quinta-feira, 17 de setembro de 2026

A LIRA E A FLAUTA – XIV alexandrinos

 A LIRA E A FLAUTA – XIV alexandrinos


I

prólogo 


Caminhava; e a ideia me veio andando:    

Era alguma harmonia vinda ao longe, vaga,   

Ou senão fantasia em que verdades traga    

D'um mito que ninguém saberá onde ou quando. 


Ouço ― dentro de mim ― lira e flauta soando.    

Eu vejo um deus dourado, enquanto a lira afaga,  

E um artista que beija a flauta s'embriaga...    

Vejo-os, pelo caminho, à medida que eu ando.  


Apolo e Mársias vêm... Disputam bem à frente!   

Pois, se imagino o real, talvez consiga vê-lo,    

E, ainda ao imaginar, criar poeticamente. 


Nos desvãos da memória, os recordo em duelo: 

A lira e a flauta soam: Ocidente e Oriente 

Opostos n'um Ideal, a excelência do Belo! 


*          *          * 


II 

 

evocação às musas 

  

―”Saúdo-vos, oh musas! Pela vossa glória,

Que o talento encontre em mim humilde herdade.

Evoco-vos n'um canto a excelsa majestade,   

Oh filhas imortais da grã Mneme, a Memória.”


“Clio, em sabedoria, haja-me toda a História.   

Polímnia, Eloquência à minha vã verdade.   

Melpomene, à Tragédia, a dramaticidade.   

Tália, pela Comédia, a alegria ilusória.”   


“Urânia, iluminai-me, audaz, a Astronomia.   

Calíope, escrevei o Épico por meus hinos.   

Terpsícore, inspirai o Lírico à poesia.”   


“Erato — à lira, ter os Amores divinos;  

Euterpe — à flauta, dar a Música harmonia.   

Vossa graça perpasse os meus alexandrinos!”   

 

*          *          * 

                                    

III 

                                           

origens da lira 

 

Contam da História, Clio, aquela antiga lenda  

― Que pela vossa graça evade ao esquecimento... ―  

De Hermes, o astuto deus, em cujo nascimento,  

Soube inventar a lira, hoje admirada prenda. 

  

Hermes mal nascia e já ― d’uma caverna à senda ―   

Topa co’a tartaruga, a qual dá corpo ao invento:   

Das tripas cordas faz para um novo instrumento,   

E logo após as tange ao som que se desprenda.  

  

Voou d'asas nos pés; de Apolo após fez furtos:

Mais de cinquenta bois levando o deus ladrão,

Até Febo o prender a voos bem mais curtos.

  

Soube Hermes, todavia, aclarar a questão:  

Da lira tira os sons, que em sete notas surtos,  

Para a glória de Apolo, eles soam desde então.  

 

                     *          *          * 


IV 

 

origens da flauta    

                             

Souberam-me, contudo, alta Clio, outro conto   

De quão irrefreável e violento Amor!   

Quis ―  do grande deus Pã ― ousar-se vencedor:  

Fê-lo inventor da flauta e a impôs ao contraponto.   


Embora de Hermes filho, era Pã velho e tonto...   

Encantado, se vê de Siringe amador.   

Ao declarar, porém, à bela ninfa amor,   

Ela, por não o amar, negara-o de pronto.   


Siringe, a caçadora, avança agora caça.   

Para à margem do rio e roga às ninfas manas   

Fugir ao feio Pã, que apressado ali passa.   


Pã tenta lhe abraçar, mas só abraça canas...   

D'elas ouve um queixume, achando alguma graça.   

E sopra a flauta Pã, para as paixões humanas...  

 

                       *          *          * 


 

desafio musical  

  

Canto-vos, oh Polímnia, à Eloquência regente!  

Canto um canto que é muito mais que uma canção.  

Canto um artista audaz contra o deus da criação.  

Canto em meu canto, oh musa, a verdade somente.  

  

Elevai-me, entretanto, a voz mais eloquente.  

Com palavras, falai à mente e ao coração,  

Para que, mais que sons, tragam-nos emoção,  

E enfim, quem as ouvir, não fique indiferente.  

