humanidade 

Que o afaste do Poder completamente.


Isso porque viver em sociedade

Se torna sobretudo a diferença 

Com quem merece o mando de verdade.


Se te fizessem rei, tua presença

Faria dos mais próximos, distintos.

Mesmo que a distinção seja pretensa…


Às voltas co’o Poder, por labirintos,

Se veem na sociedade como elites:

Melhores do que os pobres e os famintos.


Desejam para si outros limites.

Não os das leis que regram os demais

Mas sim os de etiquetas e convites…


Se te fizessem rei, seriam reais

Os que rei te fizeram entre os reis!

Seriam os teus donos, nada mais…


Exigiriam de ti uns cinco ou seis

Títulos de nobreza e privilégios

A ignorarem assim todas as leis.


Desejosos de mais favores régios,

Vão se tornando aos poucos intocáveis

Em golpes, homicídios, sacrilégios...


Seguindo o mau exemplo dos notáveis,

Também virão no crime populares 

E muitos de costumes condenáveis.


Verias pipocar pelos lugares

Mais remotos do reino marginais

Disseminando crimes aos milhares.


Essa ordem de apartados entre iguais

Parece s’estender por todo o povo,

Dividindo-o entre as classes sociais.


Da serpente a violência chocava o ovo:

Liberais de mudanças sem mudar

Ou a mudar para ser velho de novo.


Típico reacionário a conservar

Governo e sociedade tais-e-quais 

Se te fizessem rei para reinar!


Sim, se fosses o rei quão imorais

Seriam os costumes d’esta corte,

Que farias também a teus iguais?


Quão miseráveis mais a vida e a morte

Em face d’uma elite parasita 

Que insensível ostenta sua sorte?


Quão melhor essa gente se acredita 

Pelos méritos vãos do vil metal 

Por trás de sua fala ida e esquisita.


Sim, se fosses o rei quão ilegal

Seria a tua corte de notáveis 

Postada muito acima ao bem e o mal?


Quão mais inacessíveis e implacáveis

No exercício das forças de opressão?

Milícias para o povo detestáveis!…


Quão mais insustentável a opinião 

De quem, ao defender a autoridade,

Tão-só autoritário em seu sermão?


Tu: Que rei? Que reino? Que verdade?

Que Poder haverá um titereiro,

Que títere também em realidade?


Se tu o rei, embora verdadeiro,

Serias outra fábula inventada

Para entreter o povo o tempo inteiro.


Serias ferramenta desgastada,

Que usurpando do povo o seu Poder

Entrega-o para gente despeitada!


Se tu o rei, meu Deus! O que fazer?

O haver reis em si é excrescência

De quem entre fantasmas quer viver!


Vossa Alteza Real, por excelência,

Renuncia e convoca o Parlamento 

A dar ao bem comum obediência!


Se tu o rei, revoga o regimento

Que faz de ti e o povo ainda escravos

D’um pacto sem real consentimento.


Se cidadãos, não súbdito de bravos,

—Submetidos a leis, e tão-somente—

Deitando fora os liames mais ignavos…


Não mais títere, sim um rei realmente:

De ti mesmo senhor e soberano,

Conquistas a grandeza finalmente!


Grande quando maior por, salvo engano,

Monarca desprovido de realeza,

Serias, pois, um rei republicano!


Grande porque, deveras, com grandeza

Renunciarias pelo bem dos povos

Em face da pobreza e da riqueza!


Grande, contudo, pelos ares novos,

Ao perceber que, abertas as janelas,

De novo os ramos cheios de renovos!


Grande, visto que são muito mais belas

Todas as histórias quando a História

Vem pôr fim a longuíssimas procelas!!


Se tu o rei, a tua maior glória

Seria findar, máximo, co’os tronos,

Deixando-os d’uma vez só na memória.


Seria governar sem mais patronos,

Depois de devolver todo o Poder

Devidamente aos seus devidos donos.


Seria por sinal reconhecer

Que se fosses o rei, talvez nada

Terias tu, de facto, para fazer…


Seria como vir da madrugada

O sol para trazer outra manhã

E poder começar nova jornada.


Se tu fosses o rei, já amanhã

Não deveria haver sequer mais reino

Nem outra autocracia tão malsã!


Como se a monarquia fosse treino

Para haver um mandato popular,

E nunca mais colônia ou vice-reino!


Se tu fosses o rei, por não reinar

Farias muito mais pela nação

Do que mil outros reis em teu lugar!!


Farias tu de tua abdicação

Concedida em favor do Parlamento 

Em assembleia de Constituição!


Farias afinal do entendimento

Da ordem social face ao bem comum

Do Estado Nacional o fundamento.


Serias – tu, o rei – tão-só mais um

Igual em tudo aos outros cidadãos;

Visto melhor em nada em lugar nenhum!


Farias afinal dos homens vãos,

Enquanto fazedores de reis!

