segunda-feira, 8 de novembro de 2021

VIDAS PASSADAS

VIDAS PASSADAS

Não. Não me fales mais belas mentiras!
Tampouco m'embriaguem teus amores...
Tantas memórias...! Tantas! Tantas dores...
Tantos ais! Tantas fúrias!! Tantas iras!!!

Tu me viste entre exus e pombas-giras...
Gente em roda elevada por tambores,
Quando a ti revelaram-se obsessores
Encostados a mim em vãs catiras...!

Sim, parece ter sido n'outra vida...
Mas hoje escuridão tão-só me cerca
'Té que a buscar-te em sombras eu me perca.

Eu te vejo e pareces resolvida.
Deixas-me pelo Limbo para o Olvido
Como ao teu lado eu nunca antes vivido...

Betim - 05 01 2021

sábado, 6 de novembro de 2021

SOLEDADES

 SOLEDADES


Às vezes, entre as horas vagabundas,

Deixo o  olhar me levar pelos caminhos

E alonjar-me por páramos sozinhos

De vidas tão mundanas quanto imundas...


É por estas alturas infecundas,

Onde o cume contrasta aos céus vizinhos,

Que troco os meus problemas comezinhos

Pelas imensidades mais profundas...


Aonde nem um eco de voz chega,

Enfim meu coração desassossega

No encontro do silêncio que me apraz:


-- "Soledades dos altos do penedo...!

A mirar tão sem ânsia quão sem medo,

Sim eu, aqui e agora, estou em paz".


Belo Horizonte - 06 10 2021

terça-feira, 2 de novembro de 2021

RAZÕES DO CORAÇÃO

 RAZÕES DO CORAÇÃO


MOTE: 

Antes estar triste-mas-solidário

Ao lado de quem amo,

Do que estar alegre-mas-solitário

Junto de quem não amo.


GLOSA:

Antes se querer bem quem está mal,

Do que somente ter alguém ao lado.

Ou se alegrar com quem, enamorado,

Te quer bem sem que tu queiras igual

Com teu coração a outrem destinado.

Se a alegria é apenas um momento,

Que passará tão-logo houver havido,

É-nos mais necessário algum sentido

Maior do que tão-só divertimento

Para viver com quem tu tens vivido.


Betim - 06 10 2021

domingo, 24 de outubro de 2021

UMA DE JOÃO-SEM-BRAÇO

UMA DE JOÃO SEM BRAÇO


Aqueles que fingem ser quem não são,

acabam se tornando o que nunca foram.


Dei uma de João-sem-braço.

Arracaram-m’o! 


Ou melhor, tal como o famoso João, eu o escondi sob farrapos e me expus à piedade alheia. Poeta, luto o vão combate da Poesia.


Pessoa lhe fez um poema “O braço sem corpo brandindo um gládio”. E seu braço arrancado e heroico, com armadura e tudo, lhe atravessou os sonho…


Fingidor que sou, tornei-me eu um joão, isto é, algum; qualquer um.

Despersonalizei-me na persona do pedinte falso-aleijado. 


Uma personagem da tacanha capital colonial. De janeiro a janeiro, um rio de ruas onde ninguém é o que é: Cariocas do caos!

 

Afinal, n’uma Cidade Maravilhosa não posso ser, também eu, uma maravilha?


Talvez andasse pelos arcos da Lapa declamando poemas ininteligíveis. O décimo bêbado equilibrista de hoje…


Talvez convencesse, actor sem palco, que minhas misérias merecem atenção do respeitável público…


Talvez bebesse até cair e acordasse sem calças com a cabeça na guia da calçada com o sol d’um sábado de praia m’estraçalhando as ideias com sua realidade extrema.


Não passo d'um merda. Vivo de linguiça frita e fardos de cerveja barata. Moro n'um barracão de dois cômodos, meu existensminimum… Rodo de cêgê-zinha varando a Metrópole de ponta a ponta atrás de freelas de fome! No mais, escrever feito um louco e pagar para ser lido em antologias aleatórias. Quando dá na telha, eu m'embriago e saio madrugada afora como fosse um profeta do nada: outra personagem da noite do Rio de Janeiro.


