Belo Horizonte - 03 05 1993
Espaço para exibição e armazenamento de poemas à medida que os vou escrevendo. Espero contar com o comentário de leitores atentos e gente com sensibilidade poética por acreditar que o poema acabado não precisa ser o fim de uma experiência, sim o início de um diálogo.
quarta-feira, 30 de setembro de 2026
ENTANTO
EREMITA
EREMITA
A minha vida vivo abrindo trilhas,
Embora ninguém venha a me seguir;
Apenas para a mata as consumir,
Ao recobrir pegadas e armadilhas.
Como se me negando maravilhas
A vida se mostrasse sem porvir...
Paro, sem nunca nada descobrir,
Depois de caminhar milhas e milhas:
— “Às vezes não sou nada nem ninguém,
Sim parte do vazio a que me entrego,
Incerto de que haja algo mais além…”
A minha vida vivo em descaminho
Para perder-me em mim, enquanto nego
Deus e todo o mundo aqui sozinho.
Santa Bárbara – 08 08 1996
GENIOSA
GENIOSA
Quando cravas em mim os olhos graves E o mel da língua turvas em veneno, Eu sinto o teu pesar fazer pequeno Um coração que tu tinhas as chaves. Como tirar dos teus olhos as traves E te fazer feliz n‘um dia ameno!? Se já perdes o espírito sereno, Mesmo co’as palavras mais suaves. Querida, como agora me magoas... Se ‘inda há pouco tivemos horas boas E de carinhos só carinhos vêm?! Decerto te aborrece o meu amor... Senão, por que me causas tanta dor? Por que tanto mal a quem te quer tão bem? Belo Horizonte - 13 07 1996
terça-feira, 29 de setembro de 2026
DESASSOSSEGO
DESASSOSSEGO
Atrás de lentes foscas, olhos vagos;
Um coração sangrando malferido...
Na névoa a envolver o acontecido,
Vou recolhendo os restos dos estragos.
Nada senão o vão de vãos oragos
A me profetizar qualquer sentido!
Vasculharia as sombras sós d'Olvido,
Não fossem os amores fundos lagos.
Por horas de total desassossego,
N'um niilismo banal me desapego,
Indiferente aos males habituais
Desnorteia, afinal, outro fracasso.
Fragmento o ser, pedaço por pedaço…
Eu sobrevivo a mim uma vez mais.
Belo Horizonte – 23 05 1996
DELÍRIOS
DELÍRIOS
Dizei-me, pois, vós-outros, vos conjuro!
Que notícias haveis d'aquela que amo.
Vede: O amor faz rodeios feito o ramo
De trepadeira em torno do inseguro.
Quanto desassossego e vão apuro?!...
Que ideias imperfeitas ora tramo?!...
Vós, por suposto, ouvi-me os ais que clamo:
— “Onde andará aquela qu'eu procuro?...”
Vede: As luzes que tive hoje são trevas!
Vivendo suspeitoso horas malevas
De ausências e silêncios conflitantes.
Porque amor — ou loucura — qual sabeis,
Às vezes vai de encontro às próprias leis...
Sede vós, de meus ais, os expectantes!
Betim - 12 12 1996
segunda-feira, 28 de setembro de 2026
DE DIA, À TARDE
DE DIA, À TARDE
Quando se adia a vida p'ra mais tarde
— E mais tarde... E mais tarde... E mais... E mais... —
Até que venha a ser tarde demais
E eu passe pela vida por covarde.
Mais este dia adie; esta hora atarde,
Em vão eu sigo andando entre os normais.
Embora os imitasse, tais-e-quais,
Demais o coração em vão em mim arde...
De dia, à tarde... Ainda que hoje não.
Que seja-esteja ardendo o coração
Da hora que, uma outra vez, adio e atardo.
Até que seja dia e esteja quente,
Eu passo pela vida de repente:
Demais meu coração em vão eu ardo...
Betim - 08 06 1996
MELODRAMÁTICOS
MELODRAMÁTICOS
O público se reúne na plateia
Para nos assistir a insanidade.
Devastados, cada um de si evade
E atravessa cada um uma odisseia.
Ignoro onde o real; onde a ideia,
N'aquilo que sentimos de verdade.
Já devassar a própria intimidade,
Inflama a discussão desde a traqueia...
Que espetáculo é este! Que pavores!
Digladiamos, sim, acusações
Refeitas face a estranhos desamores.
Blecaute! Cerra o pano sem ilusões:
Vão nos vaiar ao fim como impostores
Ou gargalhar de nossos corações?
Betim - 12 06 2011
LIBERTA QUÆ SERA TAMEN
LIBERTA QUÆ SERA TAMEN
para Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes
Liberdade. Quem louco ousará definir?
Seja luz à vereda da verdade
E ideal que, além, confronta a realidade,
Pois reluz sobre as trevas do existir.
Liberdade... Algo por ver no porvir
Do longo caminhar da Humanidade.
Sabe mover montanhas pl'a vontade,
E aluviões de ouro escuro faz extrair.
Liberdade, pois, luz que me iluminas
Os campos dos Gerais de mim de ideais:
Liberta ‘inda que tarde serás, Minas!
Porque os tiranos não findam jamais
A derrama de sangue p’las colinas...
Liberdade cativa és, oh Gerais!
Ouro Preto – 20 02 1995
PRETIOSUM AURUM NIGRUM
PRETIOSUM AURUM NIGRUM
para Galanga do Congo, o Chico Rei
A verdade liberta? Oxalá sim!
