quarta-feira, 30 de setembro de 2026

ENTANTO

ENTANTO

Todo o tempo pretendo andar atento,
Pois quem menos entendo, mais me atenta…
A distância à lembrança só aumenta,
Conquanto nada mais tenha a contento.

Entanto, mesmo sem qualquer intento,
Tento aventar que a mente se contenta
Novamente quando ela se apresenta
Presente em pensamento e sentimento.

Contanto qu'eu esqueça um grande amor,
Tanto pela saudade quanto a dor,
Conto eu que talvez já não me importe.

Entanto, se um passado tão presente,
Está no que se cala e se consente,
Eu o levo pela vida até a morte.

Belo Horizonte - 03 05 1993

EREMITA

EREMITA


A minha vida vivo abrindo trilhas,

Embora ninguém venha a me seguir;

Apenas para a mata as consumir,

Ao recobrir pegadas e armadilhas.


Como se me negando maravilhas

A vida se mostrasse sem porvir...

Paro, sem nunca nada descobrir,

Depois de caminhar milhas e milhas:


— “Às vezes não sou nada nem ninguém, 

Sim parte do vazio a que me entrego,

Incerto de que haja algo mais além…”


A minha vida vivo em descaminho

Para perder-me em mim, enquanto nego

Deus e todo o mundo aqui sozinho.


Santa Bárbara – 08 08 1996

GENIOSA

GENIOSA

Quando cravas em mim os olhos graves E o mel da língua turvas em veneno, Eu sinto o teu pesar fazer pequeno Um coração que tu tinhas as chaves. Como tirar dos teus olhos as traves E te fazer feliz n‘um dia ameno!? Se já perdes o espírito sereno, Mesmo co’as palavras mais suaves. Querida, como agora me magoas... Se ‘inda há pouco tivemos horas boas E de carinhos só carinhos vêm?! Decerto te aborrece o meu amor... Senão, por que me causas tanta dor? Por que tanto mal a quem te quer tão bem? Belo Horizonte - 13 07 1996


terça-feira, 29 de setembro de 2026

DESASSOSSEGO

DESASSOSSEGO

Atrás de lentes foscas, olhos vagos;
Um coração sangrando malferido...
Na névoa a envolver o acontecido,
Vou recolhendo os restos dos estragos.

Nada senão o vão de vãos oragos
A me profetizar qualquer sentido!
Vasculharia as sombras sós d'Olvido,
Não fossem os amores fundos lagos.

Por horas de total desassossego,
N'um niilismo banal me desapego,
Indiferente aos males habituais

Desnorteia, afinal, outro fracasso.
Fragmento o ser, pedaço por pedaço…
Eu sobrevivo a mim uma vez mais.

Belo Horizonte – 23 05 1996

DELÍRIOS

DELÍRIOS


Dizei-me, pois, vós-outros, vos conjuro!
Que notícias haveis d'aquela que amo.
Vede: O amor faz rodeios feito o ramo
De trepadeira em torno do inseguro.

Quanto desassossego e vão apuro?!...
Que ideias imperfeitas ora tramo?!...
Vós, por suposto, ouvi-me os ais que clamo:
— “Onde andará aquela qu'eu procuro?...”

Vede: As luzes que tive hoje são trevas!
Vivendo suspeitoso horas malevas
De ausências e silêncios conflitantes.

Porque amor — ou loucura — qual sabeis,
Às vezes vai de encontro às próprias leis...
Sede vós, de meus ais, os expectantes!

Betim - 12 12 1996

segunda-feira, 28 de setembro de 2026

DE DIA, À TARDE

 DE DIA, À TARDE


Quando se adia a vida p'ra mais tarde

— E mais tarde... E mais tarde...  E mais... E mais... —

Até que venha a ser tarde demais

E eu passe pela vida por covarde.


Mais este dia adie; esta hora atarde,

Em vão eu sigo andando entre os normais.

Embora os imitasse, tais-e-quais,

Demais o coração em vão em mim arde...


De dia, à tarde... Ainda que hoje não.

Que seja-esteja ardendo o coração

Da hora que, uma outra vez, adio e atardo.


Até que seja dia e esteja quente,

Eu passo pela vida de repente:

Demais meu coração em vão eu ardo...


Betim - 08 06 1996

MELODRAMÁTICOS

 MELODRAMÁTICOS 


O público se reúne na plateia 

Para nos assistir a insanidade. 

Devastados, cada um de si evade 

E atravessa cada um uma odisseia. 


Ignoro onde o real; onde a ideia, 

N'aquilo que sentimos de verdade. 

Já devassar a própria intimidade, 

Inflama a discussão desde a traqueia... 


Que espetáculo é este! Que pavores!

Digladiamos, sim, acusações 

Refeitas face a estranhos desamores. 


Blecaute! Cerra o pano sem ilusões: 

Vão nos vaiar ao fim como impostores 

Ou gargalhar de nossos corações?


Betim - 12 06 2011

LIBERTA QUÆ SERA TAMEN

LIBERTA QUÆ SERA TAMEN

                                                           para Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes

Liberdade. Quem louco ousará definir?

Seja luz à vereda da verdade

E ideal que, além, confronta a realidade,

Pois reluz sobre as trevas do existir.


Liberdade... Algo por ver no porvir

Do longo caminhar da Humanidade.

Sabe mover montanhas pl'a vontade,

E aluviões de ouro escuro faz extrair.


Liberdade, pois, luz que me iluminas

Os campos dos Gerais de mim de ideais:

Liberta ‘inda que tarde serás, Minas!


Porque os tiranos não findam jamais

A derrama de sangue p’las colinas...

Liberdade cativa és, oh Gerais!


Ouro Preto – 20 02 1995

PRETIOSUM AURUM NIGRUM

PRETIOSUM AURUM NIGRUM

                                                                               para Galanga do Congo, o Chico Rei

A verdade liberta? Oxalá sim!

Às vezes ser vil n’um mundo de vis

É tudo o que se pode quando ardis

Hão-de nos libertar antes do fim.


A verdade liberta... Livre, enfim!

