O EXTRAORDINÁRIO SR. GENTIL
Certas coisas nos emocionam sem que a gente consiga explicar por quê. Toma-se conhecimento de figuras quase anônimas no tecido da sociedade com vidas que pouco ou nada têm a ver co'as nossas e, inexplicavelmente, a notícia de sua existência atrai de modo misterioso à nossa sensibilidade e atenção. Foi assim com o extraordinário Sr. Gentil. O homem viveu uma vida desinteressada e desinteressante até o dia em que decidiu que seria feliz. Sim, feliz, mas não uma felicidade vulgar como tantas que se vê por aí. Não. Não desejava o extraordinário Sr. Gentil a fumaça de uma carreira amplamente reconhecida ou a fantasia de um amor perfeito correspondido. Tampouco era a felicidade dos que se dizem autossuficientes e veem alegria e beleza em qualquer coisa que aparecesse diante de seus olhos, n'um engano de si mesmos que beira o patológico. Com efeito, a felicidade buscada por ele era muito peculiar, mas nada tinha da resignação afetada de tantos que, sendo infelizes, preferem sistematicamente ignorá-lo.
Se o Sr. Gentil não se contentava com pequenas coisas, tampouco se iludia com as grandes. Via o mundo como era, com uma lucidez que raras vezes a maioria de nós se permite. Ele tinha sua família e seu trabalho, como tantos, mas jamais os idealizava a ponto de afirmar que lhe bastavam. Sabia precisar de mais. Sabia haver em sua interioridade um universo inteiro a explorar e isso o divertia imensamente. Sem embargo, desconfiava sumamente dos sorrisos fáceis para embelezar rostos sob os holofotes, não confundindo nunca alegria com felicidade: ser admirado pelos outros lhe produzia uma indiferença absoluta e desejar tal disparate lhe parecia quase imbecilidade. Esperar pela aprovação de estranhos não contribuía em nada com seu desejo de ser feliz, ao contrário, parecia-lhe outra amarra na qual o espírito humano se prende para não lidar com o aleatório da vida. Ser livre, entendeu o extraordinário Sr. Gentil, era gostar do imprevisto e admirar a pessoa que nos tornamos à medida que as circunstâncias vão nos exigindo.
Mas tudo isto, embora filosófico, não era nada demais. O que fizera o Sr. Gentil, portanto, para se tornar extraordinário? Sim, vivera uma vida única, no limite entre a moralidade e o crime. Seu extraordinário feito fora d'uma ambiguidade absoluta, onde certo e errado não apenas se confundiam como se complementavam. Difícil dizer algo sobre a sua história senão que era extraordinária: Amor, dor, ódio, sexo, egoísmo, conveniência, ira, canalhice... Todas estas abstrações descrevem adequadamente sua vida sem esgotá-la. Eu mesmo, cada vez que recordo do Sr. Gentil, deparo-me com um viés novo cuja pertinência faz mudar radicalmente meu juízo sobre sua existência. No fundo é apenas por isso qu'eu, na falta de palavra melhor, qualifico a ele e sua vida de extraordinários. Escrevendo, convido o leitor a tirar as suas próprias conclusões.
........
Gentil era um homem de quase cinquenta anos quando o conheci na casa de minha sogra. Era um solteirão bem apessoado com uma fala algo janota; algo aristocrática... Lembro-me que não me causara grandes impressões a princípio. Apertei-lhe a mão como a de tantos n'aquele dia em que conhecera a ele e seus irmãos. Era, com efeito, o mais expansivo e bem trajado dos três. Conhecera-os por ocasião do meu noivado, visto serem parentes ricos e distantes de minha noiva. Ela, muito jovem ainda, apresentara-me aqueles seus três primos com idade para serem tios dos quais jamais comentava, todos bem sucedidos e fora do seu círculo de convivência familiar. Quanto a mim, com vinte e poucos anos, eu não me interessava absolutamente pelos seus parentes. O Sr. Gentil, porém, tinha um hábito que logo me deu o que pensar: Usava ele uma espécie de piteira para fumar, de modo que seus dedos tão tinham as manchas de nicotina comuns aos fumantes. Embora não fosse inédito para mim saber de pessoas que evitassem tal nódoa, confesso que jamais tive notícia d'um homem não afeminado que o fizesse... Esta fora uma peculiaridade entre tantas que conheci a seu respeito, à medida que tomava conhecimento de sua vida. N'um segundo ou terceiro encontro -- tivemos uma convivência esporádica antes do meu casamento -- conheci sua filha e a mãe dela. Causou-me espécie o facto de que ele não só não usava aliança como demonstrava morar tanto com a filha -- uma menina tímida d'uns onze anos -- quanto com a mãe -- uma senhora quase tão velha quanto Gentil, mas que ele tratava como se sua empregada fosse... Engoli em seco minha curiosidade ao longo de todo aquele encontro e qual não foi minha surpresa ao indagar de minha sogra, que era tia d'ele, o porquê d'aquela estranha convivência. E ela, para meu pasmo, confirmou que aquela senhora era efectivamente a empregada doméstica de Gentil! Insisti, perguntando da filha, ao que ela se furtou de fazer qualquer comentário além do óbvio: "Era filha d'ele com a empregada"...
