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sexta-feira, 21 de julho de 2023

SILHUETAS

SILHUETAS


De perfil, contra a luz do sol poente,

Não mais que duas sombras abraçadas

Em face d'amplidão, onde douradas

Nuvens no céu lilás em gradiente.


Contrastam com o fundo esplandecente

Nossas formas vazias destacadas

A fazer de ilusões enamoradas

Um pôster de casal bem comovente.


O contorno dos corpos, todavia,

Adquire tons de doce nostalgia

À medida que os anos vão passando.


Assim, com essa foto na parede,

Esqueço todo mal que me sucede,

Olhando para nós de quando em quando.


Moeda - 07 07 2021

segunda-feira, 22 de agosto de 2022

BANALIDADES

 BANALIDADES


Seria melhor falar do café forte,

Que me desceu queimando goela abaixo…

Ou então que tenho andado cabisbaixo

E penso mais no amor do que na morte.


Talvez falar ao léu não te conforte…

Tampouco sei se ainda eu cá m’encaixo!

Parece que andas meio para baixo

Ou simplesmente estás sem muita sorte.


Falar do frio, não do que te aquece…

De quantos dias mais para a quermesse…

Se cheia ou se minguante é hoje a lua.


Deixa estar! A questão é de quereres 

Ser-me ou não a mulher entre as mulheres:

Tu, em minha loucura; e eu pela tua.


Betim - 06 01 2021


quinta-feira, 14 de abril de 2022

A ALFINETE

A ALFINETE

Não te canses jamais de meus carinhos,
Ou tampouco me prives mais dos teus.
Em gestos tão simples que plebeus,
Saiba eu te ornar de flores os caminhos.

Não deixes que pudores, por mesquinhos,
Mal afastem os teus lábios dos meus.
Nem as palavras sejam já de adeus,
Se de novo nos virmos tão sozinhos…

Colhendo flores para um ramalhete,
Mesmo longe, enderece à tua casa,
Alguns versos gentis n’algum bilhete.

Assim se achegue a ti meu peito em brasa:
 — “Te amo!” — n’um coração preso à alfinete…
Mas que enternece tanto que te arrasa.

Betim — 12 06 2021

sexta-feira, 18 de março de 2022

O QUE NÃO TE MATA

O QUE NÃO TE MATA


Mas, de facto, o que mais nos fortalece

É o que, ao nos tentar destruir, fracassa.

Qual quanto mais afunda; mais abraça

Um afogado a prancha em que padece.


Depois de tanta luta; tanta prece,

Quem passa o infortúnio da desgraça,

Desdenha de armadilha ou de trapaça

Que se lhe possam pôr p'ra que tropece.


Apesar de tudo, houve um outro dia!

E mais outro e mais outro e mais e mais:

Há-que s'endurecer! Sem ais e tais...


E a vida continua, sem utopia…

Funda a ferida, sim, mas não de morte:

Se não te mata mais te faz mais forte.


Betim - 05 01 2021


segunda-feira, 31 de janeiro de 2022

ANTIPOÉTICO

ANTIPOÉTICO


Não há nada de bom nem de bonito 

Qu’eu possa hoje expressar como poesia…

Nem nada de verdade ou alegria 

Que possa pretender-se algo infinito.


Parece que em mais nada eu acredito!

Parece não haver mais fantasia!

Se escrevo, é impressão do dia a dia

Já sem qualquer paixão pelo descrito.


De tédio, indiferença e alienação

S’enchera o meu cansado coração

Depois d’algumas horas de vazio.


Se me olhais condenável a actitude,

Sabei vós que mais nada a mim me ilude

Em meio a um mundo mais e mais sombrio.


Betim - 05 01 2021

segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

AMBOS OS DOIS

AMBOS OS DOIS


Nós somos, eu e tu, dois desvalidos,

Que se reveem depois de mil azares…

Ambos a suspirar por novos ares

E até nos sofrimentos parecidos.


Sim, uns seres ambíguos, divididos

Entre cumprir deveres ou folgares!…

Deixando vãos por todos os lugares,

Mesmo ainda entre si desconhecidos.


Agora juntos, pela escuridão

Caminhamos confusos, mão a mão,

Temendo o fundo abismo logo ao lado.


Atravessemos outra madrugada!

Visto que não o fim, sim a jornada

Clareie tanto o presente que o passado.


Betim - 10 01 2021


segunda-feira, 10 de janeiro de 2022

DESIMPORTANTE

DESIMPORTANTE

E eu, que não sei nada; não sou nada,
Vivi o amor estranho dos erráticos…
Não me ceguei a lábios quase apáticos,
Em meio a uma afeição desencontrada.

Fui quem atravessou a madrugada
E vaguei sob as sombras dos lunáticos:
Aceito outra miséria em termos práticos
D’aquela solidão enamorada!

Embora eu queira muito, tive pouco 
De quanto tive em paga dos carinhos,
Que tanto esperdicei por meus caminhos.