Se crê que seu poder vem de raiz

E, na glória, desfila quanto quis

A conduzir a Santa em baldaquim.


A verdade liberta. Os homens não...

A chuva cai lavando quanto existe:

Precioso ouro preto ao boqueirão!


Tudo é passado, mas a lenda insiste.

Sob o jugo mais duro, à hora mais triste.

Eis Liberdade: Pedra em negra mão!


* * *

SOL ORIENS IN OCCIDUO

SOL ORIENS IN OCCIDUO

                                       para José Bonifácio de Andrada e Silva, o Américo Elísio 

A Nação que obro está além dos factos.

Talvez, por isso soe como mentira

Ou devaneio que não se permitira

Por advir de utopistas inexactos.


A Nação que obro está além dos actos

E antes do que, sonhada, me existira:

Terra das mil palmeiras! Da santa ira!!!

Dos ideais que levei comigo intactos...


A Nação que obro, ou melhor, o ardil:

Visão que supra-real iluminará...

Sol nascente a ocidente eis: o Brasil!


História do Futuro que será,

Quer profecia ideal; quer ilusão vil;

A Nação que obro, poeta, já não há…



* * *


OMNIA VINCIT AMOR

OMNIA VINCIT AMOR

                                                      para Alvarenga Peixoto, o Alceu da Heliodora

Dons da ventura são dados ao acaso

E havidos para após serem perdidos.

A dor vai suceder gozos vividos,

Enquanto alguma estrela nos der azo.


Dons da ventura são vistos ao ocaso

Da vida como sonhos esquecidos.

Felizes são apenas os iludidos...

Juízes sem julgar o próprio caso!


Dons da ventura: A tudo o amor é maior,

Mas acaba, ou melhor, acaba em danos...

Amor vence tudo e tudo vence amor.


Não olvido, malgrado já tenha anos.

Restam-me só lembranças onde há dor.

A vida passa... Não os desenganos!...


* * *

CARPE DIEM

CARPE DIEM

                                                    para Domingos Caldas Barbosa, o Lereno Selinuntino

Curtos os dias vãos que a Hora destrói:

Grão a grão de areia verte na ampulheta...

Há que se buscar fogo santo em meta,

Libertando do Cáucaso outro herói.


Curtos os dias sós... Pois, desconstrói

Verso a verso a poesia na gaveta...

Há que se verter fogo santo ao poeta,

Inflamando a palavra que o corrói.


Curtos os dias, mas d’isso eu me furto

Ao ouvir o que me vem da própria boca:

— “Curte o dia que é, poeta: O dia é curto!”


A vida vale àquele que os céus toca

E nem a Hora lhe alcança o verso surto

Nos corações de quem o amor evoca.


* * *

MÁSCARAS

MÁSCARAS


E tu, com estudada displicência,

Soubeste d'algum modo me atingir:

Sinto-me triste apenas em sentir

A maldade por trás de tua urgência.


As máscaras que exibes com frequência

— Nem sei se por mentir ou se omitir —

Pretendem subtilmente malferir,

Sorrindo-me com vã ambivalência.


Fingires sensações sem desejá-las

Tornam fantasiosas estas falas,

Que repetes qual texto decorado...


Em todo o caso, admiro a boa actriz

Ao pareceres sempre tão feliz,

Embora o coração esfarrapado.


Belo Horizonte - 19 06 1996

DE BRINCADEIRA

DE BRINCADEIRA 


Dois a brincar d’amor e de desejo:

Brinco com minha língua no teu brinco. 

Eu me busquei em ti com tanto afinco,

Que brinquei com o qu’eu desejo e vejo.

 

De brincadeira, a gente deu–se um beijo... 

No teu brinco, com minha língua brinco.

Fui brincar de esconder tanto o que sinto,

Que brinquei com o qu’eu vejo e desejo. 

 

A brincadeira, entanto, ficou real... 

Brincando com teu fogo eu me queimei;

Ardi em teus ardis para o teu mal. 

 

Meu mal... Tarde demais por mim me dei!

Meu bem serias tu sem outro igual

Depois que d’amor contigo eu brinquei. 

 

Belo Horizonte – 10 10 1991

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

INUTILIA TRUNCAT

 III – inutilia truncat

                                           para Cláudio Manuel da Costa, o Glauceste Satúrnio


Quem, hermeticamente, faz poesia?

Cultos imitadores já sem vida...

Busque-se o novo como uma saída

E cortar os excessos que cabia.


Quem, hermeticamente, se angustia?

Por conceitos confunde-se a caída:

Se a pérola barroca é extraída,

A concha rococó resta vazia.


Quem, hermeticamente, era poético?

Por maior, ou melhor, constante: — “Poetas,

Às inutilidades truncai do ético!”...


Sim, por uma poesia sem muletas!

Concorde ao paradoxo pós-estético:

Em claro-escuro ter aos olhos metas.


* * *


LOCUS HORRENDUS

 II – locus horrendus

                                                para Manoel Maria Barbosa du Bocage, o Elmano Sadino


Queria não ser tão mórbido poeta.

Tradutor da dor... Traidor da vida...

A ver as coisas já de despedida

E d’isso extrair uma frase abjeta.


Queria não ser outro vil sem meta,

Cuja história, já há tempos esquecida,

Houve, há e haverá como se nunca havida,

Feito obra que ficou incompleta.


Queria... Mas sou. Não, não sou nada

À espera do terrífico... Ou melhor,

Local horrendo à escura encruzilhada.


A morte faz-se bela em vago horror.

Abdico a mim à luz da hora passada

Para ao morrer deixar de tanta dor…



* * *

LOCUS AMOENUS

ARCÁDIA ULTRAMARINA

I – locus amoenus
para Tomás Antônio Gonzaga, o Dirceu de Marília

Chego a ver-te a Marília, bom Dirceu,
Folgar, esperançosa, n'estes campos
Gerais de mim... D'além sertões escampos,
Pois seu amor também já fora o meu.

Chego a ver ninfas cá onde estou eu
A brincar nuas com vãos pirilampos:
Seus seios alvos como figos lampos!
Algo que ao tempo-espaço se perdeu...

