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domingo, 17 de novembro de 2024

PENÍNSULA

PENÍNSULA 


D’aqui há tanto mar e terra à vista,

Que penso: “Se não este, qual lugar?”

Abandono-me a ver tempo passar,

Enquanto o azul profundo me conquista!


A borda do penedo pouco dista

Das gaivotas em voltas em pleno ar…

Também o pensamento fica a voar,

Em meio às nuvens brancas, optimista.


Tenho olhos para ver o quanto é bom

E belo, onda após onda, em luz e som

Este momento pleno de alegria.


De mais a mais, mirava imensamente 

A clara eternidade do presente

Que por agora e enfim me transcendia. 


Ubatuba - 02 07 2014


terça-feira, 5 de novembro de 2024

RAZÕES OUTRAS

RAZÕES OUTRAS

Eu me pergunto sem saber porquê,
Mas nada mais responde se o cansaço
Nos governa absoluto a par e passo
De tanta mesquinhez sem mais mercê.

Outros não saberão — como se vê —
Haver sentido em tudo o que me faço,
Visto me imporem com desembaraço
Outra falácia à guisa de clichê...

Óbvio que nada d'isso me interessa,
A não ser pela própria vã promessa
D'eu faltar ao dever por desprazer.

N'isto está todo o meu desassossego
E a profunda tristeza a que me entrego
É saudade de quem pensava eu ser.

Betim - 06 09 2014

segunda-feira, 3 de maio de 2021

BENTINHO E CAPITU

BENTINHO E CAPITU


Dizem que o coração d'outros é terra

Ignota e longe aonde ninguém vai.

Quanto n'estas paragens sobressai

É um segredo só que tudo encerra.


Mas quem tenta sondar a verdade erra,

— Vaga pelo deserto… Incerto cai! —

Pensa, tonto, que a sua mente o trai:

Tesouros, sonhos?… Junto ao nada enterra!


Contudo, o engano n'ele já não cabe…

Pode a boca calar-se — o corpo fala!…

Ou cada olho fechar-se — a alma sabe!…


Não. Nem o seu sorriso — brilho à opala —

Tampouco a sua lábia — em lábios frios —

Haverão-de ocultar seus desvarios.


Sobrália - 15 03 2014

segunda-feira, 25 de maio de 2020

RONDA NOCTURNA

RONDA NOCTURNA 
 
Se por vias escuras e vazias 
Andasse noite adentro, solitário, 
Haveria -- muito além do imaginário -- 
O eco audaz de saudosas fantasias. 
 
Haveria a memória de outros dias, 
Retrazidas à luz de extraordinário 
Efeito sobre as horas que, ao contrário, 
Passavam em quietudes fugidias. 
 
Vejo e não vejo o que agora é aqui... 
Tudo desaparece ante o que vi 
E que torno a ver como se ao olhar. 
 
Sem óbice algum, ando a recordar 
Tanto quanto ora recordo a andar 
Entre as sombras onde vivo e vivi. 

Betim – 10 05 2014 

segunda-feira, 6 de abril de 2020

AO LUAR

AO LUAR

Essa luz limitada ou realidade --
“Argêntea...!” -- Quem nos foi que concedeu?
Não terá sido mais ávido do que eu
No afã de nos buscar sonho e verdade.

Fossem outras a face e a idade,
Teu olhar encontrando ora o meu
Brilhar-nos-ia o luar que se excedeu
Pairando pleno acima da cidade.

E, então, eu te diria: “Vamos juntos!...”
Apesar de pesares ou de assuntos
A lançar tantas sombras sobre nós.

Porém, ensimesmada em solidão,
Ocultaste tal luar do coração
Com tudo quanto fomos quando sós...

Betim - 05 03 2014 

domingo, 4 de janeiro de 2015

TEMERÁRIO

TEMERÁRIO

Tenho medo de que teu olhar tenha
Uma verdade cuja luz sequer
Ousaria admirar enquanto houver
Dor. Mesmo que a dor venha e convenha...

Como um que quer tanto que desdenha;
Como aquele que vem só quando quer;
Pudesse o olhar extremo da mulher
Penetrar fundo tão obscura brenha!