E mesmo à vista grossa; ouvido mouco,
Me fazes encarar a todo instante
Minha presença a ti desimportante…

Betim — 28 12 2020

segunda-feira, 3 de janeiro de 2022

OURO-E-FIO

OURO-E-FIO


Nada falte nem sobre p’la balança,

Tampouco te fies mais que o necessário.

No fio do bigode, um numerário

Acorde em hombridade e temperança.


Lembra: – “Houveram-te um nome por herança!...”

E nada queiras ter co’o perdulário,

Senão a decepção... Pelo contrário,

Evita até as ruas de sua errança!!! 


Falseio da palavra igual de peso

Faz parecer valer o que não vale

Tal como o esperto em face do indefeso.


Do mesmo modo um homem equivale

Àquilo que a consciência faz feliz,

Ao ser tanto o que faz quanto o que diz.


Betim - 20 12 2021


sábado, 1 de janeiro de 2022

AVASSALADORA

AVASSALADORA 


Como fosse um aríete, ela vem

Rompendo-me a defesa a cavaleiro.

Avança ao revelim quase fronteiro

Às guardas que a portada mal sustêm.


Vem através das chamas, como quem

Tem o corpo fechado ao hábil arqueiro

E se lança à vanguarda, flor-de-cheiro, 

A ocupar o lugar do querer bem.


Mal chega e se assenhora do fortim:

Irrompe à praça d’armas e à portela;

Comanda do torreão a cidadela.


Avassaladora e ávida de mim,

Onde nunca ninguém antes me houvera,

Ela vem e me traz a primavera!


Belo Horizonte - 22 09 2021

quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

ESTRANHA ESCRITA

ESTRANHA ESCRITA


Verso após verso, a métrica perfeita

Dá às sílabas ritmo e por fim rima.

Cada frase com menos mais exprima,

Onde o sentido ao som melhor se ajeita.


Nos mínimos detalhes endireita

A forma e o conteúdo em obra-prima…

Seguidas revisões, de baixo a cima,

A compor com imagens a hora afeita:  


Assim como ao salão d’espelhos, logo

O lume ardente d'uma única vela

Faz brilhar mais de mil olhos de fogo!


Também pela poesia -- estranha escrita --

Um universo inteiro em si revela

Ao pretender-se íntima e infinita.


Betim - 30 12 2021


quinta-feira, 23 de dezembro de 2021

AMEBOIDE

AMEBOIDE


Lá de cima, a cidade até parece

Uma ameba em comum fagocitose

Que talvez, assexuada, de si goze,

Soltando-se amebinha enquanto cresce…


O verde sob o cinza reconhece

Ora Apocalipse; ora Apoteose,

O desmate a mostrar-se estranha pose

Na aerofotografia onde aparece.


Se trama de avenidas e travessas,

Da cidade um perímetro às avessas

Faz como a entamoeba ao abrir clarões.


Pois, espaços entre arquiteturas

Continua a avançar infraestruturas

Em expansão urbana por sertões!


Belo Horizonte - 21 12 2021

segunda-feira, 20 de dezembro de 2021

À RÉCUA

À RÉCUA 


Quem não pede licença, sim desculpa,

E tende a agir conforme as circunstâncias,

Faz exigir por tantas inconstâncias,

Que à Justiça outra estátua vil s'esculpa!…


E o que premeditado se desculpa,

Somente é outra chance para errâncias

D'um homem bom imerso em más ânsias,

Até que admita a si a própria culpa.


D'este modo, o malfeito vale a pena,

Ao passo que a verdade se apequena

Por sob as vistas grossas d'Excelências…


Recua tão-somente em dar a volta

Para enquanto abre campo à rédea solta,

Cobrir-se d'ouro até as excrescências!


Belo Horizonte - 20 12 2021

AJARDINADO

AJARDINADO


Interessa-me ver o quanto chupa

De néctar um errante beija-flor;

Cuidar dos besourinhos ao redor

Ou surpreender a abelha sob a lupa.


Soubesse a borboleta desde a pupa

Vir a ser entre as flores outra flor,

Talvez se desejasse furta-cor,

Face à bela que a amar tão-só se ocupa.


A tarde caía lenta e sem cuidados,

Quando mil estorninhos apressados

Vieram burburinhar na laranjeiras…


Pois o sol, muito embora se ocultasse,

Anunciava que então eu desposasse

Àquela que enrubesce as cerejeiras…


Belo Horizonte - 20 12 2021

sábado, 18 de dezembro de 2021

BISMILÉSIMO ANO

BISMILÉSIMO ANO


Se alguma utilidade os erros têm,

É a de relembrar-nos imperfeitos.

Há dois milênios sonha-se conceitos,

E más escolhas tidas para o bem….


Os profetas do fim (eles também…!)