Às vezes ser vil n’um mundo de vis
É tudo o que se pode quando ardis
Hão-de nos libertar antes do fim.
A verdade liberta... Livre, enfim!
Se crê que seu poder vem de raiz
E, na glória, desfila quanto quis
A conduzir a Santa em baldaquim.
A verdade liberta. Os homens não...
A chuva cai lavando quanto existe:
Precioso ouro preto ao boqueirão!
Tudo é passado, mas a lenda insiste.
Sob o jugo mais duro, à hora mais triste.
Eis Liberdade: Pedra em negra mão!
* * *
SOL ORIENS IN OCCIDUO
SOL ORIENS IN OCCIDUO
para José Bonifácio de Andrada e Silva, o Américo Elísio
A Nação que obro está além dos factos.
Talvez, por isso soe como mentira
Ou devaneio que não se permitira
Por advir de utopistas inexactos.
A Nação que obro está além dos actos
E antes do que, sonhada, me existira:
Terra das mil palmeiras! Da santa ira!!!
Dos ideais que levei comigo intactos...
A Nação que obro, ou melhor, o ardil:
Visão que supra-real iluminará...
Sol nascente a ocidente eis: o Brasil!
História do Futuro que será,
Quer profecia ideal; quer ilusão vil;
A Nação que obro, poeta, já não há…
* * *
OMNIA VINCIT AMOR
OMNIA VINCIT AMOR
para Alvarenga Peixoto, o Alceu da Heliodora
Dons da ventura são dados ao acaso
E havidos para após serem perdidos.
A dor vai suceder gozos vividos,
Enquanto alguma estrela nos der azo.
Dons da ventura são vistos ao ocaso
Da vida como sonhos esquecidos.
Felizes são apenas os iludidos...
Juízes sem julgar o próprio caso!
Dons da ventura: A tudo o amor é maior,
Mas acaba, ou melhor, acaba em danos...
Amor vence tudo e tudo vence amor.
Não olvido, malgrado já tenha anos.
Restam-me só lembranças onde há dor.
A vida passa... Não os desenganos!...
* * *
CARPE DIEM
CARPE DIEM
para Domingos Caldas Barbosa, o Lereno Selinuntino
Curtos os dias vãos que a Hora destrói:
Grão a grão de areia verte na ampulheta...
Há que se buscar fogo santo em meta,
Libertando do Cáucaso outro herói.
Curtos os dias sós... Pois, desconstrói
Verso a verso a poesia na gaveta...
Há que se verter fogo santo ao poeta,
Inflamando a palavra que o corrói.
Curtos os dias, mas d’isso eu me furto
Ao ouvir o que me vem da própria boca:
— “Curte o dia que é, poeta: O dia é curto!”
A vida vale àquele que os céus toca
E nem a Hora lhe alcança o verso surto
Nos corações de quem o amor evoca.
* * *
MÁSCARAS
MÁSCARAS
E tu, com estudada displicência,
Soubeste d'algum modo me atingir:
Sinto-me triste apenas em sentir
A maldade por trás de tua urgência.
As máscaras que exibes com frequência
— Nem sei se por mentir ou se omitir —
Pretendem subtilmente malferir,
Sorrindo-me com vã ambivalência.
Fingires sensações sem desejá-las
Tornam fantasiosas estas falas,
Que repetes qual texto decorado...
Em todo o caso, admiro a boa actriz
Ao pareceres sempre tão feliz,
Embora o coração esfarrapado.
Belo Horizonte - 19 06 1996
DE BRINCADEIRA
DE BRINCADEIRA
Dois a brincar d’amor e de desejo:
Brinco com minha língua no teu brinco.
Eu me busquei em ti com tanto afinco,
Que brinquei com o qu’eu desejo e vejo.
De brincadeira, a gente deu–se um beijo...
No teu brinco, com minha língua brinco.
Fui brincar de esconder tanto o que sinto,
Que brinquei com o qu’eu vejo e desejo.
A brincadeira, entanto, ficou real...
Brincando com teu fogo eu me queimei;
Ardi em teus ardis para o teu mal.
Meu mal... Tarde demais por mim me dei!
Meu bem serias tu sem outro igual
Depois que d’amor contigo eu brinquei.
Belo Horizonte – 10 10 1991
quinta-feira, 24 de setembro de 2026
INUTILIA TRUNCAT
III – inutilia truncat
para Cláudio Manuel da Costa, o Glauceste Satúrnio
Quem, hermeticamente, faz poesia?
Cultos imitadores já sem vida...
Busque-se o novo como uma saída
E cortar os excessos que cabia.
Quem, hermeticamente, se angustia?
Por conceitos confunde-se a caída:
Se a pérola barroca é extraída,
A concha rococó resta vazia.
Quem, hermeticamente, era poético?
Por maior, ou melhor, constante: — “Poetas,
Às inutilidades truncai do ético!”...
Sim, por uma poesia sem muletas!
Concorde ao paradoxo pós-estético:
Em claro-escuro ter aos olhos metas.
* * *
LOCUS HORRENDUS
II – locus horrendus
para Manoel Maria Barbosa du Bocage, o Elmano Sadino
Queria não ser tão mórbido poeta.
Tradutor da dor... Traidor da vida...
A ver as coisas já de despedida
E d’isso extrair uma frase abjeta.
Queria não ser outro vil sem meta,
Cuja história, já há tempos esquecida,
Houve, há e haverá como se nunca havida,
Feito obra que ficou incompleta.