Chego a ver... Todavia, nada vejo,
Ou melhor, finjo ver ao ter a vista
Local ameno ao qual luz um lampejo.

O visto é fingimento teu de artista.
Vejo não o que vejo, mas desejo...
Finjo, para sem ver, ver-te a benquista.

* * *

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

CERTOS ERROS

CERTOS ERROS

Dos donos da verdade mais me alerto,

Ainda que do bem m’entenda membro.

De tanto errar em mim já não me lembro,

Vagando feito um monge no deserto.

Embora da verdade esteja incerto,

Eu, em face do mal, o bem relembro:

Um pobre sob as chuvas de dezembro,

Sempre a tomar o errado como certo…

Desisti de tentar eu defini-los,

Ao ver errado certo e certo errado,

Ao longo de meus dias intranquilos.

Já quase se confundem, lado a lado.

Sem qualquer verdade a dividi-los,

Nos reste a consciência do passado.

Belo Horizonte - 24 12 1991

O MILENARISTA

O MILENARISTA


Andando ensimesmado pela rua,

Passou despercebido dos demais.   

Talvez as vozes nem fossem reais

Tampouco fosse sangue sobre a lua...


Contudo, delirante continua

Sonhando céus e terras tais-e-quais

Aqueles que encontrara nos anais

Dos concílios dos santos que cultua.


Crê, d’estarte, que tudo está escrito,

Olhando sempre para o Infinito

Na ânsia de melhor ver onde o sagrado.


E, na esperança vívida do Reino,

Enxerga sua vida como um treino

P’ra ser, depois da morte, levantado...


Belo Horizonte – 20 10 1996

terça-feira, 22 de setembro de 2026

AVIS RARA

AVIS RARA


Ao poente, voa a ave de Minerva

E perscruta nas sombras a Razão.

Axiomas e dogmas sonda em vão

Ou a sofismar conceitos se reserva.


Sábia, sempre pousa sobre a erva

Tida por panaceia em meu sertão.

Com que se cura o mal do coração,

Mas sobretudo acalma quem s’enerva.


Se vida após a morte veem por cá, 

Não cogitava além nenhum futuro,

Céptica do que sabe ou que haverá…


Amiga da Verdade, t’esconjuro!

Ave que voa e vê em noite má,

Sê um augúrio claro em pleno escuro.


Belo Horizonte – 15 06 1995

TANTO

TANTO

  

Correr atrás de já passado enleio,

Costuma a não valer tanta peleja.

Contudo, meu olhar mais a deseja...

Tanto, que já nem sei se amor ou anseio.


A escrita me permita algum floreio

Ao poetar sobre quem quer qu’ela seja.

De novo, meu olhar tão-só almeja;

Tanto, que já nem sei mais de receio.


Aquela que busquei e ainda busco,

Enquanto meu olhar a faz querer...

Já nem sei se de dor ou de prazer.


A ponto de a encontrar de modo brusco 

Em meio aos vultos vãos do lusco-fusco;

Tanto, que já nem sei mais de viver.


Belo Horizonte – 10 12 2005

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

EM PARTES

EM PARTES 

Se partes não suporto o olhar sentido,
Que tens quando me vês pelo caminho.
Se recompões o rosto em desalinho,
Suponho-te uma máscara ao vivido.

Se porto-me d'um modo estremecido
Ao m’encontrares só e sem carinho.
Se mal acompanhado, antes sozinho,
Quem leva o coração 'inda partido.

De parte a parte, apenas solidão
Espelhamos nos olhos marejados
De tanto recordar cada senão.

Estamos bem? Em partes: Afastados.
Tu careces de mim; de ti preciso.
Com teus carinhos volte o meu sorriso!

Belo Horizonte - 11 07 1992


EPÍLOGO

EPÍLOGO

 

Musas, silenciai. Vem a noite... Está tarde.  

Há pouco o sol se pôs; eis o ocaso, afinal... 

E desde o início quer a história algum final,  

Que, pela escuridão, o seu silêncio atarde.  

  

Quietas ― lira e flauta ― em triste cair de tarde.  

Se o moderno s’escusa em lembrar do imortal,  

Os deuses morrem sim, de morte natural...  

Enquanto um velho livro por fogueiras arde.  

  

Vós, musas, repousais há muito adormecidas!  

O artista ousa criar, mas já não lhe compete,

Pois, mesmo que acordais, nunca sereis ouvidas.  

  

Há ruído demais! Hoje o óbvio se repete!... 

Foram as artes todas por fim esquecidas:  

A Humanidade bebe as águas vãs do Lete.  

  

Betim - 03 09 1995

VERSOS ALEXANDRINOS

VERSOS ALEXANDRINOS

 

Conta, musas, ainda El Libro d'Alexinde, 

Sobre Alexandro Magno, El-Rey de Macedônia, 

A História fabulosa, muito embora idônea, 

Co'os feitos d'armas seus, que o tornaram o Grande. 

 

O império, d'Europa à Índia, célere s’expande: 

Ocidente e Oriente une ao tomar Babilônia. 

Dest'arte, a flauta frígia em duo co'a lira jônia 

Tocam enquanto, no ar, forte o seu gládio brande! 

 

El Libro d'Alexinde, em átrios paladinos, 

Lembrava a erudição da vasta Alexandria, 

Dois milênios após! Em meio a desatinos... 

 

Helenisticamente, entretém-me a harmonia 

De lira e flauta, a ver — versos alexandrinos — 

Doze sílabas dão belo metro à poesia. 

                                                          

               *               *               * 

A MÚSICA DE MÁRSIAS

A MÚSICA DE MÁRSIAS

  

—“Música, arte das musas! Eis, Euterpe, a flauta.  

Se desafio Apolo a tocar algo belo,  

Me arrisco ao perder a perder o meu pelo...  

Lanço-me, temerário, n’uma aposta incauta."  

  

"Saio da sombra e espalho sons, pauta após pauta.  

Eu encanto, entretanto, tocando com zelo  

A minha melodia como um suave apelo

Às musas que m’escutam cantos de argonauta"  

  

"Volta a música, enfim, ao que fora vivida,  

Certo ser a Natura imensa sinfonia,  

Em cujas belas leis compõe-se toda a vida."  