Marcaram para o Christo novos feitos

E no bismilésimo ano, contrafeitos

Mantém todos olhando para o Além.


Mas, ainda que em vão, vão pela terra

Muitos homens obscuros nos desterros

Que armavam os mais crentes para a guerra.


Vêm na noite escura, andando aos berros:

-- "Quem, em nome de Deus, a História encerra?!"

Se alguma utilidade têm os erros…


Belo Horizonte - 19 09 1999

quinta-feira, 16 de dezembro de 2021

O HOMÔNIMO

O HOMÔNIMO


Ele se chama tal como eu me chamo.

Não sei d'ele, tampouco ele de mim,

Mas lhe tenho empatia mesmo assim

Ao sabê-lo escritor qual me proclamo.


Se eu, tanto quanto ele, mais reclamo 

D'essa vida vivida para o fim,

Talvez que vindo ele d'onde eu vim

Pela árvore dos Cunhas âmbos ramo.


Ricardos, cá nós dois somos de pia

E nas letras buscamos a alegria

Que a nós nos tem negado o quotidiano.


Visto que o curso estranho d'estas vidas

Mal desviara um do outro nossas lidas,

Antes por maldição que por engano...


Betim - 15 12 2021

quarta-feira, 15 de dezembro de 2021

RESSAQUINHA

 RESSAQUINHA


Mal acordo tomando o meu café

N'um lagoinha que -- puts!-- servira pinga...

Vendo o povo que cedo s'endominga,

E vai à igreja em frente ao cabaré.


Co'a mente mareada vou na fé,

Depois d'outra noitada de rezinga.

Desafiador, o sol de mim se vinga,

Enquanto a cambalear fico de pé.


Então recordo a lua na sarjeta,

Que na noite anterior me vira poeta

E boêmio a seguir de bar em bar.


Rimas martelavam na cabeça,

Onde a manhã, espada, me atravessa,

Tirando as ideias todas do lugar.


Betim - 08 12 2021

quinta-feira, 9 de dezembro de 2021

SUB-REPTÍCIAS

SUB-REPTÍCIAS


Não raro, sob palavras bem gentis

Se ocultam intenções quase rasteiras.

Mentiras se pretendem verdadeiras

Nas bocas dos mais vãos e dos mais vis…


Dar fé às tais lorotas do infeliz

Azeda até conversas costumeiras,

Que ele intenta passar por brincadeiras,

Aqui e ali jogando seus ardis.


Por debaixo dos pés dos rastejantes,

De certo há armadilhas ultrajantes,

Cujo laço retém sempre o mais crente.


Pois que, por expressões subliminares

A maldade se inculca nos azares

De quem, manipulado, era inocente.


Betim - 08 12 2021

domingo, 5 de dezembro de 2021

TANTO FEZ; TANTO FAZ

TANTO FEZ; TANTO FAZ


O que não importara no passado

Tampouco importa agora no presente.

O que fizeste (ou fazes) tão-somente

Permanece no amor que tens deixado.


Se não trazes co’o peito enamorado 

Teus carinhos e carícias, descontente,

Verás o peito amante de repente

Partir face a um amor desencontrado...


Andaste caminhando junto ao abismo 

Sem veres teu terrível egoísmo

Te guiando a passos largos para o nada.


Um dia, tu voltarás por onde foste

E o que terás a ti talvez desgoste

N'uma casa vazia e abandonada.


Betim - 04 01 2021

segunda-feira, 8 de novembro de 2021

VIDAS PASSADAS

VIDAS PASSADAS

Não. Não me fales mais belas mentiras!
Tampouco m'embriaguem teus amores...
Tantas memórias...! Tantas! Tantas dores...
Tantos ais! Tantas fúrias!! Tantas iras!!!

Tu me viste entre exus e pombas-giras...
Gente em roda elevada por tambores,
Quando a ti revelaram-se obsessores
Encostados a mim em vãs catiras...!

Sim, parece ter sido n'outra vida...
Mas hoje escuridão tão-só me cerca
'Té que a buscar-te em sombras eu me perca.

Eu te vejo e pareces resolvida.
Deixas-me pelo Limbo para o Olvido
Como ao teu lado eu nunca antes vivido...

Betim - 05 01 2021

sábado, 6 de novembro de 2021

SOLEDADES

 SOLEDADES


Às vezes, entre as horas vagabundas,

Deixo o  olhar me levar pelos caminhos

E alonjar-me por páramos sozinhos

De vidas tão mundanas quanto imundas...


É por estas alturas infecundas,

Onde o cume contrasta aos céus vizinhos,

Que troco os meus problemas comezinhos

Pelas imensidades mais profundas...


Aonde nem um eco de voz chega,

Enfim meu coração desassossega

No encontro do silêncio que me apraz:


-- "Soledades dos altos do penedo...!

A mirar tão sem ânsia quão sem medo,

Sim eu, aqui e agora, estou em paz".


Belo Horizonte - 06 10 2021