De novo agricultores só de grãos…


Farias afinal das velhas leis

Códices bestiais de letra morta,

Em bibliotecas sós de velhos freis…


Serias – tu, o rei – a extrema porta

Para estabelecer novo regime,

Que nem reis nem nobres mais suporta.


Farias afinal da mais sublime,

Bem como mais justa liberdade

A verdade que a todos nós redime.


Farias afinal por igualdade

Superar toda forma de injustiça 

Tanto no campo como na cidade.


Afinal – tu, o rei – sem mais cobiça

Sem mais cetro nem trono nem coroa

Co’a justiça social se compromissa.


Afinal – tu, o rei – tão-só pessoa.

Não mais o mais corrupto a corromper,

Enquanto o vão metal venal escoa…


Afinal – tu, o rei – sem rei mais ser

Virias ser aquele que partindo

Passa apenas à História pertencer.


Betim - 31 12 2019


quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

POR ESCRITO

POR ESCRITO

Absorto pelo afã de fazer versos
Não cuido de passar a pão e água,
Ainda a revisar papéis dispersos.

Igual um alquimista em sua frágua,
Eu fujo à companhia dos demais
A purificar d'alma toda a mágoa.

Não por me haver melhor!… De mais a mais,
O Olvido nos alcança tudo e todos
E a morte quando vem nos faz iguais.

O certo é que busquei de tantos modos
Fazer sorrir-me a musa desvairada,
Que cai em esparrelas mais engodos:


De saída eu vi má minha jornada
Ao preferir as rimas ao dinheiro,
Ocupado em poetar por quase nada.

De facto, por retorno financeiro
Ninguém escreveria uma só linha!
Visto poeta ser poeta o tempo inteiro…

Penso não ser alguma coisa minha
Isso de procurar sonoridade
Que a Poesia da Música avizinha.

Gastei em escrever a mocidade
N'aquela indiferença franciscana
Em face da riqueza e da vaidade.

Demorei a entender a luz profana
E ver que Deus, se existe, bem s'esconde
Ao longo da sangrenta História humana.

Deveras, sem saber quando nem onde
Depois de às soledades inquirir
Apenas o silêncio me responde…

Às voltas co'as quimeras do porvir,
Deixo o transcendental como mistério,
Sem mais especular seu existir.

Ainda que entre os meus passe por sério
Muitos há que por falho me tomem
Sempre lhes tolerando o vitupério…

Minhas provocações bem os consomem:
-- "Sob Deus, ao homem é mais condenável,
Ir matar um homem ou amar um homem?" --

Vê-se porquê sou tão pouco vendável…
Contudo, eu me divirto p'ra valer
Vendo escandalizar-se algum notável!

Concedo que é questão de se temer,
De maneira que a gente sempre viva
A se matar por medo de morrer.

Mas quando por Deus o homem mais se priva,
Corre o risco de nunca cogitar
Haver uma existência alternativa.

Aceita inopinado o seu lugar
Na altíssima pirâmide que eleva
Para outrem mais distante contemplar

E, ainda que profunda a sua treva,
Impõe-se o autoengano d'uma crença
A aceitar quanto d'ele a vida leva…

Eu, que sou miserável de nascença,
Não me iludo co'o mérito dos ricos,
Tampouco co'a memória de quem vença.

Porquanto a História escrita em impudicos
Floreios que sustém meias verdades
De grandes a reinar sobre nanicos.

E embora se conquistem liberdades,
Querem nos convencer que estamos vivos
Tão-só para fazer-lhes as vontades.

Os poetas são, portanto, inexpressivos
N'um mundo onde os homens são medidos
Por aquilo que vendem aos altivos.

Visto apenas quererem entretidos,
-- Nunca alertas ou mesmo questionados --
Aqueles que às palavras dão ouvidos.

Não mais que multidões de embasbacados
Correndo atrás de artistas de artifício
Nas indústrias de mídia fabricados.

Nada de vagos poetas cujo ofício
Busca obter das palavras os clarões
Ao longo d'uma vida de ócio e vício.

De quebra, suscitar vãs reflexões
Co'a extrema liberdade dos vadios
Que se sabem entregues já aos leões.

Até porque, n'estes dias tão sombrios,
Poetar tem parecido inoportuno
Àqueles que detém os senhorios.

Se por males alheios não me puno,
Tampouco pela fúria do infeliz
Que s'entende de déspotas aluno.

Ele sim se apequena com o país,
N'uma resignação de vira-latas,
Que à sua própria gente mais maldiz.

Já farto de pessoas insensatas,
Eu cuido de meus versos ignorando
Do estúpido as estúpidas bravatas.

Posso até claudicar de vez em quando
E confundir o novo co'o bonito
Como quem admirado sai poetando…

Sem embargo, ajo assim porque acredito
E, sem sombra de dúvida, reafirmo:
Sim, eu faço a minha arte por escrito.

Betim - 05 02 2020

terça-feira, 31 de dezembro de 2019

REAL, REAL, REAL!