Aquela revelação esdrúxula me fez revisitar cada detalhe da fugaz convivência que tive com o Sr. Gentil. Marcara-me o carinho que tinha com a filha em contraste com a secura reservava à mãe. Sim, era uma coisa quase palpável o estranhamento que aquela singular família causava a todos ao redor. Ninguém comentava, como se a situação não fosse nenhuma novidade, mas todos pareciam pisar em ovos cada vez que falavam com o Sr. Gentil e ninguém, absolutamente ninguém, ousava dirigir a palavra à sua filha ou para a mãe d'ela. Apenas Gentil conversava com as duas, alternando o tom da voz entre uma e outra de modo quase bipolar, expressando ora o amor de pai; ora o rigor de patrão. Parecera-me ele junto d'elas uma pessoa assaz diversa d'aquela que conhecera em companhia só dos irmãos: Suas maneiras foram mais reservadas, muito pouco participando das conversas então. A filha, muito bem vestida e comportada, não se misturava às outras crianças que reinavam em brinquedos aqui e ali. Quanto a mãe, servia-o em tudo que se mostrasse, obsequiando-lhe os petiscos e as bebidas servidos no buffet da casa de minha sogra. Aos quais ele jamais agradecia! Julguei-o a partir de então da pior forma possível, como um canalha! Bem como a pobre mulher como uma espécie de prisioneira de circunstâncias inconfessáveis. Muito me aborreci com aquelas cenas que somente após o encontro lograva compreender minimamente: Sim, o Sr. Gentil era um miserável misógino a torturar a mãe da própria filha com uma servidão absurda, apenas isso explicava!
Passaram-se dez anos e muita coisa mudou, sobretudo eu. Meu casamento não dera certo e, embora dois filhos, separamo-nos após sete anos de convivência. Fora uma separação muito difícil, pois, havia apostado tudo que construí n’aquele casamento. Ao fim, fiquei sem patrimônio e sem a convivência diária com meus filhos. Todos os dias, levantar-me para trabalhar era um fardo, visto que quase tudo que obtivesse seria para o sustento de meus filhos longe de mim com minha ex-mulher… Não foi uma nem duas vezes em que perambulei pela cidade sem buscar senão distração para a insônia que me acometia. Vivia deprimido e angustiado n’um período a que chamava de “a noite mais escura” em versos ruins de mau perdedor. Fiz-me íntimo de bêbados, prostitutas e andarilhos na imensidão da cidade noite afora. Tinha trinta e poucos, mas parecia ter cinquenta! Foi então que, do nada, encontrei o velho Sr. Gentil n’um inferninho. A princípio, fingi não o reconhecer, mas ele saiu de sua mesa e veio em minha direção com seu inconfundível cigarro na piteira seguro entre os dedos.
Era ele, indubitavelmente. Saudou-me com um largo: “Há quanto tempo!”, ao que eu me encolhi junto ao balcão do bar enquanto uma gostosa seminua rebolava no palco ao som de “Promiscuous” e afins. Sempre muito constrangedor encontrar alguém do passado n’um lugar como aquele... Em todo caso, se quem está na chuva é para se molhar, quem está no inferno é para se queimar: Retribui a saudação do Sr. Gentil com toda a intimidade que jamais tivemos e o convidei a se sentar ao meu lado. Eu bebia uma cerveja qualquer mais uma dose de pinga e ele pediu o mesmo para si.
Começou falando exacto do que não queria falar: -- “Soube do fim de seu casamento com minha priminha.” -- calhou-lhe de introdução -- “Desculpe-me a franqueza, mas você parece bem melhor agora.
Aquilo caiu em meus ouvidos como um imenso contrassenso, afinal, não enxergava em mim senão decadência. Pedi que ele continuasse: -- “Mulheres são complicadas. Não digo que sejam inimigas, mas com certeza não são companheiras. Ou melhor, digo “companheiras” no sentido primitivo da palavra, isto é, “com-pão-eiro”: aquele com quem se reparte o pão”. Respondi-lhe intrigado: “Um tanto carola essa sua etimologia!…” E ele: “De facto, eu já fui um homem religioso.”.
Bebericávamos a cerveja e, de tempos em tempos, entornávamos a cachaça. A noite só estava começando e as belas se sucediam no palco exibindo caras, bocas, pernas e bundas. Ele fumava seu cigarro na piteira enquanto eu olhava para as garotas encabulado: “Será que ele vai contar que me viu aqui para a família da minha ex? Quer saber: Foda-se!” E tornava a enxugar o lagoinha. Ele riu para si e comentou: -- “Quando lhe conheci, você parecia um ingênuo; um pato para ser depenado. E você não me decepcionou!”. Cada vez mais desconfiado com o caminho que aquela conversa tomava, resolvi dar vazão à minha antiga curiosidade e quis saber mais de sua vida, até para eu não dizer nada que comprometesse com a família da mãe de meus filhos: -- “Isso agora é passado, mas, e o senhor, casou-se com a mãe de sua filha?” -- Ele gargalhou como se eu lhe houvesse contado a maior piada do mundo. Ficou vermelho, sem fôlego, de tanto rir e exclamou interrogando: -- “O quê?!” -- e voltou gargalhar até chamar a atenção em volta e me deixar sem graça -- “Quer dizer que você tinha interesse em minha vidinha, heim?!” -- e completou -- “Mas que surpresa!” -- Para não ficar mais sem graça ainda (e tirar de mim o foco d’aquela conversa), concordei com ele: -- “É verdade: Aquela ocasião em que conheci sua filha e a mãe d’ela nunca me saiu da cabeça.” -- ao que o Sr. Gentil, com o mínimo de palavras, me desmascarou: -- “Mas, por quê?...” -- Pronto! Eu seria obrigado a lhe revelar meu mau julgamento d’antanho… Para que eu fui revirar o lixo humano do passado? Céus, se eu não tivesse bebido tanto, eu pagava uma garota d’essas para subir para algum quarto! Mas, no estado que me encontro, será apenas para broxar e queimar dinheiro… Não estou em condições para comprar uma trepada. Aliás, já apertei o botão de FODA-SE com esse cara mesmo: -- “Apenas achei fora do comum o facto de a mãe de sua filha ser sua empregada…” -- saí-me com esta. Ele não se intimidou. Acendeu outro cigarro e contou-me sua história.