Não. Nem é mais talvez nem inobstante,
O bom d’estarmos sós é semelhante
Aos derradeiros sonhos e esperanças.

Entenda: posso dar nem mais um passo,
Sim o tropeço só que ganha o espaço,
Rodopiando em falso estranhas danças.


Betim - 30 12 2014

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

POMPA E CIRCUNSTÂNCIA

POMPA E CIRCUNSTÂNCIA
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POMPA E CIRCUNSTÂNCIA

N'esta terra de vales tão profundos,
Onde reluzem penhas de basalto, 
Há paredões e abismos de cume alto --
Porque fronteira extrema de dois mundos. 

Transito sobre saibros infecundos, 

Cuja poeira levanto só e incauto. 
Mas surpreendo o rio com seu salto, 
Em plena pedra negra e seus rotundos. 

É uma imensidão que me apequena 

E me faz ter consciência de quem sou, 
A um só tempo tão forte e tão serena. 

Se contra o céu eleva-se da terra 

Ou se lhe aponta o sonho que deixou,
Só sabe Deus que luz a rocha encerra...  

Antônio Dias - 29 12 2014

sábado, 27 de dezembro de 2014

SINO DE VENTO


SINO DE VENTO

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SINO DE VENTO


Deve ser uma aragem fresca, branda;
A que me acaricia a testa e a mente,
Mas solta notas vãs, indiferente,
Ao atravessar à noite uma varanda. 
     
E sonho Passárgada; e passo Samarcanda...
N’uma viagem sonora tão-somente
Por dentro da memória semovente,
Que sobre areias ainda quentes anda. 

Era música tão minimalista
A ressoar no sino que o vento toca
À maneira de quase ausente artista. 

Porém, ainda assim ela provoca,
Senão contemplação para ter em vista,
O puro acaso que ao silêncio choca.

Betim - 14 12 2014

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

ALTOS DA SERRA

ALTOS DA SERRA
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ALTOS DA SERRA

Ir aonde o horizonte seja belo!
Minas e catedrais disputam morros,
Enquanto casas urgem mais socorros
Já quase a deslizar em pesadelo.

Estende-se aos vários o meu apelo,
Semelhante -- uns dirão -- a bons esporros.
Como os que dão a gatos e cachorros,
Senão por um parâmetro, por zelo.

De prédios e ruas, enxurradas
Vêm lavando-e-levando nossos passos
Até desanuviar céus e espaços.

Vejo. E quanto vejo é belo. É horizonte...
Cada olhar, um mirante; a andar, estradas
De cujos arredores tenho à fronte.

Contagem - 22 12 2014

domingo, 21 de dezembro de 2014

PRECIOSIDADES

               PRECIOSIDADES
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PRECIOSIDADES

Amanhecem ao sol gotas d’orvalho 
Rebrilhando nas taiobas bem por sobre, 
Onde a água -- quase sólida! -- algo nobre 
Vem acrescentar a folha e galho. 
  
Fôssemos definir esse trabalho, 
N’ele não menos que Arte se descobre 
Para rivalizar com ouro e cobre, 
Tal brilho quando todo afã é falho. 
  
Pois obra  do acaso, da Natura; 
Não por mãossim pelo olhar criada 
Ao vislumbrar que o belo ali figura: 
  
Gema no verde escuro aprisionada, 
Fez-se forma translúcidatão pura 
Que qual cristal reluz para e por nada. 
  

                   Betim – 20 12 2014

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

CREPUSCULAR

                       CREPUSCULAR
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CREPUSCULAR

Porque foste a promessa d'um amor
Que jamais se cumpriu, embora os anos
Multiplicassem nossos vãos enganos
E, enfim, nos dividissem sem calor.
Ora me sinto incapaz de contrapor
Qualquer velho argumento a novos planos;
Lido apenas com mais perdas e danos
Enquanto testemunho o sol se pôr.
Inumeráveis vezes eu tentei;
E inumeráveis vezes eu falhei
Como fosse fadado ao só fracasso. 
 
E deixo... A caminhar de mãos vazias
Para saudar as noites sós e frias
Que doravante acolhem meu cansaço.
              Betim - 18 12 2014

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

TRAGICOMÉDIA

TRAGICOMÉDIA
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TRAGICOMÉDIA

A gente até ri, mas é muito triste... 
É como ir cutucando a cicatriz  
Por ter que, latejante, ela condiz 
Co'a estranha dor que n'alma persiste. 