REAL, REAL, REAL!

E se fosses o rei, e se tu fosses
Aquele que, aclamado, nos governa,
A mentir para o povo frases doces...

Aquele que virtudes só externa
Digno d'excelentíssimos louvores
Sob a Sabedoria Sempiterna.

Se fosses o maior entre os maiores,
Aquele que d'heróis fora nascido
Herdeiro d'esperanças e temores!

Aquele que dos deuses o Escolhido
Para manifestar predileção,
Onde teu povo entre outros distinguido.

Se fosses tu o Chefe da Nação,
Com que decretos-leis ordenarias
Dos grandes e pequenos a visão?

Com que exércitos tu comandarias
O anseio contra inválidas cobiças,
Estendendo ao redor hegemonias?

Com que armas às massas insubmissas
Haverias-de impor tua vontade
Ao condenar dos maus as injustiças?

Com que realizações prosperidade
Todo o reino contigo gozaria
Reunido sob a tua autoridade?

Com que fausto, opulência e fidalguia
A corte dos notáveis mais brilhantes
Sempre em tua saúde brindaria?

Se fosses tão amado que os errantes,
Ousando questionar-te a liderança,
Quedassem reduzidos a inflamantes...

Se, ao merecer de todos a confiança,
Honrasses mais o cargo com conquistas,
E não, antes de morto, uma lembrança...

Se, cercado de célebres artistas,
D'uma época dourada pela glória
Deixasses boquiabertos teus cronistas!

Talvez tanta grandeza meritória
Fizesse que, embriagados de sucesso.
Elevassem teu nome para a História.

Talvez, atravessando sem tropeço
A estrada do poder, possam julgar-te
Seres um vencedor desde o começo.

E que ao sobrelevar teu estandarte,
Mesmo os senhores bélicos mais pálidos
Proclamem teu valor por toda a parte!

Mesmo estes, que das guerras vêm inválidos,
Deixando a juventude nas batalhas,
Se aprumem respeitosos mesmo esquálidos...

Levantam-se a aplaudir as tuas falhas
E urrem a tua alcunha como lema!
Mesmos os já revestidos de mortalhas

Façam te recordar o forte emblema,
Quando em face dos teus vãos inimigos
Lhes leve todo o horror em hora extrema.

Mesmo tantos vivendo sem abrigos
Acuados pela fome e pela peste
Evocassem-te o nome nos perigos.

Mesmo aqueles que alhures expuseste
E esmagaste sem ver em tua alteza
Somente a te mostrares inconteste.

Mesmo os demais reis da redondeza
Respeitosos, ouvissem-te o clamor,
Qual fosses de teu reino fortaleza.

Todos, sem exceção, em teu favor
Te fizessem maior em cada grei
E por eles eleito imperador! 

Ou se em verdade fosses pobre rei
D'um enclave onde, déspota absoluto,
Tão-só tua vontade fosse lei!

Vassalo de vassalos, diminuto
Castelão cujo feudo teus senhores
T'esquecessem até o contributo...

Se tu fosses dos reis um dos menores...
Que sequer como rei reconhecido
Fosses por quem exploras sem pudores.

Se não mais que um tirano esclarecido,
Que entre cegos tem olhos de ver
Apenas p'ra tomar do desvalido...

Se não mais que um escravo do poder
Que aos seus mais importuna do que manda
E nem respeito faz por merecer...

Se não mais que outra alteza veneranda
Empenhada em furtar do reino a si
Qual fosse um ladrãozinho de quitanda...

Se não mais do que servos para ti
Fosse este povo doente e gemebundo
Que em vilas de teu reino conheci...

Se, afinal, o pior rei de todo o mundo
Fosses tu ao ignorar os teus deveres,
E ao legar um país árido e infecundo...

Se, bem ou mal, com máximos poderes
Quem súbito um tirano se descobre
Sempre soube guardar-se mais haveres...

Grande ou pequeno rei; mais nobre ou pobre,
Com certeza em defesa me dirias
Que pouco fazes porque pouco o cobre...

Mas se fosses tal rei, nem me darias
A chance de ditar contestações
Ou reclamar de ti patifarias...

Decerto m'enviarias aos porões
Depois que me cortando a longa língua
E declarar-me um vil entre os vilões.

Ali, com outros mais postos à míngua,
Torturas de deixar em carne viva:
Vermelhidão, inchaço, ardor e íngua...

Mas se fosses tal rei, sequer a oitiva
De meus males por conta de teus bens
Permitirias senão em negativa.

Um rei sem tempo para tais poréns,
Tampouco impressionado com coitados
Às voltas com biscates e vinténs...

Um rei sem mente para os olvidados
Tampouco para os mais despossuídos
Que vivem pelo reino despojados...

Mas se fosses tal rei, entre desguidos,
Tu não te negarias privilégios,
Ainda quando às custas de oprimidos.