…..
-- “Acho que você não sabe de nada. Então, vou começar do começo. Meu pai foi um homem tão rico quanto mal casado. Vivia como se fosse o mais miserável dos homens sob a tirania de minha mãe que, aliás, fora a fonte de sua fortuna e carreira. Trabalhava nas empresas de meu avô materno e lhe herdou a filha, o nome e a riqueza. Minha mãe o tratava pior do que você me vira tratando a mãe de minha filha. Se aos seus olhos ela era uma empregada; aos meus olhos meu pai era pouco menos que um escravo de minha mãe.”. Falava d’aquelas coisas íntimas e tristes sem qualquer emoção, com uma indiferença didática, dir-se-ia: -- ”Meu pai me fez prometer que jamais passaria pelo que ele passou e tenho cumprido minha promessa com louvor.” -- e ainda -- “Jamais me casei nem me casarei.”
-- “Mas, e sua filha” insisti. -- “O que é que tem?” -- indagou -- “Eu prometi nunca ser marido, não pai.” Ele pediu outra cachaça e virou n’uma talagada: -- “Eu contratei uma empregada e comecei a trepar com ela: Simples assim.” -- eu o olhava como se diante d’um lampejo de lucidez. Ele continuou: --“Eu sabia que ela queria dar o golpe, mas eu queria ser pai. Quando ela veio me depenar, a menina já havia nascido. Eu a despedi com todos os direitos empregatícios e tomei a guarda dela alegando que a pobre não tinha como educar a menina. Ela se desesperou e eu me mantive impassível. Até que ela, para ficar perto da filha e ainda tornar a ter casa e emprego, se sujeitou a assinar de novo a carteira de trabalho como minha empregada. E foi a melhor mãe e mulher que alguém poderia desejar, paga com salário mínimo, décimo terceiro e férias!”
Ouvi aquilo embasbacado e, não podia negar, com certa inveja. Afinal, o que eu mesmo deixara e deixava com a mãe de meus filhos era muito mais para eu ter muito menos… Ele, o extraordinário Sr. Gentil, em sua canalhice dera um golpe de mestre. Ou melhor, um contra-golpe!
-- “Mas, e o amor?!” perguntei, embora a pergunta soasse tola desde o instante em que saíra de minha boca… Mesmo assim, ele respondeu: -- “O amor é um luxo a que nos permitimos quando moços. Olha para ti mesmo” -- a intimidade ébria já lhe permitia tratar por “tu” -- “Aqui n’este antro” -- olhou-me nos olhos frisando as palavras -- "a intimidade comprada que tens com qualquer uma d’estas garotas é incomparavelmente maior que a que tiveste com minha priminha!” E continuou: -- “Sexo é um encontro humano. É algo concreto; é um acontecimento. Já amor é uma abstração” -- e sorveu o resto da cerveja.
Pedi mais uma e fui para o banheiro. Esvaziei a bexiga que já doía de tão cheia e me olhei demoradamente no espelho: “Quem sou eu?”. Foi então que eu tive o meu momento de lucidez: "Percebo, enfim, que aquela história de piteira para não enodar os dedos era, nada mais nada menos, que a metáfora perfeita d'uma vida onde os vícios não deviam deixar marcas". Perguntei-me em voz alta, ainda diante do espelho, feito demente: -- “Quem diria que um canalha, no final das contas, teria razão?”.
Não sei quanto tempo permaneci ali parado, olhando-me. Só sei que quando retornei ao balcão do bar o extraordinário Sr. Gentil já havia ido embora.. E -- o melhor -- pago a conta toda! Saí d’aquela espelunca de alma lavada, livre, enquanto assobiava um samba antigo sob a luz da lua.
Betim - 08 09 2018
Espaço para exibição e armazenamento de poemas à medida que os vou escrevendo. Espero contar com o comentário de leitores atentos e gente com sensibilidade poética por acreditar que o poema acabado não precisa ser o fim de uma experiência, sim o início de um diálogo.
sábado, 8 de setembro de 2018
ATEUS NÃO DIZEM ADEUS
ATEUS NÃO DIZEM ADEUS
Ateus não dizem adeus,
Eles só dizem "ao nada"...
Estes que vivem sem Deus
Despedindo-se dos seus
Creem vazia sua estrada.
Não que nada lhes importe
Ou que a ausência lhes console,
Só não veem facto mais forte
Sobre a vida após a morte
Ou que ao Universo controle.
O que veem é o infinito...
Bilhões e bilhões d'estrelas
Onde, nem feio nem bonito,
O homem como um mosquito
Se apequena diante d'elas.
Necessitam ver para crer
E pensar ao demonstrar
As verdades d'um saber,
Em vez de sem entender
Bem ou mal acreditar.