  

À lira, sete cordas... Perfeito tocava  

Apolo — deus heleno: O que a todos inspira,  

E, ao dedilhar a lira, a pedras encantava!  

  

À flauta, sete tubos... Místicos sons tira  

Mársias — mito sileno: O que águas transbordava...  

Eis, por tamanho feito, a flauta contra a lira!  

 

                     *          *          *  


VI 

                                         

Mársias trágico  

  

Vão Mársias, Melpomene: Uma Tragédia a vida  

Tão-só vivida a obter da música prazer...  

Um que, tão talentoso, intentara vencer  

O próprio deus Apolo em musical partida.

  

Vós, Melpomene, sendo em juízo escolhida,  

Junto a vossas irmãs, lograstes conceder  

Vitória ao que melhor músico parecer,  

Com submissão de quem cuja obra ver vencida.

  

Mársias vence co'a flauta o seu primeiro embate.  

Apolo após, porém, cantando é persuasivo...  

Sua voz acompanha a lira e obtém o empate!

  

Vence, por fim, Apolo: A Mársias faz captivo.  

Indignando o divino um mortal que o combate,  

Febo, impiedosamente, o esfola ainda vivo. 

 

*          *          *          


VII 

  

Mársias cômico 

 

Cesse a tristeza, Tália; à Comédia se cante!  

Que rir é para a dor excelente remédio.  

Que eu vos cantar tão-só há-de vencer o tédio.  

Que a vida, absurdamente, é muito interessante.  

  

Inspirai, Tália, em Baco, o vinho inebriante!  

Embriagai-me a voz muito acima do médio,

Eu ― por cômico e vão ― acorde todo o prédio

Ou ― por lírico e só  ― às tristezas espante...

  

Sátiros, a cantar este Mársias burlesco,  

Encenavam-no tonto, a vagar por bacanais. 

Feito opereta, pois, do trágico ao grotesco.  

  

Afogados em vinho os desejos carnais, 

Em festa vêm saudá-lo mito carnavalesco:  

Entrudo popular, de antigos carnavais...

  

                      *          *          * 


VIII 

 

Febo-Apolo 

  

Pelo astro rei, Urânia, olhai a Astronomia: 

Estrela a luzir sobre a abóboda celeste... 

De todo o firmamento o senhor inconteste 

E à Natura regendo a infinita harmonia. 


O sol, que desde o início os dias definia, 

Navega pelos céus o seu curso leste-oeste.

Se antes provê saúde; após, envia peste... 

Senhor do porvir: O que tudo antes via.


Febo-Apolo, esplendente, atravessa dest'arte 

Os céus e empunha a lira entre notas difusas 

Seus concertos de luz áurea em toda a parte. 


Ei-lo, enfim, musageta: Ao cortejo das musas!

― "Sigo a vos conduzir por obras d'engenho e arte, 

 Reinando como o sol, sem pejos nem escusas."                 


       *          *          * 


IX 

 

guerra de melodias 

  

Grã Calíope, recordo em músicas grande Épico 

Onde Mársias e Apolo apostam o mor efeito 

Quem obtém... Ou quem toca ainda mais perfeito 

E qual melhor compõe... Ou mesmo o senso estético 

  

Apolo faz ouvir d’uma ária o tom profético, 

Mas Mársias, com um trote alegre, pôs afeito 

Todo aquele conselho, em cujo alto conceito, 

Fora elevado enfim sob o seu ar magnético. 

  

Após, cantando, Apolo a todos arrebata. 

Visto que une a poesia à música no encanto, 

Somando voz e lira em plena serenata. 

  

Mársias contesta então: Não usara ele o canto! 

Apolo diz que igual com boca e dedos trata... 

Vencedor, suplicia o vil por ousar tanto. 

 

                      *          *          * 

       

o suplício de Mársias 

 

Eis, Terpsícore, todo o Lírico sentido, 

Que a vida humana tem quando de sua morte. 

Ter que sua arte é tudo e nada mais importe 

Senão morrer pel’Arte em que havia vivido. 