Um rei indiferente a modos régios,
Grasnando sem decoro e sem decência
Contra cortes, senados e colégios...

Um rei indiferente à complacência,
Entregue a um hedonismo pleno e cru,
A buscar-se senão concupiscência...

E se fosses o rei; se fosses tu
A palavra de vida e até de morte,
Onde todo o desejo esteja nu.

E se fosses aquele que é mais forte;
O que manda e desmanda sobre todos
Apenas por que o gozo lhe conforte.

Talvez serias quem de tantos modos
Seduziu, aliciou, comprou, vendeu...
Com tão falsas promessas, com engodos...

Talvez serias tu, ou talvez eu,
Quem com más intenções desfrutaria
De quantos o dinheiro corrompeu.

Talvez serias quem da fantasia
Houvesse-de gozar a qualquer custo,
Lucrando co'a extrema carestia.

E se fosses aquele que, sem susto,
Fruísse tanto luxos que luxúrias,
Ainda que passando por injusto.

Talvez serias quem d'entre penúrias
Arrancasse mais gozos do que penas
Indiferente a tão iguais lamúrias...

Talvez serias quem a horas amenas
Inopinado entrasse pela alcova
D'uma virgem vendida a ti apenas...

Talvez serias quem em verso e trova
Pudesse ter nos braços d'esta bela
Alguma experiência plena e nova

Talvez serias tu, ou talvez ela, 
Quem sendo corrompida, corrompesse:
Natureza que apenas se revela...

Se fosses o ceifeiro; se ela, a messe,
Talvez não fosses mal, apenas rude,
Como uma flor no campo alguém colhesse.

Em sendo tu o rei, ninguém se ilude:
Em códices, papiros, pergaminhos...
Hás o nome da bela e a juventude!

Talvez listas de nomes e carinhos,
Em sendo tu o rei, maior riqueza
Para a inveja dos reis circunvizinhos...

Talvez os privilégios da realeza,
Em sendo tu o rei, sejam conquistas
A um esteta do sexo e da beleza.

Em sendo tu o rei, tuas artistas
São amantes desnudas, concubinas,
Tão afáveis ao toque quanto às vistas...

Talvez as liberdades femininas
Em teu reino, ou senão em tua alcova,
Proclamasses em férias libertinas.

Talvez tua grandeza posta à prova
Reafirmasses nas lides amatórias
Que em cada nova amante se renova.

Em sendo tu o rei, tuas vitórias
Seriam antes dúzias de mulheres
A cantar dos amores teus as glórias.

Mas se fosses o rei, tantos misteres
Minariam as finanças sem remédio
Apenas por fazeres que quiseres.

Talvez porque te fosse imenso o tédio
E a graça de ser rei se te perdesse,
Sentindo já da morte o negro assédio...

Talvez porque de tudo que acontece
Metade seja sonho... E a outra metade
Sonho dentro do sonho se parece...

Porque se fosses rei, em realidade,
Ainda que tu fosses Salomão,
Não serias mais que outra iniquidade.

Porque é ser rei extrema condição
D'um poder pelo reino e para si
Que só faz de quem reina uma ilusão.

Porque se se diverte aqui e ali
Os que realmente reinam, por discretos,
São muitos que nas sombras conheci...

Porque decorativos feito objetos
Os reis dão rosto e nome ao que somente
São mecanismos de ordem obsoletos.

E se fosses o rei, provavelmente,
Te irias corromper, porque o Poder
Nos corrompe absoluta e plenamente.

Betim - 31 12 2019

quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

AVOENGO

AVOENGO

Vem desde o meu avô essas olheiras;
Essa insônia sem fim, esse cansaço
Logo ao aboio dos bois: Currais, porteiras...

Cumpri a obrigação, um mau pedaço:
Casei e descasei; criei meninas
E por prédios deixei meu fino traço.

Também vômito e versos nas esquinas
Além d'um fatalismo que não sei
Se fez o não mais baças às retinas...

Sem embargo, não fui filho de rei.
Tampouco de nobre ou de burguês,
Antes filho do mundo me tornei.

Venho das madrugadas, ou talvez,
Das madrugadas venham tais alardes
Entremeados de bílis e embriaguez:

-- "Envelhecer é a arte dos covardes!
Dos que, como eu, bateram retirada
Sem grandes alaridos nem retardes..."

"Eu deixo para trás montes de nada,
Desço rios de lágrimas, subo abismos
E contemplo os estratos da alvorada."

"Tolerei do egoísta os egoísmos
E ainda dos histriões as histrionices 
Até render-me ao puro cepticismo..."

"Sem ascendente em Gêmini ou Pisces,
Jamais mostrei aos outros quem eu era, 
Senão para amargar com pedantices."

"Tornei-me pouco a pouco uma quimera
De mim mesmo sem lastro pela vida,
Nos ecos que meu canto reverbera."