Queria... Mas sou. Não, não sou nada
À espera do terrífico... Ou melhor,
Local horrendo à escura encruzilhada.
A morte faz-se bela em vago horror.
Abdico a mim à luz da hora passada
Para ao morrer deixar de tanta dor…
* * *
LOCUS AMOENUS
ARCÁDIA ULTRAMARINA
I – locus amoenus
para Tomás Antônio Gonzaga, o Dirceu de Marília
Chego a ver-te a Marília, bom Dirceu,
Folgar, esperançosa, n'estes campos
Gerais de mim... D'além sertões escampos,
Pois seu amor também já fora o meu.
Chego a ver ninfas cá onde estou eu
A brincar nuas com vãos pirilampos:
Seus seios alvos como figos lampos!
Algo que ao tempo-espaço se perdeu...
Chego a ver... Todavia, nada vejo,
Ou melhor, finjo ver ao ter a vista
Local ameno ao qual luz um lampejo.
O visto é fingimento teu de artista.
Vejo não o que vejo, mas desejo...
Finjo, para sem ver, ver-te a benquista.
* * *
quarta-feira, 23 de setembro de 2026
CERTOS ERROS
CERTOS ERROS
Dos donos da verdade mais me alerto,
Ainda que do bem m’entenda membro.
De tanto errar em mim já não me lembro,
Vagando feito um monge no deserto.
Embora da verdade esteja incerto,
Eu, em face do mal, o bem relembro:
Um pobre sob as chuvas de dezembro,
Sempre a tomar o errado como certo…
Desisti de tentar eu defini-los,
Ao ver errado certo e certo errado,
Ao longo de meus dias intranquilos.
Já quase se confundem, lado a lado.
Sem qualquer verdade a dividi-los,
Nos reste a consciência do passado.
Belo Horizonte - 24 12 1991
O MILENARISTA
O MILENARISTA
Andando ensimesmado pela rua,
Passou despercebido dos demais.
Talvez as vozes nem fossem reais
Tampouco fosse sangue sobre a lua...
Contudo, delirante continua
Sonhando céus e terras tais-e-quais
Aqueles que encontrara nos anais
Dos concílios dos santos que cultua.
Crê, d’estarte, que tudo está escrito,
Olhando sempre para o Infinito
Na ânsia de melhor ver onde o sagrado.
E, na esperança vívida do Reino,
Enxerga sua vida como um treino
P’ra ser, depois da morte, levantado...
Belo Horizonte – 20 10 1996
terça-feira, 22 de setembro de 2026
AVIS RARA
AVIS RARA
Ao poente, voa a ave de Minerva
E perscruta nas sombras a Razão.
Axiomas e dogmas sonda em vão
Ou a sofismar conceitos se reserva.
Sábia, sempre pousa sobre a erva
Tida por panaceia em meu sertão.
Com que se cura o mal do coração,
Mas sobretudo acalma quem s’enerva.
Se vida após a morte veem por cá,
Não cogitava além nenhum futuro,
Céptica do que sabe ou que haverá…
Amiga da Verdade, t’esconjuro!
Ave que voa e vê em noite má,
Sê um augúrio claro em pleno escuro.
Belo Horizonte – 15 06 1995
TANTO
TANTO
Correr atrás de já passado enleio,
Costuma a não valer tanta peleja.
Contudo, meu olhar mais a deseja...
Tanto, que já nem sei se amor ou anseio.
A escrita me permita algum floreio
Ao poetar sobre quem quer qu’ela seja.
De novo, meu olhar tão-só almeja;
Tanto, que já nem sei mais de receio.
Aquela que busquei e ainda busco,
Enquanto meu olhar a faz querer...
Já nem sei se de dor ou de prazer.
A ponto de a encontrar de modo brusco
Em meio aos vultos vãos do lusco-fusco;
Tanto, que já nem sei mais de viver.
Belo Horizonte – 10 12 2005
segunda-feira, 21 de setembro de 2026
EM PARTES
EM PARTES
Belo Horizonte - 11 07 1992
EPÍLOGO
EPÍLOGO
Musas, silenciai. Vem a noite... Está tarde.
Há pouco o sol se pôs; eis o ocaso, afinal...
E desde o início quer a história algum final,
Que, pela escuridão, o seu silêncio atarde.
Quietas ― lira e flauta ― em triste cair de tarde.
Se o moderno s’escusa em lembrar do imortal,
Os deuses morrem sim, de morte natural...
Enquanto um velho livro por fogueiras arde.
Vós, musas, repousais há muito adormecidas!
O artista ousa criar, mas já não lhe compete,
Pois, mesmo que acordais, nunca sereis ouvidas.
Há ruído demais! Hoje o óbvio se repete!...
Foram as artes todas por fim esquecidas:
A Humanidade bebe as águas vãs do Lete.
Betim - 03 09 1995
VERSOS ALEXANDRINOS
VERSOS ALEXANDRINOS
Conta, musas, ainda El Libro d'Alexinde,
Sobre Alexandro Magno, El-Rey de Macedônia,
A História fabulosa, muito embora idônea,
Co'os feitos d'armas seus, que o tornaram o Grande.
O império, d'Europa à Índia, célere s’expande:
Ocidente e Oriente une ao tomar Babilônia.
Dest'arte, a flauta frígia em duo co'a lira jônia
Tocam enquanto, no ar, forte o seu gládio brande!
