quinta-feira, 24 de julho de 2025

CASUAL

CASUAL


Diz-se de sexo ou roupa; algo fortuito.

Como deixasse ao acaso a decisão

Ou reagisse conforme a ocasião,

Em face do prazer; por pouco ou muito.


Desfaz do que cogita todo o intuito

E abre-se às razões do coração.

Até que, atravessando a escuridão,

Depare com o encanto mais gratuito.


Veste-se para logo se despir

Com a urgência de amar e de existir

Que afinal lhe reafirma estarmos vivos.


Por isso, assim que a encontro pela rua,

Com uns trajes casuais, a vejo nua,

Em meio a pensamentos intrusivos.


Betim - 24 07 2025


quarta-feira, 23 de julho de 2025

HABITE-SE

HABITE-SE


Um terreno, uma casa de morada,

Um quintal, um pomar, um galinheiro…

Em sítio suburbano, o costumeiro

Abrigo sob à sebe avarandada.


A vida que passou cerca da estrada

Mais os reveses pagos a dinheiro.

Da ampla propriedade ao jasmineiro,

O seu olhar face à última alvorada. 


Certifiquem do estado que s’encontra

Agora a habitação sem habitantes,

Sem saber se será como era d’antes.


Tendo que o erário não esteja contra,

Após vidas aos trancos e barrancos,

Só bens documentados para bancos.


Betim - 23 07 2025


FORO ÍNTIMO

FORO ÍNTIMO


Percebo-me incapaz de me julgar,

Tal o conluio havido em mim comigo.

Talvez eu seja o meu próprio inimigo,

Quer para defender; quer acusar.


Arbitro impunemente o meu penar

E após me nego a mim não sem castigo.

Em autotestemunho, eu me persigo

Sem recurso senão tergiversar.


Onde o contraditório da existência

Inquire dos desvãos da consciência

Outra devassa vã e inconclusiva,


Eu vivo sem saber se bem ou mal,

Em quietismo extremo e radical,

Tanta interioridade reflexiva…


Betim - 23 07 2025

segunda-feira, 21 de julho de 2025

TU A TU

TU A TU

Contigo aprendi todas as mentiras,
Que enamorados contam para si.
De tanto te buscar, eu me perdi
No labirinto ao qual me conduziras.

Não cuido se me acusas ou deliras,
Deixando algo de mim aqui e ali...
Nem calo o que pensei quando te vi:
"Amar não vale o drama ou suas iras!"

Vivemos tudo o que há para viver
E fomos quanto nós pudemos ser
Um para o outro apesar de ti; de mim...

De qualquer modo, a vida continua.
Se a tristeza por vezes se insinua,
É que sempre aprendemos mais no fim.

Betim - 20 07 2025




sexta-feira, 18 de julho de 2025

O SEXTILIONÉSIMO

O SEXTILIONÉSIMO Estimaram, às portas do Milênio, Que nós fôssemos mais de seis bilhões, Vendo ao mundo as finais transformações, Tal-qual profetizou o povo essênio. Tantos, que há-de faltar-nos oxigênio Ao longo dos mais tórridos verões… Por bem monetizar devastações Uns homens de poder e de grão gênio! Apocalipse à vista, um nascituro Há-de testemunhar-nos a aflição, Enquanto a profecia se completa. De facto, eis que este chega sem futuro... Só mais um a viver em negação, Diante do esgotamento do Planeta. Belo Horizonte - 20 02 2002


quinta-feira, 17 de julho de 2025

ERRÔNEO

ERRÔNEO 


Não escrevo senão do que não sei,

Em meio a pensamentos imperfeitos.

Confuso, eu exaltei os meus defeitos

E todos os alertas desdenhei.


Dos néscios mais vadios eu fui rei,

Com fumaças de ideal e vãos preceitos.

Filósofo do nada, quis afeitos

Aqueles cujo mal não enxerguei.


Duvide do que afirmo quem me lê!

Saiba não estar diante d'um notável,

Se tais versos ao acaso por fim vê.


Por linhas tortas, quis a vida mais bonita.

É, senão impossível, improvável.

Haver verdade em mim ou minha escrita…


Betim - 15 07 2025


LÁPIDE

 LÁPIDE


Nascer, morrer… As datas e os locais.

N’isso resumem toda uma existência!

O resto se deduz com complacência

Face às obscuridades dos anais…


Passado certo tempo, nada mais

Nos faz pensar do ser senão a ausência.

Ressalte-se da rocha a resistência

Em preservar-lhe os dados essenciais.


Descansa em paz aquele que lutou

Ou simplesmente aqui testemunhou

Outro breve intervalo em meio à História.


Reste-nos tão-somente que viveu

E o havido em sua vida se perdeu

Com exceção d’esta última memória.


Contagem - 07 07 2000