"Porque fazer a vida mais comprida
Tão-só adia a triste e má verdade,
Que a gente vive sempre de partida."

"Se após de meu avô caminho a herdade
A ver as suas obras e conquistas,
Tão-só ruínas trago à claridade."

"Bem breve se marejam minhas vistas
A lembrá-lo chamar com voz robusta
Às reses ressurgindo-lhe imprevistas."

"Fico parado a vê-lo, não sem susto,
Como se na porteira ora estivesse
Ou reclinado à sombra d'um arbusto."

"A casa em que viveu; os filhos, a messe...
Tudo aquilo que há muito se perdera 
Como nunca existido ali houvesse."

"Se ele, que tanto teve e eu não tivera,
Pôde deixar de ser sem mais nem quê,
Quanto mais eu? De quem nada s'espera."

"Não pretendo do Fado mais mercê
Que desaparecer, vago e discreto,
Sem que ninguém sequer finja o porquê."

"E os lamentos que canto quando poeto
Deixo afinal dispersos como folhas
Que esvoaçam por um pé de vento inquieto."

"Eu, maestria, tão-só co'o saca-rolhas
Para vinho entornar... Pois na poesia,
Nem erros nem acertos, só escolhas."

"Fosse eu sensato, nada escreveria
Muito menos sonetos ou rondéis
Que pouca gente a ler se me atrevia."

"Deixava para os vates seus lauréis
E com eles as palmas recebidas
Dos leitores mais gratos e mais fiéis."

"Restem-me essas vidas esquecidas
Cuja herança carrego inopinado
Em memórias que nunca serão lidas."

Encerro esse monólogo arrastado,
Mas sobretudo estúpido e inconcluso,
Deixando ora o leitor desobrigado.

Pois mais ideias caindo em parafuso
Apenas os conduzem à loucura
D'um poeta já excêntrico e confuso.

Quem mais sabedoria se procura
Não há-de pelas linhas mal traçadas
De s'encontrar senão mais amargura.

Tampouco queira achar em mim carradas
Já d'alguma poesia tão sapiente
Que faça às almas mais edificadas.

Ler-me-ão desavisados tão-somente
Ou os desinteressados em más vidas
Atrás de seus azares simplesmente.

E, olhando-me o retrato, as coisas idas
Deem um sentido qu'eu jamais tivera
N'essas olheiras sempre escurecidas..."

Betim - 13 12 2018

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

MALDITOS!