El Libro d'Alexinde, em átrios paladinos,
Lembrava a erudição da vasta Alexandria,
Dois milênios após! Em meio a desatinos...
Helenisticamente, entretém-me a harmonia
De lira e flauta, a ver — versos alexandrinos —
Doze sílabas dão belo metro à poesia.
* * *
A MÚSICA DE MÁRSIAS
A MÚSICA DE MÁRSIAS
—“Música, arte das musas! Eis, Euterpe, a flauta.
Se desafio Apolo a tocar algo belo,
Me arrisco ao perder a perder o meu pelo...
Lanço-me, temerário, n’uma aposta incauta."
"Saio da sombra e espalho sons, pauta após pauta.
Eu encanto, entretanto, tocando com zelo
A minha melodia como um suave apelo
Às musas que m’escutam cantos de argonauta"
"Volta a música, enfim, ao que fora vivida,
Certo ser a Natura imensa sinfonia,
Em cujas belas leis compõe-se toda a vida."
Ao murmuro do vento, além da serrania,
Se fez arte, afinal, para ser ouvida:
N’um pipitar d’ave, eu sopro a melodia."
* * *
domingo, 20 de setembro de 2026
AO QUE PARECE
AO QUE PARECE
Nem tudo que se ajunta à mão é feixe…
Nem tudo que estrepa no pé é trave…
Fosse moléstia, seria a mais grave…
Fosse crime, tarde demais se queixe…
Nem tudo que nada no mar é peixe…
Nem tudo que voa no céu é ave…
Fosse porta, ninguém teria a chave…
Fosse morada, nada ali se deixe…
O amor, aquela história mal contada,
Que toda a gente busca, inebriada,
Para no fim dizer ter se iludido.
O amor, um salto sobre o vazio,
Que a vida traz em tom de desafio
Qual se quisesse dar algum sentido.
Betim - 10 10 2025
WORST-SELLERS
O CANTAR DE APOLO
O CANTAR DE APOLO
— "Canto d’Amor, Erato, a sua desventura.
Eu que lhe ria do uso dado a suas setas,
Fui ferido d'amor, tal-qual vossos poetas.
Encantado por Dafne, ninfa bela e pura..."
"Vendo-a, logo me atrai tamanha formosura.
Eu me apresento à lira... Canto obras diletas.
Mas, Amor quis vingança e desgraça completas:
Pondo-a avessa a mim, foge na mata escura..."
"... E não alcanço a ninfa a correr trilha afora:
Em pânico, mudou-se em árvore de louro
Junto ao rio Pereu, conjurado àquela hora"
"De louros coroado, olho o dia vindouro:
Desde o primeiro Sol, tento tocar a Aurora,
Sem lhe alcançar, porém, o belo coche d’ouro..."
* * *
sábado, 19 de setembro de 2026
O SUPLÍCIO DE MÁRSIAS
O SUPLÍCIO DE MÁRSIAS
Eis, Terpsícore, todo o Lírico sentido,
Que a vida humana tem quando de sua morte.
Ter que sua arte é tudo e nada mais importe
Senão morrer pel’Arte em que havia vivido.
Mársias, sujeito a Apolo ao se ver vencido,
Fora estirado a um pinho robusto, de porte.
Lá, um escravo amola à falcata seu corte,
A imolar Mársias ante Apolo ressentido.
Sátiros, faunos, ninfas... Vendo tal crueza.
Choraram tristes todo um rio derramado,
Indo as canas da flauta em forte correnteza...
Da pele d’ele, fez-se um odre enfeitiçado
Que, se tocam a flauta, agita com presteza;
Mas, se tocam a lira, ouve petrificado.
* * *
GUERRA DE MELODIAS
GUERRA DE MELODIAS
Grã Calíope, recordo em músicas grande Épico
Onde Mársias e Apolo apostam o mor efeito
Quem obtém... Ou quem toca ainda mais perfeito
E qual melhor compõe... Ou mesmo o senso estético
Apolo faz ouvir d’uma ária o tom profético,
Mas Mársias, com um trote alegre, pôs afeito
Todo aquele conselho, em cujo alto conceito,
Fora elevado enfim sob o seu ar magnético.
Após, cantando, Apolo a todos arrebata.
Visto que une a poesia à música no encanto,
Somando voz e lira em plena serenata.
Mársias contesta então: Não usara ele o canto!
Apolo diz que igual com boca e dedos trata...
Vencedor, suplicia o vil por ousar tanto.
* * *
FEBO-APOLO
FEBO-APOLO
Pelo astro rei, Urânia, olhai a Astronomia:
Estrela a luzir sobre a abóboda celeste...
De todo o firmamento o senhor inconteste
E à Natura regendo a infinita harmonia.
O sol, que desde o início os dias definia,
Navega pelos céus o seu curso leste-oeste.
Se antes provê saúde; após, envia peste...
Senhor do porvir: O que tudo antes via.
Febo-Apolo, esplendente, atravessa dest'arte
Os céus e empunha a lira entre notas difusas
Seus concertos de luz áurea em toda a parte.
Ei-lo, enfim, musageta: Ao cortejo das musas!
― "Sigo a vos conduzir por obras d'engenho e arte,
Reinando como o sol, sem pejos nem escusas."
MÁRSIAS CÔMICO
MÁRSIAS CÔMICO
Cesse a tristeza, Tália; à Comédia se cante!
Que rir é para a dor excelente remédio.
Que eu vos cantar tão-só há-de vencer o tédio.
Que a vida, absurdamente, é muito interessante.
