quinta-feira, 27 de abril de 2023

ENVEREDADO

ENVEREDADO


Passando buritis e macaúvas,

Se anda por sobre os seixos d’um riachinho,

Que d’entre matagais se faz caminho,

Livre das lavapés e das saúvas!


Se pelas cabeceiras descem chuvas,

Escorria mais cheio e mais daninho.

Por sertões, logo logo me avizinho

D’onde Judas perdeu botas e luvas.


Então eu caminhava pelas águas

Certo de me perder de minhas mágoas

Por uma estrada para a solidão.


Mas mais do que alegria ou que tristeza,

Ali senti imensa a Natureza

Enfim me assossegar o coração.


Brumadinho - 22 04 2023


quarta-feira, 26 de abril de 2023

PELO QUE SEI

PELO QUE SEI


Embora ignore muito e saiba pouco,

Eu d’esse muito pouco faço tudo.

Quanto a saber de Deus, já não me iludo;

Nem O pretendo lógico, tampouco.


Desconfio de mim igual o louco

Que a medo do que diz se faz de mudo.

Não tenho qualquer mérito, contudo,

Tal como não me aumento, não me apouco.


Mais sábio não é quem tudo responde,

Sim aquele que sabe que s’esconde

A verdade bem fundo aos corações.


Quem pensa saber tudo, nada sabe.

Na cabeça da gente Deus não cabe…

E tudo o que sei d’Ele são clarões.


Betim - 26 04 2023


domingo, 23 de abril de 2023

OS AREAIS DO RIO DOCE

 OS AREAIS DO RIO DOCE


Aparecem ilhotas d’areia clara

Pelo meio do rio quando é seca

E o sol, como se diz na fala jeca,

Esturricava o chão da coivara.


Lá da estrada de ferro as avistara

Chamando a meninada mais sapeca

A pular n’água feito perereca, 

N’um recreio sem cuidados e sem vara…


“Aproveita teu dia!” — pareciam

Dizer esses areais que apareciam

Repletos de crianças e mulheres.


No desejo de praias fluviais

— Que hoje estão e amanhã não estão mais… —

Há todo o Paraíso e seus prazeres.


Naque - 22 07 2015


POAIAS

POAIAS


Diz-que n’estes rincões de matas claras

Buscavam sertanistas por poaias

Munidos de facões e de azagaias,

Entre terras inóspitas, avaras…


Ervas de garrafada; das mais caras,

Tidas por panaceia n’outras praias.

Urgiam boticários e outras laias

Suas acções eméticas e amaras.


Escambos de cachaças por raízes

Deixaram mais histórias infelizes

No encontro entre gentios e poaieiros


Foi assim que em sertões do rio Doce

A cura dos achaques se nos trouxe

A febre da ganância por dinheiros.


Caratinga - 24 07 2015


quarta-feira, 19 de abril de 2023

EMBEVECIDO

EMBEVECIDO

Parecia que nem parecia eu.

Antes um outro olhando da vidraça

Essa mulher belíssima que passa,

Deixando feito estrela o brilho seu…

Por um instante o tempo se perdeu

De minha mente imersa em luz e graça.

Enquanto, lentamente, ela s’espaça

De quanto meu olhar já conheceu.

Ainda boquiaberto só por vê-la,

Demoro-me parado na janela 

Como a tentasse reter pelas retinas

Oxalá eu consiga ter em breve

A graça de minh’alma tão mais leve

À luz de suas formas femininas.

Betim - 19 04 2023












OLHOS MENINOS

OLHOS MENINOS

Ver era tudo ser grande e confuso.

As pessoas, as coisas, a cidade…

Andava então co’os pés em liberdade:

Descalço pois moleque; pois cafuzo.

Lembro gírias d’antanho, hoje em desuso:

Mil tabuísmos ditos sem maldade!

Linguagem era, enfim, vivacidade

Quase sempre limítrofe do abuso.

Eu, sem saber de nada, tudo intuía.

E até minha noção de fantasia

Perscrutava por sombras de mistério.

Ver era tudo ser sem ser de facto.

De brincadeira, sonho ainda intacto

O gude que lancei pelo Sidéreo!

Betim - 19 04 2023

MILIMÉTRICO

MILIMÉTRICO


Paquímetro na mão, meço a bitola

D’uma rosca sem fim helicoidal,

Que há-de girar, precisa e funcional,

Para abrir e fechar a portinhola.


Muitas artes e ofícios desde a escola,

Traçando em projeção ortogonal…

Mas tinha-de dar certo no final,

Senão não era nem uma gaiola!


O aço, tão exigente quanto o verso,

Não tolera o desvio controverso

Quando tem-de ser posto em movimento.


Pois soa, ao ser medido, harmonioso:

Faz deslizar no encaixe industrioso,

Um sopro de razão e sentimento.


Betim - 18 04 2023