MALDITOS! Quem são estes cuja luz fora apagada E, insones, têm nas noites seu refúgio, Atravessando em vão a madrugada? Só querem ao poetar vago transfúgio Da vida d’esperanças comezinhas, Bem como contra o tédio subterfúgio? Estes -- que vêm deixar nas entrelinhas Toda sorte de angústias autorais -- O que buscam por horas tão sozinhas? Por que se fazem poetas? Por que mais Buscam tirar das letras o sublime, Senão por se sentirem sós demais? Que furtaram aos deuses? Qual o crime Cometido na aurora dos milênios, Cuja pena a escrever nunca os redime? Sem diferir se néscios ou se gênios, D’onde foi que obtiveram tal saber Que os obriga a versar entre proscênios? Como estes que escrevem ousam ler Nas linhas d’horizonte um sol errático Por entre arranha-céus a amanhecer? Como alguém -- entre excêntrico e lunático -- Gastando a vida inteira com escritos Despidos de qualquer sentido prático? Malditos! Sete mil vezes malditos! Estes que têm os versos por oráculo Havendo além dos céus mais infinitos... Malditos os que têm pelo vernáculo Um carinho de artista incompreendido, Que se imola no altar do tabernáculo!... Dom às avessas!... Bênção ao inavido!... À margem das promessas e das glórias, Poetar é desdenhar o conhecido... É saber inventadas as memórias Ou, de belas mentiras, a verdade Pretendida em suas vãs histórias. Desastrólogos do alto! Sede, poetas, Malditos pelos séculos dos séculos, No augúrio de catástrofes completas!... Vinde e vede: Reviram-vos d’espéculos As vossas cavidades buscando alma, Tal como fazem monges ‘inda séculos. Terminais por viver tão-só o trauma Com que fordes há muito amaldiçoados Com nenhuma paciência e pouca calma. Facto: Malditos porque mal falados. Porque muito mal lidos; mal descritos... Os bons? Somente os mortos, os finados. Tantos a maldizer-nos os escritos: -- “Antiquados!! Herméticos!! Absurdos!!!” Ou sem nem ler (assim assim): -- “Bonitos...” Se declamamos, fingem estar surdos; Se publicamos, fingem que são cegos; Um povo sem país igual os curdos: Poetas... Filhos de sós desassossegos Sempre a vagar sem pátria e sem dinheiro, Indo sobreviver de subempregos; Ou distante vagando, aventureiro, Que por entre as palavras em vão erra Sem nunca encontrar um paradeiro. Hoje, até Ahasverus possui terra! No mesmo confim onde Israel governa E o ismaelita de novo se desterra... Não os malditos... D’esses é eterna A caminhada errante vida afora Atravessando as noites na taverna. Ali, já sem saber se ri ou chora, Senta-se e escreve em plena solitude, Alheio mesmo da hora de ir embora. Eis dos poetas a glória e a finitude: Por fim, indiferentes se são lidos, Já nada nem ninguém ora os ilude. E ainda que por todos combatidos Gargalham das desgraças do passado Enquanto as do presente nos ouvidos. Mas por fim se revoltam contra o Fado, Quando entregues à própria escuridão Caminham co'a miséria lado a lado. E, d’entre eles, eu: Com talento ou não, Arrasto estes meus versos qual grilhões, Sabendo-os meu tesouro e maldição. Peno eu -- mais três ou quatro gerações -- Amaldiçoando todos no pecado Que nos predestinou junto aos vilões! Deveras, parvo e obscuro antepassado, Pus minha iniquidade sobre os meus, Uma vez para sempre amaldiçoado... Antes já natimorto entre os plebeus Que agora constranger-nos desde o gen Viver em guerra infinda contra Deus! Como ignorasse d’onde a bênção vem, Sem temer me cobrir de pestilências... Maldito, escolho o mal e evito o bem. Ao desdenhar de Deus suas violências Sobre mim e meus tristes descendentes É que busquei nos vícios experiências. Uma vez condenado, ranjo os dentes Urrando contra as hostes celestiais E a multidão submissa de seus crentes. Sim, vêm me perseguir feito animais: Tendo a marca de Caim -- homem de cor -- Com os filhos de Cam eu ergui baais! Excluído do povo do Senhor, Sigo a errar d’outro lado do Jordão Como a face d’opróbrio e do terror: Quem de longe me vê na imensidão M’escojura qual visse o deus Moloque Com chifres a queimar na escuridão! E vem me apedrejar sem que o provoque Para que assim me afaste mais ainda, Pintando-me um demônio sem retoque. Certo que minha culpa jamais finda, Aos olhos d’estes homens bons e justos Convém lhes evitar a terra linda. Vagando nos desertos entre arbustos A medo de topar quem quer que seja E alerta de perigos e outros sustos... Resta rogar a Deus, por onde esteja, Que me mate antes qu’eu, de todo aflito, Devolva ao mundo o mal que me deseja! Só sei não ver justiça no infinito Expurgo de más culpas cuja pena Me faz eternamente ser maldito. Turvando a vista pela tarde amena, Como encontrasse Deus um peito ateu Em ascensão por sobre a luz terrena. Foi então, do profundo abismo, qu’eu Tive a visão do fim de tudo e todos Pós-que o sol trás-às-nuvens s’escondeu. A noite fez-se eterna nos engodos D’um extremista, homem de bem ou ambos Para vencer por todos meios e modos: Os narcotraficantes com escambos Mais os supremacistas pelas armas Contra negros, asiáticos ou jambos... Seguem todos às voltas com seus carmas, Fomentando desastres para, enfim, Ouvir sete trombetas soando alarmas. Fazem o escatológico festim: Em celebrações de ódio genocida, Urgem d’Humanidade o triste fim. Rudes, vêm vomitar sobre a avenida Toda espécie d’estúpida revolta Tendo absoluto horror da própria vida. Como fossem corcéis à rédea solta!... Como em carga de audaz cavalaria!... Vão levando violência à sua volta. Irmanados na ardente primazia, Impõem enfim seus males a oprimidos Embora revestidos de ousadia. Longe, escuta-se o pranto dos vencidos, Bem como outros tantos uivos e ais Já n’um clamor uníssono vertidos: Partem agora para nunca mais As utopias d’uma terra justa Onde, sem males, todos são iguais. Curvam-se a uma ilusão que nos assusta Pelo que nos pretende distinguir Por entre bons e maus à face augusta. Senhores do presente e do porvir, Os bárbaros já uivam sob a lua E clamam por façanhas de se ouvir... Jactam-se sobre gente seminua Que vaga pelas sombras da cidade... E acabara morando em plena rua. Ameaçam, com toda a propriedade, Àqueles que muito pouco têm... Certos de que já donos da verdade! Pois bodes expiatórios lhes convêm E as cabeças jogadas contra o asfalto Mal sobre seus pescoços se sustêm... Avançam sobre o douto e sobre o incauto Céleres em calar todas as vozes, Nos mantendo em constante sobressalto. Vão vindo como as hordas mais ferozes Sempre com mais exércitos por trás, Fazendo correr sangue feito algozes. Com guerra, vêm impor-nos sua paz E após jogar na vala mais comum, Onde pouco importa quem lá jaz. Milhões vociferando como se um Os mesmíssimos ódios e violências; Indo apressados p’ra lugar nenhum. Esvaziaram as suas consciências Berram d'olhos vidrados para além, Indiferentes já às consequências. Culpa de todo mundo e de ninguém, Co'as mãos sujas de sangue dizem ser Maldade contra os maus acto de bem... Vêm em nome de Deus estremecer -- Frase após frase infeliz -- Amizades a ponto de as perder. Clamam todos por Deus n'esse país! Como o Senhor amasse uns e outros não. Sem embargo, Ele nada faz ou diz... Sim, Deus se cala face à escuridão Que s'estende por sobre a Terra inteira, E os homens abandona à danação. Pois nega-se a negar a verdadeira Razão por trás de tais atrocidades, Queimando bons e maus pela fogueira. Permite que a maldade nas cidades S'eleve finalmente como regra Acima de quaisquer necessidades. Desunida, a Nação se desintegra N'um fundamentalismo evangélico Que ainda amaldiçoa a pele negra. Dos generais, de novo o sonho bélico D'entrar em território fronteiriço Ou arrastá-lo n'um jogo maquiavélico. Entrementes, o povo já submisso Tolera que se mate e se torture, Como fosse patriota tal serviço. Mas homem com outro homem configure Uma abominação contra a Natura, Onde assassine ou exija que se cure! E, evocando do Apóstolo a luz pura, Com Doutrina cristã e militar S'ensine nas escolas a Escritura. Se mesmo contra Deus alguém ousar Ainda escrever seus versos satânicos Não deixe algum censor os apanhar. Tempos mudam; as mentes, não... Tirânicos Os modos de calar a quem escreve, Enlouquecendo-o com cismas e pânicos. No mais, nunca se julgue a pena leve D'este que sempre às voltas com escritos Tem p'ra si que longa a arte e a vida breve. Poetas... Se no horizonte d'olhos fitos, É sabermos ter logo de fugir Ouvindo a multidão gritar: Malditos! Betim - 06 11 2018