 

Mársias, sujeito a Apolo ao se ver vencido, 

Fora estirado a um pinho robusto, de porte. 

Lá, um escravo amola à falcata seu corte, 

A imolar Mársias ante Apolo ressentido. 

 

Sátiros, faunos, ninfas... Vendo tal crueza. 

Choraram tristes todo um rio derramado, 

Indo as canas da flauta em forte correnteza...

 

Da pele d’ele, fez-se um odre enfeitiçado 

Que, se tocam a flauta, agita com presteza; 

Mas, se tocam a lira, ouve petrificado. 

  

               *               *               * 


XI 

       

o cantar de Apolo 

 

— "Canto d’Amor, Erato, a sua desventura. 

Eu que lhe ria do uso dado a suas setas,

Fui ferido d'amor, tal-qual vossos poetas. 

Encantado por Dafne, ninfa bela e pura..." 

 

"Vendo-a, logo me atrai tamanha formosura. 

Eu me apresento à lira... Canto obras diletas. 

Mas, Amor quis vingança e desgraça completas: 

Pondo-a avessa a mim, foge na mata escura..." 

 

"... E não alcanço a ninfa a correr trilha afora: 

Em pânico, mudou-se em árvore de louro 

Junto ao rio Pereu, conjurado àquela hora" 

 

"De louros coroado, olho o dia vindouro:

Desde o primeiro Sol, tento tocar a Aurora, 

Sem lhe alcançar, porém, o belo coche d’ouro..." 

 

  

               *               *               * 


XII 


a música de Mársias  

  

—“Música, arte das musas! Eis, Euterpe, a flauta.  

Se desafio Apolo a tocar algo belo,  

Me arrisco ao perder a perder o meu pelo...  

Lanço-me, temerário, n’uma aposta incauta."  

  

"Saio da sombra e espalho sons, pauta após pauta.  

Eu encanto, entretanto, tocando com zelo  

A minha melodia como um suave apelo

Às musas que m’escutam cantos de argonauta"  

  

"Volta a música, enfim, ao que fora vivida,  

Certo ser a Natura imensa sinfonia,  

Em cujas belas leis compõe-se toda a vida."  

  

Ao murmuro do vento, além da serrania,

Se fez arte, afinal, para ser ouvida:  

N’um pipitar d’ave, eu sopro a melodia."  

                                                                 

               *               *               * 


XIII                                       

 

versos alexandrinos  

 

Conta, musas, ainda El Libro d'Alexinde, 

Sobre Alexandro Magno, El-Rey de Macedônia, 

A História fabulosa, muito embora idônea, 

Co'os feitos d'armas seus, que o tornaram o Grande. 

 

O império, d'Europa à Índia, célere s’expande: 

Ocidente e Oriente une ao tomar Babilônia. 

Dest'arte, a flauta frígia em duo co'a lira jônia 

Tocam enquanto, no ar, forte o seu gládio brande! 

 

El Libro d'Alexinde, em átrios paladinos, 

Lembrava a erudição da vasta Alexandria, 

Dois milênios após! Em meio a desatinos... 

 

Helenisticamente, entretém-me a harmonia 

De lira e flauta, a ver — versos alexandrinos — 

Doze sílabas dão belo metro à poesia. 

                                                          

               *               *               * 

            

XIV                                       


epílogo  

 

Musas, silenciai. Vem a noite... Está tarde.  

Há pouco o sol se pôs; eis o ocaso, afinal... 

E desde o início quer a história algum final,  

Que, pela escuridão, o seu silêncio atarde.  

  

Quietas ― lira e flauta ― em triste cair de tarde.  

Se o moderno s’escusa em lembrar do imortal,  

Os deuses morrem sim, de morte natural...  

Enquanto um velho livro por fogueiras arde.  

  

Vós, musas, repousais há muito adormecidas!  

O artista ousa criar, mas já não lhe compete,

Pois, mesmo que acordais, nunca sereis ouvidas.  

  

Há ruído demais! Hoje o óbvio se repete!... 

Foram as artes todas por fim esquecidas:  

A Humanidade bebe as águas vãs do Lete.  

  

Betim - 03 09 1995

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