  

Ao murmuro do vento, além da serrania,

Se fez arte, afinal, para ser ouvida:  

N’um pipitar d’ave, eu sopro a melodia."  

                                                                 

               *               *               * 

domingo, 20 de setembro de 2026

AO QUE PARECE

AO QUE PARECE


Nem tudo que se ajunta à mão é feixe…

Nem tudo que estrepa no pé é trave…

Fosse moléstia, seria a mais grave…

Fosse crime, tarde demais se queixe…


Nem tudo que nada no mar é peixe…

Nem tudo que voa no céu é ave…

Fosse porta, ninguém teria a chave…

Fosse morada, nada ali se deixe…


O amor, aquela história mal contada,

Que toda a gente busca, inebriada,

Para no fim dizer ter se iludido.


O amor, um salto sobre o vazio,

Que a vida traz em tom de desafio

Qual se quisesse dar algum sentido.


Betim - 10 10 2025

WORST-SELLERS

WORST-SELLERS

Quem poeta não espere ser vendido
“Nas bancas das melhores livrarias…”
Antes, de indiferença e bizarrias
Viva a sua carreira sem sentido.

Escreve, todavia, o verso havido
E não o encomendado a editorias.
Por ter, sem agradar às burguesias
A liberdade d'um desconhecido.

Se jamais s‘especula das tendências 
Tampouco se iludia com audiências,
Como estivesse a falar em línguas mortas.

Deixará manuscritos na gaveta,
Enquanto o depreciam como esteta:
“Mais um escrevedor de rimas tortas…”

Belo Horizonte - 02 09 2026

O CANTAR DE APOLO

O CANTAR DE APOLO 

 

— "Canto d’Amor, Erato, a sua desventura. 

Eu que lhe ria do uso dado a suas setas,

Fui ferido d'amor, tal-qual vossos poetas. 

Encantado por Dafne, ninfa bela e pura..." 

 

"Vendo-a, logo me atrai tamanha formosura. 

Eu me apresento à lira... Canto obras diletas. 

Mas, Amor quis vingança e desgraça completas: 

Pondo-a avessa a mim, foge na mata escura..." 

 

"... E não alcanço a ninfa a correr trilha afora: 

Em pânico, mudou-se em árvore de louro 

Junto ao rio Pereu, conjurado àquela hora" 

 

"De louros coroado, olho o dia vindouro:

Desde o primeiro Sol, tento tocar a Aurora, 

Sem lhe alcançar, porém, o belo coche d’ouro..." 

 

  

               *               *               * 

sábado, 19 de setembro de 2026

O SUPLÍCIO DE MÁRSIAS

O SUPLÍCIO DE MÁRSIAS

 

Eis, Terpsícore, todo o Lírico sentido, 

Que a vida humana tem quando de sua morte. 

Ter que sua arte é tudo e nada mais importe 

Senão morrer pel’Arte em que havia vivido. 

 

Mársias, sujeito a Apolo ao se ver vencido, 

Fora estirado a um pinho robusto, de porte. 

Lá, um escravo amola à falcata seu corte, 

A imolar Mársias ante Apolo ressentido. 

 

Sátiros, faunos, ninfas... Vendo tal crueza. 

Choraram tristes todo um rio derramado, 

Indo as canas da flauta em forte correnteza...

 

Da pele d’ele, fez-se um odre enfeitiçado 

Que, se tocam a flauta, agita com presteza; 

Mas, se tocam a lira, ouve petrificado. 

  

               *               *               * 


GUERRA DE MELODIAS

GUERRA DE MELODIAS 

  

Grã Calíope, recordo em músicas grande Épico 

Onde Mársias e Apolo apostam o mor efeito 

Quem obtém... Ou quem toca ainda mais perfeito 

E qual melhor compõe... Ou mesmo o senso estético 

  

Apolo faz ouvir d’uma ária o tom profético, 

Mas Mársias, com um trote alegre, pôs afeito 

Todo aquele conselho, em cujo alto conceito, 

Fora elevado enfim sob o seu ar magnético. 

  

Após, cantando, Apolo a todos arrebata. 

Visto que une a poesia à música no encanto, 

Somando voz e lira em plena serenata. 

  

Mársias contesta então: Não usara ele o canto! 

Apolo diz que igual com boca e dedos trata... 

Vencedor, suplicia o vil por ousar tanto. 

 

                      *          *          * 

FEBO-APOLO

 FEBO-APOLO

  

Pelo astro rei, Urânia, olhai a Astronomia: 

Estrela a luzir sobre a abóboda celeste... 

De todo o firmamento o senhor inconteste 

E à Natura regendo a infinita harmonia. 


O sol, que desde o início os dias definia, 

Navega pelos céus o seu curso leste-oeste.

Se antes provê saúde; após, envia peste... 

Senhor do porvir: O que tudo antes via.


Febo-Apolo, esplendente, atravessa dest'arte 

Os céus e empunha a lira entre notas difusas 

Seus concertos de luz áurea em toda a parte. 


Ei-lo, enfim, musageta: Ao cortejo das musas!

― "Sigo a vos conduzir por obras d'engenho e arte, 

 Reinando como o sol, sem pejos nem escusas."        

MÁRSIAS CÔMICO

 MÁRSIAS CÔMICO


Cesse a tristeza, Tália; à Comédia se cante!  

Que rir é para a dor excelente remédio.  

Que eu vos cantar tão-só há-de vencer o tédio.  

Que a vida, absurdamente, é muito interessante.  

  

Inspirai, Tália, em Baco, o vinho inebriante!  

Embriagai-me a voz muito acima do médio,

Eu ― por cômico e vão ― acorde todo o prédio

Ou ― por lírico e só  ― às tristezas espante...

  

Sátiros, a cantar este Mársias burlesco,  

Encenavam-no tonto, a vagar por bacanais. 

Feito opereta, pois, do trágico ao grotesco.  

  

Afogados em vinho os desejos carnais, 

Em festa vêm saudá-lo mito carnavalesco:  

Entrudo popular, de antigos carnavais...