Inspirai, Tália, em Baco, o vinho inebriante!
Embriagai-me a voz muito acima do médio,
Eu ― por cômico e vão ― acorde todo o prédio
Ou ― por lírico e só ― às tristezas espante...
Sátiros, a cantar este Mársias burlesco,
Encenavam-no tonto, a vagar por bacanais.
Feito opereta, pois, do trágico ao grotesco.
Afogados em vinho os desejos carnais,
Em festa vêm saudá-lo mito carnavalesco:
Entrudo popular, de antigos carnavais...
* * *
sexta-feira, 18 de setembro de 2026
A MULHER DE MILO
A MULHER DE MILO
Esculpo no teu corpo o meu desejo
E, em mármore, o deixei à eternidade!
Como se te fixasse a mocidade
Na nudez gloriosa que cotejo.”
Promessas de prazeres antevejo,
Onde Beleza torna-se Verdade.
E os deuses, face à tua majestade,
De Citereia ouviram: — “Eu a invejo!...”
Erguendo a tua face desde o Olimpo,
Impõe-te das alturas admirada
Como a mais alva estrela no céu limpo.
Tu sorris, sereníssima, à homenagem
Da multidão a ver embasbacada
Aquela que de Vênus fez-se imagem.
Betim – 23 05 1995
MÁRSIAS TRÁGICO
MÁRSIAS TRÁGICO
Vão Mársias, Melpomene: Uma Tragédia a vida
Tão-só vivida a obter da música prazer...
Um que, tão talentoso, intentara vencer
O próprio deus Apolo em musical partida.
Vós, Melpomene, sendo em juízo escolhida,
Junto a vossas irmãs, lograstes conceder
Vitória ao que melhor músico parecer,
Com submissão de quem cuja obra ver vencida.
Mársias vence co'a flauta o seu primeiro embate.
Apolo após, porém, cantando é persuasivo...
Sua voz acompanha a lira e obtém o empate!
Vence, por fim, Apolo: A Mársias faz captivo.
Indignando o divino um mortal que o combate,
Febo, impiedosamente, o esfola ainda vivo.
* * *
DESAFIO MUSICAL
DESAFIO MUSICAL
Canto-vos, oh Polímnia, à Eloquência regente!
Canto um canto que é muito mais que uma canção.
Canto um artista audaz contra o deus da criação.
Canto em meu canto, oh musa, a verdade somente.
Elevai-me, entretanto, a voz mais eloquente.
Com palavras, falai à mente e ao coração,
Para que, mais que sons, tragam-nos emoção,
E enfim, quem as ouvir, não fique indiferente.
À lira, sete cordas... Perfeito tocava
Apolo — deus heleno: O que a todos inspira,
E, ao dedilhar a lira, a pedras encantava!
À flauta, sete tubos... Místicos sons tira
Mársias — mito sileno: O que águas transbordava...
Eis, por tamanho feito, a flauta contra a lira!
* * *
ORIGENS DA FLAUTA
ORIGENS DA FLAUTA
Souberam-me, contudo, alta Clio, outro conto
De quão irrefreável e violento Amor!
Quis ― do grande deus Pã ― ousar-se vencedor:
Fê-lo inventor da flauta e a impôs ao contraponto.
Embora de Hermes filho, era Pã velho e tonto...
Encantado, se vê de Siringe amador.
Ao declarar, porém, à bela ninfa amor,
Ela, por não o amar, negara-o de pronto.
Siringe, a caçadora, avança agora caça.
Para à margem do rio e roga às ninfas manas
Fugir ao feio Pã, que apressado ali passa.
Pã tenta lhe abraçar, mas só abraça canas...
D'elas ouve um queixume, achando alguma graça.
E sopra a flauta Pã, para as paixões humanas...
* * *
quinta-feira, 17 de setembro de 2026
ORIGENS DA LIRA
ORIGENS DA LIRA
Contam da História, Clio, aquela antiga lenda
― Que pela vossa graça evade ao esquecimento... ―
De Hermes, o astuto deus, em cujo nascimento,
Soube inventar a lira, hoje admirada prenda.
Hermes mal nascia e já ― d’uma caverna à senda ―
Topa co’a tartaruga, a qual dá corpo ao invento:
Das tripas cordas faz para um novo instrumento,
E logo após as tange ao som que se desprenda.
Voou d'asas nos pés; de Apolo após fez furtos:
Mais de cinquenta bois levando o deus ladrão,
Até Febo o prender a voos bem mais curtos.
Soube Hermes, todavia, aclarar a questão:
Da lira tira os sons, que em sete notas surtos,
Para a glória de Apolo, eles soam desde então.
* * *
EVOCAÇÃO ÀS MUSAS
EVOCAÇÃO ÀS MUSAS
―”Saúdo-vos, oh musas! Pela vossa glória,
Que o talento encontre em mim humilde herdade.
Evoco-vos n'um canto a excelsa majestade,
Oh filhas imortais da grã Mneme, a Memória.”
“Clio, em sabedoria, haja-me toda a História.
Polímnia, Eloquência à minha vã verdade.
Melpomene, à Tragédia, a dramaticidade.
Tália, pela Comédia, a alegria ilusória.”
“Urânia, iluminai-me, audaz, a Astronomia.
Calíope, escrevei o Épico por meus hinos.
Terpsícore, inspirai o Lírico à poesia.”
“Erato — à lira, ter os Amores divinos;
Euterpe — à flauta, dar a Música harmonia.