terça-feira, 6 de novembro de 2018

MALDITOS! n°4

MALDITOS! n°4

Foi então, do profundo abismo, qu'eu
Tive a visão do fim de tudo e todos
Pós-que o sol trás às nuvens s'escondeu.

A noite fez-se eterna nos engodos
D'um extremista, homem de bem ou ambos
Para vencer por todos meios e modos:

Os narcotraficantes com escambos
Mais os supremacistas pelas armas
Contra negros, asiáticos ou jambos...

Seguem todos às voltas com seus carmas,
Fomentando desastres para, enfim,
Ouvir sete trombetas soando alarmas.

Fazem o escatológico festim:
Em celebrações de ódio genocida,
Urgem d'Humanidade o triste fim.

Rudes, vêm vomitar sobre a avenida
Toda espécie d'estúpida revolta
Tendo absoluto horror da própria vida.

Como fossem corcéis à rédea solta
Posta em carga de audaz cavalaria
Vão levando violência à sua volta.

Irmanados na ardente primazia,
Impõem enfim seus males a oprimidos
Embora revestidos de ousadia

Longe, escuta-se o pranto dos vencidos,
Bem como outros tantos uivos e ais
Já n'um clamor uníssono vertidos.

Partem agora para nunca mais
As utopias d'uma terra justa
Onde, sem males, todos são iguais.

Curva-se a uma ilusão que nos assusta
Pelo que nos pretende distinguir
Por entre bons e maus à face augusta.

Senhores do presente e do porvir,
Os bárbaros já uivam sob a lua
E clamam por façanhas de se ouvir...

Jactam-se sobre gente seminua
Que vaga pelas sombras da cidade,
Por moradores d'esta ou aquela rua.

Ameaçam, com toda a propriedade,
Àqueles que muito pouco têm...
Certos de que são donos da verdade!

Pois bodes expiatórios lhes convêm
E as cabeças jogadas contra o asfalto
Mal sobre seus pescoços se sustêm...

Avançam sobre o douto e sobre o incauto
Céleres em calar todas as vozes,
Nos mantendo em constante sobressalto.

Vão vindo como as hordas mais ferozes
Sempre com mais exércitos por trás,
Fazendo correr sangue feito algozes.

Com guerra, vêm impor-nos sua paz
E após jogar na vala mais comum,
Onde pouco importa quem lá jaz.

Milhões vociferando como se um
Os mesmíssimos ódios e violências;
Indo apressados p'ra lugar nenhum.

Esvaziaram as suas consciências
Berram d'olhos vidrados para além,
Indiferentes já às consequências.

Culpa de todo mundo e de ninguém,
Co'as mãos sujas de sangue dizem ser
Maldade contra o "mal" acto de bem...

Vêm em nome de Deus estremecer
-- Frase após frase infeliz --
Amizades a ponto de as perder.

Clamam todos por Deus n'esse país!
Como o Senhor amasse uns e outros não.
Sem embargo, Ele nada faz ou diz...

