domingo, 20 de maio de 2018

AGRADOS

AGRADOS

Deixa-me te agradar; te agradecer.
Apenas um carinho, um mimo, um verso...
Ir me aventurar por teu universo
Sem levar uma bússola sequer.

Cada recanto teu vou conhecer
Ao recolher teu mel em vão disperso.
Mas quando estiver todo em ti imerso,
Eu sinta tua essência me envolver.

Deixa-me te fazer só um agrado
E te dar um pouquinho do que sou
A sentir teu calor cá do meu lado.

É o melhor que tenho que te dou...
Amor que só existe p'ra ser dado!
Amor que apenas tem quem muito amou!

Betim - 24 10 2016

ARDENTE

ARDENTE

Sinto ao beijar-te os lábios tão perfeitos

Que a mim se tornaram quase um vício.

Não que ignore d'Amor a arte ou o artifício
A ponto de jamais te ver defeitos.

Na dúvida do quanto ainda afeitos,
Seja o desejo em nós melhor indício!
Se depois não houver nenhum resquício,
Partamos sem rancores ou despeitos.

Tu, bela, o prazer tens como promessa,
Mas não mais que esse gozo prometido
Temos para nos dar se o amor perdido.

Agrademo-nos, pois, a toda pressa!
Antes que passe o ardor dos desvarios
E em teus lábios eu deixe uns olhos frios...

Belo Horizonte – 29 05 2005

quinta-feira, 17 de maio de 2018

BOA VIZINHANÇA - O Homem do Saco e outros Contos

BOA VIZINHANÇA - O Homem do Saco e outros Contos

Pareceu-me um tipo bem apessoado, d'aqueles que pela simpatia logo conquistam: Sorria, respondendo positivamente a tudo quanto lhe dissessem. Enfim, queria sempre resolver o problema, existisse ou não.

Mudara-se há pouco para vizinhança e havia me procurado, enquanto eu me preparava para sair de casa. Era de manhã bem cedo e estava frio. Ele se aproximou, identificou-se como o novo vizinho e pediu-me ajuda com o hidrômetro: Após algumas horas de faxina, dissera, faltava-lhe água em casa... Embora estivesse vestido para o trabalho, fiquei sensibilizado e lhe fiz o obséquio de subir com ele ao castelo d'água de sua casa e lhe mostrei o reparo que devia fazer na boia da caixa. Ele, muito agradecido, me desejou um bom dia enquanto eu saía para cuidar da vida. Horas mais tarde, ele me cerca ao voltar com minha filha da escola: Pedia que lhe ajudasse com o gás de cozinha, pois não tinha ainda contactos na cidade. Mandei vir o gás e ele pagou o entregador. Quando saí do almoço para voltar ao trabalho, ele outra vez me chama e pede para ver o sinal da antena de TV enquanto ele a ajusta no telhado. Confesso que a boa vontade já estava no fim, mas não lhe neguei também esse pedido. Imagem na tela, já me dirigia à saída quando ele, com sua positividade característica, pediu-me que lhe ajudasse a instalar também o chuveiro. Aquilo me pareceu demasiado e lhe disse não. Argumentei que estava atrasado para o trabalho e ele assentiu.

Já de noite, topo com o vizinho na rua. Ele apenas esperava que eu chegasse para lhe emprestar a caixa de ferramentas e poder instalar seus trens. Havia pedido à minha esposa mais cedo, mas ela se escusou de fazê-lo, alegando que não mexia em minhas coisas. Cansado, fui até a garagem e peguei a bendita caixa. Ele gracejou algo que me pareceu exagerado e disse que devolvia assim que terminasse. De facto, tão logo entrei em casa já pude ouvir o zunido da furadeira e, após, as batidas do martelo. Da sua casa, parede-e-meia com a minha, dava-me a impressão de que trabalhava comigo dentro... E foi assim até bem tarde, n'uma faina ininterrupta até que lá pelas onze da noite fui forçado lhe bater na parede geminada e ele silenciou lá do lado d'ele. Mesmo assim, ainda pude ouvir sua movimentação ajeitando móveis até de madrugada, n'uma insônia inoportuna e sem remédio... Como não conseguisse dormir, preparei-me para sair no dia seguinte ainda mais cedo que o rotineiro no sentido de evitá-lo, como já pressentisse que viria ter comigo. Dito e feito: Mal ponho os pés na calçada e lá estava ele, muito clamoso, pedindo-me desculpas pela algazarra da noite anterior. Civilizado, disse compreender. Ainda falava quando ele engatou um novo pedido, agora de carona ao Centro da cidade para ver a instalação do telefone. Como não me custava nada -- nada além do inconveniente de sua companhia, é claro -- dei-lhe a carona, embora visivelmente mal-humorado pela noite em claro. Ele, ao contrário, parecia jovial como sempre. Puxou assunto durante todo o percurso, ao que lhe respondia com monossílabos ou expressões genéricas. Se percebera minha irritação, fingiu não ser com ele. Despedi-o na avenida do comércio e segui com o auto para o meu trabalho mais adiante.