Enfim uma explicação
Que a religião se lhes nega.
Ao que, embora sem paixão,
Veem tão-só escuridão
Na luz a que a fé se cega.
Betim - 08 09 2018
Ateus não dizem adeus,
Eles só dizem "ao nada"...
Estes que vivem sem Deus
Despedindo-se dos seus
Creem vazia sua estrada.
Não que nada lhes importe
Ou que a ausência lhes console,
Só não veem facto mais forte
Sobre a vida após a morte
Ou que ao Universo controle.
O que veem é o infinito...
Bilhões e bilhões d'estrelas
Onde, nem feio nem bonito,
O homem como um mosquito
Se apequena diante d'elas.
Necessitam ver para crer
E pensar ao demonstrar
As verdades d'um saber,
Em vez de sem entender
Bem ou mal acreditar.
Enfim uma explicação
Que a religião se lhes nega.
Ao que, embora sem paixão,
Veem tão-só escuridão
Na luz a que a fé se cega.
Betim - 08 09 2018
sexta-feira, 7 de setembro de 2018
NEM EU (fado)
NEM EU (fado)
Não me queres mais? Nem eu!
Amor dado em vão
No vazio se perdeu...
Antes solidão
Que penar ao lado teu
O meu coração.
Não és rainha? Nem eu rei!...
Se tu não me amaste,
Eu tampouco a ti amei.
O amor que negaste
N'outros braços encontrei
Depois que passaste!
Nada queres? Nem eu quero!
Segue o teu caminho
Que tudo que agora espero
É seguir sozinho
E não à esquerda d'um zero
Qual contigo caminho.
Não me queres mais? Nem eu!
Amor dado em vão
No vazio se perdeu...
Antes solidão
Que penar ao lado teu
O meu coração.
Betim - 07 09 2018
quinta-feira, 6 de setembro de 2018
DEUS E TODO MUNDO
DEUS E TODO MUNDO
Não venham me falar do que inexiste
Ou d'aquilo que está muito além-mim.
Pois Deus e todo mundo veem, por fim,
Que o que conta é tão-só não ser tão triste.
Certo que mais feliz é quem insiste
Em jamais deixar tudo ser tão ruim
E, sem se perturbar se não ou sim,
Faz das próprias misérias algum chiste.
Todo mundo se faz mais crente ou casto,
Na fé de que o Divino lhe acompanha
E tem que Deus é pai; não é padrasto.
Mas a vida reduz-se a um perde-ganha,
No qual as paixões levam-nos de arrasto
E ao fim gozo por pranto se barganha...
Betim - 06 09 2018
Não venham me falar do que inexiste
Ou d'aquilo que está muito além-mim.
Pois Deus e todo mundo veem, por fim,
Que o que conta é tão-só não ser tão triste.
Certo que mais feliz é quem insiste
Em jamais deixar tudo ser tão ruim
E, sem se perturbar se não ou sim,
Faz das próprias misérias algum chiste.
Todo mundo se faz mais crente ou casto,
Na fé de que o Divino lhe acompanha
E tem que Deus é pai; não é padrasto.
Mas a vida reduz-se a um perde-ganha,
No qual as paixões levam-nos de arrasto
E ao fim gozo por pranto se barganha...
Betim - 06 09 2018
EM SÃ CONSCIÊNCIA
EM SÃ CONSCIÊNCIA
Nunca! A não ser que já de todo louco...
Nada nem ninguém há-de me mudar
De ideia se as ideias fora do lugar,
Falando até que fique quase rouco.
Não que das razões faça muito pouco:
-- Razões que a Razão sabe ignorar... --
O facto é contra os factos eu sonhar,
Ouvindo até deixar o ouvido mouco.
Sandice! Parvoíce!! Insanidade!!!
Não há quem seja sábio de verdade
Sem um grão de loucura mais fecundo.
Assim, para curar a mente insã,
Há-que se andar ao sol cada manhã,
Poetando para Deus e todo mundo.
Betim - 05 09 2018
Nunca! A não ser que já de todo louco...
Nada nem ninguém há-de me mudar
De ideia se as ideias fora do lugar,
Falando até que fique quase rouco.
Não que das razões faça muito pouco:
-- Razões que a Razão sabe ignorar... --
O facto é contra os factos eu sonhar,
Ouvindo até deixar o ouvido mouco.
Sandice! Parvoíce!! Insanidade!!!
Não há quem seja sábio de verdade
Sem um grão de loucura mais fecundo.
Assim, para curar a mente insã,
Há-que se andar ao sol cada manhã,
Poetando para Deus e todo mundo.
Betim - 05 09 2018
quarta-feira, 5 de setembro de 2018
VOSSO E REVOSSO
VOSSO E REVOSSO
De tanto eu pertencer a vós, Senhora,
Haveis de mim a posse e a propriedade.
Tanto a alma quanto o corpo, em realidade,
Possuis-me em vosso peito antes e agora...
Inelutavelmente, desde outrora
Eu vivo sob a vossa autoridade.
Na ânsia de merecer-vos amizade
E graça aos vossos olhos vida afora.
E embora sejam muitos os haveres
Que tendes recebido da Fortuna,
Aceitai-me os impávidos quereres.
Vosso e revosso, clamo da tribuna:
-- "Por quem sois, oh mulher entre as mulheres!
Não vos negueis a mim na hora oportuna..."