  

                      *          *          * 

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

A MULHER DE MILO

A MULHER DE MILO

 

Esculpo no teu corpo o meu desejo 

E, em mármore, o deixei à eternidade! 

Como se te fixasse a mocidade 

Na nudez gloriosa que cotejo.” 

 

Promessas de prazeres antevejo, 

Onde Beleza torna-se Verdade. 

E os deuses, face à tua majestade, 

De Citereia ouviram: — “Eu a invejo!...” 

 

Erguendo a tua face desde o Olimpo, 

Impõe-te das alturas admirada 

Como a mais alva estrela no céu limpo. 

 

Tu sorris, sereníssima, à homenagem 

Da multidão a ver embasbacada 

Aquela que de Vênus fez-se imagem. 

 

Betim – 23 05 1995

MÁRSIAS TRÁGICO

MÁRSIAS TRÁGICO  

  

Vão Mársias, Melpomene: Uma Tragédia a vida  

Tão-só vivida a obter da música prazer...  

Um que, tão talentoso, intentara vencer  

O próprio deus Apolo em musical partida.

  

Vós, Melpomene, sendo em juízo escolhida,  

Junto a vossas irmãs, lograstes conceder  

Vitória ao que melhor músico parecer,  

Com submissão de quem cuja obra ver vencida.

  

Mársias vence co'a flauta o seu primeiro embate.  

Apolo após, porém, cantando é persuasivo...  

Sua voz acompanha a lira e obtém o empate!

  

Vence, por fim, Apolo: A Mársias faz captivo.  

Indignando o divino um mortal que o combate,  

Febo, impiedosamente, o esfola ainda vivo. 

 

*          *          *    

DESAFIO MUSICAL

DESAFIO MUSICAL

  

Canto-vos, oh Polímnia, à Eloquência regente!  

Canto um canto que é muito mais que uma canção.  

Canto um artista audaz contra o deus da criação.  

Canto em meu canto, oh musa, a verdade somente.  

  

Elevai-me, entretanto, a voz mais eloquente.  

Com palavras, falai à mente e ao coração,  

Para que, mais que sons, tragam-nos emoção,  

E enfim, quem as ouvir, não fique indiferente.  

  

À lira, sete cordas... Perfeito tocava  

Apolo — deus heleno: O que a todos inspira,  

E, ao dedilhar a lira, a pedras encantava!  

  

À flauta, sete tubos... Místicos sons tira  

Mársias — mito sileno: O que águas transbordava...  

Eis, por tamanho feito, a flauta contra a lira!  

 

                     *          *          *  

ORIGENS DA FLAUTA

ORIGENS DA FLAUTA 

                             

Souberam-me, contudo, alta Clio, outro conto   

De quão irrefreável e violento Amor!   

Quis ―  do grande deus Pã ― ousar-se vencedor:  

Fê-lo inventor da flauta e a impôs ao contraponto.   


Embora de Hermes filho, era Pã velho e tonto...   

Encantado, se vê de Siringe amador.   

Ao declarar, porém, à bela ninfa amor,   

Ela, por não o amar, negara-o de pronto.   


Siringe, a caçadora, avança agora caça.   

Para à margem do rio e roga às ninfas manas   

Fugir ao feio Pã, que apressado ali passa.   


Pã tenta lhe abraçar, mas só abraça canas...   

D'elas ouve um queixume, achando alguma graça.   

E sopra a flauta Pã, para as paixões humanas...  

 

                       *          *          * 


quinta-feira, 17 de setembro de 2026

ORIGENS DA LIRA

ORIGENS DA LIRA

 

Contam da História, Clio, aquela antiga lenda  

― Que pela vossa graça evade ao esquecimento... ―  

De Hermes, o astuto deus, em cujo nascimento,  

Soube inventar a lira, hoje admirada prenda. 

  

Hermes mal nascia e já ― d’uma caverna à senda ―   

Topa co’a tartaruga, a qual dá corpo ao invento:   

Das tripas cordas faz para um novo instrumento,   

E logo após as tange ao som que se desprenda.  

  

Voou d'asas nos pés; de Apolo após fez furtos:

Mais de cinquenta bois levando o deus ladrão,

Até Febo o prender a voos bem mais curtos.

  

Soube Hermes, todavia, aclarar a questão:  

Da lira tira os sons, que em sete notas surtos,  

Para a glória de Apolo, eles soam desde então.  

 

                     *          *          * 

EVOCAÇÃO ÀS MUSAS

EVOCAÇÃO ÀS MUSAS

  

―”Saúdo-vos, oh musas! Pela vossa glória,

Que o talento encontre em mim humilde herdade.

Evoco-vos n'um canto a excelsa majestade,   

Oh filhas imortais da grã Mneme, a Memória.”


“Clio, em sabedoria, haja-me toda a História.   

Polímnia, Eloquência à minha vã verdade.   

Melpomene, à Tragédia, a dramaticidade.   

Tália, pela Comédia, a alegria ilusória.”   


“Urânia, iluminai-me, audaz, a Astronomia.   

Calíope, escrevei o Épico por meus hinos.   

Terpsícore, inspirai o Lírico à poesia.”   


“Erato — à lira, ter os Amores divinos;  

Euterpe — à flauta, dar a Música harmonia.   

Vossa graça perpasse os meus alexandrinos!”   

 

*          *          * 

PRÓLOGO


I

PRÓLOGO

Caminhava; e a ideia me veio andando:    

Era alguma harmonia vinda ao longe, vaga,   

Ou senão fantasia em que verdades traga    

D'um mito que ninguém saberá onde ou quando. 


Ouço ― dentro de mim ― lira e flauta soando.    

Eu vejo um deus dourado, enquanto a lira afaga,  

E um artista que beija a flauta s'embriaga...    

Vejo-os, pelo caminho, à medida que eu ando.  


Apolo e Mársias vêm... Disputam bem à frente!   

Pois, se imagino o real, talvez consiga vê-lo,    

E, ainda ao imaginar, criar poeticamente. 