Se riem de gargalhar de quanto existe, 
É fé que apenas o outro é infeliz. 
E aplaudirão de pé se as obras vis 
Lhe forem justiçadas n'algum chiste. 

Ser feliz talvez não seja uma opção; 
Tampouco esse alternar sorte e revés 
P'las probabilidades da emoção. 

É mais como iludir-se só, ao invés 
D'explodir contra um fado imerecido. 
A gente até ri, mas de constrangido...  
                         

                   Betim – 16 12 2014 

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

ROMPANTE

ROMPANTE 
 
Não me disse palavra. Apenas foi... 
Deixou atrás de si – agora penso –  
Esse silêncio abrupto quase infenso, 
De vê-la partir sem sequer um oi. 
 
Antes, urrou que nem bumba-meu-boi 
A saltitar no chão, perdido o senso! 
Depois, ensimesmou-se n’um pretenso
Fastio de quem muito se condói…
 
A despeito de tudo, não lamento 
Sua partida em meio ao desalento 
De mais uma conversa amargurada. 

Lamentaria, sim, toda uma vida, 
Às voltas com franqueza desmedida:
Dizer a coisa certa na hora errada…
 
Betim – 10 12 2014 

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

DESNUDADA

DESNUDADA
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DESNUDADA

Mas como pude ser tão infeliz?!
Quando se ama e não diz! E quando não...
Enfim, nada: olhos, boca ou coração
Neguei de mim àquele que me quis.

E foi por medo d’eu não ser feliz
Que, só e infelizmente, à escuridão
Confesso, precavida, essa paixão
Culpar-me justo pelo que não fiz.

O beijo ficou preso à boca muda.
E o olhar, dissimulado sob a lua,
Apago a me impedir de que me iluda.

E ele se vai sozinho pela rua... 
Sem saber que em meu quarto só, desnuda,
Eu me entrego sonhando que sou sua.

                            Betim - 19 11 2014




CROQUIS

CROQUIS
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CROQUIS

Foi lapisar uns traços do que ideava
Para algum edifício imaginário.
Mas o papel, infiel depositário,
Sobretudo impossíveis lhe aceitava.

Dadas as circunstâncias, o que criava,
Era exercício-vão-embora-vário
De quem almeja o só extraordinário
Mesmo sendo rabiscos em que errava.

Edificou com linhas não tão tortas
Presumidas ideias que, natimortas,
Passaram, entretanto, ao arquitetado.

E fez-se prédio à luz do que há entorno
Até que todo o mínimo contorno
Expressasse-lhe a vida no habitado.

Betim - 03 12 2014

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

EM LIMAS

EM LIMAS
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EM LIMAS

Mil macaúvas sobre o pasto verde
Pelas suaves colinas espalhadas.
Envergando, taboas nas baixadas
Se agitam vãs ao vento que se perde.

Um justo lavra e, embora a terra herde,
São solidão e luz suas jornadas...
Pelas ravinas, matas tão fechadas
Aqui e ali riscadas de valverde.

Nuvens brancas passeando qual rebanho
Tendo um céu azulíssimo por fundo
E o zênite do sol quarando o mundo.

Foi uma hora feliz; um dia ganho.
Tive a alegria de ir aonde, bela,
A vida passa em paz pela janela.

Betim - 02 12 2014

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

AUGÚRIOS

AUGÚRIOS
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AUGÚRIOS

Seja eu muito feliz, embora tudo
Conduza tão-somente ao mesmo nada.
Não me lamente mais da caminhada,
Tampouco dos sinais com que me iludo.

Muitos vão observar os céus, contudo:
-- Alto veem o voo d'ave sobre a estrada... --
E me dizem saber quão abreviada
Será toda fortuna que 'inda escudo.

Com eles aprendi quanto o aleatório
Rege o curso das coisas sem, de facto,
Ocasionar-me a queda ou ter-me intacto.

-- "Haja" -- face a qualquer intento inglório
E a buscar-me a esperança já perdida --
"Vida que valha a pena ser vivida!"

Betim - 01 12 2014