Vossa graça perpasse os meus alexandrinos!”
* * *
PRÓLOGO
I
PRÓLOGO
Caminhava; e a ideia me veio andando:
Era alguma harmonia vinda ao longe, vaga,
Ou senão fantasia em que verdades traga
D'um mito que ninguém saberá onde ou quando.
Ouço ― dentro de mim ― lira e flauta soando.
Eu vejo um deus dourado, enquanto a lira afaga,
E um artista que beija a flauta s'embriaga...
Vejo-os, pelo caminho, à medida que eu ando.
Apolo e Mársias vêm... Disputam bem à frente!
Pois, se imagino o real, talvez consiga vê-lo,
E, ainda ao imaginar, criar poeticamente.
Nos desvãos da memória, os recordo em duelo:
A lira e a flauta soam: Ocidente e Oriente
Opostos n'um Ideal, a excelência do Belo!
* * *
A LIRA E A FLAUTA – XIV alexandrinos
A LIRA E A FLAUTA – XIV alexandrinos
I
prólogo
Caminhava; e a ideia me veio andando:
Era alguma harmonia vinda ao longe, vaga,
Ou senão fantasia em que verdades traga
D'um mito que ninguém saberá onde ou quando.
Ouço ― dentro de mim ― lira e flauta soando.
Eu vejo um deus dourado, enquanto a lira afaga,
E um artista que beija a flauta s'embriaga...
Vejo-os, pelo caminho, à medida que eu ando.
Apolo e Mársias vêm... Disputam bem à frente!
Pois, se imagino o real, talvez consiga vê-lo,
E, ainda ao imaginar, criar poeticamente.
Nos desvãos da memória, os recordo em duelo:
A lira e a flauta soam: Ocidente e Oriente
Opostos n'um Ideal, a excelência do Belo!
* * *
II
evocação às musas
―”Saúdo-vos, oh musas! Pela vossa glória,
Que o talento encontre em mim humilde herdade.
Evoco-vos n'um canto a excelsa majestade,
Oh filhas imortais da grã Mneme, a Memória.”
“Clio, em sabedoria, haja-me toda a História.
Polímnia, Eloquência à minha vã verdade.
Melpomene, à Tragédia, a dramaticidade.
Tália, pela Comédia, a alegria ilusória.”
“Urânia, iluminai-me, audaz, a Astronomia.
Calíope, escrevei o Épico por meus hinos.
Terpsícore, inspirai o Lírico à poesia.”
“Erato — à lira, ter os Amores divinos;
Euterpe — à flauta, dar a Música harmonia.
Vossa graça perpasse os meus alexandrinos!”
* * *
III
origens da lira
Contam da História, Clio, aquela antiga lenda
― Que pela vossa graça evade ao esquecimento... ―
De Hermes, o astuto deus, em cujo nascimento,
Soube inventar a lira, hoje admirada prenda.
Hermes mal nascia e já ― d’uma caverna à senda ―
Topa co’a tartaruga, a qual dá corpo ao invento:
Das tripas cordas faz para um novo instrumento,
E logo após as tange ao som que se desprenda.
Voou d'asas nos pés; de Apolo após fez furtos:
Mais de cinquenta bois levando o deus ladrão,
Até Febo o prender a voos bem mais curtos.
Soube Hermes, todavia, aclarar a questão:
Da lira tira os sons, que em sete notas surtos,
Para a glória de Apolo, eles soam desde então.
* * *
IV
origens da flauta
Souberam-me, contudo, alta Clio, outro conto
De quão irrefreável e violento Amor!
Quis ― do grande deus Pã ― ousar-se vencedor:
Fê-lo inventor da flauta e a impôs ao contraponto.
Embora de Hermes filho, era Pã velho e tonto...
Encantado, se vê de Siringe amador.
Ao declarar, porém, à bela ninfa amor,
Ela, por não o amar, negara-o de pronto.
Siringe, a caçadora, avança agora caça.
Para à margem do rio e roga às ninfas manas
Fugir ao feio Pã, que apressado ali passa.
Pã tenta lhe abraçar, mas só abraça canas...
D'elas ouve um queixume, achando alguma graça.
E sopra a flauta Pã, para as paixões humanas...
* * *
V
desafio musical
Canto-vos, oh Polímnia, à Eloquência regente!
Canto um canto que é muito mais que uma canção.
Canto um artista audaz contra o deus da criação.
Canto em meu canto, oh musa, a verdade somente.
Elevai-me, entretanto, a voz mais eloquente.
Com palavras, falai à mente e ao coração,
Para que, mais que sons, tragam-nos emoção,
E enfim, quem as ouvir, não fique indiferente.
À lira, sete cordas... Perfeito tocava
Apolo — deus heleno: O que a todos inspira,
E, ao dedilhar a lira, a pedras encantava!
À flauta, sete tubos... Místicos sons tira
Mársias — mito sileno: O que águas transbordava...
Eis, por tamanho feito, a flauta contra a lira!
* * *
VI
Mársias trágico
Vão Mársias, Melpomene: Uma Tragédia a vida
Tão-só vivida a obter da música prazer...
Um que, tão talentoso, intentara vencer
O próprio deus Apolo em musical partida.
Vós, Melpomene, sendo em juízo escolhida,
Junto a vossas irmãs, lograstes conceder
Vitória ao que melhor músico parecer,
Com submissão de quem cuja obra ver vencida.
Mársias vence co'a flauta o seu primeiro embate.