Nos desvãos da memória, os recordo em duelo: 

A lira e a flauta soam: Ocidente e Oriente 

Opostos n'um Ideal, a excelência do Belo! 


*          *          * 


A LIRA E A FLAUTA – XIV alexandrinos

 A LIRA E A FLAUTA – XIV alexandrinos


I

prólogo 


Caminhava; e a ideia me veio andando:    

Era alguma harmonia vinda ao longe, vaga,   

Ou senão fantasia em que verdades traga    

D'um mito que ninguém saberá onde ou quando. 


Ouço ― dentro de mim ― lira e flauta soando.    

Eu vejo um deus dourado, enquanto a lira afaga,  

E um artista que beija a flauta s'embriaga...    

Vejo-os, pelo caminho, à medida que eu ando.  


Apolo e Mársias vêm... Disputam bem à frente!   

Pois, se imagino o real, talvez consiga vê-lo,    

E, ainda ao imaginar, criar poeticamente. 


Nos desvãos da memória, os recordo em duelo: 

A lira e a flauta soam: Ocidente e Oriente 

Opostos n'um Ideal, a excelência do Belo! 


*          *          * 


II 

 

evocação às musas 

  

―”Saúdo-vos, oh musas! Pela vossa glória,

Que o talento encontre em mim humilde herdade.

Evoco-vos n'um canto a excelsa majestade,   

Oh filhas imortais da grã Mneme, a Memória.”


“Clio, em sabedoria, haja-me toda a História.   

Polímnia, Eloquência à minha vã verdade.   

Melpomene, à Tragédia, a dramaticidade.   

Tália, pela Comédia, a alegria ilusória.”   


“Urânia, iluminai-me, audaz, a Astronomia.   

Calíope, escrevei o Épico por meus hinos.   

Terpsícore, inspirai o Lírico à poesia.”   


“Erato — à lira, ter os Amores divinos;  

Euterpe — à flauta, dar a Música harmonia.   

Vossa graça perpasse os meus alexandrinos!”   

 

*          *          * 

                                    

III 

                                           

origens da lira 

 

Contam da História, Clio, aquela antiga lenda  

― Que pela vossa graça evade ao esquecimento... ―  

De Hermes, o astuto deus, em cujo nascimento,  

Soube inventar a lira, hoje admirada prenda. 

  

Hermes mal nascia e já ― d’uma caverna à senda ―   

Topa co’a tartaruga, a qual dá corpo ao invento:   

Das tripas cordas faz para um novo instrumento,   

E logo após as tange ao som que se desprenda.  

  

Voou d'asas nos pés; de Apolo após fez furtos:

Mais de cinquenta bois levando o deus ladrão,

Até Febo o prender a voos bem mais curtos.

  

Soube Hermes, todavia, aclarar a questão:  

Da lira tira os sons, que em sete notas surtos,  

Para a glória de Apolo, eles soam desde então.  

 

                     *          *          * 


IV 

 

origens da flauta    

                             

Souberam-me, contudo, alta Clio, outro conto   

De quão irrefreável e violento Amor!   

Quis ―  do grande deus Pã ― ousar-se vencedor:  

Fê-lo inventor da flauta e a impôs ao contraponto.   


Embora de Hermes filho, era Pã velho e tonto...   

Encantado, se vê de Siringe amador.   

Ao declarar, porém, à bela ninfa amor,   

Ela, por não o amar, negara-o de pronto.   


Siringe, a caçadora, avança agora caça.   

Para à margem do rio e roga às ninfas manas   

Fugir ao feio Pã, que apressado ali passa.   


Pã tenta lhe abraçar, mas só abraça canas...   

D'elas ouve um queixume, achando alguma graça.   

E sopra a flauta Pã, para as paixões humanas...  

 

                       *          *          * 


V 

 

desafio musical  

  

Canto-vos, oh Polímnia, à Eloquência regente!  

Canto um canto que é muito mais que uma canção.  

Canto um artista audaz contra o deus da criação.  

Canto em meu canto, oh musa, a verdade somente.  

  

Elevai-me, entretanto, a voz mais eloquente.  

Com palavras, falai à mente e ao coração,  

Para que, mais que sons, tragam-nos emoção,  

E enfim, quem as ouvir, não fique indiferente.  

  

À lira, sete cordas... Perfeito tocava  

Apolo — deus heleno: O que a todos inspira,  

E, ao dedilhar a lira, a pedras encantava!  

  

À flauta, sete tubos... Místicos sons tira  

Mársias — mito sileno: O que águas transbordava...  

Eis, por tamanho feito, a flauta contra a lira!  

 

                     *          *          *  


VI 

                                         

Mársias trágico  

  

Vão Mársias, Melpomene: Uma Tragédia a vida  

Tão-só vivida a obter da música prazer...  

Um que, tão talentoso, intentara vencer  

O próprio deus Apolo em musical partida.

  

Vós, Melpomene, sendo em juízo escolhida,  

Junto a vossas irmãs, lograstes conceder  

Vitória ao que melhor músico parecer,  

Com submissão de quem cuja obra ver vencida.

  

Mársias vence co'a flauta o seu primeiro embate.  

Apolo após, porém, cantando é persuasivo...  

Sua voz acompanha a lira e obtém o empate!

  

Vence, por fim, Apolo: A Mársias faz captivo.  

Indignando o divino um mortal que o combate,  

Febo, impiedosamente, o esfola ainda vivo. 

 

*          *          *          


VII 

  

Mársias cômico 

 

Cesse a tristeza, Tália; à Comédia se cante!  

Que rir é para a dor excelente remédio.  

Que eu vos cantar tão-só há-de vencer o tédio.  

Que a vida, absurdamente, é muito interessante.  

  

Inspirai, Tália, em Baco, o vinho inebriante!  

Embriagai-me a voz muito acima do médio,

Eu ― por cômico e vão ― acorde todo o prédio

Ou ― por lírico e só  ― às tristezas espante...

  

Sátiros, a cantar este Mársias burlesco,  

Encenavam-no tonto, a vagar por bacanais. 

Feito opereta, pois, do trágico ao grotesco.  

