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terça-feira, 22 de agosto de 2023

HORAS MORTAS

HORAS MORTAS


Horas há em que até a angústia passa.

Horas que ando pensando no passado...

Atravessava a noite n'este estado,

Olhando a escuridão pela vidraça.


A noite morre sem que o dia nasça,

Dentro d'um coração espedaçado...

Sem que dormisse tenho madrugado,

Enquanto o ser de tudo o mais s'espaça.


Há horas, uma absoluta nulidade...

Em meio a reflexões amarguradas,

O passado não passa... A mente evade.


Ruas vazias; luzes apagadas...

Outra noite d'extrema soledade

No rastro de ilusões cheias de nadas.


Sapucaia do Norte - 28 02 1993

sexta-feira, 16 de dezembro de 2022

PÚSTULA

PÚSTULA 


E púbis abaixo, intumescida,

Parecia olhar feito um olho mal.

A pele, mais sensível que o normal,

Doía só de pensar ser espremida…


Embora oculta, afeta toda a vida,

Dilacerando o trato genital.

Aquilo constrangia, tal-e-qual

A chaga d’um pecado malferida!


Um corpo estranho quase a supurar

E não parte de mim infeccionada

N’uma podre erupção de linfa e pus.


Só assim eu conseguia observar

A masculinidade devastada

No abcesso sob os meus escrotos nus.


Belo Horizonte - 10 10 1993


terça-feira, 9 de junho de 2020

HORAS MORTAS

HORAS MORTAS

Tem horas em que nem a hora passa;
Em que passo pensando no passado.
Eu posso passar horas n'este estado,
Olhando a escuridão pela vidraça.

A noite morre sem que o dia nasça,
Enquanto o coração espedaçado...
O espaço-tempo paira ali parado
E o presente ao passado em mim s'espaça.

Ruas vazias; luzes apagadas...
Uma hora de absoluta soledade
Em meio a reflexões amarguradas.

O passado não passa...! Tudo evade:
Em horas mortas tão cheias de nadas 
Encontro a minha extrema nulidade.

Sapucaia do Norte - 28 02 1993

terça-feira, 26 de maio de 2020

FLAMENCO

FLAMENCO

De acordo co'os acordes que me ouvis, 
Eu acordo co'as cordas do violão. 
E acovardo a dor do coração; 
N'um canto em cujo encanto sou feliz. 

Como incorpora o ritmo um aprendiz,
Que se cresce e se cria na canção,
Corpo e alma logo em mim concordarão
Às palmas da morena que a mim quis. 

Sabei: De cor o acorde que me acorda
E concorde à poesia se me afiança
A dor que o coração em vão aborda. 

Escutai-me, vós outros, na confiança 
De que deslize a voz em cada corda 
Às palmas da morena que a mim dança. 

Betim – 13 05 1993

segunda-feira, 20 de abril de 2020

VAGO LUME

 VAGO LUME 


Às vezes, quando a vida me angustia,

Vago em círculos após o lusco-fusco

E varo a noite incerto do que busco, 

Perdido todo o ideal; toda a utopia…


E escrevo sem saber quanto escrevia:

Vago lume que aos olhos não ofusco. 

Versos? Mero rabisco que rebusco,

Tão ininteligível a poesia!...


Eu vivo essa jornada tão confusa

N’uma ânsia de que a angústia se traduza

Em coisas que sequer consigo ler.


Sem embargo, atravesso a noite escura

Em modo de total autoprocura,

Chegando exausto e só ao amanhecer...!


Betim - 13 05 1993


terça-feira, 14 de abril de 2020

EXISTENZMINIMUM

EXISTENZMINIMUM 

Arranha-céu arranha ao léu o fundo d’alma,
Ao m'esconder o céu como se fosse seu.
Sobra-me a sombra sobre... Um prumo o rumo deu,
Me obscurecendo o sol na tarde que cai calma.

Subo andares andando 'inda co'os pés em palma
E a altura altera a vista ao que baço avisto eu
-- Não sei se acrofobia ou miopia ao olho meu --
Que me sumisse o chão segundo antigo trauma...

Prédios me prendem entre esquadradas paredes.
Pedra e cal, tal-e-qual qualquer apartamento
Aparta a mente insã nos nós de tantas redes.

Aperta o Ser a exígua aldeota de cimento,
Que, sem céu, sol ou chão, as insapientes sedes:
Moradia onde habita o único pensamento.

Belo Horizonte - 20 04 1993

segunda-feira, 30 de março de 2020

ECLIPSADO

ECLIPSADO

Se um outro astro ofuscando teu olhar
-- Onde, à maneira mesma d'um eclipse,
Prenuncie um falaz apocalipse,
Que nos findasse tudo sem findar --

Talvez tu me deixasses eclipsar
Ao alinhar-nos, amantes, na hora tríplice...
Vejo à frase omitir-se n'uma elipse
Esse amor sem objetos para amar.

Olhas e não me vês senão penumbra
Atrás d'esse novo astro que deslumbra,
E todavia, em trânsito, passando.

No mais, nada será como antes fora...
Eclipsado, sem luz, fico de fora:
Alguém não mais amado ainda amando.

Betim - 10 01 1993

domingo, 14 de outubro de 2018

MOÇAMBIQUES

MOÇAMBIQUES

A guarda se perfila p'ro folguedo
E a santa do Rosário os abençoa.
O encontro faz maior cada pessoa
Aquando do entrevero audaz e ledo.