Betim - 06 11 2018

sábado, 3 de novembro de 2018

MALDITOS! n°3

MALDITOS! n°3

Peno eu -- três ou quatro gerações --
Amaldiçoando todos no pecado
Que nos predestinou junto aos vilões!

Deveras, parvo e obscuro antepassado,
Pus minha iniquidade sobre os meus
Uma vez para sempre amaldiçoado...

Antes já natimorto entre os plebeus
Que agora constranger-nos desde o gen
Viver em guerra infinda contra Deus!

Como ignorasse d'onde a bênção vem,
Sem temer me cobrir de pestilências...
Maldito, escolho o mal e evito o bem.

Ao desdenhar de Deus suas violências
Sobre mim e meus tristes descendentes
É que busquei nos vícios experiências.

Uma vez condenado, ranjo os dentes
Urrando contra as hostes celestiais
E a multidão submissa de seus crentes.

Sim, vêm me perseguir feito animais
Pois co'a marca de Caim, homem de cor,
Com os filhos de Cam eu ergui baais!

Excluído do povo do Senhor,
Sigo a errar d'outro lado do Jordão
Como a face d'opróbrio e do terror:

Quem de longe me vê na imensidão
M'escojura qual visse o deus Moloque
Com chifres a queimar na escuridão!

E vem me apedrejar sem que o provoque
Para que assim me afaste mais ainda,
Pintando-me um demônio sem retoque.

Certo que minha culpa jamais finda,
Aos olhos d'estes homens bons e justos
Convém lhes evitar a terra linda.

Vagando nos desertos entre arbustos
A medo de topar quem quer que seja
E alerta de perigos e outros sustos...

Resta rogar a Deus, por onde esteja,
Que me mate antes qu'eu, de todo aflito,
Devolva ao mundo o mal que me deseja!

Só sei não ver justiça no infinito
Expurgo de más culpas cuja pena
Me faz eternamente ser maldito.

Betim - 03 11 2018

domingo, 14 de outubro de 2018

MALDITOS! N°2

MALDITOS! N°2

Facto: Malditos porque mal falados.
Porque muito mal lidos; mal descritos...
Os bons? Somente os mortos! No passado.

Tantos a maldizer-nos os escritos:
-- "Antiquados!! Herméticos!! Absurdos!!!"
 Ou sem nem ler (assim assim): --" Bonitos...."

Se declamamos, fingem estar surdos;
Se publicamos, fingem que são cegos;
Um povo sem país igual os curdos:

Poetas,,,  Filhos de sós desassossegos
Sempre a vagar sem pátria e sem dinheiro,
Indo sobreviver de subempregos;

Ou distante vagando, aventureiro,
Que por entre as palavras em vão erra
Sem nunca encontrar-se paradeiro.

Hoje, até Ahasverus possui terra!
No mesmo confim onde Israel governa
E o ismaelita de novo se desterra...

Não os malditos... D'esses é eterna
A caminhada errante vida afora
Atravessando as noites na taverna.

Ali, já sem saber se ri ou chora,
Senta-se e escreve em plena solidão,
Alheio mesmo da hora de ir embora.

Eis dos poetas a glória e a maldição:
Por fim, indiferentes se são lidos,
S'entregarem à própria escuridão.

Pará de Minas - 14 10 2018

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

MALDITOS! N°1

MALDITOS! N°1

Quem são estes cuja luz fora apagada
E, insones, têm nas noites seu refúgio,
Atravessando em vão a madrugada?

Só querem ao poetar vago transfúgio
Da vida d'esperanças comezinhas,
Bem como contra o tédio subterfúgio?

Estes -- que vêm deixar nas entrelinhas
Toda sorte de angústias autorais --
O que buscam por horas tão sozinhas?

Por que se fazem poetas? Por que mais
Buscam tirar das letras o sublime,
Senão por se sentirem sós demais?

Que furtaram aos deuses? Qual o crime
Cometido na aurora dos milênios,
Cuja pena a escrever nunca os redime?

Sem diferir se néscios ou se gênios,
D'onde foi que obtiveram tal saber
Que os obriga a versar entre proscênios?

Como estes que escrevem ousam ler
Nas linhas d'horizonte um sol errático
Por entre arranha-céus ao amanhecer?

Como alguém -- entre excêntrico e lunático --
Gastando a vida inteira com escritos
Despidos de qualquer sentido prático?

Malditos! Sete mil vezes malditos!
Estes que têm os versos por oráculo
Havendo além dos céus mais infinitos...

Malditos os que têm pelo vernáculo
Um carinho de artista incompreendido
Que se imola no altar do tabernáculo!...

Dom às avessas!... Bênção ao inavido!...
À margem das promessas e das glórias,
Poetar é desdenhar o conhecido...

É saber inventadas as memórias 
E de belas mentiras a verdade
Pretendida em suas vãs histórias.

Desastrólogos do alto, são os poetas
Malditos pelos séculos dos séculos,
No augúrio de catástrofes completas!...

Belo Horizonte - 11 10 2018