  

Afogados em vinho os desejos carnais, 

Em festa vêm saudá-lo mito carnavalesco:  

Entrudo popular, de antigos carnavais...

  

                      *          *          * 


VIII 

 

Febo-Apolo 

  

Pelo astro rei, Urânia, olhai a Astronomia: 

Estrela a luzir sobre a abóboda celeste... 

De todo o firmamento o senhor inconteste 

E à Natura regendo a infinita harmonia. 


O sol, que desde o início os dias definia, 

Navega pelos céus o seu curso leste-oeste.

Se antes provê saúde; após, envia peste... 

Senhor do porvir: O que tudo antes via.


Febo-Apolo, esplendente, atravessa dest'arte 

Os céus e empunha a lira entre notas difusas 

Seus concertos de luz áurea em toda a parte. 


Ei-lo, enfim, musageta: Ao cortejo das musas!

― "Sigo a vos conduzir por obras d'engenho e arte, 

 Reinando como o sol, sem pejos nem escusas."                 


       *          *          * 


IX 

 

guerra de melodias 

  

Grã Calíope, recordo em músicas grande Épico 

Onde Mársias e Apolo apostam o mor efeito 

Quem obtém... Ou quem toca ainda mais perfeito 

E qual melhor compõe... Ou mesmo o senso estético 

  

Apolo faz ouvir d’uma ária o tom profético, 

Mas Mársias, com um trote alegre, pôs afeito 

Todo aquele conselho, em cujo alto conceito, 

Fora elevado enfim sob o seu ar magnético. 

  

Após, cantando, Apolo a todos arrebata. 

Visto que une a poesia à música no encanto, 

Somando voz e lira em plena serenata. 

  

Mársias contesta então: Não usara ele o canto! 

Apolo diz que igual com boca e dedos trata... 

Vencedor, suplicia o vil por ousar tanto. 

 

                      *          *          * 

X 

       

o suplício de Mársias 

 

Eis, Terpsícore, todo o Lírico sentido, 

Que a vida humana tem quando de sua morte. 

Ter que sua arte é tudo e nada mais importe 

Senão morrer pel’Arte em que havia vivido. 

 

Mársias, sujeito a Apolo ao se ver vencido, 

Fora estirado a um pinho robusto, de porte. 

Lá, um escravo amola à falcata seu corte, 

A imolar Mársias ante Apolo ressentido. 

 

Sátiros, faunos, ninfas... Vendo tal crueza. 

Choraram tristes todo um rio derramado, 

Indo as canas da flauta em forte correnteza...

 

Da pele d’ele, fez-se um odre enfeitiçado 

Que, se tocam a flauta, agita com presteza; 

Mas, se tocam a lira, ouve petrificado. 

  

               *               *               * 


XI 

       

o cantar de Apolo 

 

— "Canto d’Amor, Erato, a sua desventura. 

Eu que lhe ria do uso dado a suas setas,

Fui ferido d'amor, tal-qual vossos poetas. 

Encantado por Dafne, ninfa bela e pura..." 

 

"Vendo-a, logo me atrai tamanha formosura. 

Eu me apresento à lira... Canto obras diletas. 

Mas, Amor quis vingança e desgraça completas: 

Pondo-a avessa a mim, foge na mata escura..." 

 

"... E não alcanço a ninfa a correr trilha afora: 

Em pânico, mudou-se em árvore de louro 

Junto ao rio Pereu, conjurado àquela hora" 

 

"De louros coroado, olho o dia vindouro:

Desde o primeiro Sol, tento tocar a Aurora, 

Sem lhe alcançar, porém, o belo coche d’ouro..." 

 

  

               *               *               * 


XII 


a música de Mársias  

  

—“Música, arte das musas! Eis, Euterpe, a flauta.  

Se desafio Apolo a tocar algo belo,  

Me arrisco ao perder a perder o meu pelo...  

Lanço-me, temerário, n’uma aposta incauta."  

  

"Saio da sombra e espalho sons, pauta após pauta.  

Eu encanto, entretanto, tocando com zelo  

A minha melodia como um suave apelo

Às musas que m’escutam cantos de argonauta"  

  

"Volta a música, enfim, ao que fora vivida,  

Certo ser a Natura imensa sinfonia,  

Em cujas belas leis compõe-se toda a vida."  

  

Ao murmuro do vento, além da serrania,

Se fez arte, afinal, para ser ouvida:  

N’um pipitar d’ave, eu sopro a melodia."  

                                                                 

               *               *               * 


XIII                                       

 

versos alexandrinos  

 

Conta, musas, ainda El Libro d'Alexinde, 

Sobre Alexandro Magno, El-Rey de Macedônia, 

A História fabulosa, muito embora idônea, 

Co'os feitos d'armas seus, que o tornaram o Grande. 

 

O império, d'Europa à Índia, célere s’expande: 

Ocidente e Oriente une ao tomar Babilônia. 

Dest'arte, a flauta frígia em duo co'a lira jônia 

Tocam enquanto, no ar, forte o seu gládio brande! 

 

El Libro d'Alexinde, em átrios paladinos, 

Lembrava a erudição da vasta Alexandria, 

Dois milênios após! Em meio a desatinos... 

 

Helenisticamente, entretém-me a harmonia 

De lira e flauta, a ver — versos alexandrinos — 

Doze sílabas dão belo metro à poesia. 

                                                          

               *               *               * 

            

XIV                                       


epílogo  

 

Musas, silenciai. Vem a noite... Está tarde.  

Há pouco o sol se pôs; eis o ocaso, afinal... 

E desde o início quer a história algum final,  

Que, pela escuridão, o seu silêncio atarde.  

  

Quietas ― lira e flauta ― em triste cair de tarde.  

Se o moderno s’escusa em lembrar do imortal,  

Os deuses morrem sim, de morte natural...  

Enquanto um velho livro por fogueiras arde.  

  

Vós, musas, repousais há muito adormecidas!  

O artista ousa criar, mas já não lhe compete,

Pois, mesmo que acordais, nunca sereis ouvidas.  

  

Há ruído demais! Hoje o óbvio se repete!... 

Foram as artes todas por fim esquecidas:  

A Humanidade bebe as águas vãs do Lete.  