Há gerações repetem esse enredo
Onde homens-instrumentos d'hora boa:
Em caixas, guizos, sinos mais ressoa
A música dançada desde cedo.

Ao bater uns contra outros os seus paus
Aqui vêm s'enfrentar, nem bons nem maus,
Os guerreiros com fitas mais espetos.

As lanças s'entrechocam tão ritmadas
Que a gente a batucar pelas calçadas
S'exalta face à Virgem Mãe dos Pretos!

Contagem - 14 10 1993

domingo, 31 de dezembro de 2017

ENTANTO

ENTANTO

Pretendo todo o tempo andar atento,
Mas quanto mais eu tento mais me atenta:
A distância à lembrança só aumenta,
Conquanto nada esteja ora a contento.

Entanto, mesmo sem qualquer intento 
Sempre e sempre o passado se apresenta...
E com ele quanto ele representa
De novo em pensamento e sentimento..

Assim, para esquecer um grande amor,
Que se faz presente por saudade e dor
É preciso fingir que não me importe.

Amar, quer no passado ou no presente
Seja algo em todo caso diferente,
Não minha costumaz falta de sorte...

Belo Horizonte - 03 05 1993

terça-feira, 21 de março de 2017

BORDA DA MATA

BORDA DA MATA

A estrada que margeia o arvoredo
Guarda o hálito de névoa d'alvorada,
Enquanto à sombra eu sigo caminhada
Sem o sol que castiga desde cedo.

Na grota, o rio cai sobre um lajedo,
Murmurando-se a canção  encaixoeirada,
Que faz ouvir de longe na jornada
Por terras onde corre cheio e ledo.

Se cruzo esses sertões de canto a canto
É por sempre querer de seu encanto
Ao longo de meus dias n'esse mundo.

Eu olho e vejo cada vez mais longe
Certo de que a vereda sempre alonge
O fim d'esse chão d'onde sou oriundo.

Tumiritinga - 09 07 1993

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

DIAS DE QUARUPE

DIAS DE QUARUPE

É sol de sangue n'um pálido céu!
É tronco ornamentado preso ao chão!
É fazer memória! É celebração!...
É canto! É dança! É luta! É cor! Tropel!!!

... Há-que se nos pôr fim ao luto cruel
Em festa de reunir toda a nação.
Por deixar que nos fale ao coração
A alma que se despede do olhar fiel.

... Há-que se ter saudade sim. E, ainda,
Lembrar d’aquele a vida longa e linda
Que feito estrela pelo céu fulgura:

-- "Não lhe entristeça a nossa só tristeza,
Antes mantenha a chama sempre acesa,
A que nos seja luz na noite escura!"

Belo Horizonte – 06 05 1993

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

ARUANDA

ARUANDA


Na casa do Pai há muitas moradas,

E aqueles que na Glória têm vivido

Sabem que o amor impera sobre o Olvido:

Guia o fiel às sete encruzilhadas.


Assim, já findadas as jornadas

D'este que agora cai desfalecido,

Verão o homem, de tudo já despido,

S’elevar às alturas sublimadas!

 

Qualquer seja o destino dos finados,

Haverão-de deixar toda demanda,

Purgando-se do carma dos pecados.

 

Pois só na paz o espírito ainda anda

Até rever os Bem-aventurados

E habitar sob a luz santa de Aruanda. 


Belo Horizonte – 02 11 1993

domingo, 4 de dezembro de 2016

CONCORDES

CONCORDES

De acordo co'os acordes que te fiz,
Eu te acordo co'as cordas do violão
E te acovardo a dor do coração
N'um canto em cujo encanto és feliz.

Encorporado o ritmo, um aprendiz
Eu me faço no compasso da canção.
E, passo a passo, trago outra emoção
Tão certo quanto bem te quero e quis.

De cor o acorde, pois, acode e  acorda
Quando, a poesia e a música concordes,
Se faz canção que então o amor aborda.

Talvez assim de mim tu te recordes
Enquanto meu amor por ti transborda
Na harmonia de versos mais acordes.

Betim - 09 08 1993

domingo, 6 de novembro de 2016

DE BOCA EM BOCA

DE BOCA EM BOCA

Pois como sabem Deus e todo mundo,
Palavras loucas, só orelhas moucas...
Loucuras d'amor clamam quase roucas
As aluadas segundo após segundo:

-- "Há astros a luzir no céu profundo
Em conjunções que ensejam visões loucas."
Mesmo suas estrelas sendo poucas,
Veem nas fases da lua algo fecundo.

E trocam simpatias, sortilégios,
Feitiços de paixão, poções d'amor...
Tirando-se lhe a sorte em seu favor.

De boca em boca espalham seus colégios
Onde ensinam as artes amorosas
Que fazem as mulheres perigosas.

Betim - 13 05 1993

AS AMAZONAS

AS AMAZONAS


Nuas, as duas belas se entreolharam,

Entregues aos prazeres mais proibidos.

Na embriaguez de desejos escondidos,

Admiradas de si, elas se amaram.


Logo os lábios das lésbias se tocaram.

E os seus mamilos já intumescidos,

Como se figos alvos bem crescidos,

Uma à outra, dulcíssimos, beijaram.


Orvalhados os sexos, quase arfantes

Se trocavam carícias delirantes

Com ardores e gozos inclementes.


Amazonas, guerreiras do amor,

Cavalgam-se com tríbade furor,

Para juntas tombarem inconscientes...


Belo Horizonte - 09 07 1993