Apolo após, porém, cantando é persuasivo...
Sua voz acompanha a lira e obtém o empate!
Vence, por fim, Apolo: A Mársias faz captivo.
Indignando o divino um mortal que o combate,
Febo, impiedosamente, o esfola ainda vivo.
* * *
VII
Mársias cômico
Cesse a tristeza, Tália; à Comédia se cante!
Que rir é para a dor excelente remédio.
Que eu vos cantar tão-só há-de vencer o tédio.
Que a vida, absurdamente, é muito interessante.
Inspirai, Tália, em Baco, o vinho inebriante!
Embriagai-me a voz muito acima do médio,
Eu ― por cômico e vão ― acorde todo o prédio
Ou ― por lírico e só ― às tristezas espante...
Sátiros, a cantar este Mársias burlesco,
Encenavam-no tonto, a vagar por bacanais.
Feito opereta, pois, do trágico ao grotesco.
Afogados em vinho os desejos carnais,
Em festa vêm saudá-lo mito carnavalesco:
Entrudo popular, de antigos carnavais...
* * *
VIII
Febo-Apolo
Pelo astro rei, Urânia, olhai a Astronomia:
Estrela a luzir sobre a abóboda celeste...
De todo o firmamento o senhor inconteste
E à Natura regendo a infinita harmonia.
O sol, que desde o início os dias definia,
Navega pelos céus o seu curso leste-oeste.
Se antes provê saúde; após, envia peste...
Senhor do porvir: O que tudo antes via.
Febo-Apolo, esplendente, atravessa dest'arte
Os céus e empunha a lira entre notas difusas
Seus concertos de luz áurea em toda a parte.
Ei-lo, enfim, musageta: Ao cortejo das musas!
― "Sigo a vos conduzir por obras d'engenho e arte,
Reinando como o sol, sem pejos nem escusas."
* * *
IX
guerra de melodias
Grã Calíope, recordo em músicas grande Épico
Onde Mársias e Apolo apostam o mor efeito
Quem obtém... Ou quem toca ainda mais perfeito
E qual melhor compõe... Ou mesmo o senso estético
Apolo faz ouvir d’uma ária o tom profético,
Mas Mársias, com um trote alegre, pôs afeito
Todo aquele conselho, em cujo alto conceito,
Fora elevado enfim sob o seu ar magnético.
Após, cantando, Apolo a todos arrebata.
Visto que une a poesia à música no encanto,
Somando voz e lira em plena serenata.
Mársias contesta então: Não usara ele o canto!
Apolo diz que igual com boca e dedos trata...
Vencedor, suplicia o vil por ousar tanto.
* * *
X
o suplício de Mársias
Eis, Terpsícore, todo o Lírico sentido,
Que a vida humana tem quando de sua morte.
Ter que sua arte é tudo e nada mais importe
Senão morrer pel’Arte em que havia vivido.
Mársias, sujeito a Apolo ao se ver vencido,
Fora estirado a um pinho robusto, de porte.
Lá, um escravo amola à falcata seu corte,
A imolar Mársias ante Apolo ressentido.
Sátiros, faunos, ninfas... Vendo tal crueza.
Choraram tristes todo um rio derramado,
Indo as canas da flauta em forte correnteza...
Da pele d’ele, fez-se um odre enfeitiçado
Que, se tocam a flauta, agita com presteza;
Mas, se tocam a lira, ouve petrificado.
* * *
XI
o cantar de Apolo
— "Canto d’Amor, Erato, a sua desventura.
Eu que lhe ria do uso dado a suas setas,
Fui ferido d'amor, tal-qual vossos poetas.
Encantado por Dafne, ninfa bela e pura..."
"Vendo-a, logo me atrai tamanha formosura.
Eu me apresento à lira... Canto obras diletas.
Mas, Amor quis vingança e desgraça completas:
Pondo-a avessa a mim, foge na mata escura..."
"... E não alcanço a ninfa a correr trilha afora:
Em pânico, mudou-se em árvore de louro
Junto ao rio Pereu, conjurado àquela hora"
"De louros coroado, olho o dia vindouro:
Desde o primeiro Sol, tento tocar a Aurora,
Sem lhe alcançar, porém, o belo coche d’ouro..."
* * *
XII
a música de Mársias
—“Música, arte das musas! Eis, Euterpe, a flauta.
Se desafio Apolo a tocar algo belo,
Me arrisco ao perder a perder o meu pelo...
Lanço-me, temerário, n’uma aposta incauta."
"Saio da sombra e espalho sons, pauta após pauta.
Eu encanto, entretanto, tocando com zelo
A minha melodia como um suave apelo
Às musas que m’escutam cantos de argonauta"
"Volta a música, enfim, ao que fora vivida,
Certo ser a Natura imensa sinfonia,
Em cujas belas leis compõe-se toda a vida."
Ao murmuro do vento, além da serrania,
Se fez arte, afinal, para ser ouvida:
N’um pipitar d’ave, eu sopro a melodia."
* * *
XIII
versos alexandrinos
Conta, musas, ainda El Libro d'Alexinde,
Sobre Alexandro Magno, El-Rey de Macedônia,
A História fabulosa, muito embora idônea,
Co'os feitos d'armas seus, que o tornaram o Grande.
O império, d'Europa à Índia, célere s’expande:
Ocidente e Oriente une ao tomar Babilônia.
Dest'arte, a flauta frígia em duo co'a lira jônia
Tocam enquanto, no ar, forte o seu gládio brande!