Betim - 04 09 2018
De tanto eu pertencer a vós, Senhora,
Haveis de mim a posse e a propriedade.
Tanto a alma quanto o corpo, em realidade,
Possuis-me em vosso peito antes e agora...
Inelutavelmente, desde outrora
Eu vivo sob a vossa autoridade.
Na ânsia de merecer-vos amizade
E graça aos vossos olhos vida afora.
E embora sejam muitos os haveres
Que tendes recebido da Fortuna,
Aceitai-me os impávidos quereres.
Vosso e revosso, clamo da tribuna:
-- "Por quem sois, oh mulher entre as mulheres!
Não vos negueis a mim na hora oportuna..."
Betim - 04 09 2018
terça-feira, 4 de setembro de 2018
CRÔNICAS D'EL REY - coroa de sonetos
CRÔNICAS D'EL REY - coroa de sonetos
CRÔNICAS D'EL REY - soneto geratriz
Escuto o velho rei em seu lamento
D'experiência inútil, pois tardia:
Glosa o mote da vã sabedoria,
Pois sem valia ao sábio em sofrimento.
Outro beija-mãos... Sua Majestade
Reina absoluto pela Boa-Vista!
Alta noite, porém, passa em revista
Todo o Paço vagueando em soledade.
Ao fim, como um rosário de remorsos
Recorda a si seus ávidos esforços
Como se algum espírito noturno.
Parvo! Não obtêm glórias a obsessão...
Esplendores tampouco... Vãos ou não,
Chamam-lhe Dom Fuão, o taciturno.
* * *
CRÔNICAS D'EL REY - soneto primeiro
Escuto o velho rei em seu lamento
De figura admirável na ampla sala
-- Mais bruxuleiam círios sua opala,
Pondo as sombras do Paço em movimento.
Hesita El-Rey em cada mal momento
Até quase inaudível sua fala...
Por tão terrível crime, ele se cala:
E às paredes segreda o seu tormento.
Percebe-se o remorso ali tão denso
Que poderia El-Rey tocá-lo -- eu penso --
Enquanto a narrativa reinicia.
Sequer justificava mais seu trono,
Tal a sinceridade no abandono
D'experiência inútil, pois tardia...
* * *
CRÔNICAS D'EL REY - soneto segundo
D'experiência inútil, pois tardia:
Renuncia à realeza e à realidade...
Habitante das nuvens, em verdade,
Entre sombras e luz se refugia.
--"Trovador" -- diz El-Rey -- "Quem o diria?..."
“Canta meu Reinado que se evade
Fazendo-me memória da vontade
Que desde cedo o espírito me ardia”
“A noite nos acolhe em seu regaço
Tão-só constelo estrelas pelo espaço
Enquanto te relato outra ousadia
Jamais favorecida pela sorte...” --
Ora El-Rey, quer alerte; quer conforte,
Glosa o mote da vã sabedoria:
* * *
CRÔNICAS D'EL REY - soneto terceiro
-- "Glosa o mote da vã sabedoria
Quem pelas convicções mais verdadeiras
Por extremos de tão móveis fronteiras,
Derrota após derrota conhecia...”
“O Reino em expansão nos florescia,
Quando ascendi ao trono por maneiras
Tão vis qu'eu nem sequer às derradeiras
Palavras de meu pai obedecia.”
“Eu fora convencido por bandidos
A governar nomeando-os meus validos,
Movido pela urgência do momento.”
“Feito por fazedores de maus reis,
Governava ao arrepio já das leis,
Pois sem valia ao sábio em sofrimento”.
* * *
CRÔNICAS D'EL REY - soneto quarto
Pois, sem valia ao sábio em sofrimento,
Mal diferia já o certo e o errado.
El-Rey -- pela lembrança atormentado --
Cala-se com um esgar mais violento...
Ele me olha em profundo desalento
Sem saber que dizer de seu passado.
Por crimes bem sabia ser lembrado,
Esperando da História o julgamento.
Anseia ser esquecido ao fim, talvez...
Porém, quer confessar tudo o que fez
Em rimas a guardar-lhe o pensamento.
Pressentindo-se a queda da Coroa,
Manda-me vir poetar para Lisboa...
(Outro ” beija-mãos” Sua Majestade?).
* * *
CRÔNICAS D'EL REY - soneto quinto
Outro beija-mãos, Sua Majestade:
-- “Vossa Alteza Real, grão senhor nosso!
Se for de seu agrado, ainda posso
Dar das Reais razões a realidade.”
“Oxalá seja eu fiel só à verdade
E logre ater-me aos factos com o endosso
Já d’El-Rey dado a mim, servo revosso,
Fazendo jus a tal grandiosidade.”
Ao que interrompe El-Rey subitamente:
--” Um grande? Não! Far-me-ás de novo gente,
Mediante rimas límpidas de artista.”
Dito isso, ambos quedamos expectantes
Enquanto o silêncio, tal como antes,
Reina absoluto pela Boa-Vista...
* * *
CRÔNICAS D'EL REY - soneto sexto
-- ”Reina absoluto pela Boa-Vista
Um rei velho, cansado e lamentoso.
Vislumbra pelas sombras o andrajoso
Poeta cuja desgraça conhecia.”
“Coube a este pôr em letras quanto ouvia,
Memorando um Reinado desgostoso...”
-- E calo... Eu me interrompo pesaroso
Que tal sinceridade me traía. --
--”Prossegue, trovador, já não te cales.