Tudo parecia conspirar contra mim n'aquele dia... Na hora de vir para almoçar em casa, topo com o farol do carro ligado e a bateria descarregada! Pedi para vir o eletricista e o mesmo só poderia me atender mais para o final da tarde. Liguei para casa e disse que não viria almoçar e tampouco pegaria nossa filha no colégio. À procura d'um restaurante, desço para o Centro a pé e entro no primeiro que identifico. Por mal dos pecados, topo com o vizinho se servindo ainda na fila da balança: Que maçada! Muito sorridente, o coitado me chama para sentar-me com ele à mesa. Sem qualquer alternativa razoável, aceito e sigo com ele para o mezanino do restaurante. Já antevia outra conversa inútil como a da manhã e ele não me decepcionou: Falou o tempo todo! Contou da cidade d'onde vinha, da família que tinha e da casa junto à minha!!! E eu, que seguramente não queria saber de nada daquilo, fui obrigado a lhe tolerar uma hora de conversa fiada. Nervoso, olhava continuamente para o relógio em busca d'um pretexto que me tirasse d'aquele lugar, mas não havia. Quando finalmente terminou sua refeição e pagamos, o dito cujo pergunta a que horas volto para o bairro pois passaria ainda o resto da tarde no Centro. Informo-lhe o horário, ao passo que o outro, com um sorriso aberto de orelha a orelha, já confirma a conveniência de me acompanhar. A contragosto, combino onde o pegaria e volto para o trabalho. De facto, , n'esse meio tempo, o eletricista veio com a bateria carregada e pôs o carro para funcionar, logo, sequer essa desculpa me livrara... Paguei o conserto e fui encontrar meu algoz para mais uma hora de companhia forçada. E ele estava lá, tal como combinado. Seu sorriso já me causava mal estar e sua conversa infindável já era evidentemente um suplício para mim. Quando chegamos, cheguei a sorrir com a perspectiva de me livrar d'ele, mas o vizinho, para minha surpresa e sem qualquer cerimônia, me acompanhou até dentro de casa e entabulou conversa com minha esposa! Ela, que não esperava a visita, foi logo preparando um café e o recebeu na cozinha mesmo, como já se fosse de casa... Fiquei ali, pasmo, assistindo aquele disparate e indeciso entre pô-lo para fora com alguma indisposição súbita ou acompanhar minha mulher em sua recepção improvisada. Decidi-me pela segunda opção que, embora desagradável, parecia a mais correta. A conversa enveredou para a pane da bateria do auto e os imprevistos subsequentes. Seco, narrava os factos resumidamente, enquanto nosso convidado parecia se deliciar em não só desenvolvê-los, mas ainda em analisá-los e interpretá-los à luz do Fado ou da História... Duas horas virando xícaras de café para rememorar um dia que parecia interminável! Quando eu já pensava que jamais se cansaria de nós, o vizinho, cheio de nove horas, decide finalmente se retirar.

Ao me deitar, desabafei com minha mulher o quanto me custava suportar aquela companhia constante do vizinho. Ela, como era de se esperar, me censurou veementemente. Disse que era um exagero meu; que eu vivia como um caramujo, insociável e impaciente etc... Enfim, arrumei para a cabeça, como diz o outro. Encerrei o assunto prometendo ser mais tolerante com o coitado que, de modo evidente para mim, precisava de novos amigos.

Dia seguinte, estranho a calma de sua casa e vou para o trabalho. Não há sinal d'ele ou de qualquer pessoa em sua casa. Tudo transcorre bem ao longo do dia e volto para casa no horário de sempre. Contudo, não suportando a curiosidade, aperto-lhe a campainha e, assim que me atende, vou logo lhe perguntando pelo dia e se precisava de alguma coisa.

Betim - 17 05 2018

segunda-feira, 14 de maio de 2018

PASSADO UM ANO

PASSADO UM ANO

De ti nada mais soube desde o dia
Que saíste de vez da minha vida...
Não houve rompimento ou despedida,
Apenas me negaste a companhia.

Tu jamais me soubeste, todavia,
O quanto a tua falta foi sentida.
Tampouco me viste a alma dividida
Em meio à realidade e à fantasia.

Certo é que me deixaste tão sozinho
Que mal posso lembrar do descaminho
Ao qual m'enveredei na noite escura.

Fuga que muito pouco me servira,
Enquanto repetia a vã mentira
Que foste apenas mais uma aventura.

Betim - 13 05 2018

ARIOSO

ARIOSO Alguns dizem que Amor é tão arisco, Que às vezes vem sem quê nem para quê; Depois, se vai enquanto ninguém vê, Partindo sem deixar o menor visco. Mas quem, por sua própria conta e risco, Ama... Mal para o bem então o crê. E, no afã que Amor faça-lhe mercê, Uma trave ao olho passa como cisco... Logo logo, galante e enamorado, Um cristal lhe colore a realidade Como sonhasse embora despertado. E ao fim sofre d'Amor a liberdade A ponto de por certo ter o errado Ou mesmo uma mentira por verdade. Betim - 14 05 2018

domingo, 13 de maio de 2018

À ESCRIVANINHA

À ESCRIVANINHA

Escritos a cair pela gaveta
E a pena sobre folhas espalhadas...
Palavras já há décadas guardadas
Chegando aos quatro cantos do Planeta.

Onde o ofício estranhíssimo do poeta
Faz-se de ideias tão desencontradas.
Que logo após em versos transformadas
Assombram pela escolha mais correta.

No caos de sensações e sentimentos,
Expressa em filigranas todo o ser
Ao grafar no papel seus vãos momentos.

E indiferente a quanto fosse obter
À escrivaninha, enfim, sem mais intentos
Passou todos os dias a escrever...

Betim - 12 05 2018

sexta-feira, 11 de maio de 2018

FALÁCIAS

FALÁCIAS

Com o passar dos anos, a gente acha
Que entende alguma coisa d'este mundo.
E deixa-se enganar por um segundo,
Dizendo: -- "Agora sim, ou vai; ou racha!"

E cheio d'uma arrogância muito macha
Já dispara impropérios furibundo.
No argumento falaz de que, no fundo,
Conflito se resolve é na borracha...

Se for questão de força, não razão,
Um poder há-de ser válido ou não
À medida que impõe os seus valores.

Todavia, a verdade passa ao largo
De quem na autoridade de seu cargo
Torce os factos ao viés dos vencedores.

Betim - 11 05 2018