Sou

 desleixado demais para ter uma mulher;

 distraído demais para ter um filho;

 alternativo demais para ter uma carreira.


Fui desleixado demais para ter uma mulher, 

distraído demais para ter um filho,

alternativo demais para ter uma carreira.


Vivo tomando porrada na cara e me levantando para tomar mais. Sou patético.


Vou te mandar a real. Sou de Minas. Jamais estive no Rio de Janeiro em minha vida. 

Tenho esposa, filhas e carreira e moro n’uma casa até boa. 

Mas, na minha fantasia, 

eu queria ser o merda que descrevi no poema, ou seja, 

uma pessoa preocupada em viver, não em ter ou ser,

uma pessoa livre que se dedica unicamente à poesia. 


Dar uma de joão-sem-braço, como se sabe é dar um golpe. 


É fingir ser um aleijado para compadecer o outro e receber d’ele uma esmola. 

No fundo, é isso que faço: visto-me de poeta para receber um aplauso aqui e outro ali. 

Proponho-me uma autocrítica mordaz e negativa que descreve exatamente a minha fantasia: ser uma poeta que vaga pelos arcos da Lapa, embriagado e livre. 


Talvez eu ame demais essa minha vida desgraçada, pedinte de aplausos por versos vãos nas madrugadas cariocas.


Mas, dou uma de João-sem-braço e faço alguém acreditar que poeto… E toda minha insignificante e solitária existência na verdade são desconfortos necessários para trazer às letras uma frase autêntica de humanidade.


Pedinte falso-aleijado sim. Mas poeta!


Betim - 23 10 2021



quarta-feira, 20 de outubro de 2021

DAS AVES

DAS AVES (haicais)


1.

Sobre o espelho d'água

súbito alça voo a garça --

Leque d'alvas penas.


2.

Em berro de cores,

A canindé mais s'ecoa:

-- Urgh… Arara! Arara!


3.

Em preto e tons laranjas,

Olha o bico de tucano!

Palheta de cores.


4.

Voam ao pôr-do-sol 

Mil andorinhas em nuvem --

Uma boa viagem.


5.

Martela na tarde

O trinca-ferro harmonioso...

Bigorna e marreta!


Belo Horizonte - 15 10 2021

terça-feira, 19 de outubro de 2021

CORAÇÃO DOS OUTROS

CORAÇÃO DOS OUTROS

Nunca sabemos tudo sobre todos,
Ou melhor, não sabemos quase nada...
Mesmo uma companheira de jornada
Tem-nos tantos segredos quanto engodos.

Por se decepcionar de muitos modos,
Cada um tem sua vida tão guardada,
Que ninguém vai aonde sua estrada
Começa entre fontes ou entre lodos.

Como se n'um palheiro um alfinete,
A gente em vão procura a verdadeira
Verdade a revelar a pessoa inteira.

Mas é por seu amor que se compete,
Até seu ser-no-mundo ter com o Olvido:
Amamos sempre alguém desconhecido.

Belo Horizonte - 15 10 2021

sábado, 16 de outubro de 2021

POR QUEM SOIS, MINHA SENHORA

POR QUEM SOIS, MINHA SENHORA


Por quem sois, minha Senhora,

Vinde-me agora à janela!

Quem tão boa quanto bela

A este que tão-só vos adora

Dai a mercê mais singela…


Dai-me outr’hora como aquela

Que à vossa face ‘inda cora

Quando adentrei sem demora

E às matinas na capela

Vos vi orar logo à aurora...


Dai-me como aquela outr’hora,

Por quem sois, ó minha bela!

Deixai de qualquer querela

Havida entre nós vida afora.

E vinde ouvir-me à janela.


Há-que escutar o que vela

E mais de vós s’enamora...

E mais e mais vos adora...

Seja altar vossa janela

À minha nossa senhora…!


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