O retrato que narras tem os males
Do retratado, não do retratista."
Ao que respondo: --“Sim, assim farei.”
Toda a historia a narrar, o velho rei
Alta noite, porém, passa em revista:
* * *
CRÔNICAS D'EL REY - soneto sétimo
--"Alta noite, porém, passa em revista
O Infante aos conjurados pelo trono.
Cercam-no outros larápios, cujo sono
Se perde na ambição de má conquista:"
"-- "Por morto o irmão e louca a mãe, invista
Em tirar a Coroa do abandono!..." –
Logo após, negociavam-se outro abono,
Tão-só suas fortunas tendo em vista."
"Assim fora Regente e, após, El-Rey...
E, por confuso, o Corso eu enganei
Quando o Antigo Regime ruía lento."
Saboreia a ironia vã da História
Ainda a recordar sua mor glória,
Todo o Paço vagueando em soledade.
* * *
CRÔNICAS D'EL REY - soneto oitavo
-- “Todo o Paço vagueando em soledade,
Napoleão a enganar fora enganado...
Na partida ao Brasil, trouxe ao meu lado
Um misto de esperança e desalento.”
“Sem embargo, encontrei mais sofrimento...
Não vi senão conflitos no Reinado!
Mesmo ao fugir de guerras, derrotado
Fora ao longo d’um século violento.”
“Vencido o Corso, a Corte me apregoa!
Sequer posso voltar para Lisboa,
Sem contar com britânicos reforços.”
“El-Rey de Portugal, Brasil e Algarve
Remoendo pelo Paço, insone e alarve,
Ao fim, como um rosário de remorsos...”
* * *
CRÔNICAS D'EL REY - soneto nono
-- “Ao fim, como um rosário de remorsos,
Muitos a recordar-me indecisões.
Em derredor, tão-só conspirações
Para após anistiar de maus desforços ”
“Os corruptos às voltas com extorsos
E os fidalgos com outros galardões.
São parasitas vistos aos milhões
Sobre sangue e suor de negros dorsos...”
“Acompanho este século perplexo.
Nem a Corte, ou outro arranjo desconexo,
Haverá-de livrar-nos d'outros Corsos...” --
Hesita novamente o soberano,
Pois, buscando ser fiel ao próprio plano,
Recorda a si seus ávidos esforços.
* * *
CRÔNICAS D'EL REY - soneto décimo
Recorda a si seus ávidos esforços:
--“Para manter unido o Reino inteiro,
Ordenei desde o Rio de Janeiro
Organizar a volta co’os reforços.
“Todavia, grassavam os extorsos,
Quer em solo europeu; quer brasileiro.
Contra os quais me isolei por altaneiro.
Embora claudicando entre estorços.”
"Ousara o que jamais um rei ousara.
Quando, ao sul do Equador, tive a luz clara,
De ver o Corso em França mais soturno."
"No Brasil, fiz o Reino ser reunido.
Por isso, o Paço tenho percorrido
Como se algum espírito noturno..."
* * *
CRÔNICAS D'EL REY - soneto undécimo
--"... Como se algum espírito noturno,
Em insones andanças pelo Paço.
Concilio a minha angústia co'o cansaço
D'esse terrível ímpeto diuturno."
"Há anos n'essa sala cá me enfurno
Em longos beija-mãos que aqui refaço
E após vir, alta noite, passo a passo
Carregando um semblante taciturno."
"Quem por acaso vê não me compreende
A dor que do Encoberto 'inda descende
Obrigada às razões do coração." --
E embora insone sonhe o Quinto Império,
Ele súbito explode ao extremo hespério:
-- "Parvo! Não obtêm glórias a obsessão!..."
* * *
CRÔNICAS D'EL REY - soneto duodécimo
"Parvo... Não obtêm glórias a obsessão..." --
Repete El-Rey a si já se acalmando.
Após tal paroxismo, ao seu comando,
Tornei a acompanhar sua narração:
-- "Dos remorsos que trago ao coração,
O pecado maior; o erro mais nefando,
Foi não manter o Reino unido quando
Caiu em definitivo Napoleão
"A partilha do Império já tramada
Pelas nações amigas... Cuja entrada
Em nossos portos dera eu permissão!..."
"Assim vimos partir mais rios d'ouro:
Exauridas as Minas, sem Tesouro...
Esplendores tampouco, vãos ou não..."
* * *
CRÔNICAS D'EL REY - soneto tredécimo
-- "Esplendores tampouco, vãos ou não?..." --
Contesto: -- " Vossa Alteza reina ao sul!"
-- "Deveras... Qual andasse por um paul
Ir governar dos trópicos Nação..."
"Britânicos com brigues vêm e vão;
Franceses, de Lisboa a Istambul...
Parecem almejar-se o céu azul
E o mundo reduzir a quase um grão".
"Terras e reinos reuni n'um mesmo cântico
D'uma margem até a outra do Atlântico
N'esse meu caminhar só e noturno." --
Todavia -- penso eu comigo mesmo --
Por caminhar insólito, à noite e a esmo,
Chamam-lhe Dom Fuão, o taciturno...
* * *
CRÔNICAS D'EL REY - soneto quadridécimo
-- "Chamam-lhe Dom Fuão, o taciturno,
Alteza Real, não grande ou clemente...
A sua caminhada, verazmente,
Mais faz especular o horror noturno."