El Libro d'Alexinde, em átrios paladinos,
Lembrava a erudição da vasta Alexandria,
Dois milênios após! Em meio a desatinos...
Helenisticamente, entretém-me a harmonia
De lira e flauta, a ver — versos alexandrinos —
Doze sílabas dão belo metro à poesia.
* * *
XIV
epílogo
Musas, silenciai. Vem a noite... Está tarde.
Há pouco o sol se pôs; eis o ocaso, afinal...
E desde o início quer a história algum final,
Que, pela escuridão, o seu silêncio atarde.
Quietas ― lira e flauta ― em triste cair de tarde.
Se o moderno s’escusa em lembrar do imortal,
Os deuses morrem sim, de morte natural...
Enquanto um velho livro por fogueiras arde.
Vós, musas, repousais há muito adormecidas!
O artista ousa criar, mas já não lhe compete,
Pois, mesmo que acordais, nunca sereis ouvidas.
Há ruído demais! Hoje o óbvio se repete!...
Foram as artes todas por fim esquecidas:
A Humanidade bebe as águas vãs do Lete.
Betim - 03 09 1995
quarta-feira, 16 de setembro de 2026
SENHORA
SENHORA
Belo Horizonte - 04 04 1998
terça-feira, 15 de setembro de 2026
ADVERTÊNCIA
ADVERTÊNCIA
Cuidado: Pouco custa eu me apegar!
Mas se me sorris tão terna, menina,
Como posso cuidar da minha sina
Por amiúde e tanto eu te mirar?
Não... Talvez seja ousado o meu olhar
E me sorris assim por feminina.
Acontece, porém, que desatina
O pensamento logo ao t’encontrar.
Mas, se as coisas chegaram a esse nível,
Não faças tu igual outras mulheres,
Que aos poucos têm me feito um insensível.
Advertida és, por fim, de meus quereres
E d'esse coração tão suscetível:
— "Não me tentes se tu não me quiseres..."
Betim - 02 07 1996
ADÁGIO
ADÁGIO
Palavra dada, não se me abra a boca.
Ainda que na boca a frase dita
Não cale a dor do peito, apenas grita.
Seja sua desdita muita ou pouca...
Palavra dita ao léu, um tanto louca,
Soa à poesia sobre a linha escrita:
Revisitada a ponto de infinita,
Me aflige na garganta quase rouca.
Algo será poesia ao dizer tudo,
Se, e somente se, for dito sincero,
E, por sincero, digam já absurdo.
Garimpo ouro na lama em que chafurdo:
Seja poesia o adágio, embora mero,
Grito dado no ouvido do pior surdo!
Gov. Valadares — 19 09 1995
segunda-feira, 14 de setembro de 2026
DÁ-SE UM JEITO
DÁ-SE UM JEITO
Se não há mais saída senão ser…
Sê! Vem a ser aquele que tu és.
Outro caminho estende-se a teus pés
Tão-logo te dispões a percorrer.
Vai ao encontro do teu próprio querer
De modo que, topando algum revés,
T’engrandeça o esforço, lés-a-lés,
À conquista d’um amplo belveder’!
Apenas não t’enterres ‘inda em vida,
No destempero que a única saída
Fosse afundar o poço em que caíste...
Ao invés, volve a ver a luz do dia,
Na fé de que esta mínima alegria
Pode fazer melhor uma hora triste.
Congonhas - 12 09 2026JEITO
domingo, 13 de setembro de 2026
HEMEROTECA
HEMEROTECA
Erros gritantes, óbvios ululantes…
Estampavam em letras garrafais
Manchetes d’antiquíssimos jornais
Encadernados sobre altas estantes.
Os nomes, hoje tão desimportantes,
Jazem como se lajes sepulcrais
Com vidas idas para nunca mais
Ao longo de mil páginas errantes.
Fotos obscuras, vãs caricaturas…
Ilustravam os factos nas brochuras
Impressas para a luz dos mais letrados.
Mas, por fim, historiar mentalidades:
Em face das passadas realidades,
Escrever os presentes repensados.
Betim - 11 09 2026
quinta-feira, 10 de setembro de 2026
MEIA IDADE
MEIA IDADE
A pele que me veste as carnes vãs
Teve dias melhores já, eu penso:
Pareço atordoado-embora-tenso,
Em face da mesmice das manhãs…
No tráfego, atravesso horas malsãs,
Enquanto dos deveres me convenço.
Reconheço, contudo, algo pretenso
Em ver obrigações como vilãs.
Paro sem convicção para o trabalho
Como fosse uma espécie de espantalho,
A esperar no canteiro da avenida.
Ou se, a um momento meu de solidão,
Por fim me visse em meio à multidão
E passasse por mim toda uma vida.
Belo Horizonte - 02 09 2026
terça-feira, 8 de setembro de 2026
INIMICÍCIA
INIMICÍCIA
Aos que me querem mal, eu desaponto
Mantendo a fé na vida, dia após dia.
Tento encarar as coisas com alegria,
Salvo à vicissitude algum desconto.
O mal premeditado, todavia,
Pretende suscitar senão confronto.
E murmura a cada ai um contraponto,
Logo indo do debate à bizarria.
Pagam os justos pelos pecadores.
Ess’outros, não raro, homens de bem
Que dos demais se arvoram julgadores.
Nefastos, seu ardil e seu desdém,
Percebo no rancor somente intriga…
Não vale seu grilhão o que me obriga.
Betim - 01 09 2026