  

Betim - 03 09 1995

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

SENHORA

SENHORA

E se enfim vós, Senhora, o nobre perfil
Houvésseis co'a mirada esquecida
Da paisagem aos olhos conhecida,
A verdes, na verdade, um outro abril...

Quando o amor ao talento dava ardil
E, com versos, vos fiz enternecida!
Vós, Senhora, a meus ais destes guarida,
Cercando-me de graça feminil.

Talvez vos coraríeis de embaraço,
Beijando-vos os lábios sem pecado,
Nas letras que mandei por forte traço.

Assim, com vossos olhos no passado:
— Um bilhete ‘inda à mão sobre o regaço... —
Imaginar-vos-ei, enamorado.

Belo Horizonte - 04 04 1998 

terça-feira, 15 de setembro de 2026

ADVERTÊNCIA

 ADVERTÊNCIA


Cuidado: Pouco custa eu me apegar!

Mas se me sorris tão terna, menina,

Como posso cuidar da minha sina

Por amiúde e tanto eu te mirar?


Não... Talvez seja ousado o meu olhar

E me sorris assim por feminina.

Acontece, porém, que desatina

O pensamento logo ao t’encontrar.


Mas, se as coisas chegaram a esse nível,

Não faças tu igual outras mulheres,

Que aos poucos têm me feito um insensível.


Advertida és, por fim, de meus quereres

E d'esse coração tão suscetível:

— "Não me tentes se tu não me quiseres..."


Betim - 02 07 1996

ADÁGIO

ADÁGIO


Palavra dada, não se me abra a boca.

Ainda que na boca a frase dita

Não cale a dor do peito, apenas grita.

Seja sua desdita muita ou pouca...


Palavra dita ao léu, um tanto louca,

Soa à poesia sobre a linha escrita:

Revisitada a ponto de infinita,

Me aflige na garganta quase rouca.


Algo será poesia ao dizer tudo,

Se, e somente se, for dito sincero,

E, por sincero, digam já absurdo.


Garimpo ouro na lama em que chafurdo:

Seja poesia o adágio, embora mero,

Grito dado no ouvido do pior surdo!


Gov. Valadares — 19 09 1995

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

DÁ-SE UM JEITO

DÁ-SE UM JEITO 


Se não há mais saída senão ser…

Sê! Vem a ser aquele que tu és.

Outro caminho estende-se a teus pés

Tão-logo te dispões a percorrer.


Vai ao encontro do teu próprio querer

De modo que, topando algum revés,

T’engrandeça o esforço, lés-a-lés, 

À conquista d’um amplo belveder’!


Apenas não t’enterres ‘inda em vida,

No destempero que a única saída 

Fosse afundar o poço em que caíste...


Ao invés, volve a ver a luz do dia,

Na fé de que esta mínima alegria

Pode fazer melhor uma hora triste.


Congonhas - 12 09 2026JEITO

domingo, 13 de setembro de 2026

HEMEROTECA

HEMEROTECA


Erros gritantes, óbvios ululantes…

Estampavam em letras garrafais 

Manchetes d’antiquíssimos jornais

Encadernados sobre altas estantes.


Os nomes, hoje tão desimportantes,

Jazem como se lajes sepulcrais

Com vidas idas para nunca mais

Ao longo de mil páginas errantes.


Fotos obscuras, vãs caricaturas…

Ilustravam os factos nas brochuras

Impressas para a luz dos mais letrados.


Mas, por fim, historiar mentalidades:

Em face das passadas realidades,

Escrever os presentes repensados.


Betim - 11 09 2026

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

MEIA IDADE

MEIA IDADE


A pele que me veste as carnes vãs

Teve dias melhores já, eu penso:

Pareço atordoado-embora-tenso,

Em face da mesmice das manhãs…


No tráfego, atravesso horas malsãs,

Enquanto dos deveres me convenço.

Reconheço, contudo, algo pretenso

Em ver obrigações como vilãs. 


Paro sem convicção para o trabalho 

Como fosse uma espécie de espantalho, 

A esperar no canteiro da avenida. 


Ou se, a um momento meu de solidão,

Por fim me visse em meio à multidão 

E passasse por mim toda uma vida.


Belo Horizonte - 02 09 2026

terça-feira, 8 de setembro de 2026

INIMICÍCIA

INIMICÍCIA


Aos que me querem mal, eu desaponto

Mantendo a fé na vida, dia após dia.

Tento encarar as coisas com alegria,

Salvo à vicissitude algum desconto.


O mal premeditado, todavia,

Pretende suscitar senão confronto.

E murmura a cada ai um contraponto,

Logo indo do debate à bizarria.


Pagam os justos pelos pecadores.

Ess’outros, não raro, homens de bem

Que dos demais se arvoram julgadores.


Nefastos, seu ardil e seu desdém,

Percebo no rancor somente intriga…

Não vale seu grilhão o que me obriga.


Betim - 01 09 2026

terça-feira, 1 de setembro de 2026

PUERIL

PUERIL

Pareço hoje menos sério
Do que eu era na quinta série.
Trocadilho um vitupério,
Qual vilão de telessérie…

De mim não faço mistério:
Eis minha mente paupérie!
Talvez me falte critério,
Feito pobre na intempérie.

Já nem tão fora-do-sério;
Já nem tão fora-de-série,
Trocadilho em cemitério,
Qual vilão de minissérie. 

Betim - 01 09 2026

ACRONICTO

ACRONICTO

A paz das extensões silenciosas,
Enquanto cai a noite sobre as serras,
Veste em melancolia àquelas terras
E ao céu mistura azuis, lilases, rosas…  

A d’Alva e a lua cheia, luminosas,
Surgem pelo horizonte aos finisterras.
Longe, mugem as vacas e as bezerras 
E grilos cricrilando nas mimosas.

As sombras s’espalhavam longamente
À medida que p’ros lados do poente
A claridade aos poucos indo embora…

Os cuidados se vão co’o dia findo
Certo que ao anoitecer tudo é tão lindo,
Que o olhar sobre as paragens se demora.

Serra Azul - 22 07 2026