"Se fora Napoleão corso e soturno,
Também um vencedor, cuja alva gente,
Parece idolatrar como somente
Veneraram romanos a Saturno..."
"Enquanto o sirvo pela noite, Alteza,
Eu tento traduzir dor em beleza
E ainda acompanhar seu passo lento.
"Mas digo se perguntam o que faço
Alta noite vagueando pelo Paço:
--"Escuto o velho rei em seu lamento.""
Contagem - 30 09 2012
CRÔNICAS D'EL REY - soneto geratriz
Escuto o velho rei em seu lamento
D'experiência inútil, pois tardia:
Glosa o mote da vã sabedoria,
Pois sem valia ao sábio em sofrimento.
Outro beija-mãos... Sua Majestade
Reina absoluto pela Boa-Vista!
Alta noite, porém, passa em revista
Todo o Paço vagueando em soledade.
Ao fim, como um rosário de remorsos
Recorda a si seus ávidos esforços
Como se algum espírito noturno.
Parvo! Não obtêm glórias a obsessão...
Esplendores tampouco... Vãos ou não,
Chamam-lhe Dom Fuão, o taciturno.
* * *
CRÔNICAS D'EL REY - soneto primeiro
Escuto o velho rei em seu lamento
De figura admirável na ampla sala
-- Mais bruxuleiam círios sua opala,
Pondo as sombras do Paço em movimento.
Hesita El-Rey em cada mal momento
Até quase inaudível sua fala...
Por tão terrível crime, ele se cala:
E às paredes segreda o seu tormento.
Percebe-se o remorso ali tão denso
Que poderia El-Rey tocá-lo -- eu penso --
Enquanto a narrativa reinicia.
Sequer justificava mais seu trono,
Tal a sinceridade no abandono
D'experiência inútil, pois tardia...
* * *
CRÔNICAS D'EL REY - soneto segundo
D'experiência inútil, pois tardia:
Renuncia à realeza e à realidade...
Habitante das nuvens, em verdade,
Entre sombras e luz se refugia.
--"Trovador" -- diz El-Rey -- "Quem o diria?..."
“Canta meu Reinado que se evade
Fazendo-me memória da vontade
Que desde cedo o espírito me ardia”
“A noite nos acolhe em seu regaço
Tão-só constelo estrelas pelo espaço
Enquanto te relato outra ousadia
Jamais favorecida pela sorte...” --
Ora El-Rey, quer alerte; quer conforte,
Glosa o mote da vã sabedoria:
* * *
CRÔNICAS D'EL REY - soneto terceiro
-- "Glosa o mote da vã sabedoria
Quem pelas convicções mais verdadeiras
Por extremos de tão móveis fronteiras,
Derrota após derrota conhecia...”
“O Reino em expansão nos florescia,
Quando ascendi ao trono por maneiras
Tão vis qu'eu nem sequer às derradeiras
Palavras de meu pai obedecia.”
“Eu fora convencido por bandidos
A governar nomeando-os meus validos,
Movido pela urgência do momento.”
“Feito por fazedores de maus reis,
Governava ao arrepio já das leis,
Pois sem valia ao sábio em sofrimento”.
* * *
CRÔNICAS D'EL REY - soneto quarto
Pois, sem valia ao sábio em sofrimento,
Mal diferia já o certo e o errado.
El-Rey -- pela lembrança atormentado --
Cala-se com um esgar mais violento...
Ele me olha em profundo desalento
Sem saber que dizer de seu passado.
Por crimes bem sabia ser lembrado,
Esperando da História o julgamento.
Anseia ser esquecido ao fim, talvez...
Porém, quer confessar tudo o que fez
Em rimas a guardar-lhe o pensamento.
Pressentindo-se a queda da Coroa,
Manda-me vir poetar para Lisboa...
(Outro ” beija-mãos” Sua Majestade?).
* * *
CRÔNICAS D'EL REY - soneto quinto
Outro beija-mãos, Sua Majestade:
-- “Vossa Alteza Real, grão senhor nosso!
Se for de seu agrado, ainda posso
Dar das Reais razões a realidade.”
“Oxalá seja eu fiel só à verdade
E logre ater-me aos factos com o endosso
Já d’El-Rey dado a mim, servo revosso,
Fazendo jus a tal grandiosidade.”
Ao que interrompe El-Rey subitamente:
--” Um grande? Não! Far-me-ás de novo gente,
Mediante rimas límpidas de artista.”
Dito isso, ambos quedamos expectantes
Enquanto o silêncio, tal como antes,
Reina absoluto pela Boa-Vista...
* * *
CRÔNICAS D'EL REY - soneto sexto
-- ”Reina absoluto pela Boa-Vista
Um rei velho, cansado e lamentoso.
Vislumbra pelas sombras o andrajoso
Poeta cuja desgraça conhecia.”
“Coube a este pôr em letras quanto ouvia,
Memorando um Reinado desgostoso...”
-- E calo... Eu me interrompo pesaroso
Que tal sinceridade me traía. --
--”Prossegue, trovador, já não te cales.
O retrato que narras tem os males
Do retratado, não do retratista."
Ao que respondo: --“Sim, assim farei.”
Toda a historia a narrar, o velho rei
Alta noite, porém, passa em revista:
* * *
CRÔNICAS D'EL REY - soneto sétimo
--"Alta noite, porém, passa em revista
O Infante aos conjurados pelo trono.
Cercam-no outros larápios, cujo sono
Se perde na ambição de má conquista:"
"-- "Por morto o irmão e louca a mãe, invista
Em tirar a Coroa do abandono!..." –
Logo após, negociavam-se outro abono,
Tão-só suas fortunas tendo em vista."
"Assim fora Regente e, após, El-Rey...
E, por confuso, o Corso eu enganei
Quando o Antigo Regime ruía lento."
Saboreia a ironia vã da História
Ainda a recordar sua mor glória,
Todo o Paço vagueando em soledade.
* * *
CRÔNICAS D'EL REY - soneto oitavo
-- “Todo o Paço vagueando em soledade,
Napoleão a enganar fora enganado...
Na partida ao Brasil, trouxe ao meu lado
Um misto de esperança e desalento.”
“Sem embargo, encontrei mais sofrimento...
Não vi senão conflitos no Reinado!
Mesmo ao fugir de guerras, derrotado
Fora ao longo d’um século violento.”
“Vencido o Corso, a Corte me apregoa!
Sequer posso voltar para Lisboa,
Sem contar com britânicos reforços.”
“El-Rey de Portugal, Brasil e Algarve
Remoendo pelo Paço, insone e alarve,
Ao fim, como um rosário de remorsos...”
* * *
CRÔNICAS D'EL REY - soneto nono
-- “Ao fim, como um rosário de remorsos,
Muitos a recordar-me indecisões.
Em derredor, tão-só conspirações
Para após anistiar de maus desforços ”
“Os corruptos às voltas com extorsos
E os fidalgos com outros galardões.
São parasitas vistos aos milhões
Sobre sangue e suor de negros dorsos...”
“Acompanho este século perplexo.
Nem a Corte, ou outro arranjo desconexo,
Haverá-de livrar-nos d'outros Corsos...” --
Hesita novamente o soberano,
Pois, buscando ser fiel ao próprio plano,
Recorda a si seus ávidos esforços.
* * *
CRÔNICAS D'EL REY - soneto décimo
Recorda a si seus ávidos esforços:
--“Para manter unido o Reino inteiro,
Ordenei desde o Rio de Janeiro
Organizar a volta co’os reforços.
“Todavia, grassavam os extorsos,
Quer em solo europeu; quer brasileiro.
Contra os quais me isolei por altaneiro.
Embora claudicando entre estorços.”
"Ousara o que jamais um rei ousara.
Quando, ao sul do Equador, tive a luz clara,
De ver o Corso em França mais soturno."
"No Brasil, fiz o Reino ser reunido.
Por isso, o Paço tenho percorrido
Como se algum espírito noturno..."
* * *
CRÔNICAS D'EL REY - soneto undécimo
--"... Como se algum espírito noturno,
Em insones andanças pelo Paço.
Concilio a minha angústia co'o cansaço
D'esse terrível ímpeto diuturno."
"Há anos n'essa sala cá me enfurno
Em longos beija-mãos que aqui refaço
E após vir, alta noite, passo a passo
Carregando um semblante taciturno."
"Quem por acaso vê não me compreende
A dor que do Encoberto 'inda descende
Obrigada às razões do coração." --
E embora insone sonhe o Quinto Império,
Ele súbito explode ao extremo hespério:
-- "Parvo! Não obtêm glórias a obsessão!..."
* * *
CRÔNICAS D'EL REY - soneto duodécimo
"Parvo... Não obtêm glórias a obsessão..." --
Repete El-Rey a si já se acalmando.
Após tal paroxismo, ao seu comando,
Tornei a acompanhar sua narração:
-- "Dos remorsos que trago ao coração,
O pecado maior; o erro mais nefando,
Foi não manter o Reino unido quando
Caiu em definitivo Napoleão
"A partilha do Império já tramada
Pelas nações amigas... Cuja entrada
Em nossos portos dera eu permissão!..."
"Assim vimos partir mais rios d'ouro:
Exauridas as Minas, sem Tesouro...
Esplendores tampouco, vãos ou não..."
* * *
CRÔNICAS D'EL REY - soneto tredécimo
-- "Esplendores tampouco, vãos ou não?..." --
Contesto: -- " Vossa Alteza reina ao sul!"
-- "Deveras... Qual andasse por um paul
Ir governar dos trópicos Nação..."
"Britânicos com brigues vêm e vão;
Franceses, de Lisboa a Istambul...
Parecem almejar-se o céu azul
E o mundo reduzir a quase um grão".
"Terras e reinos reuni n'um mesmo cântico
D'uma margem até a outra do Atlântico
N'esse meu caminhar só e noturno." --
Todavia -- penso eu comigo mesmo --
Por caminhar insólito, à noite e a esmo,
Chamam-lhe Dom Fuão, o taciturno...
* * *
CRÔNICAS D'EL REY - soneto quadridécimo
-- "Chamam-lhe Dom Fuão, o taciturno,
Alteza Real, não grande ou clemente...
A sua caminhada, verazmente,
Mais faz especular o horror noturno."
"Se fora Napoleão corso e soturno,
Também um vencedor, cuja alva gente,
Parece idolatrar como somente
Veneraram romanos a Saturno..."
"Enquanto o sirvo pela noite, Alteza,
Eu tento traduzir dor em beleza
E ainda acompanhar seu passo lento.
"Mas digo se perguntam o que faço
Alta noite vagueando pelo Paço:
--"Escuto o velho rei em seu lamento.""
Contagem - 30 09 2012
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